segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026
sem vírgula
a luz podia estar acesa ou mesmo apagada
como lua
não fazia diferença
tinha olho verde olho azul olho preto como jabuticaba
e até mel
você vai vir vai ver e tudo vai parecer outras coisas
que não estavam por aqui comigo
ou estavam
com outras caras outros gritos outras cores
outra verdade que cada mente vê
e mente pro resto do corpo que é bobo e aceita
instrumento das paixões do ponto de vista
que depende do fim
na direita os ocidentais na esquerda os orientais
mas no fim todos vêem
e cada um enxerga
do arroz e do precipício (refeição-reflexões de guimarães)
Refleti em como a boa arte é arte em seu todo e arte em sua parte. Cada frase, cada parágrafo de Machado de Assis é uma arte em si, assim como o é o texto visto como todo. E nas suas mais diversas óticas. Então indaguei-me por que "cada frase, cada parágrafo", mas não cada palavra. E justifiquei para mim que as palavras são pré-existentes e que, por isso mesmo, por não serem parte do impulso criativo, não há como serem arte em si.
Mas meus teimosos pensamentos voltaram logo com uma nova indagação. Por que não seria possível fazer das palavras arte e daí impor o limite nas letras? Que toda arte tenha sua limitação física última, posto que seja expressão humana, que tenha. Algumas se sujeitam a limitações maiores, outras a menores e, quanto menores, maior o espaço a ser preenchido. Então por que não empurrar aqui, esbarrar dali, e fazer da arte escrita mais ampla?
O limite, matutei, deveria ir até o ponto em que ainda seria possível a compreensão, ou tornaria a linguagem inócua. Já admitira a abstração das palavras, aceitara o limite das letras, haveria de haver um meio termo. Isso, assim, não funcionaria. Pus que tomaria comigo algumas palavras e daria alforria a outras. E, diante dos propósitos, pus que soltaria as relevantes e tomaria as acessórias. Assim que, não sendo essas principais, atrapalhariam menos e, sendo aquelas relevantes, ao faltarem, tornariam o residual, objeto das minhas reflexões, mais corpulento.
Fiz jus aos verbos e aos substantivos. Aqueles são a engrenagem, esses a verdade nua e crua, o naturalismo do vocabulário. Demais importantes, dei-lhes a alforria. Teria que me apegar aos artigos, pois sinalizam o entendimento, indicam caminho. Acessórios, mas imprescindíveis na minha jornada. Precavi-me, também, com as preposições, as conjunções e os pronomes. Podem até ser reles no todo, mas são úteis no dia-a-dia. Aos adjetivos, como porção idealista e metafísica do idioma, dei-lhes receoso a liberdade, mas encorajei-me na idéia de que a metafísica vai além e deles, pois, prescinde.
Fiquei assim, de Sancho com os artigos, pronomes, conjunções e preposições, e livre dos moinhos - adjetivos, verbos e substantivos. Às interjeições não dei conta, são expressões das idéias humanas e não vislumbrei considerá-las. Os advérbios, já esses, fizeram festa diante da minha indecisão. Pois que compadeci e os acolhi, ainda que, como castigo, adverti os incautos festeiros que poderia acontecer de, lá pelo meio do caminho, terem que seguir o rumo por eles mesmos. Não foi, porém, a mesma sorte que a das locuções. Essas, ainda que não sejam de muita importância, estão, no fim, como as interjeições. Como derivam todas de outras, fiz que não vi. Por fim, os numerais equivali às próprias letras e, portanto, ficaram aqui comigo, à beira do precipício.
Prologo
Poema de Sete Faces
Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.
As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.
O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.
O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode
Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.
Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria a solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.
Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.
Carlos Drummond de Andrade
Confissões a uma flor
Vê-la e nem ao menos tentar tê-la é insistir em um desejo platônico, é praticamente suicídio, é desistir de viver.Flores são femininas por natureza; talvez seja por isso que reverenciamos as mulheres com flores intermináveis, simplesmente para celebrar a beleza.
Infelizmente -- ou felizmente -- acho que contemplá-la não me basta, meus desejos são maiores. Não quero ficar a imaginar palavras que essa flor nunca me dirá.
Flor, não quero apenas ver-te, quero tocar-te, quero sentir-te, cheirar-te, morder-te, quero comer-te com todos os meus dentes e sentir suas pétalas se desmancharem na minha boca lentamente... saborear-te, além de admirar-te. Viver-te por completo, ver teu interior, enfim sentir-te até o “último fim de sentimento que permaneceria apenas vago e sufocador”.
Esquecimento
Ou o esquecer é proposital?
Como se as experiências fossem sempre vividas como se pela primeira vez.
que mar, que céu? (por quês-reflexão a niemeyer)
que as possibilidades haveriam de ser, assim, sincronizadas. que deixaria a funcionalidade, e até alguma beleza, para seus interiores, que não podia abdicar do seu ofício assim. mas que para fotografia-cartão-postal tem que botar o pé na terra, andar para trás, quiçá tropeçar no que não se vê.
que as possibilidades e esperanças sejam relevantes, ninguém duvide - e converso agora sobre aquilo que se concretiza nos olhos dos mais cegos. mas que sejam principais, daí vêm esses quês e por quês. que o espírito humano é único em sua matéria, e vivo por sua energia. essa que, ao acaso ou não, irá de positiva a negativa - e que, realmente, às vezes me parece nula. que do imbróglio humano, por vezes cobertor da sua própria natureza, surge a personalidade, os feitios, os olhares e tudo mais que se vê concretizar.
que essa terra infinitamente heterogênea, como a vista em horizonte do pôr-do-sol nas águas do oceano, – e que chamaram de "pó" – independe das possibilidades que os meios de produção lhe oferece. que são muito gerais e não atingem sobremaneira o espírito humano, blindado que é do que lhe tenta melhorar ou piorar por vias abruptas. que, então, dê-se ao homem a possibilidade de evoluir seu espírito para o bem, que ele transformará a esperança na foz dos seus anseios, e o mundo no espelho da sua própria evolução. que toda arte que cuida do espaço cubra todos os ângulos, porque ângulo algum sozinho será capaz de cumprir sua função e revelar, como foz ou espelho, o mínimo de toda a natureza humana e das formas que produz.
da caixinha colorida (samba-reflexão em paralelos)
assim como não enjôo em viagens, nunca enjoei de olhar a paisagem da janela, nem do samba e nem daquela balinha. também é certo que o fato de se enjoar não corresponde necessariamente à intensidade do gostar de cada coisa. é que de emoções e sensações dificilmente se enjoa, ao passo que ao objeto não se passa o mesmo. eu mesmo não vislumbro renegar os sentimentos que trazem uma viagem, uma paisagem, um samba, uma balinha e muito menos uma mulher. reconheço, porém, que já reneguei belezas por se tornarem algo de aparência e não mais de sentimento. e, daí, quando aquele mundo, também meu, torna-se somente aquele mundo externo, mudo como a janela de persiana fechada, o plástico verde da caixinha vazia, o radinho sem pilha, a mulher que se esqueceu, então o homem, como ser sedento que é, sente-se em tarde de domingo, com o perdão do clichê.
há homens que não se enjoam por dois motivos: ou reconhecem que seu mundo interior é demais incerto e imune aos clichês que vivem por lá, ou por lá mesmo se resignam ao se arrastarem inertes repetindo:
- amanhã é segunda-feira. amanhã é segunda-feira.
por isso me refugio no samba de sempre batucado na caixinha, acompanhado pela paisagem da janela e pelas mulheres de mundos passados. porque a verdadeira fuga do domingo é tê-lo como um domingo infinito. afinal o problema está mesmo na segunda-feira, ou na música, ou na paisagem...
dos casais e das utopias (máquina-reflexão dos capitais)
pois que do bailar dos casais, geralmente levado pelo macho, enxerguei uma lógica que buscava, ainda que sem grandes esforços, insatisfeito que era com os alarmes marxistas. vislumbrei, então, a semente do capitalismo na tempestade, por vezes ruborosa e noutras acanhada, provocada pelo ímpeto da acasalação.
é que um insurge contra o outro por motivos que julga por si mesmo, mas que quase sempre são outros, poucas vezes conscientes e intensamente incrustados no espírito. a dança é, então, pretensamente comandada pelo impetuoso, que nada mais passa da vítima da situação. todas suas energias vão para determinado ponto. ele chega a crer dogmaticamente que tudo corresponde, que é fruto das conspirações. pobres incautos que somos: sentimos os ouvidos tirlintarem, as idéias ofuscarem, os impulsos invadirem. e nos cegamos. são combustível e engrenagem. sendo irracional, o desejo é razão de tudo. dele não se deve esperar limites e dos homens infertilidade nenhuma a qualquer semente.
e desejar é ser estúpido? sem desejo não passariam os homens e mulheres de meras máquinas? mas qual não é a máquina que somos, engrenados e movidos pelo desejo freudiano de possuir o ser e sermos quem possui?
o mundo perene com seus sofredores intermitentes é máquina. crer enxergar é pretensão desaforada dos nobéis cotidianos e dos escritores imperativos - como eu. perdoem todos a eles, que julgam possuir e ser, ainda que vivam na roda, sonhem nas correntes e morram nas fumaças. homens grandes, sim, são graxas: de nada são parte, mas donos do divino poder de parecer parar o mundo pela sua própria ausência. fiquem eles com as agulhas!
se aos medíocres cabe a máquina, reservando-se aos maiores parte do controle, não há demasiados segredos no sucesso de público do capitalismo, ainda que dele emirjam os frutos podres que a todos nauseiam. é a hibridização, por fim tão utópica quanto as teorias da igualdade, da saciação com o impulso de chegar o quanto mais alto, o quanto mais longe.
mêdô - carta à laura
olhe nos olhos do outro
eles podem estar rindo que o resto do corpo não seja
e aí é coisa de olho mesmo
não veja a cor
não interessa
meça
conheça
veja quem te quer e escolha quem te mereça
daí deixe esse mundo estranho girar
seja feliz por vivê-lo sem medo
porque no escuro não há olho que enxerga
nem felicidade sem tempo, nem verdade
nem amor sem saudade, nem tesão
porque no escuro não tem coisa de olho
e se os olhos não enxergam
imagine o coração
versão música:
veja
olhe nos olhos e veja
eles podem estar rindo
que o resto do corpo não seja
seja você mesma
não veja a cor da certeza
a cor que não te interessa
mas meça
conheça
veja quem te queira
e escolha quem te mereça
deixa o mundo girar
seja feliz e viva sem medo
no escurdo você não pode enxergar
não, não
sem tempo
não há felicidade
não há perdão, não
sem saudade
não há amor, não há
e nem tesão, não
no escuro
não tem coisa de ver
e se os olhos não podem
meu bem
também não pode o coração
de cada um e de todos nós (fotografia-reflexão dos espelhos)

de repente, da despretensiosa mirada no espelho, ocupou-se de um só propósito. contava então com uns tantos anos – nisso não há quem possa se colocar com segurança – e enxergava toda sua vida em desenhos fincados na sua face. há uns bons anos podia contar as histórias de cada uma de suas rugas, nas quais arranjava devaneios que as justificavam, culpando as preocupações passadas, amiúdes na sobrevivência humana, provocadas pelo espírito frouxo de todos os seus benquistos, parasitas da sua capacidade de servir incondicionalmente cada um dos seus anseios e caprichos. ocorre que, de uns tempos para cá, tinha perdido a conta, não sabia porquê, mas não era velha de se conformar. fez força, reforçou cada fresta que carregava, olhou para cima e para os lados e, olhando para o chão, conformou-se entristecida com a derrota dos seus próprios ideais. não podia mais com aquilo, amuou-se na idéia de que ninguém além dela mesma era responsável por tudo. dispensou até os contos passados, não queria mais saber de histórias. o agora se fazia suficientemente duro com a tardia recém-descoberta. em seu íntimo sentiu-se superior por se assumir, que cada um deveria fazer o mesmo. e assim, como se lhe voltasse a visão dos olhos, porque há outras mais poderosas que ocupam nossa mente, percebeu que se via novamente, agora em uma poça d’água suja que o destino e um furo em sua barraca colocaram aos seus pés. ignorou que aquele espelho não era tão fiel quanto o outro. todo espelho era espelho, d’água, vidro ou cristal, e aquele, por natureza tão incompetente em lhe mostrar seus detalhes, não lhe trazia as mesmas rugas. arremessou o espelho inimigo para trás e aliviou-se na limpeza dos maus pensamentos que covardemente lhe acometiam. enamorou-se, fitou seu novo espelho como faz o maior dos fiéis ao seu deus, e passou o resto de eternidade que lhe faltava chorando as lágrimas da verdade, mas com o sorriso do triunfo humano nos lábios.
ode sem porquê
que o resto já não ocupa a paisagem
é que às vezes fica tão intenso
que o eterno já é lugar de disfarce
é que às vezes fica tão incerto
que o tempo já faz fuga da felicidade
é que às vezes fica tão inquieto
que o silêncio já refuta a eternidade
o senão então abre entraves à fé
e a urgência já é ode sem porquê
Tabacaria
Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.
Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como a uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de se estar mal disposto.
..."
pega-pega (música)
a festa acabou mais cedo
a bola parou de rolar
o peão não resistiu, caiu
e agora joão
o bem-te-vi pousou com medo
a corda só quer enforcar
o teto não aguentou, desabou
e agora, vai cedo embora, josé
sai dessa aurora, joão
e chora demais
sem mais
e agora maria
implora, maria
finge que gosta
e faz romaria, maria
e agora tereza
adora a tua beleza
não pára o teu rebolado
e enxota a certeza, tereza
então inté tereza
olha sua hora maria
samba na roda joão
mas e agora josé
e agora, vai cedo embora, josé
sai dessa aurora, joão
maria não chora demais
tereza não tem mais tristeza
tristeza
e agora, sai dessa tristeza, maria
você chora demais, seu josé
não tem mais embora, tereza
vai cedo da aurora, joão
aurora
demora na aurora, tereza
chora sem tristeza, josé
trai mas não cora, maria
corre mas não rende, joão
corre
corre agora, josé
dorme sem sono, joão
corta o cabelo, maria
prepara o vestido, tereza.
dos destaques e da luz (batalha-reflexão napoleônica)
- Valeu!
O pai sorriu satisfeito, retirou a chave e, já esquecido pelas ânsias infantis que lhe haviam interrompido o descanso, voltou ao ócio que justificam aqueles obreiros de pormenores silenciosos e inesgotáveis.
O menino puxou a caixa do fundo do armário de madeira, destacada há tempos para o quartinho do fundo. Gostava do cheiro de pó e de desconhecido que lhe trazia o quartinho. Não faria questão de limpá-lo se fosse gente grande. A caixa verde de tampo vermelho se arrastou resistente sobre o pó, como fazem no íntimo os homens que se destacam do presente e tentam se agarrar ao passado. Quando a tomou plenamente, chacoalhou-a para demonstrar-se dono e levou-a debaixo do braço direito.
A descrição a faço para situar o leitor à história, que não passa de destaques de uma situação de minúcias humanas. Assim como o espírito humano é capaz de prender-se à mais insignificante razão para tecer toda a meada de sua vida, não há motivos para ignorarmos as minúcias que, ao menos, não fugiram a estes olhos. Ademais, essa explicação mesma é vã, não porque revela algo que a boa arte deveria deixar entrelinhado, mas porque todo louco facilmente acha uma explicação, que julga por si a última das verdades eternas, para suas loucuras.
A caixa era de papel, mas de um papel duro e nobre, como se podia perceber daquela que já resistira aos anos. Seu interior era desnudo, da cor pastel do papelão, mas não menos resistente. Nela estavam amontoados diversos bonecos de plástico também duro, mas sensivelmente menos nobre, que representavam soldados de distintas patentes e de duas armadas diferentes, além de alguns equipamentos que ensejavam os protagonistas. Esses, como dito, eram de dois lados. Um se distinguia pela cor rubra do paletó, outro pela azul. Todos eram de pele verde-musgo, e de idêntico corte das vestimentas. Os cavalos se diferenciavam pela cor de seus arreios, acompanhando à da sua armada. E, do mesmo modo, tudo que os acompanhava tinha qualquer detalhe cuja cor possibilitava que se lhe fizesse destacar para um ou para outro lado.
Abrindo a caixa, esquecendo de pronto o tampo, donde se destacava uma ave bela e branca, cujo contorno foi desalinhado pelo tempo e pelo manuseio humano, esparramou todo o conteúdo no tapete falsamente persa da sala de televisão. Ali não atrapalharia o trânsito dos moradores, mas tampouco estaria imune aos olhares curiosos. Era um campo de batalha localizado num vale composto por dois sofás marrons ao sul e ao leste, pelo móvel de madeira, que comportava a televisão, ao norte, e por um flanco a oeste por onde passavam os transeuntes.
Pôs-se, então, a destacar as legiões, com a abstração autista e a concentração absoluta que se manifestam tão típica e naturalmente nas crianças. Talvez ele, no fundo, nem levasse aquilo tão a sério. Mas talvez sim. E o mesmo para os soldadinhos de plástico verde-musgo que, se consciência tivessem, poderiam, assim mesmo, não pretender serem mais que o que realmente eram: peças de um brinquedo. Mas fato é que a guerra é a busca da morte, a resolução última dos homens e talvez, por isso mesmo, a única delas merecedora de ser considerada de forma séria pelos seus compulsórios pretendentes.
Destacou os azuis ao norte e os vermelhos ao sul, a infantaria à frente, entremeada pela cavalaria, seguidos pelas patentes mais altas, que o menino pôde reconhecer pela maior quantidade de adereços em suas vestimentas. Posicionou um ou outro boneco mais distante, alguns como observadores, outros como possíveis elementos surpresas, quando se viu obrigado a decidir para qual exército ele mesmo lutaria. Como comandante geral das operações ele não poderia estar dos dois lados, imaginava não ter o distanciamento necessário às ações para comandar dois times ao mesmo tempo. Ficou pensando por uns bons cinco minutos quando decidiu pelos azuis, e que o vermelho de sangue ficasse para o outro lado. Julgou que aparentar sangue não seria bom agouro a um exército vencedor.
Que iniciem o combate! Sua infantaria era boa, dava tiros certeiros e a cavalaria parecia-lhe oportuna. De início teve algumas baixas, que não lhe preocuparam por não comprometerem a formação do exército. A batalha estava equilibrada, com uma leve vantagem aos exércitos azuis. Para ele estava claro que a vitória seria uma questão de tempo, estava tudo sobre controle.
As pessoas que ali passavam detinham-se em olhar aquele emaranhado de soldados e logo desistiam por não entenderem sequer os propósitos envolvidos. Alguém chegou a questioná-los, porque além da curiosidade está a audácia humana, e foi respondido por um olhar de reprovação esguelha. Afinal, da parte do comandante, não merecia algum crédito ou atenção.
A luta foi minguando e os azuis logo lançaram mão de seus elementos surpresas, a fim de eliminar de uma mão o adversário. Os vermelhos, no entanto, resistiam bravamente, não acuavam. Mas foi diante de um pensamento que o menino estremeceu e se viu distante da sonhada bandeira branca - por parte dos vermelhos, claro –, que é o paradoxo final dos conflitos. Deu-se conta de que os soldados vermelhos não eram mais valentes ou melhores que os seus, pois eram todos verde-musgo. Eram mais persistentes pelo motivo singelo de que, em virtude da cor de seus uniformes, não reconheciam, em si e nos companheiros, derramamento de sangue algum. Não estavam nunca feridos enquanto lutavam e cada um continuava lutando até cair, acreditando que estava sendo acompanhado de outros tantos soldados absolutamente saudáveis. Foi sua derrota. Acreditou naquilo e àquilo creditou seu eminente fracasso. Embora tentasse demonstrar que a crença adversária era falsa, não podia convencer ninguém e nem a si mesmo disso. Com efeito, a desconfiança, principalmente, se destaca como luz naqueles que pretendem ocultá-la. Naturalmente perdeu, sem dar lugar à bandeira qualquer, senão a da honra de ter lutado até seu fim.
Foi justamente no momento final que seu pai, amado e temido como todo pai a uma criança, entrou no cômodo e recebeu o olhar suplicante e envergonhado do filho.
- Olha, pai, eu perdi, disse prestando conta de sua tristeza. Olha, morreram todos e sobrou... contou em sussurros os soldados vermelhos com o dedo indicador ... quatro dos outros.
O pai parou e olhou com profundidade a cena. Ameaçou continuar seu caminho, mas deteve-se e, sob o olhar estranhado do filho diante daquela expressão, resmungou em tom vanglorioso:
- Mísero... e que tu querias brincando com a morte? Que pensaste tu?
dos ipês e do amarelo (presente-reflexão da natureza)
em mim sem fim
disso aí fiz o ó
olhei o mundo aos meus pés
os mestres deixei pra trás
fiz bonito, viu
bonito que só vendo
era só botar ponto final e pronto
não havia pedra no caminho
não tinha alma na terra
que resistia a um sorriso falso
intelectual, mas falso que só
mesquinho quase
afinal, ninguém é de pedra, né
viajei muito, sabe
tudo grátis, uma beleza
acumulei muita milha
fiz muito aprendiz, muito amigo
me pediam aprovação até
- olha só, vou arriscar umas palavras nesse livro...
- olha aí, vê o que você acha disso...
sabe, até lia coisa ou outra
viu, não conta pra ninguém não
mas não lia todas porque eram ruins que só vendo
eu mesmo não comprava essa idéia de livro de palavra arriscada
coitado de mim, imagina
muito risco, compreende
essas coisas contaminam a gente
olha, não vá contar isso pra alguém, viu
resolvi por bem parar, então
não li nada além da minha própria poesia
ela ficou assim que só ela
uns dias me pedia companhia
mas logo se esquecia dessas idéias sem juízo
calava bonito, de dar gosto
vencia o próprio desejo, quem diria
eu ficava orgulhoso, precisa vê
mas foi numa noite que me abandonou
foi sem dó no escuro que o deus do mal ofereceu
fiquei eu só que só eu
tive notícias um dia
mas me doeu tanto o coração
saber que podia ser feliz sem mim, sabe...
ih, mas fiz mais que você nem faz idéia
tratei de ter um novo amigo
suei de um tanto, mas encontrei
dei um trato, ficou um brilho
é pena que dele não posso dizer muita coisa
é tímido, desses gênios que não se encontra por aí
diz que queria ficar assim mesmo, escondido, fazer o quê?
entendi, pois é, disso não tem como ser contra
digo, melhor um domo sem saída que uma vida sem dono, né?
sábado de feijoada
mas meu irmão mandou me avisar
que ontem foi dia de dizer não
eu não estou dizendo nada
mas meu irmão mandou me dizer
que hoje é dia de fazer feijão
eu não estou querendo nada
mas meu irmão mandou me falar
que amanhã é dia de sambar
eu não estou ouvindo nada
mas meu irmão me mandou cozinhar
que amanhã é dia de querer feijoada
a rua que bifurca (pequeno estudo)
a rua anunciava escura
luzia muda a labuta
julgamento universal das deusas
pendular mundano da lua
ângulo da loucura
aluga, esmiúça
anuncia a chuva noturna
judia amiúde
municia diuturna
luta do nunca
Judas da ajuda futura
Buda da tortura
única e muitas
urtica e unhas
ilusão mundana
testemunha que saúda
a pergunta em dupla
desconjura dura
dura crua
alguma culpa
outra pintura
pouca desculpa
soneto dos vagabundos (outro pequeno estudo)
sentou cansado nas heras da criação,
vendo que era paisagem sua vocação,
fez de tudo calmaria.
como um velho experiente,
que com tempo ganha sabedoria e paz,
percebeu que só perderá quem tudo faz
e ganhará quem for inerte.
então eu pobre mortal,
quem sou eu para questionar
o nosso grande senhor
e inventar de trabalhar,
ignorando o descanso
que o nosso senhor fez santo?
o inimigo (c.b.)
que vai deslizando em traçados trilhos
num ritmo próprio e sem empecilhos
para fazer da vida uma carniça.
se na juventude ele nos atiça,
nos faz viver o mundo com mais brilho,
na velhice nos obriga a pedi-lo
que mude seu passo e faça justiça.
e se no fim a mão que lhe afagou
for lhe condenar à solidão e ao pranto
mostre que o tempo não lhe tirou o encanto
vivendo os momentos que não sonhou
viver quando era somente futuro
o tempo morto de viver seguro.
trechos do projeto "o carteiro"
e porque a vida me fecha e trai
e me trava e me flecha
e nas trevas me falaceia
fervo o café, faço a ceia e me entrego ao sono
enquanto o passado dorme incerto nos sonhos do futuro
de morte cínica e certeira
sorridente como o carteiro que chega
essa correspondência prematura que me motiva
e me faz insone e fracassado
e oscila o comando das minhas certezas
até me entregar aquele envelope branco
que passa todo dia até um dia parar.
(...)
o meu deus não é de todos
eles não seriam capazes de me acompanhar
o de ontem faleceu e o de amanhã ainda nem nasceu
são muros instransponíveis que cedem na primeira hora
nos primeiros estalos de loucura da manhã
tiro fotos, faço rabiscos e barulhos
tenho a mente sã e o corpo maltratado pela minha preguiça
minto para mim mesmo tão facilmente quanto minto aos outros
e eles fingem que acreditam como eu ecôo batendo palmas
e faço as pazes em mim
esperando a redenção do céu ou do inferno
o que não vale é ficar sem teto
sem ter onde voar leve ou cair duro
se queres te levo comigo
mas terás que ser melhor
bem melhor do que eu sou
porque tudo isso já fui
e não sou homem de ser tudo de novo.
samba-tango de duas notas só
uma garota
a margarida (e isso não tem nada a ver contigo, Marco... só agora percebi! hahaha)
uma noitada
uma flor morta
a dor sozinha
a flor de volta
mas com espinho
não só retorna
traz um consigo
um cravo branco
muito mais branco
que o meu destino
uma garota
a margarida
uma noitada
uma flor morta
uma flor morta
mais um espinho
no meu destino
assim
e o nada se iluminou com os dizeres branco-no-preto:
tudo se desconstrói no fim
assim, com fim no fim
tudo no início
desconstrói
assim
diálogos interrompidos
mas nessa cidade sou mais joão
não, não... não sou mais eu
eles é que são mais eles
ouça bem, sou mais joão e menos pedro
não, ai meu deus, tira esse fone de ouvido
menos pedro, pedra são eles
joão?!
oi?
não, você não, desculpa.
viu?
tudo bem, pode atender, vai, que vou indo já
tá bom, tá, tchau
homem de sorte
on-line, sem delay
se fez de inteligente
pensou, foi ator e bacharéu
porque na vida a gente é assim
pensa, reflete, imita que sente
até mente um não-sei de quem duvida
mas sabe
que há morte onde há guerra
mas luta
que tem sorte quem assanha
mas reza
que a dor do amor consome
mas ama
que fast-food é medonho
mas come
que sonho é hollywood
mas sonha
dos josés e das antenas (festa-reflexão machadiana)
de costas
enfrentei o breu de frente
fui homem, não tive medo
ela disse que me queria macho assim
e assim veio atrás de mim
mas ela mudou
não gosta mais da minha coragem
não fala mais comigo
e responde ao meu chamego
virando as costas para mim
imortalidade
dispensáveis
Sem título
Dia desses, no meio da noite, cheguei em casa.
Entrei e, de repente, me tomou uma sensação incrivelmente boa.
O ontem parecia leve, o amanhã sem importância.
Era tudo como havia imaginado, pedaço por pedaço.
Olhei para tudo aquilo e vi
Fragmentos de mim, minha História viva.
Versos baratos
sábado na feira (a metamorfose caipira)
fugi das águas dos automóveis
mal fez sol veio a chuva
em meio à fuga caí na feira
saí da ladeira para a beira do rio
pro menino prometi uns trocados
e me meti nos barracos com esbarrões
pra salada os maços do grião e azedinha
e do çafrão e cebolinha para o tempero
cortei o bacaxi pra experimentar
e me fez bom ar a doçura do pesgo
e a formosura do cesto de mimosa
e crespa e mericana que haja alface
do macujá fora da época fiz desfeita
disse da mêxa que tava brilhosa
e da alfafa grossa que sobrou no sol
que ficou qual anzol torta e esgarçada
na vorta co’as mão cheia de sacola
evitei parar nas uvitáia sem caroço
mas a saia da moça não resisti
e fiz que não vi quando o marido olhô
e já de cansado fui-me embora
de carambola e manga-espada
e pesada que tava as gibêra que levava
derradêra a vaji pra galinha só mais levei
e mais uns jiló verde pra senhora
que minha hora já tarde era
pra tar de paqüera ir tira-gostá
e a gira de porca rifá c’o aurora
móde que nome assim é de sorte
coforme que explicô sô barbosa
que for’as muié nossa
as ôtra são mió de boa
mas só por pôca hora
e de leitoa em prumo
prumei o meu rumo
e fumo pra casa
pra móde durmi
sem qui a muié
isperta qui é
sentisse o mé
qui tomamo no bar
o discanso do lar
Sal, tempero de dor
Do peito entupido
Do coração engasgado
As lágrimas me vencem os olhos
Derramam-me à boca
Gosto de você
Saio à rua
A tua procura
O sol me queima o corpo
O suor encontra a boca no meu rosto
Não posso te encontrar
Gosto de você
Comentário QSEDQ
Anônimo disse...
Dear Mr. Eaten, I do not know if you are Mr. Jones, but if you are, I must say your wits are astonishing, unlike your commonplace want-to-be-art. You would be better off as a talk show host. In case you think this is a joke, please let me be clearer. These last pieces (and I mean both the poem and the one in installments) are so embarassingly bad that I felt I shoud tell you how happy I am for not being like you. I am actually even gladder that you have no sense of ridiculous and publish it all, to my sheer delight. Do not take this as constructive criticism, since I am not particularly interested in your improvement. In fact, you disgust me in every way. I shall waste no more time talking to you, so do not expect further communication from me. See you, perhaps.
Peripécia Virtual do QSEDQ
O nosso mais brilhante comentador respondeu nossa postagem, demonstrando que sua manifestação anterior não era spam - que ofensa! - com uma bela metáfora (que traduzimos aqui, para bem do vernáculo): Palavras são prata, silêncio é ouro. Pois que, no ofuscante brilho prateado de suas palavras anglicanas, ele(a?) se sentiu honrado em ver seu comentário publicado. Pois que honra, não, ter as palavras publicadas no QSEDQ! cujos autores são Mr. Eaten (comedor?) e Mr. Whoever (sei lá?) e cujo siginificado, vocês sabem, é só um modo educado de dizer "sim, nós somos ignorantes".
Fato é que ficamos impressionados com o perfil do nosso leitor, de modo que empreenderemos uma busca para encontrá-lo e torná-lo nosso líder. É que em nenhuma das nossas 60 postagens conseguimos expressar tão bem o sentido deste site, enquanto ele o fez, se bem que em outra língua, em um único inserto. A busca pelo universo virtual deverá durar no máximo uma semana, esse é o nosso prazo. E durante esse tempo não teremos postagens. É o sacrifício a que estamos dispostos. Sabemos que o entrudo batuca nos ouvidos, mas prometemos uma quarta-feira nem um pouco cinza às senhoras e aos senhores. Nos aguardem, leitores, em breve, ojalá, teremos um novo líder, aquele que, sem desprezo aos atuais leitores, tirará o QSEDQ da míngua!
Aguardem a próxima postagem.
QSEDQ "Team".
Anonoymous said...
Words are silver, silence is gold. I am honoured to see my litte notice published on your weblog, which in fact made me forget both my promising not to write and the litte proverb up here. I must return, however, for truth's sake. This is neither hoax nor spam. And you, Mr. Whoever, are not the one who should think about that piece of writing. By the way, that comment on his wits, or yours, for that matter: never mind. I guess you are dying of happiness. I have heard people like you pseudo-artists enjoy being criticised, it adds to the misery you want to express. I would go on and on, but you know what? It is just not worth it. See you.
Branco no Preto
Conformol
pq chega de sonhar?
W. diz:
sei lá... sonhos são sonhos. não é vida.
Z. diz:
mas claro, não é SÓ vida, mas faz parte, não faz? só tem que saber dosar...
W. diz:
num sei dosar, sou bem desmedido nessas coisas.
Z. diz:
mas se vc se convenceu disso, então tá, vc tem que se convencer que na essência vc sabe, que vc tem o meio termo. não dá para vc ser algo que não acredita..
W. diz:
exatamente. num dá pra sonhar muito. to meio chato hoje.
Z. diz:
to falando isso pq tb sofro da mesma coisa...
W. diz:
de vez em quando vivo outras realidades. sei lá. ruim voltar pro normal.
Z. diz:
entendo completamente, vivo muitas realidades, quase ao mesmo tempo...
W. diz:
e depois me vejo obrigado a viver a minha vida. frustrante.
Z. diz:
pois é, mas essa é a unica vida que vc pode viver; e é isso que vc veio fazer aqui, nao é?
W. diz:
não sei. não sei mesmo se é isso q eu queria fazer.
Z. diz:
não é essa a questão, a questão é que vc está aí pra viver, e se tem algo errado é vc que vai mudar na sua cabeça...não é a faculdade, a familia, é vc...aí vc tem que ter a consciência de que se isso está aí, beleza, vamos enfrentar vivendo bem, intensamente..
W. diz:
sim... vc acabou de responder o porque do "chega de querer sonhar"...
Z. diz:
mas viver é sonhar tb...
W. diz:
tenho q começar a viver. já me adiei por muito tempo.
Z. diz:
boa. vai atrás da sua boa-venturança, e aí tudo dá certo.
W. diz:
exato. mas vamos com calma nos sonhos, né... e o q o senhor tem feito a respeito disso?
Z. diz:
ainda estou na fase de tomar consciência, no processo de me fazer acreditar que as coisas são assim, acreditar no sentido profundo mesmo... pq já acredito, mas a minha mente ainda não tomou isso como uma premissa do processo, entende?
W. diz:
entendo. deve ser difícil aceitar isso. acho q ainda não passei por essa fase de me impor o conformismo. tomei consciencia de q devo viver.... ainda falta muito
Z. diz:
não é conformismo, não assim do jeito q vc diz, se não tudo seria conformismo, só dependendo do ponto de vista... vc se conforma em sonhar...não é? o que eu digo não é conformar, aceitar a vida do jeito que ela vem pra vc, ao contrário, é vc fazer acontecer aquilo que a sua essência de mostra, é a busca da sua boa-venturança.
W. diz:
mas de alguma forma seria aceitar a realidade pra construir a sua dentro dessa. pra mim a primeira aceitação é um tipo de conformismo. conformismo compreensível e tolerával, mas conformismo
Z. diz:
assiste o filme Vinicius...ajuda nesse processo de consciência.
W. diz:
o filme tá nos cinemas ainda?
Z. diz:
tá sim, começou essa semana se não me engano
W. diz:
blz, vou assistir.
Z. diz:
mas a vida é uma invenção, não é? e aí tudo é conformismo, vc se conforma como que vc inventa para sua vida. vc pode inventar de ter uma vida boa ou de inventar de ser ruim...depende das razoes que vc considera as certas, mas no fundo não há razão certa ou errada, existem pessoas, e as pessoas são diferentes...
W. diz:
tudo depende do referencial. de como se enxerga a realidade. isso chega a ser clichê. é verdade, mas pouco aplicável. parece economia.
Z. diz:
esse negócio de a vida é uma invenção, por exemplo, o ferreira gullar falou isso lá, eu já intuia isso pq vinha com essa idéia de que cada um cria sua própria razão, mas ainda não tinha evoluido meu pensamento para esse nivel...ai quando ele falou me deu um estalo..
W. diz:
como corrigir a miopia é o ponto mais prático e que me interesa
Z. diz:
claro q depende do referencial, nem poderia ser de outro jeito...a gente depende de referenciais para compreender as coisas, vivemos num mundo que tem tempo e espaço, se tiram uma dessas duas dimensões vc perde referencial e seria impossível entender...então vc só reconhece a vida pq existe a morte e só reconhece a luz pq existe o escuro..e etc... então há esse referencial primário, que é o oposto. e o referencial que é a pessoa, cada pessoa é um filtro único da realidade e só ela pode escolher como filtrar...
W. diz:
mas uma questão anterior a essa é como enxergar a vida se o que eu vivo na maioria do tempo não é real. ou melhor, como mudar essa minha visão de mundo sendo q vivo outras realidades.
Z. diz:
mas é vc que escolheu, de um modo ou de outro, enxergar assim, vc que escolhe seu filtro. então vc vai lá e muda isso. não é um processo fácil, o processo de mudança sempre pressupõe sofrimento, mas a gente só reconhece a boa-venturança pq passamos pelo sofrimento... é isso de opostos... mas vc tem que ter a consciência de que vc pode mudar isso, se vc não acreditar...
W. diz:
putis Z.... isso se mostra tão pouco prático. a filosofia sobre o assunto é perfeita. parece q estamos lidando com modelos de economia q na se aplicam fora do mundo ceteris paribus. o mais difícil da mudança tem sido a falta de identidade. é obvio mas no meio do caminho as pessoas se perdem. e voltamos ao zero.
Z. diz:
calma, vc tem que seguir passos, aí vc enxerga como isso é tão real que a realidade que vc vive é a que não é real. primeiro vc tem que ter consciência de que vc é quem manda, da sua força (deus). depois de que vc tem problemas para resolver e eles são tais e tais, e que essa solução de problemas é algo completamente normal na sua vida... depois vc tem que querer mudá-los, resolve-los. mas veja que a consciência é diferente do conhecimento e do simples querer...é algo bem profundo, arraigado
W. diz:
descreva o processo de mudança. aí q está o gargalo. o planejamento e as metas são aparentemente simples
Z. diz:
o processo de mudança é consequência da consciência. talvez o primeiro passo seja conhecer voce mesmo, mas isso é tão dificil que eu diria que ele é um passo único que vai paralelo, por tuda a vida.
W. diz:
discordo.
Z. diz:
mas não adianta querer enxergar o fim sem ter cumprido o primeiro passo, quero dizer, não adianta chegar antes de dar passo por passo...e cada um tem que ser dado de forma completa, segura e consciente...foi isso que eu aprendi na escalada
W. diz:
a implementação de mudanças é um processo que se comunica com a consciencia e com as metas, mas que se depara com uma parte prática e real mais traumática e imutável. é como mudar a cultura organizacional de uma repartição pública. pode fazer o planejamento mais perfeito do mundo, mas quando se chega no dia-a-dia, as coisas são diferentes
Z. diz:
lá vem vc com seus conceitos economicos, os quais não tenho conhecimento para analisar... a repartição pública é outra história, existem vários elementos ali, vários filtros.... estamos falando de vc e só existe vc que manda em tudo que há em vc, mas para isso acontecer vc tem que acreditar que vc tem esse poder...aí pode ser que vc nunca vai acreditar, ou vai acreditar amanhã, ou daqui a 50 anos, ou vai nascer acreditando...isso uns dizem que é biológico (acho que jung fala isso, sobre os arquétipos), pq tudo vem do que vc é formado, no nivel biológico..
W. diz:
acho q aqui se estabelece a nossa maior diferença. não aprendi a ser uma pessoa independente. não sei ser só eu. o meio é muito importante. na minha vida tem muito de determinismo. Ctrl+Alt+Del
Z. diz:
mas não adianta achar que não tem determinismo, o que muda é como vc filtra isso...é impossível se fechar a isso, ser opaco, negar a realidade exterior...mas vc considera as coisas do jeito que vc quiser, dependendo das razões que vc tomou para vc...
W. diz:
preciso pensar mais nessas coisas. amadurecer algumas idéias. dosar não é o meu forte. preciso pensar mais na razão determinismo e independência.
Z. diz:
vc tem que tomar consciência de que vc e só vc manda em vc mesmo... e que, então, vc pode mudar seu filtro... mas não disse que é fácil nem rápido... há muito conflito durante isso, mas fazem parte.
W. diz:
fazia tempo q não tinha uma conversa assim.
Z. diz:
tem um poema lá no QSEDQ que fala sobre isso, chamado "só", depois leia os comentários, eles falam sobre isso tb.
W. diz:
certo... vou deitar pra pensar um poco sobre essas coisas. depois nos falamos. valeu pelo papo. abraço.
Z. diz:
vai lá, abraço.
vô te levá
pronde o rio começa a curvinhá
pronde o passo-preto prana de avuá
pronde o mio-verde num pára de brotá
nem de crescê
vô te levá
pronde o sol num vai ardê
pronde o vento num vai gelá
pronde a chuva num qué cedê
i nem moiá
vô te levá
pronde o amô num vai isquecê
pronde a sôdade num vai cortá
pronde o dia é sempre amanhecê
i intardecê
vô te levá
pronde as cascavé num qué mordê
pronde o mel tá mais doce de tomá
pronde o céu tá mais belo de se vê
i num cansa de oiá
vô te levá
se ocê quisé, minha frô
pronde vamo si alimentá
da fé que vai brotá do nosso amô
ocê vai gostá
ladeira (música)
garoto maroto
rosto de beato
quis subir a ladeira
fugir do marasmo
estranhou nosso mundo
se vestiu de farrapo
fez valer a gorjeta
e careta de ódio e de frio
pela bereta do soldado
se sentiu assaltado
apurrinhado
escancarado
ele subiu a ladeira
até não quis mais descer
achou besteira o que viu
até tentou esquecer
desistiu da vida inteira
viver
partiu, não ficou de bobeira
vai ver
não entendeu o desmando
olho pro céu azulado
quis ver o sol amarelo
ficou com o olho ofuscado
sentiu a cuca queimando
não viu a dona do lado
caiu no chão deslizando
aquela ladeira pra baixo
gostou do mundo girando
ficou na rua deitado
quis esquecer a ladeira
viu tudo acabado
mudou o rumo da vida
não quis olhar mais pro lado
esqueceu da gente querida
virou as costas de sarro
virou pra sempre a esquina
o garoto mulato
engraçado
ele subiu a ladeira
até não quis mais descer
achou besteira o que viu
até tentou esquecer
desistiu da vida inteira
viver
não ficou de bobeira e partiu
vai ver
Conversa com leitora sobre "fora do caminho"
Continuação da conversa sobre "fora do caminho"
j.p. cilli: Não sei bem se foi ele quem marcou a trilha ou o mundo em que ele vivia gerou essa construção na cabeça dele, diante do que ele pensava sobre tudo. Mas é um caminho, também, essa coisa de finalmente ter coragem, mas só depois de se cansar. De todo modo, não sei se o caminho já existia ou ele que foi criando. Acho que é a segunda opção, ele vai criando o seu próprio caminho, o que, no fim, é um outro e o mundo só o reconhece no fim porque aí sim é caminho. Antes disso era a "escuridão". Para quem quiser, o texto que o Marco falou é de setembro de 2005, tem que clicar na coluna da direita no mês de setembro. Boa lembrança.
Outra conversa, agora sobre "pedaço de felicidade"
a minutos atrás
a minutos atrás acordamos no então
a minutos atrás vivera na torre alta dos sonhos
a minutos atrás morreu na virtude dos sonhos
a minutos atrás é ultimamente
a minutos atrás foi para sempre
a minutos atrás era bonito por não ser
a minutos atrás será bonito por ainda ser
a minutos atrás não haverá mais atrasos
a minutos atrás fora atraso das horas
a minutos atrás serão acalantos de agora
promessa
Ocorrido
masp
Que sei eu de geo-política?
Israel = EUA + UE * judeus?
Síria = Império Otomano/UE+EUA?
Determinador comum?
Obs.: E o Brasil?
Série Dicionário
Datação
sXV cf. IVPM
Acepções■ substantivo masculino 1 estado emocional complexo que envolve um sentimento penoso provocado em relação a uma pessoa de que se pretende o amor exclusivo; receio de que o ente amado dedique seu afeto a outrem; zelo (mais us. no pl.) 2 medo de perder alguma coisa 3 m.q. inveja Ex.: ele tem c. do seu sucesso 4 Rubrica: angiospermas. arbusto ou árvore pequena (Calotropis gigantea) da fam. das asclepiadáceas, nativa da Ásia, com casca de que se extraem fibras us. em cordoalha, folhas coriáceas, comestíveis e medicinais, flores em cimeiras laterais e folículos arredondados, com sementes envoltas em filamentos sedosos, us. no fabrico de tecidos; mudar 5 Rubrica: angiospermas. m.q. bombardeira (Calotropis procera) ciúmes ■ substantivo masculino plural Rubrica: angiospermas. 6 m.q. beijo-de-frade (Impatiens balsamina)
Etimologia
lat. *zelúmen,ìminis 'id., por zélus,i 'ciúme amoroso, desejo'; ver cium-; f.hist. sXV cehume, sXV çiume, sXV cyume, sXVI ciume
Sinônimos
ver sinonímia de inveja
Homônimos
ciúme(fl.ciumar)
Série Dicionário - Paixão
Datação
o tecelão e o revisor

A Teoria do Desemprego
Enigma profético encontrado, no séc. XVI, nas abadia de Télema: jogo de tênis, de vôlei ou a decadência e a conservação da verdade divina?
"A lua vem da Ásia" - Campos de Carvalho - I
"A vaca de nariz sutil" - Campos de Carvalho - II
Dinheiro em penca (Tom Jobim e Cacaso) (1979)
Ele é muito tapereiro
Ele canta por amor
Eu só canto por dinheiro
No seu canto tem valor
No meu canto tem vintém
Ele geme a sua dor
Eu não choro por ninguém
Ninguém sabe ir pelo Catumbi
Ninguém sabe, ninguém sabe
Eu casei com ela
Fiz um filho nela
Bati muito nela
Fui feliz com ela
Se o santo cai do andor
E o barro cobre o ladrilho
Quem roubou o meu amor
E me escondeu do meu filho
Renda de filó
Carretel de linha
Jorro de cascata
Canja de galinha
Sino de Belém
Mofo de farinha
Vou cantar agora
Uma prenda minha
O mati ao meio-dia
Tá piando no soleiro
Ele canta no estio
Eu debaixo do chuveiro
Ele mora no sertão
Eu no Rio de Janeiro
Ninguém sabe ir por Andaraí
Ninguém sabe, ninguém sabe
Se o peito guarda rancor
O raio pisca o seu brilho
Do porto sai o vapor
Da vaca sai o novilho
Tem gente que faz favor
Pamonha é feita de milho
Quem roubou o meu amor
E me escondeu do meu filho
Fé de bisavó
Praga de madrinha
Laço de gravata
Bando de rolinha
Sorte de repente
Jura de modinha
Vou cantar agora
Uma prenda munha
Eu fui lá, na grota funda
Avisar meu feiticeiro
Fiquei bom do reumatismo
E ganhei muito dinheiro
Melhorei do meu cansaço
E ganhei muito dinheiro
Ninguém sabe ir pelo Buriti
Ninguém sabe, ninguém sabe
Se o cheiro muda de cor
O nego puxa o gatilho
A lucidez sai da dor
O trem de ferro do trilho
Se o vento liga o motor
E a morte presta um auxílio
Quem roubou o meu amor
E me escondeu do meu filho
Rede de cipó
Lata de sardinha
Porta de alçapão
Ceva de tainha
Bolha de sabão
Sopa de letrinha
Bucha de balão
Papo de cozinha
Meu padrinho quando moço
Era muito fazendeiro
Tirou outro do sertão
Foi gastar no estrangeiro
O dinheiro da boiada
Transferiu pro estrangeiro
Ninguém sabe ir pelo Piauí
Ninguém sabe, ninguém sabe
O avião salta do chão
O padre sai do retiro
O acaso faz o ladrão
Da espingarda parte o tiro
Do verso nasce a canção
Do sertão meu estribilho
Quem roubou o meu amor
E me escondeu do meu filho
Medo de ladrão
Noite de arrepio
Boca de fogão
Casco de navio
Pipa de papel
Ben-te vi no cio
Corda de relógio
Bomba de pavio
Tive léguas e mais léguas
Muito gado, cafezais
Sesmarias, mata virgem
Onde a vista já não vai
Extensão de terra roxa
Ia até o Paraguai
Tive até um burro preto
Que vovó deu pro papai
Eu também já tive um tio
Que virou velho gaiteiro
Que gostava de mulher
Como eu gosto de dinheiro
Era louco por mulher
Eu me amarro no dinheiro
Fui mascate no sertão
Caminhei o norte inteiro
Vendi grampo a prestação
Guarda-chuva em fevereiro
Até hoje estou esperando
A remessa do dinheiro
O mati é passo preto
De janeiro até janeiro
Ele casa no verão
Eu namoro o ano inteiro
O mati já tem bisneto
Eu ainda tô solteiro
Ele voa em liberdade
Inda tô no cativeiro
E voou pra imensidão
Eu ainda prisioneiro
Canta curió
Canta coleirinho
Sabiá da mata
Garnizé de ninho
Terra de niguém
Viração marinha
Vou cantar agora uma prenda minha
Uma vez em Nova York
Liguei pro meu feiticeiro
Que atendeu o telefone
Lá no Rio de Janeiro
Eu então falei pra ele
Procurar meu macumbeiro
Pra avisar pro pai-de-santo
Pra arranjar algum dinheiro
Pra pedir pro delegado
Pra soltar meu curandeiro
Ao doutor seu delegado
Pra soltar meu curandeiro
Mas no tal telefonema
Lá se foi o meu dinheiro
Sunga de lagarto
Dente de galinha
Sovaco de cobra
Pena de tainha
Asa de tatu
Jura de Maria
Gritos de minhoca
Rabo de Cotia
Poética
certo dia
veio à minha morada
a vida;
não sei se de entrada
ou de saída,
mas vinha apressada
e urgida,
com a face cansada
e fugidia;
parecia embuçada
e ferida,
não sei se pelo nada
ou pela lida,
mas vinha vitimada;
que tinha?
não sei, queria explicação.
- minha?
lhe respondi que não;
se havia,
agora não vejo razão
na forma divina
que jaz neste chão
ou nesta sina
que vai no céu feito balão.
- e se fica,
lhe disse indo embora,
minha querida,
só não me faça demora:
o tempo migra
e me põe a sua hora,
maligna
ou boa senhora,
sempre fria,
que não se liga com o agora
nem choraminga:
vai indo e lhe faz aurora
e amiga
para ainda lhe jogar fora,
suicida,
destruindo sua obra
antiga.
- mas por fim lhe digo,
minha vida,
como seu velho amigo:
antes de caída
melhor que fique comigo;
vamos indo,
que só ficam os inimigos.
Reedição repensada
I
nunca vivi o que fui:
nem o que vejo é tudo o que sou
II
deito com eles
sonho com o tudo:
acordo com o nada
III
meu querer é míope;
sente
e não sabe nada:
o resto busca saber em mim
IV
sou o que vejo
o que ouço
o que toco
o que cheiro e gosto
ou desgosto:
eu mesmo eu não sou
V
porque vejo, quero
porque quero, sou cego
e sou velho porque apanho o passado que não vivi
mas que agora vejo:
estranho
VI
sou míope
louco
cego:
e estranho
VI
e no dia da minha morte prematura
a primeira delas
as trevas se ocuparam de mim
resolutivas e derradeiras como a fruta madura que cai:
vi frestas da luz criativa e dos seus colaterais
VII
essa luz me ofusca
por escassez ou excesso, não sei
pela tolice talvez
e bebo a água da realidade para curar a dor da ressaca
de atrevido que fui
ou guiado que permiti
por tomar certas resoluções:
sou tolo
VIII
quê pode querer um míope?
como eu
senão a boa-venturança de um futuro límpido?
quê pode querer um louco?
como eu
senão a imediata obediência das suas loucuras?
quê pode querer um cego?
como eu
senão a planície absoluta de seus caminhos?
quê pode querer um estranho?
como eu
senão o aceite justo do seu íntimo?
IX
:mas, meu deus, o que pode querer um tolo?














