segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026
Poética
certo dia
veio à minha morada
a vida;
não sei se de entrada
ou de saída,
mas vinha apressada
e urgida,
com a face cansada
e fugidia;
parecia embuçada
e ferida,
não sei se pelo nada
ou pela lida,
mas vinha vitimada;
que tinha?
não sei, queria explicação.
- minha?
lhe respondi que não;
se havia,
agora não vejo razão
na forma divina
que jaz neste chão
ou nesta sina
que vai no céu feito balão.
- e se fica,
lhe disse indo embora,
minha querida,
só não me faça demora:
o tempo migra
e me põe a sua hora,
maligna
ou boa senhora,
sempre fria,
que não se liga com o agora
nem choraminga:
vai indo e lhe faz aurora
e amiga
para ainda lhe jogar fora,
suicida,
destruindo sua obra
antiga.
- mas por fim lhe digo,
minha vida,
como seu velho amigo:
antes de caída
melhor que fique comigo;
vamos indo,
que só ficam os inimigos.
autópsia
você está viva, palavra
viva mas cansada
se não for logo ressuscitada
vai é morrer arruinada.
tire a mão daí
não corte meu umbigo
que eu ainda estou vivo.
não morri
meu coração não parou
use em outro o bisturi
que eu ainda não morri.
quero voltar para casa
me tirem desta mesa gelada
destapem logo meu nariz
meu deus, o que foi que eu fiz?
sua receita
minha letra não me diz nada
e as fontes inúmeras do computador
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sexta-feira, 9 de outubro de 2015
uma nuvem
Puro ego
Destituído de matéria.
Já não há mais metáforas.
Escorrego entre corpos espírito ideais
Nuvem densa e trêmula
Entre postes rígidos iluminados.
Na poça vejo o poste aceso
Vigiado por três janelas do sobrado
É quarta-feira de cinzas:
O touro bêbado trepa na anjinha borrada;
A cavalaria policial espalha estrume pelas ruas e uma fumaça indiferente de cigarros baratos;
Pardais atacam os restos do hamburguer de um super-herói desfalecido na calçada;
Uma cena típica, enfim.
A porta do sobrado é a única sombra
Pelas janelas vejo um papel-de-parede colorido
Todo o resto é luz monocromática
Dessaliente
Atravessando a retina inexistente
De uma nuvem.
sexta-feira, 16 de janeiro de 2015
genealogia
sábado, 22 de setembro de 2012
terça-feira, 23 de agosto de 2011
descarga
os técnicos passaram com o caminhão da companhia de eletricidade distribuindo a nova fiação pelas ruas e o zelador estava ocupado em cortá-la para ligar ao circuito do prédio quando chegamos e não pudemos entrar com nosso carro. pulamos a grade por um canto com as pizzas e os refrigerantes na mão e atravessamos uma bacia de areia cheia de cacos de vidro de garrafas de bebidas alcoólicas para chegarmos no nosso apartamento. como estava com os pés carregados de areia, gastei um bom tempo batendo-os no capacho da porta do banheiro, cômodo no qual estava resumido nosso apartamento. senti orgulho da minha conduta, como uma criança que aprendeu a andar, talvez. e talvez por isso, mas isso é incerto, juntei dois pedaços de pizza, piquei-os como folhas de papel e, mediante um raciocínio meio melindroso, conclui que seria mais adequado jogar os pedaços no vaso sanitário - o que, naturalmente, só me fez mais orgulhoso de mim.
quarta-feira, 4 de maio de 2011
O Enterro
sábado, 16 de abril de 2011
a cidade imperdoada

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011
tardes achocolatadas
“Mas nada se transformou, e agora está evidente que foi justamente com a minha aventura que joguei fora as probabilidades da transformação” I. Kertész
E eu que, me lembro bem, sentia um conforto (agora) (estranho) naquela casa com muros nas janelas e pisos frios quando, espremidos entre pães e margarinas e copos azuis, bebíamos toddy (®) (ele chegava a consumir uma caixa inteira nisso) e (ainda) acreditávamos no que falávamos. As tardes promissoras (de frio?) em que andávamos pelas ruelas (sempre) (estranhas) e imaginávamos projetos que (ainda) não sabíamos impossíveis, indo para lugares certos, seguros (e inconscientes) de que nossa idiotice era o máximo do que podíamos. Estávamos errados (claro) e porque (é claro) um idiota não pode ser o máximo de nada que não seja a própria idiotice (o que já é de um otimismo idiota). E se passamos o resto de nossas vidas tentando corrigir aquelas tardes significa que continuamos nelas, é a pergunta que eu nunca soube perguntar e ele nunca estaria pronto para responder. E se (agora) busco (e encontro) prazer em tomar um copo de toddy (®) numa tarde devoluta, perpetuo (desesperado) o eco de um som que (a rigor) nem (sequer) existiu (?).
Acabou.
segunda-feira, 27 de dezembro de 2010
como morrer em público
um pedreiro desabou no passeio
(a criança o carregou nos ombros por sete metros até o pronto socorro municipal)
debateu-se em frente à escola juvenil
assustando a vendedora de cachorro-quente
chamou-se a ambulância
era tarde
morreu às onze horas da manhã
constou no relatório do IML
quatro horas depois.
sábado, 21 de agosto de 2010
Adagio
quinta-feira, 27 de maio de 2010
Outdoor
Me entenda, eu não sou cego; só não enxergo como você deve imaginar. Os olhos não me são úteis nessa tarefa embora funcionem normalmente. Vejo, mas isso é o de menos. Para mim, imagens são imagens assim como um X-burguer é um X-burguer. Na verdade, não preciso enxergar porque todos já o fizeram por mim e fazem questão de compartilhar suas imagens por todos os meios possíveis, embora uns sejam mais convincentes que outros - e é mais ou menos nisso que me fio. Tampouco tenho valores, que esse esforço me dispensei. Criá-los importariam escolhas que não me parecem necessárias. Prontos, estão aí aos montes, infinitos. Da minha parte só tenho que costurá-los de uma forma equilibradamente aceitável - o que por si já dá esforço suficiente até o fim da vida. De modo que certo ou errado é uma questão contingente, pouco ou nada relativa a valores universais; belo ou feio, então, é o sumo da inutilidade no emprego do pensamento e das emoções: se aí está a coisa, para quê mais? Ou razões inexplicáveis seriam mais confiáveis que este meu raciocínio simples de entrega e aceitação? Se você me diz que este quadro é feio, eu não discuto; mas cá em mim, é colocação bem mesquinha a sua. Estando o óleo pincelado, a tela enquadrada, que importa a todos, a tudo, sua opinião? ao quadro, nem que você cuspa involuntariamente enquanto esbraveja contra sua composição, não importa - se exagerarmos imaginação, ele te achará no máximo um cuspidor; limpará o rosto e seguirá postado para alguma eternidade. Agora, se estamos falando de evolução, minha posição será preferencialmente positiva, embora nem sempre bem sucedida. Não importa muito: limpo minha cara e sigo. Se me exijo combate duro contra a preguiça, não deixo de cochilar para ver se é assim mesmo - e assim engano a mim e a preguiça, porque é sempre melhor enganar antes de ser enganado. Se me exijo razões, invento algo que me convença tanto quanto um achocolatado instantâneo; sorvo, lambo o resto e coloco a louça para lavar: reset na veia. Autêntico? faço questão de não ser na medida em que isso o seja. Siga você enxergando, louvando seus óculos, a luz do dia, as flores e me deixe apreciando esse outdoor.
