segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

sem vírgula

ele veio ela veio todos vieram
a luz podia estar acesa ou mesmo apagada
como lua
não fazia diferença
tinha olho verde olho azul olho preto como jabuticaba
e até mel
você vai vir vai ver e tudo vai parecer outras coisas
que não estavam por aqui comigo
ou estavam
com outras caras outros gritos outras cores
outra verdade que cada mente vê
e mente pro resto do corpo que é bobo e aceita
instrumento das paixões do ponto de vista
que depende do fim
na direita os ocidentais na esquerda os orientais
mas no fim todos vêem
e cada um enxerga

do arroz e do precipício (refeição-reflexões de guimarães)

Dia desses, à mesa do jantar, comendo inconscientemente às pressas, observei o comportamento do arroz, se é que comportamento é palavra que se presta a dar movimento às coisas sem vida. O arroz, como um todo branco e como cada parte - o grão. E daí ruminei uns pensamentos.
Refleti em como a boa arte é arte em seu todo e arte em sua parte. Cada frase, cada parágrafo de Machado de Assis é uma arte em si, assim como o é o texto visto como todo. E nas suas mais diversas óticas. Então indaguei-me por que "cada frase, cada parágrafo", mas não cada palavra. E justifiquei para mim que as palavras são pré-existentes e que, por isso mesmo, por não serem parte do impulso criativo, não há como serem arte em si.
Mas meus teimosos pensamentos voltaram logo com uma nova indagação. Por que não seria possível fazer das palavras arte e daí impor o limite nas letras? Que toda arte tenha sua limitação física última, posto que seja expressão humana, que tenha. Algumas se sujeitam a limitações maiores, outras a menores e, quanto menores, maior o espaço a ser preenchido. Então por que não empurrar aqui, esbarrar dali, e fazer da arte escrita mais ampla?
O limite, matutei, deveria ir até o ponto em que ainda seria possível a compreensão, ou tornaria a linguagem inócua. Já admitira a abstração das palavras, aceitara o limite das letras, haveria de haver um meio termo. Isso, assim, não funcionaria. Pus que tomaria comigo algumas palavras e daria alforria a outras. E, diante dos propósitos, pus que soltaria as relevantes e tomaria as acessórias. Assim que, não sendo essas principais, atrapalhariam menos e, sendo aquelas relevantes, ao faltarem, tornariam o residual, objeto das minhas reflexões, mais corpulento.
Fiz jus aos verbos e aos substantivos. Aqueles são a engrenagem, esses a verdade nua e crua, o naturalismo do vocabulário. Demais importantes, dei-lhes a alforria. Teria que me apegar aos artigos, pois sinalizam o entendimento, indicam caminho. Acessórios, mas imprescindíveis na minha jornada. Precavi-me, também, com as preposições, as conjunções e os pronomes. Podem até ser reles no todo, mas são úteis no dia-a-dia. Aos adjetivos, como porção idealista e metafísica do idioma, dei-lhes receoso a liberdade, mas encorajei-me na idéia de que a metafísica vai além e deles, pois, prescinde.
Fiquei assim, de Sancho com os artigos, pronomes, conjunções e preposições, e livre dos moinhos - adjetivos, verbos e substantivos. Às interjeições não dei conta, são expressões das idéias humanas e não vislumbrei considerá-las. Os advérbios, já esses, fizeram festa diante da minha indecisão. Pois que compadeci e os acolhi, ainda que, como castigo, adverti os incautos festeiros que poderia acontecer de, lá pelo meio do caminho, terem que seguir o rumo por eles mesmos. Não foi, porém, a mesma sorte que a das locuções. Essas, ainda que não sejam de muita importância, estão, no fim, como as interjeições. Como derivam todas de outras, fiz que não vi. Por fim, os numerais equivali às próprias letras e, portanto, ficaram aqui comigo, à beira do precipício.

Prologo

Para começar, uma citação...

Poema de Sete Faces

Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.

Porém meus olhos
não perguntam nada.

O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria a solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.

Carlos Drummond de Andrade

Confissões a uma flor

Vê-la e nem ao menos tentar tê-la é insistir em um desejo platônico, é praticamente suicídio, é desistir de viver.
Contemplá-la sem dúvida me dá prazer. Gosto de vê-la; é, para mim, fonte de paz, de conforto, de beleza, de prazer. Incrível como gosto das coisas belas. Seria a maior das hipocrisias negar que a beleza não é essencial. Gosto da simetria, das curvas perfeitas, das cores bem utilizadas, dos seus arranjos cacheados, do corpo bem usado, do seu charme de mulher.
Flores são femininas por natureza; talvez seja por isso que reverenciamos as mulheres com flores intermináveis, simplesmente para celebrar a beleza.
Infelizmente -- ou felizmente -- acho que contemplá-la não me basta, meus desejos são maiores. Não quero ficar a imaginar palavras que essa flor nunca me dirá.
Flor, não quero apenas ver-te, quero tocar-te, quero sentir-te, cheirar-te, morder-te, quero comer-te com todos os meus dentes e sentir suas pétalas se desmancharem na minha boca lentamente... saborear-te, além de admirar-te. Viver-te por completo, ver teu interior, enfim sentir-te até o “último fim de sentimento que permaneceria apenas vago e sufocador”.

Esquecimento

A memória que é curta?
Ou o esquecer é proposital?
Como se as experiências fossem sempre vividas como se pela primeira vez.

que mar, que céu? (por quês-reflexão a niemeyer)

as formas surgiram daquele cheiro da maresia e daquele azul para cima de azul. daí iluminou-se para a igualdade das raças, deu-se conta das pessoas e de que as formas seriam casulos da riqueza, mas que sua maior beleza só poderia ser vista pelos seus desalojados.
que as possibilidades haveriam de ser, assim, sincronizadas. que deixaria a funcionalidade, e até alguma beleza, para seus interiores, que não podia abdicar do seu ofício assim. mas que para fotografia-cartão-postal tem que botar o pé na terra, andar para trás, quiçá tropeçar no que não se vê.
que as possibilidades e esperanças sejam relevantes, ninguém duvide - e converso agora sobre aquilo que se concretiza nos olhos dos mais cegos. mas que sejam principais, daí vêm esses quês e por quês. que o espírito humano é único em sua matéria, e vivo por sua energia. essa que, ao acaso ou não, irá de positiva a negativa - e que, realmente, às vezes me parece nula. que do imbróglio humano, por vezes cobertor da sua própria natureza, surge a personalidade, os feitios, os olhares e tudo mais que se vê concretizar.
que essa terra infinitamente heterogênea, como a vista em horizonte do pôr-do-sol nas águas do oceano, – e que chamaram de "pó" – independe das possibilidades que os meios de produção lhe oferece. que são muito gerais e não atingem sobremaneira o espírito humano, blindado que é do que lhe tenta melhorar ou piorar por vias abruptas. que, então, dê-se ao homem a possibilidade de evoluir seu espírito para o bem, que ele transformará a esperança na foz dos seus anseios, e o mundo no espelho da sua própria evolução. que toda arte que cuida do espaço cubra todos os ângulos, porque ângulo algum sozinho será capaz de cumprir sua função e revelar, como foz ou espelho, o mínimo de toda a natureza humana e das formas que produz.

da caixinha colorida (samba-reflexão em paralelos)

foi do samba do fone de ouvido que tirei a idéia do batuque na caixinha de balas, feita de plástico colorido verde, cujo suprimento deveria resistir toda a viagem. para onde ia não havia caixinha nem samba.
assim como não enjôo em viagens, nunca enjoei de olhar a paisagem da janela, nem do samba e nem daquela balinha. também é certo que o fato de se enjoar não corresponde necessariamente à intensidade do gostar de cada coisa. é que de emoções e sensações dificilmente se enjoa, ao passo que ao objeto não se passa o mesmo. eu mesmo não vislumbro renegar os sentimentos que trazem uma viagem, uma paisagem, um samba, uma balinha e muito menos uma mulher. reconheço, porém, que já reneguei belezas por se tornarem algo de aparência e não mais de sentimento. e, daí, quando aquele mundo, também meu, torna-se somente aquele mundo externo, mudo como a janela de persiana fechada, o plástico verde da caixinha vazia, o radinho sem pilha, a mulher que se esqueceu, então o homem, como ser sedento que é, sente-se em tarde de domingo, com o perdão do clichê.
há homens que não se enjoam por dois motivos: ou reconhecem que seu mundo interior é demais incerto e imune aos clichês que vivem por lá, ou por lá mesmo se resignam ao se arrastarem inertes repetindo:
- amanhã é segunda-feira. amanhã é segunda-feira.
por isso me refugio no samba de sempre batucado na caixinha, acompanhado pela paisagem da janela e pelas mulheres de mundos passados. porque a verdadeira fuga do domingo é tê-lo como um domingo infinito. afinal o problema está mesmo na segunda-feira, ou na música, ou na paisagem...

dos casais e das utopias (máquina-reflexão dos capitais)

não tinha surpresa nem frio na barriga. sem pestanejar ele lançou sua frase do bolso de dentro do paletó velho, daquele de lã trançada em xadrez. dela não me recordo, o que trato logo de reconhecer e abandonar o pontapé. de todo modo, minhas impressões são mais fiéis que minha memória e desde já julgo que ela nada nos acrescentaria, sendo que em nada era original. e pela reação, até adverteria os mais afoitos. num lapso pensei que "o ridículo é uma espécie de lastro da alma quando ela entra no mar da vida” e concordei em como “algumas fazem toda a navegação sem outra espécie de carregamento". enfim, o ponto é que, assim como a chuva de verão que interpelou Nash, guardadas as genialidades, os propósitos e os dispêndios de energia, foi daí que me surgiram algumas idéias, parecendo-me tão velhas quanto o paletó do peralta.
pois que do bailar dos casais, geralmente levado pelo macho, enxerguei uma lógica que buscava, ainda que sem grandes esforços, insatisfeito que era com os alarmes marxistas. vislumbrei, então, a semente do capitalismo na tempestade, por vezes ruborosa e noutras acanhada, provocada pelo ímpeto da acasalação.
é que um insurge contra o outro por motivos que julga por si mesmo, mas que quase sempre são outros, poucas vezes conscientes e intensamente incrustados no espírito. a dança é, então, pretensamente comandada pelo impetuoso, que nada mais passa da vítima da situação. todas suas energias vão para determinado ponto. ele chega a crer dogmaticamente que tudo corresponde, que é fruto das conspirações. pobres incautos que somos: sentimos os ouvidos tirlintarem, as idéias ofuscarem, os impulsos invadirem. e nos cegamos. são combustível e engrenagem. sendo irracional, o desejo é razão de tudo. dele não se deve esperar limites e dos homens infertilidade nenhuma a qualquer semente.
e desejar é ser estúpido? sem desejo não passariam os homens e mulheres de meras máquinas? mas qual não é a máquina que somos, engrenados e movidos pelo desejo freudiano de possuir o ser e sermos quem possui?
o mundo perene com seus sofredores intermitentes é máquina. crer enxergar é pretensão desaforada dos nobéis cotidianos e dos escritores imperativos - como eu. perdoem todos a eles, que julgam possuir e ser, ainda que vivam na roda, sonhem nas correntes e morram nas fumaças. homens grandes, sim, são graxas: de nada são parte, mas donos do divino poder de parecer parar o mundo pela sua própria ausência. fiquem eles com as agulhas!
se aos medíocres cabe a máquina, reservando-se aos maiores parte do controle, não há demasiados segredos no sucesso de público do capitalismo, ainda que dele emirjam os frutos podres que a todos nauseiam. é a hibridização, por fim tão utópica quanto as teorias da igualdade, da saciação com o impulso de chegar o quanto mais alto, o quanto mais longe.

a pureza crucificada

foto: carol volpe

mêdô - carta à laura

veja
olhe nos olhos do outro
eles podem estar rindo que o resto do corpo não seja
e aí é coisa de olho mesmo
não veja a cor
não interessa
meça
conheça
veja quem te quer e escolha quem te mereça
daí deixe esse mundo estranho girar
seja feliz por vivê-lo sem medo
porque no escuro não há olho que enxerga
nem felicidade sem tempo, nem verdade
nem amor sem saudade, nem tesão
porque no escuro não tem coisa de olho
e se os olhos não enxergam
imagine o coração

versão música:

veja
olhe nos olhos e veja
eles podem estar rindo
que o resto do corpo não seja
seja você mesma
não veja a cor da certeza
a cor que não te interessa
mas meça
conheça
veja quem te queira
e escolha quem te mereça
deixa o mundo girar
seja feliz e viva sem medo
no escurdo você não pode enxergar
não, não
sem tempo
não há felicidade
não há perdão, não
sem saudade
não há amor, não há
e nem tesão, não
no escuro
não tem coisa de ver
e se os olhos não podem
meu bem
também não pode o coração

de cada um e de todos nós (fotografia-reflexão dos espelhos)


de repente, da despretensiosa mirada no espelho, ocupou-se de um só propósito. contava então com uns tantos anos – nisso não há quem possa se colocar com segurança – e enxergava toda sua vida em desenhos fincados na sua face. há uns bons anos podia contar as histórias de cada uma de suas rugas, nas quais arranjava devaneios que as justificavam, culpando as preocupações passadas, amiúdes na sobrevivência humana, provocadas pelo espírito frouxo de todos os seus benquistos, parasitas da sua capacidade de servir incondicionalmente cada um dos seus anseios e caprichos. ocorre que, de uns tempos para cá, tinha perdido a conta, não sabia porquê, mas não era velha de se conformar. fez força, reforçou cada fresta que carregava, olhou para cima e para os lados e, olhando para o chão, conformou-se entristecida com a derrota dos seus próprios ideais. não podia mais com aquilo, amuou-se na idéia de que ninguém além dela mesma era responsável por tudo. dispensou até os contos passados, não queria mais saber de histórias. o agora se fazia suficientemente duro com a tardia recém-descoberta. em seu íntimo sentiu-se superior por se assumir, que cada um deveria fazer o mesmo. e assim, como se lhe voltasse a visão dos olhos, porque há outras mais poderosas que ocupam nossa mente, percebeu que se via novamente, agora em uma poça d’água suja que o destino e um furo em sua barraca colocaram aos seus pés. ignorou que aquele espelho não era tão fiel quanto o outro. todo espelho era espelho, d’água, vidro ou cristal, e aquele, por natureza tão incompetente em lhe mostrar seus detalhes, não lhe trazia as mesmas rugas. arremessou o espelho inimigo para trás e aliviou-se na limpeza dos maus pensamentos que covardemente lhe acometiam. enamorou-se, fitou seu novo espelho como faz o maior dos fiéis ao seu deus, e passou o resto de eternidade que lhe faltava chorando as lágrimas da verdade, mas com o sorriso do triunfo humano nos lábios.

ode sem porquê

é que às vezes fica tão perto
que o resto já não ocupa a paisagem

é que às vezes fica tão intenso
que o eterno já é lugar de disfarce

é que às vezes fica tão incerto
que o tempo já faz fuga da felicidade

é que às vezes fica tão inquieto
que o silêncio já refuta a eternidade

o senão então abre entraves à fé
e a urgência já é ode sem porquê

Tabacaria

"...
Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como a uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de se estar mal disposto.
..."

pega-pega (música)

e agora josé
a festa acabou mais cedo
a bola parou de rolar
o peão não resistiu, caiu
e agora joão
o bem-te-vi pousou com medo
a corda só quer enforcar
o teto não aguentou, desabou

e agora, vai cedo embora, josé
sai dessa aurora, joão
e chora demais
sem mais

e agora maria
implora, maria
finge que gosta
e faz romaria, maria
e agora tereza
adora a tua beleza
não pára o teu rebolado
e enxota a certeza, tereza

então inté tereza
olha sua hora maria
samba na roda joão
mas e agora josé

e agora, vai cedo embora, josé
sai dessa aurora, joão
maria não chora demais
tereza não tem mais tristeza
tristeza
e agora, sai dessa tristeza, maria
você chora demais, seu josé
não tem mais embora, tereza
vai cedo da aurora, joão
aurora
demora na aurora, tereza
chora sem tristeza, josé
trai mas não cora, maria
corre mas não rende, joão
corre
corre agora, josé
dorme sem sono, joão
corta o cabelo, maria
prepara o vestido, tereza.

dos destaques e da luz (batalha-reflexão napoleônica)

Era sábado de sol e o pai andava leve, rodando o molho pelo chaveiro. O filho o seguia, sendo obrigado a dar dois ou três passos mais rápidos para não se distanciarem muito. Ao pararem diante da porta, o pai dedilhou as chaves até encontrar a que queria, enquanto o filho postou-se ao seu lado, rente à porta, com os olhos fixos na cata da chave, mas com a imaginação já dentro do quartinho. E, porque imaginação desbandada é coisa perigosa demais, teve que entrar correndo quando seu pai havia apenas girado a maçaneta, gritando como quem agradece aos Céus:
- Valeu!
O pai sorriu satisfeito, retirou a chave e, já esquecido pelas ânsias infantis que lhe haviam interrompido o descanso, voltou ao ócio que justificam aqueles obreiros de pormenores silenciosos e inesgotáveis.
O menino puxou a caixa do fundo do armário de madeira, destacada há tempos para o quartinho do fundo. Gostava do cheiro de pó e de desconhecido que lhe trazia o quartinho. Não faria questão de limpá-lo se fosse gente grande. A caixa verde de tampo vermelho se arrastou resistente sobre o pó, como fazem no íntimo os homens que se destacam do presente e tentam se agarrar ao passado. Quando a tomou plenamente, chacoalhou-a para demonstrar-se dono e levou-a debaixo do braço direito.
A descrição a faço para situar o leitor à história, que não passa de destaques de uma situação de minúcias humanas. Assim como o espírito humano é capaz de prender-se à mais insignificante razão para tecer toda a meada de sua vida, não há motivos para ignorarmos as minúcias que, ao menos, não fugiram a estes olhos. Ademais, essa explicação mesma é vã, não porque revela algo que a boa arte deveria deixar entrelinhado, mas porque todo louco facilmente acha uma explicação, que julga por si a última das verdades eternas, para suas loucuras.
A caixa era de papel, mas de um papel duro e nobre, como se podia perceber daquela que já resistira aos anos. Seu interior era desnudo, da cor pastel do papelão, mas não menos resistente. Nela estavam amontoados diversos bonecos de plástico também duro, mas sensivelmente menos nobre, que representavam soldados de distintas patentes e de duas armadas diferentes, além de alguns equipamentos que ensejavam os protagonistas. Esses, como dito, eram de dois lados. Um se distinguia pela cor rubra do paletó, outro pela azul. Todos eram de pele verde-musgo, e de idêntico corte das vestimentas. Os cavalos se diferenciavam pela cor de seus arreios, acompanhando à da sua armada. E, do mesmo modo, tudo que os acompanhava tinha qualquer detalhe cuja cor possibilitava que se lhe fizesse destacar para um ou para outro lado.
Abrindo a caixa, esquecendo de pronto o tampo, donde se destacava uma ave bela e branca, cujo contorno foi desalinhado pelo tempo e pelo manuseio humano, esparramou todo o conteúdo no tapete falsamente persa da sala de televisão. Ali não atrapalharia o trânsito dos moradores, mas tampouco estaria imune aos olhares curiosos. Era um campo de batalha localizado num vale composto por dois sofás marrons ao sul e ao leste, pelo móvel de madeira, que comportava a televisão, ao norte, e por um flanco a oeste por onde passavam os transeuntes.
Pôs-se, então, a destacar as legiões, com a abstração autista e a concentração absoluta que se manifestam tão típica e naturalmente nas crianças. Talvez ele, no fundo, nem levasse aquilo tão a sério. Mas talvez sim. E o mesmo para os soldadinhos de plástico verde-musgo que, se consciência tivessem, poderiam, assim mesmo, não pretender serem mais que o que realmente eram: peças de um brinquedo. Mas fato é que a guerra é a busca da morte, a resolução última dos homens e talvez, por isso mesmo, a única delas merecedora de ser considerada de forma séria pelos seus compulsórios pretendentes.
Destacou os azuis ao norte e os vermelhos ao sul, a infantaria à frente, entremeada pela cavalaria, seguidos pelas patentes mais altas, que o menino pôde reconhecer pela maior quantidade de adereços em suas vestimentas. Posicionou um ou outro boneco mais distante, alguns como observadores, outros como possíveis elementos surpresas, quando se viu obrigado a decidir para qual exército ele mesmo lutaria. Como comandante geral das operações ele não poderia estar dos dois lados, imaginava não ter o distanciamento necessário às ações para comandar dois times ao mesmo tempo. Ficou pensando por uns bons cinco minutos quando decidiu pelos azuis, e que o vermelho de sangue ficasse para o outro lado. Julgou que aparentar sangue não seria bom agouro a um exército vencedor.
Que iniciem o combate! Sua infantaria era boa, dava tiros certeiros e a cavalaria parecia-lhe oportuna. De início teve algumas baixas, que não lhe preocuparam por não comprometerem a formação do exército. A batalha estava equilibrada, com uma leve vantagem aos exércitos azuis. Para ele estava claro que a vitória seria uma questão de tempo, estava tudo sobre controle.
As pessoas que ali passavam detinham-se em olhar aquele emaranhado de soldados e logo desistiam por não entenderem sequer os propósitos envolvidos. Alguém chegou a questioná-los, porque além da curiosidade está a audácia humana, e foi respondido por um olhar de reprovação esguelha. Afinal, da parte do comandante, não merecia algum crédito ou atenção.
A luta foi minguando e os azuis logo lançaram mão de seus elementos surpresas, a fim de eliminar de uma mão o adversário. Os vermelhos, no entanto, resistiam bravamente, não acuavam. Mas foi diante de um pensamento que o menino estremeceu e se viu distante da sonhada bandeira branca - por parte dos vermelhos, claro –, que é o paradoxo final dos conflitos. Deu-se conta de que os soldados vermelhos não eram mais valentes ou melhores que os seus, pois eram todos verde-musgo. Eram mais persistentes pelo motivo singelo de que, em virtude da cor de seus uniformes, não reconheciam, em si e nos companheiros, derramamento de sangue algum. Não estavam nunca feridos enquanto lutavam e cada um continuava lutando até cair, acreditando que estava sendo acompanhado de outros tantos soldados absolutamente saudáveis. Foi sua derrota. Acreditou naquilo e àquilo creditou seu eminente fracasso. Embora tentasse demonstrar que a crença adversária era falsa, não podia convencer ninguém e nem a si mesmo disso. Com efeito, a desconfiança, principalmente, se destaca como luz naqueles que pretendem ocultá-la. Naturalmente perdeu, sem dar lugar à bandeira qualquer, senão a da honra de ter lutado até seu fim.
Foi justamente no momento final que seu pai, amado e temido como todo pai a uma criança, entrou no cômodo e recebeu o olhar suplicante e envergonhado do filho.
- Olha, pai, eu perdi, disse prestando conta de sua tristeza. Olha, morreram todos e sobrou... contou em sussurros os soldados vermelhos com o dedo indicador ... quatro dos outros.
O pai parou e olhou com profundidade a cena. Ameaçou continuar seu caminho, mas deteve-se e, sob o olhar estranhado do filho diante daquela expressão, resmungou em tom vanglorioso:
- Mísero... e que tu querias brincando com a morte? Que pensaste tu?

dos ipês e do amarelo (presente-reflexão da natureza)

Hoje os ipês floresceram amarelo. A montanha ficou repleta de amarelo-brasil, a montanha de verde-pasto, de negro-rocha, de marrom-cupim, agora também é amarelo-ipê. Minha máquina fotográfica não quis pegar aquela cor, disse que a luz não estava à altura, depois porque precisava de filtro, porque seria ofensa a fotografia irreal de amarelo-ipê como amarelo-normal. A realidade bela, a realidade florescida de ipê amarelo precisava de filtro para sair fotografia, precisava dizer xis para parecer bela, para valer a pena o amarelo do ipê. O agora-já-se-foi das minhas retinas foi tudo o que me foi permitido, fui abençoado pelos ipês amarelos e alejado pela minha máquina fotográfica. Mas os ipês amarelos estão-estavam tão belos, as flores estão-estavam tão belas nos galhos, no chão. Então, o tapete verde-capim ficou amarelo-flor e as flores amarelas caídas fizeram o vazio dos galhos, que furavam o céu-pano-de-fundo, que parecia querer engolir os indefesos galhos, que choravam amarelo no verde-capim da montanha. A primavera é bela, mas o amarelo dos ipês floresce lá pelo fim do inverno e o ipê-amarelo chora o fim do inverno, porque a luz do pôr-do-sol-de-inverno é mais do que amarela e deixa as flores dos ipês amarelos mais belas no verde-mato ou no galho que rasga o céu. É bonito de ver o sol que estapeia a encosta, que encosta no céu, que abraça os galhos dos ipês de pés amarelos que já têm outros tons. É bonito de ver o verde também, mas o verde você pode ver também no outono, que ficou belo com a chuva que o verão presenteou. Mas o presente dos ipês amarelos já é futuro e passado no verão e no outono, é presente que fica e que se vai, e volta. E espera passar a primavera, o verão, o outono, explode no inverno e passa deixando meu coração amarelo, que desbota na primavera, no verão, no outono e o inverno bota mais amarelo no meu coração. Meu coração andava tão desamarelado, mas agora os ipês floresceram amarelo.

em mim sem fim

ó, escrevi tudo isso aí
disso aí fiz o ó
olhei o mundo aos meus pés
os mestres deixei pra trás
fiz bonito, viu
bonito que só vendo
era só botar ponto final e pronto
não havia pedra no caminho
não tinha alma na terra
que resistia a um sorriso falso
intelectual, mas falso que só
mesquinho quase
afinal, ninguém é de pedra, né
viajei muito, sabe
tudo grátis, uma beleza
acumulei muita milha
fiz muito aprendiz, muito amigo
me pediam aprovação até
- olha só, vou arriscar umas palavras nesse livro...
- olha aí, vê o que você acha disso...
sabe, até lia coisa ou outra
viu, não conta pra ninguém não
mas não lia todas porque eram ruins que só vendo
eu mesmo não comprava essa idéia de livro de palavra arriscada
coitado de mim, imagina
muito risco, compreende
essas coisas contaminam a gente
olha, não vá contar isso pra alguém, viu
resolvi por bem parar, então
não li nada além da minha própria poesia
ela ficou assim que só ela
uns dias me pedia companhia
mas logo se esquecia dessas idéias sem juízo
calava bonito, de dar gosto
vencia o próprio desejo, quem diria
eu ficava orgulhoso, precisa vê
mas foi numa noite que me abandonou
foi sem dó no escuro que o deus do mal ofereceu
fiquei eu só que só eu
tive notícias um dia
mas me doeu tanto o coração
saber que podia ser feliz sem mim, sabe...
ih, mas fiz mais que você nem faz idéia
tratei de ter um novo amigo
suei de um tanto, mas encontrei
dei um trato, ficou um brilho
é pena que dele não posso dizer muita coisa
é tímido, desses gênios que não se encontra por aí
diz que queria ficar assim mesmo, escondido, fazer o quê?
entendi, pois é, disso não tem como ser contra
digo, melhor um domo sem saída que uma vida sem dono, né?

sábado de feijoada

eu não estou fazendo nada
mas meu irmão mandou me avisar
que ontem foi dia de dizer não

eu não estou dizendo nada
mas meu irmão mandou me dizer
que hoje é dia de fazer feijão

eu não estou querendo nada
mas meu irmão mandou me falar
que amanhã é dia de sambar

eu não estou ouvindo nada
mas meu irmão me mandou cozinhar
que amanhã é dia de querer feijoada

a rua que bifurca (pequeno estudo)

à luisa

a rua anunciava escura
luzia muda a labuta
julgamento universal das deusas
pendular mundano da lua
ângulo da loucura
disputa da nuca
aluga, esmiúça
anuncia a chuva noturna
judia amiúde
municia diuturna
luta do nunca
Judas da ajuda futura
Buda da tortura
única e muitas
urtica e unhas
ilusão mundana
testemunha que saúda
a pergunta em dupla
desconjura dura
dura crua
alguma culpa
outra pintura
pouca desculpa

soneto dos vagabundos (outro pequeno estudo)

foi deus quem no último dia
sentou cansado nas heras da criação,
vendo que era paisagem sua vocação,
fez de tudo calmaria.

como um velho experiente,
que com tempo ganha sabedoria e paz,
percebeu que só perderá quem tudo faz
e ganhará quem for inerte.

então eu pobre mortal,
quem sou eu para questionar
o nosso grande senhor

e inventar de trabalhar,
ignorando o descanso
que o nosso senhor fez santo?

o inimigo (c.b.)

o tempo é uma máquina corrediça
que vai deslizando em traçados trilhos
num ritmo próprio e sem empecilhos
para fazer da vida uma carniça.
se na juventude ele nos atiça,
nos faz viver o mundo com mais brilho,
na velhice nos obriga a pedi-lo
que mude seu passo e faça justiça.
e se no fim a mão que lhe afagou
for lhe condenar à solidão e ao pranto
mostre que o tempo não lhe tirou o encanto
vivendo os momentos que não sonhou
viver quando era somente futuro
o tempo morto de viver seguro.

trechos do projeto "o carteiro"

(...)
e porque a vida me fecha e trai
e me trava e me flecha
e nas trevas me falaceia
fervo o café, faço a ceia e me entrego ao sono
enquanto o passado dorme incerto nos sonhos do futuro
de morte cínica e certeira
sorridente como o carteiro que chega
essa correspondência prematura que me motiva
e me faz insone e fracassado
e oscila o comando das minhas certezas
até me entregar aquele envelope branco
que passa todo dia até um dia parar.
(...)

o meu deus não é de todos
eles não seriam capazes de me acompanhar
o de ontem faleceu e o de amanhã ainda nem nasceu
são muros instransponíveis que cedem na primeira hora
nos primeiros estalos de loucura da manhã
tiro fotos, faço rabiscos e barulhos
tenho a mente sã e o corpo maltratado pela minha preguiça
minto para mim mesmo tão facilmente quanto minto aos outros
e eles fingem que acreditam como eu ecôo batendo palmas
e faço as pazes em mim
esperando a redenção do céu ou do inferno
o que não vale é ficar sem teto
sem ter onde voar leve ou cair duro
se queres te levo comigo
mas terás que ser melhor
bem melhor do que eu sou
porque tudo isso já fui
e não sou homem de ser tudo de novo.

samba-tango de duas notas só

fiz uma musiquinha ontem, com meu amigo Felipinho. Estávamos lá em casa bebendo, quando eu disse a ele que havia pensado em uma melodia bem simples, pobre eu diria, mas que eu ainda tinha que fazer a letra. Uma hora pequei o violão (que vocês sabem que não sei tocar...) e mostrei a melodia. Então peguei o papel e propus fazermos a letra junto. A princípio é só a base das notas (um dedilhado, uma corda de cada vez, não sei o nome disso). Quando toquei toda a nota, quero dizer todas cordas, saiu um som que me lembrou o tango. Então disse que íamos fazer um samba-tango. Daí saiu a seguinte letra:

uma garota
a margarida (e isso não tem nada a ver contigo, Marco... só agora percebi! hahaha)
uma noitada
uma flor morta

a dor sozinha
a flor de volta
mas com espinho
não só retorna

traz um consigo
um cravo branco
muito mais branco
que o meu destino

uma garota
a margarida
uma noitada
uma flor morta

uma flor morta
mais um espinho
no meu destino

olha só

o agora passou
na última frase
não, na penúltima
não, na antepenúltima

assim



vim e fui das tampas dos bueiros
e o nada se iluminou com os dizeres branco-no-preto:
tudo se desconstrói no fim

assim, com fim no fim
tudo no início
desconstrói
assim

diálogos interrompidos

oi, meu nome é joão

mas nessa cidade sou mais joão

não, não... não sou mais eu

eles é que são mais eles

ouça bem, sou mais joão e menos pedro

não, ai meu deus, tira esse fone de ouvido

menos pedro, pedra são eles
joão?!
oi?
não, você não, desculpa.
viu?

tudo bem, pode atender, vai, que vou indo já

tá bom, tá, tchau

homem de sorte

trouxe do céu seu último sonho
on-line, sem delay
se fez de inteligente
pensou, foi ator e bacharéu
porque na vida a gente é assim
pensa, reflete, imita que sente
até mente um não-sei de quem duvida
mas sabe
que há morte onde há guerra
mas luta
que tem sorte quem assanha
mas reza
que a dor do amor consome
mas ama
que fast-food é medonho
mas come
que sonho é hollywood
mas sonha

dos josés e das antenas (festa-reflexão machadiana)

o seu josé já ajuntava seus oitenta anos de grandes repercussões. nunca fora sujeito de ficar calado, mas desprezava discussões de botequim. o s. josé tinha jeito e espaço com a imprensa, era homem culto, de palavras bem estruturadas, inclusive no que diz respeito à oportunidade de serem lidas. s. josé vivera toda sua prestigiada vida naquela cidade. vida que comportou, e veja que tratamos de sujeito das qualidades do s. josé, grandes viagens para grandes cidades, pólos culturais da humanidade da esquerda que ela mesma criou. embora já de idade para muito além do equador da vida, aparência singela e gestos ingênuos, s. josé não era homem caturra, mas antes sujeito antenado ao, dizia, terceiro mundo que vivia: o primeiro quando aqui se dera, o segundo quando aqui viveu e o terceiro, pelos tempos de agora, quando já aguardava a morte com a angústia de se sentir cada vez melhor, cada vez mais perto de ver tudo isso desperdiçado. mas que fique claro que s. josé não era sujeito mau humorado, muito menos velho rabugento. via sim a vida com a vista de quem vai ao céu por determinado astro. era, portanto, e de certo modo, um astrônomo, ou um satélite que fotografa a terra com as lentes do espaço. s. josé tinha um humor assim ácido, como dizem. era de comportamento agradável e cordial, mas a ele não escapava nada, nenhum desvio, nenhum corretismo.
agora que o leitor ao s. josé já foi apresentado, conto-lhes uma breve historinha. já no seu último ano de vida, sim, s. josé já não está entre nós, ele andava por uma antiga ruela de sua cidade, onde costumava ir quase que pontualmente à livraria, e observou como ela havia mudado desde os tempos que a ela fora apresentado. já não era mais ruela, já não era mais local de prazeres gentis, conversas soltas, cumprimentos e saudações. já não era mais lugar que hoje se diria um lugar de sábado a tarde, ou de domingo de manhã. já, enfim, não era mais a mesma ruela, e isso só agora lhe havia tocado. justo ele, observador rapino da realidade humana, deixou-se esvair da paisagem urbana que lhe satisfazia os dias. acompanhado de um velho amigo, chegando eles à livraria, fê-lo parar ao pé da porta e virou-se para a rua, as calçadas, as vitrines, para os transeuntes que andavam apressados e que tampouco tinham tempo para pedir as desculpas pelo esbarrão dado. s. josé, já com dificuldade de se expressar com a fala, apontou para a frente com sua bengala de madeira nobre e confessou ao velho amigo: veja, meu caro, uma festa; ao que o velho amigo lhe olhou com o espanto pacífico dos idosos, e observou que s. josé dava um sorriso de olhar no horizonte, que só poderia ser respondido pelo silêncio. então s. josé virou-se de frente para o velho amigo, que estava ao seu lado esquerdo, ficando a meio caminho da porta da livraria, e esgotou o assunto: festa de estalagem, todos dançam, ninguém se conhece.
homem de sorte
trouxe do céu seu último sonho
on-line, sem delay
se fez de inteligente
pensou, foi ator e bacharel
porque na vida a gente é assim
pensa, reflete, imita que sente
até mente um não-sei de quem duvida
mas sabe
que há morte onde há guerra
mas luta
que tem sorte quem se assanha
mas reza
que a dor do amor consome
mas ama
que fast-food é medonho
mas come
que imaginação é hollywood
mas sonha
s. josé

de costas

tudo escureceu
enfrentei o breu de frente
fui homem, não tive medo
ela disse que me queria macho assim
e assim veio atrás de mim
mas ela mudou
não gosta mais da minha coragem
não fala mais comigo
e responde ao meu chamego
virando as costas para mim

imortalidade

foi no dia que o santo g. encontrou o mago b., e já não havia mais motivos para desentendimentos, que a conversa pôde ser mais leve.

foi quando g. disse para b.:

- está um calor dos infernos!

e b. confirmou:

- de matar!

A Fortaleza


Sim, já comprei alguns, mas agora estou revendendo. Quer comprar?

dispensáveis

Vamos, amor, vamos, que o tempo não é coisa que se brinque. Brincadeiras à parte, não quero esperar amanhã para lhe ver. Vamos, vamos logo com tudo isso. Amanhã pode chover, amanhã pode morrer alguém, pode arrumar compromisso inadiável, vai saber. Logo logo você vai estar ocupada demais com as suas coisas e com as coisas dos outros e eu vou acabar ficando de lado. Então deixe tudo isso de lado agora e vamos nos ver. Eu também tenho lá minhas coisas, mas acabo sempre arrumando tempo para você, você é que não deixa nada de lado e acaba me deixando. Você pode me deixar, mas hoje acho que devíamos nos ver. Não pense demais que você vai acabar vendo intenções estranhas e razões terceiras para não me ver. Vamos, deixe de sei-lá-não-sei. Eu sei que o melhor é a gente se ver, aí depois pode ir cada um para o seu lado, que tem lado para todos lados, mas agora quero você do meu lado. Não é pedir muito, é? A gente sentado na grama, observando o mar, uma árvore ao lado, alguma coisa singela para comer e outra para beber, um carinho de vez em quando, quem sabe um beijinho na bochecha? Mas quero mesmo ouvir sua voz contando suas histórias, fazendo jeito para dizer o que gosta, revoltando-se com o que não gosta. É disso que gosto, é isso que quero agora. Vê, não tenho jeito com essas palavras, não quero mais dizer nada. Tudo o que eu quero é estar com você, ainda que o silêncio seja nosso único assunto. Mesmo que você só tenha olhos para o mar ou para um eventual pôr-do-sol, vou ter sempre os olhos para você olhando o mar e o pôr-do-sol, que coisa mais linda. Vem, me dê a sua mão, me deixe acariciá-la e ficar em silêncio, para que nada mais atrapalhe a sensação de lhe ter. Vem, me deixe ficar quieto. Vamos, deixe-me calar essas palavras cansadas porque o amor nunca se cansa.

Sem título



Dia desses, no meio da noite, cheguei em casa.
Entrei e, de repente, me tomou uma sensação incrivelmente boa.
O ontem parecia leve, o amanhã sem importância.
Era tudo como havia imaginado, pedaço por pedaço.
Olhei para tudo aquilo e vi
Fragmentos de mim, minha História viva.

Versos baratos

Hey, Obscura

Confesso a você, mais uma vez: meu pecado foi desejar.

Perdoa...

Perdoa minha ingratidão.

Perdoa até pelo que não fiz, ou principalmente.

Põe fim a essa mágoa,

Enfim, magoa-me.

sábado na feira (a metamorfose caipira)

fugi das águas dos automóveis

mal fez sol veio a chuva

em meio à fuga caí na feira

saí da ladeira para a beira do rio

pro menino prometi uns trocados

e me meti nos barracos com esbarrões

pra salada os maços do grião e azedinha

e do çafrão e cebolinha para o tempero

cortei o bacaxi pra experimentar

e me fez bom ar a doçura do pesgo

e a formosura do cesto de mimosa

e crespa e mericana que haja alface

do macujá fora da época fiz desfeita

disse da mêxa que tava brilhosa

e da alfafa grossa que sobrou no sol

que ficou qual anzol torta e esgarçada

na vorta co’as mão cheia de sacola

evitei parar nas uvitáia sem caroço

mas a saia da moça não resisti

e fiz que não vi quando o marido olhô

e já de cansado fui-me embora

de carambola e manga-espada

e pesada que tava as gibêra que levava

derradêra a vaji pra galinha só mais levei

e mais uns jiló verde pra senhora

que minha hora já tarde era

pra tar de paqüera ir tira-gostá

e a gira de porca rifá c’o aurora

móde que nome assim é de sorte

coforme que explicô sô barbosa

que for’as muié nossa

as ôtra são mió de boa

mas só por pôca hora

e de leitoa em prumo

prumei o meu rumo

e fumo pra casa

pra móde durmi

sem qui a muié

isperta qui é

sentisse o mé

qui tomamo no bar

o discanso do lar

Expedição














Sal, tempero de dor

De repente
Do peito entupido
Do coração engasgado
As lágrimas me vencem os olhos
Derramam-me à boca
Gosto de você

Saio à rua
A tua procura
O sol me queima o corpo
O suor encontra a boca no meu rosto
Não posso te encontrar
Gosto de você

14:30


Às 2 e meia da tarde
Descaradamente
Começaram a se despir
Não conseguiriam esperar
A noite chegar
Não se prendiam a convenções
E, afinal, hora não é coisa a que se prenda
Naturalmente deixaram as pétalas cair
Às 2 e meia da tarde

Comentário QSEDQ

Recebemos o seguinte comentário em uma das nossas postagens. Independente do desconhecimento da fonte (pode ser um mero comentário aleatório, spam), achamos adequado ao tema deste site. Afinal, que sabemos nós do que?

Anônimo disse...
Dear Mr. Eaten, I do not know if you are Mr. Jones, but if you are, I must say your wits are astonishing, unlike your commonplace want-to-be-art. You would be better off as a talk show host. In case you think this is a joke, please let me be clearer. These last pieces (and I mean both the poem and the one in installments) are so embarassingly bad that I felt I shoud tell you how happy I am for not being like you. I am actually even gladder that you have no sense of ridiculous and publish it all, to my sheer delight. Do not take this as constructive criticism, since I am not particularly interested in your improvement. In fact, you disgust me in every way. I shall waste no more time talking to you, so do not expect further communication from me. See you, perhaps.

João, escreve para essa foto

Peripécia Virtual do QSEDQ

Parcos e não menos Prezados Leitores,

O nosso mais brilhante comentador respondeu nossa postagem, demonstrando que sua manifestação anterior não era spam - que ofensa! - com uma bela metáfora (que traduzimos aqui, para bem do vernáculo): Palavras são prata, silêncio é ouro. Pois que, no ofuscante brilho prateado de suas palavras anglicanas, ele(a?) se sentiu honrado em ver seu comentário publicado. Pois que honra, não, ter as palavras publicadas no QSEDQ! cujos autores são Mr. Eaten (comedor?) e Mr. Whoever (sei lá?) e cujo siginificado, vocês sabem, é só um modo educado de dizer "sim, nós somos ignorantes".

Fato é que ficamos impressionados com o perfil do nosso leitor, de modo que empreenderemos uma busca para encontrá-lo e torná-lo nosso líder. É que em nenhuma das nossas 60 postagens conseguimos expressar tão bem o sentido deste site, enquanto ele o fez, se bem que em outra língua, em um único inserto. A busca pelo universo virtual deverá durar no máximo uma semana, esse é o nosso prazo. E durante esse tempo não teremos postagens. É o sacrifício a que estamos dispostos. Sabemos que o entrudo batuca nos ouvidos, mas prometemos uma quarta-feira nem um pouco cinza às senhoras e aos senhores. Nos aguardem, leitores, em breve, ojalá, teremos um novo líder, aquele que, sem desprezo aos atuais leitores, tirará o QSEDQ da míngua!
Aguardem a próxima postagem.
QSEDQ "Team".

Anonoymous said...
Words are silver, silence is gold. I am honoured to see my litte notice published on your weblog, which in fact made me forget both my promising not to write and the litte proverb up here. I must return, however, for truth's sake. This is neither hoax nor spam. And you, Mr. Whoever, are not the one who should think about that piece of writing. By the way, that comment on his wits, or yours, for that matter: never mind. I guess you are dying of happiness. I have heard people like you pseudo-artists enjoy being criticised, it adds to the misery you want to express. I would go on and on, but you know what? It is just not worth it. See you.

Branco no Preto

Promessa feita, promessa cumprida. Ao que nos estava às mãos (ou melhor, ao mouse), empreendemos os melhores dos nossos esforços. A desgraça, contudo, nos esperava sorridente, ignorando nossa voluptuosa tarefa, desdenhando nossa imperiosa necessidade de encontrar um salvador, que nos resgataria do porão das artes, ofuscaria nossos olhos com a luz autêntica do big-bang artístico, traria os mais elevados dotes anglicanos e franceses ao nosso penoso ofício.
A busca nos levou a desvendar mistérios profundos, incursionar pelos confins do mundo virtual e desembocou em grandes surpresas - ao fim decepcionantes, para bem da verdade.
Assim, tiramos férias do trabalho, desligamos nossos telefones celulares, programamos respostas automáticas em nossos e-mails, abandonamos este site às mínguas e partimos para nossa aventura: encontrar nosso líder em uma semana.
Após diversos contatos (tivemos, inclusive, uma pequena ajuda de organismos internacionais, mas que em nada nos valeram), conseguimos, enfim, alcançar o sopé do que nos pareceu o Olimpo do mundo digital. Vocês deviam ver aquele monte de bits, com a luz binária refletindo seus arbustos de javas, flashs e até os já raríssimos c++. As nuvens cobrindo seu cume, nos atirou à trilha que nos alçaria ao Who's Who do mundo virtual. Ultrapassamos perigos e ameaças, furiosos https, ftps peraltas, temidos htmls. Nada, contudo, pôde deter o QSEDQ em sua busca pelo Iluminismo pós-moderno que nos foi acenado pelo nosso então sonhado líder. Empunhando scraps de igualitè, fraternitè et libertè, seguimos robustos ao nosso objetivo - tudo para o bem dos nossos estimados leitores. Durante os momentos de paz, íamos colorindo o que seria nosso futuro, guiados pelo líder. Ah, quantas glórias imaginamos! Quantas homenagens merecemos!
Ultrapassamos as últimas nuvens, onde nenhum ser virtual poderia alcançar sem antes merecê-lo. O que se passou, então, foi, caros leitores, um arroubo que levou nossas ilusões ladeira abaixo - sim, ali, olhando para baixo, o Olimpo tranformou-se na mais delgada ladeira de um morro carioca. Ah, onde nos levou nossa ambição, nossa ingênua ambição! As lágrimas escorriam ladeira abaixo, entupindo bueiros, servindo aos barquinhos de papel, carregando consigo nossas esperanças - infantis, confessamos.
Nosso almejado líder, sentado sobre uma poltrona "President Confortable", com os pés apontados para o céu, cantarolava, com ares sobremaneira superiores:
- "Mas não faz mal, é tão normal ter desamor, é tão cafona, sofredor, que eu já nem sei se é meninice ou cafonice o meu amor..."
Foi o que bastou aos nossos ânimos, já tão abatidos pela luta travada durante todo o caminho. Olhamos o horizonte de sites, blogs, orkuts, msns e, cabisbaixos, conformados, contrariados - imaginem vocês! - miramos nosso velho QSEDQ e não olhamos mais ao redor. Chegando aqui, tratamos logo de relatar-lhes o ocorrido para, sentenciado, nunca mais tocarmos no assunto. Que siga a carruagem, que os cães continuem ladrando, os amantes amando e nós, escrevendo, enfim, do nosso jeito mesmo. Boa quarta-feira, cinza, sim.
Equipe do QSEDQ.

Conformol

Z. diz:
pq chega de sonhar?
W. diz:
sei lá... sonhos são sonhos. não é vida.
Z. diz:
mas claro, não é SÓ vida, mas faz parte, não faz? só tem que saber dosar...
W. diz:
num sei dosar, sou bem desmedido nessas coisas.
Z. diz:
mas se vc se convenceu disso, então tá, vc tem que se convencer que na essência vc sabe, que vc tem o meio termo. não dá para vc ser algo que não acredita..
W. diz:
exatamente. num dá pra sonhar muito. to meio chato hoje.
Z. diz:
to falando isso pq tb sofro da mesma coisa...
W. diz:
de vez em quando vivo outras realidades. sei lá. ruim voltar pro normal.
Z. diz:
entendo completamente, vivo muitas realidades, quase ao mesmo tempo...
W. diz:
e depois me vejo obrigado a viver a minha vida. frustrante.
Z. diz:
pois é, mas essa é a unica vida que vc pode viver; e é isso que vc veio fazer aqui, nao é?
W. diz:
não sei. não sei mesmo se é isso q eu queria fazer.
Z. diz:
não é essa a questão, a questão é que vc está aí pra viver, e se tem algo errado é vc que vai mudar na sua cabeça...não é a faculdade, a familia, é vc...aí vc tem que ter a consciência de que se isso está aí, beleza, vamos enfrentar vivendo bem, intensamente..
W. diz:
sim... vc acabou de responder o porque do "chega de querer sonhar"...
Z. diz:
mas viver é sonhar tb...
W. diz:
tenho q começar a viver. já me adiei por muito tempo.
Z. diz:
boa. vai atrás da sua boa-venturança, e aí tudo dá certo.
W. diz:
exato. mas vamos com calma nos sonhos, né... e o q o senhor tem feito a respeito disso?
Z. diz:
ainda estou na fase de tomar consciência, no processo de me fazer acreditar que as coisas são assim, acreditar no sentido profundo mesmo... pq já acredito, mas a minha mente ainda não tomou isso como uma premissa do processo, entende?
W. diz:
entendo. deve ser difícil aceitar isso. acho q ainda não passei por essa fase de me impor o conformismo. tomei consciencia de q devo viver.... ainda falta muito
Z. diz:
não é conformismo, não assim do jeito q vc diz, se não tudo seria conformismo, só dependendo do ponto de vista... vc se conforma em sonhar...não é? o que eu digo não é conformar, aceitar a vida do jeito que ela vem pra vc, ao contrário, é vc fazer acontecer aquilo que a sua essência de mostra, é a busca da sua boa-venturança.
W. diz:
mas de alguma forma seria aceitar a realidade pra construir a sua dentro dessa. pra mim a primeira aceitação é um tipo de conformismo. conformismo compreensível e tolerával, mas conformismo
Z. diz:
assiste o filme Vinicius...ajuda nesse processo de consciência.
W. diz:
o filme tá nos cinemas ainda?
Z. diz:
tá sim, começou essa semana se não me engano
W. diz:
blz, vou assistir.
Z. diz:
mas a vida é uma invenção, não é? e aí tudo é conformismo, vc se conforma como que vc inventa para sua vida. vc pode inventar de ter uma vida boa ou de inventar de ser ruim...depende das razoes que vc considera as certas, mas no fundo não há razão certa ou errada, existem pessoas, e as pessoas são diferentes...
W. diz:
tudo depende do referencial. de como se enxerga a realidade. isso chega a ser clichê. é verdade, mas pouco aplicável. parece economia.
Z. diz:
esse negócio de a vida é uma invenção, por exemplo, o ferreira gullar falou isso lá, eu já intuia isso pq vinha com essa idéia de que cada um cria sua própria razão, mas ainda não tinha evoluido meu pensamento para esse nivel...ai quando ele falou me deu um estalo..
W. diz:
como corrigir a miopia é o ponto mais prático e que me interesa
Z. diz:
claro q depende do referencial, nem poderia ser de outro jeito...a gente depende de referenciais para compreender as coisas, vivemos num mundo que tem tempo e espaço, se tiram uma dessas duas dimensões vc perde referencial e seria impossível entender...então vc só reconhece a vida pq existe a morte e só reconhece a luz pq existe o escuro..e etc... então há esse referencial primário, que é o oposto. e o referencial que é a pessoa, cada pessoa é um filtro único da realidade e só ela pode escolher como filtrar...
W. diz:
mas uma questão anterior a essa é como enxergar a vida se o que eu vivo na maioria do tempo não é real. ou melhor, como mudar essa minha visão de mundo sendo q vivo outras realidades.
Z. diz:
mas é vc que escolheu, de um modo ou de outro, enxergar assim, vc que escolhe seu filtro. então vc vai lá e muda isso. não é um processo fácil, o processo de mudança sempre pressupõe sofrimento, mas a gente só reconhece a boa-venturança pq passamos pelo sofrimento... é isso de opostos... mas vc tem que ter a consciência de que vc pode mudar isso, se vc não acreditar...
W. diz:
putis Z.... isso se mostra tão pouco prático. a filosofia sobre o assunto é perfeita. parece q estamos lidando com modelos de economia q na se aplicam fora do mundo ceteris paribus. o mais difícil da mudança tem sido a falta de identidade. é obvio mas no meio do caminho as pessoas se perdem. e voltamos ao zero.
Z. diz:
calma, vc tem que seguir passos, aí vc enxerga como isso é tão real que a realidade que vc vive é a que não é real. primeiro vc tem que ter consciência de que vc é quem manda, da sua força (deus). depois de que vc tem problemas para resolver e eles são tais e tais, e que essa solução de problemas é algo completamente normal na sua vida... depois vc tem que querer mudá-los, resolve-los. mas veja que a consciência é diferente do conhecimento e do simples querer...é algo bem profundo, arraigado
W. diz:
descreva o processo de mudança. aí q está o gargalo. o planejamento e as metas são aparentemente simples
Z. diz:
o processo de mudança é consequência da consciência. talvez o primeiro passo seja conhecer voce mesmo, mas isso é tão dificil que eu diria que ele é um passo único que vai paralelo, por tuda a vida.
W. diz:
discordo.
Z. diz:
mas não adianta querer enxergar o fim sem ter cumprido o primeiro passo, quero dizer, não adianta chegar antes de dar passo por passo...e cada um tem que ser dado de forma completa, segura e consciente...foi isso que eu aprendi na escalada
W. diz:
a implementação de mudanças é um processo que se comunica com a consciencia e com as metas, mas que se depara com uma parte prática e real mais traumática e imutável. é como mudar a cultura organizacional de uma repartição pública. pode fazer o planejamento mais perfeito do mundo, mas quando se chega no dia-a-dia, as coisas são diferentes
Z. diz:
lá vem vc com seus conceitos economicos, os quais não tenho conhecimento para analisar... a repartição pública é outra história, existem vários elementos ali, vários filtros.... estamos falando de vc e só existe vc que manda em tudo que há em vc, mas para isso acontecer vc tem que acreditar que vc tem esse poder...aí pode ser que vc nunca vai acreditar, ou vai acreditar amanhã, ou daqui a 50 anos, ou vai nascer acreditando...isso uns dizem que é biológico (acho que jung fala isso, sobre os arquétipos), pq tudo vem do que vc é formado, no nivel biológico..
W. diz:
acho q aqui se estabelece a nossa maior diferença. não aprendi a ser uma pessoa independente. não sei ser só eu. o meio é muito importante. na minha vida tem muito de determinismo. Ctrl+Alt+Del
Z. diz:
mas não adianta achar que não tem determinismo, o que muda é como vc filtra isso...é impossível se fechar a isso, ser opaco, negar a realidade exterior...mas vc considera as coisas do jeito que vc quiser, dependendo das razões que vc tomou para vc...
W. diz:
preciso pensar mais nessas coisas. amadurecer algumas idéias. dosar não é o meu forte. preciso pensar mais na razão determinismo e independência.
Z. diz:
vc tem que tomar consciência de que vc e só vc manda em vc mesmo... e que, então, vc pode mudar seu filtro... mas não disse que é fácil nem rápido... há muito conflito durante isso, mas fazem parte.
W. diz:
fazia tempo q não tinha uma conversa assim.
Z. diz:
tem um poema lá no QSEDQ que fala sobre isso, chamado "só", depois leia os comentários, eles falam sobre isso tb.
W. diz:
certo... vou deitar pra pensar um poco sobre essas coisas. depois nos falamos. valeu pelo papo. abraço.
Z. diz:
vai lá, abraço.

carpe diem

foi quando ele comunicou a todos que iria se suicidar dali a um mês.

vô te levá

vô te levá
pronde o rio começa a curvinhá
pronde o passo-preto prana de avuá
pronde o mio-verde num pára de brotá
nem de crescê

vô te levá
pronde o sol num vai ardê
pronde o vento num vai gelá
pronde a chuva num qué cedê
i nem moiá

vô te levá
pronde o amô num vai isquecê
pronde a sôdade num vai cortá
pronde o dia é sempre amanhecê
i intardecê

vô te levá
pronde as cascavé num qué mordê
pronde o mel tá mais doce de tomá
pronde o céu tá mais belo de se vê
i num cansa de oiá

vô te levá
se ocê quisé, minha frô
pronde vamo si alimentá
da fé que vai brotá do nosso amô
ocê vai gostá

ladeira (música)

aquele menino mulato
garoto maroto
rosto de beato
quis subir a ladeira
fugir do marasmo
estranhou nosso mundo
se vestiu de farrapo
fez valer a gorjeta
e careta de ódio e de frio
pela bereta do soldado
se sentiu assaltado
apurrinhado
escancarado

ele subiu a ladeira
até não quis mais descer
achou besteira o que viu
até tentou esquecer
desistiu da vida inteira
viver
partiu, não ficou de bobeira
vai ver

não entendeu o desmando
olho pro céu azulado
quis ver o sol amarelo
ficou com o olho ofuscado
sentiu a cuca queimando
não viu a dona do lado
caiu no chão deslizando
aquela ladeira pra baixo
gostou do mundo girando
ficou na rua deitado
quis esquecer a ladeira
viu tudo acabado
mudou o rumo da vida
não quis olhar mais pro lado
esqueceu da gente querida
virou as costas de sarro
virou pra sempre a esquina
o garoto mulato
engraçado

ele subiu a ladeira
até não quis mais descer
achou besteira o que viu
até tentou esquecer
desistiu da vida inteira
viver
não ficou de bobeira e partiu
vai ver

Conversa com leitora sobre "fora do caminho"

Leitora: Lendo o texto, eu já fiquei meio com o pensamento direcionado pelo que conversamos no outro dia. Pra mim, a parte da terra vermelha e do capim dourado significam um pouco daquelas "fôrmas" das quais vc falou, que são bonitas, são certas, todos gostam, mas às vezes podem não refletir a realidade. Ele tá cansado da aparente "perfeição" e quer buscar outras coisas, que seja para ter que ir sozinho algumas vezes, que sofrer, que estar "esfomeado de sede" e, com isso, por muitas vezes, não conseguir nem matar a sede e nem a fome. Mas é possível que em alguma momento ele fique satisfeito? A "trilha marcada" tb é a mesma questão das fôrmas. Mas acho que ainda preciso ler mais o final para tentar entender melhor. Será que significa que não dá para tentar mudar? Que acabamos voltando às fôrmas? Ou quer dizer o oposto disso? Ou outra coisa totalmente diferente? Ah, e o "pelo que fora do caminho" tb pode ter dois sentido, de "pra fora" ou de "foi", não? Mas não entendi o que é "descongou o congado". E por que ele termina como santo? É santo pq admiram a coragem de tentar sair da trilha? É santo por agüentar as dificuldades?
J.P.Cilli: Pois é, a questão da satisfação é um ponto interessante...acho que ele resolveu sair de onde estava pra buscar sua satisfação pessoal, sair do caminho, pq talvez era só o jeito de fugir do mundo, de não enfrentar as coisas que ele vinha enfrentando, mas pode ser tb que ele cansou do caminho e quis sair, e sofreu, mas tb teve bons momentos. no fim, ele têm satisfação (não sei se ele morreu...) pq as outras pessoas vêem nele algo que elas não podem ser, por isso ele vira santo, por isso a cova que desgosta os humanos....ninguém quer entrar nela, mas aplaudem os que entram, é uma contradição humana. vc chega e diz, vou ser artista, todo mundo ri de vc, aí vc vira um artista famoso, rico, faz um trabalho legal, e todo mundo se gaba que te conhece, que um dia falou com vc... mas enquanto isso, vc estava fora do caminho, tropeçando, espetando a cabeça (isso tem alguns sentidos...), tentando lutar contra a sede e a fome que ele já não sabe contra o que luta, mas continua sem parar, come cacto, que tem água dentro, apesar dos espinhos... mas ele se diverte tb, canta (sozinho), faz coisas novas, coisas boas, mas ninguém quer ouvi-lo, e no fim ele é reconhecido e talvez nem tenha tido chance de saber disso... a trilha marcada do que fora o caminho pode ser a trilha que ele usava e que ficou marcada, era o caminho, antes de tudo, por isso o tempo verbal, mas ele fugiu dessa trilha... o zeca é o animal, mas pode ser outra coisa. pode ser a última tentativa de fugir, de colocar a culpa em outro, mas no fim ele prende, para que ele não o siga, ele quer se livrar do passado, não quer que nada o acompanhe ... pisou de pé rachado/topou o dedo em pedra/pelo finco do cerrado pode ter alguns significados. pé rachado/finco do cerrado é a identidade do homem com o meio ambiente, o pé é rachado, o chão que ele pisa também é. o homem anda junto do meio em que vive, e disso ele não pode fugir nunca (não acho que o personagem o queira, de todo modo). a pedra está no meio, no meio do caminho e aí acho que está uma idéia importante do texto, uma relação com o poema do drummond... a questão pode ser mais ou menos a seguinte: ok, há uma pedra no meio do caminho, mas pq ele está no caminho? pq ele não sai do caminho? e se ele sair, não haverá pedra? ou haverá ainda mais pedras?... descongar o congado, congado é uma tradição que veio do congo, coisa dos escravos, é uma dança/representação da coroação do rei (ou rainha) do Congo, mas é uma tradição que vive até hoje. hoje em dia está ficando em alta nesse meio alternativo-cultural essas danças tradicionais. mas ele queria se desapegar das coisas, então ele resolveu mexer nisso, tirar o congo do congado, criar seu próprio congado, sua própria dança, sua própria música, ser seu próprio rei, sem, no entanto, deixar de lado o passado... mas há ainda a relação disso tudo com a foto. Marco?
Marco: Muito legal a interpretação de vcs. Eu tinha pensado de forma muito menos abrangente, para não dizer que foi limitada. Acabei me fixando mais à idéia de que o texto retrata a jornada do herói, no caso santo, e deixei de perceber os aspectos do seu caminho, principalmente o fato de que ele vai por fora - como diz o Campbell no trecho que vc transcreveu. E a idéia de que Amanto está "fora da caminho" me passa a impressão de que fora do caminho não há caminho algum ou pelo menos não há caminho que leve a lugar algum. Mas ao mesmo tempo, o texto desmente essa idéia incial ao relatar a jornada do seu amanto, que apesar de por fora, não deixa de ser um caminho. Acho legal que o texto mostra, sem precisar ser explícito, essa co-existência de caminhos. Uma outra coisa interessante é ver como tratamos de assuntos parecidos de maneiras completamente diferentes. Aquele texto Aos 23 e 4 meses também fala do caminho traçado, porém de uma outra perspectiva.

Continuação da conversa sobre "fora do caminho"

Leitora: Eu vi que vc colocou a minha interpretação, né? Mas uma coisa que eu tb notei agora foi que, quando vc diz no texto "fugiu de trilha marcada", é possível pensar que ele fugiu por uma trilha que ele marcou e já vinha planejando há tempos, mas ainda não tinha tido coragem de seguir. Mas tb pode ser que ele não quis saber de trilha marcada e criou sua própria trilha. Ou, sei lá, simplesmente "deixou rolar", sem trilha, mas seguindo "conforme a dança".

j.p. cilli: Não sei bem se foi ele quem marcou a trilha ou o mundo em que ele vivia gerou essa construção na cabeça dele, diante do que ele pensava sobre tudo. Mas é um caminho, também, essa coisa de finalmente ter coragem, mas só depois de se cansar. De todo modo, não sei se o caminho já existia ou ele que foi criando. Acho que é a segunda opção, ele vai criando o seu próprio caminho, o que, no fim, é um outro e o mundo só o reconhece no fim porque aí sim é caminho. Antes disso era a "escuridão". Para quem quiser, o texto que o Marco falou é de setembro de 2005, tem que clicar na coluna da direita no mês de setembro. Boa lembrança.

Outra conversa, agora sobre "pedaço de felicidade"

Leitora: Li o texto do rio manso. Parece que foi uma conclusão dos seus outros três textos, não? (o problema é que eu não li de novo os três textos). Mas oque vc quis dizer? Não tem mais rio manso, não tem mais o quê? Pedaço de felicidade? Isso só fica distante da gente? Ou é pq é a gente que cria isso, que a nossa cabeça faz com que tentemos alcançar a felicidade, apesar de ela não ser "palpável". Não sei, talvez eu tenha que ler de novo, pq posso não ter entendido bem. Mas se for isso, tb não sei se concordo totalmente... Sei lá, tenho que pensar mais...
j.p.cilli: o texto do rio manso, é claro, tem uma ligação com os outros. mas esse novo é diferente pq trata de outro modo do assunto, que também é tratado no livro do Campbell, sobre a impossibilidade de se viver somente a felicidade, que isso só seria possível num mundo sem tempo nem espaço, sem a dualidade de opostos, sem qualquer idéia sobre o bem e o mal, em que tudo há ao mesmo tempo que nada há, que sempre houve ao mesmo tempo que nunca houve. é algo, enfim, que não dá para explicar racionalmente porque está além da nossa capacidade de compreensão racional (afinal, nossa razão funciona com base em opostos) e que por isso tentei passar a idéia por meio do poema. então não adianta querer viver para sempre no "rio manso" (como metáfora de felicidade ou de qualquer outra coisa que tenha esse significado) pq lá não há o para sempre. não há felicidade eterna pq não há felicidade sem tristeza. então ela ignora que lá não há agora, que as coisas não funcionam assim. o rio corre manso, ele rola, entende? ele passa por pedaços de felicidade e por pedaços de tristeza. e ela quer só o pedaço de tristeza. mas o rio, apesar de manso, continuar rolando e vc está nele, num barco, e vai passando pelos pedaços. tem a relação também com o texto "pedacinho" e com o primeiro título do texto, entre [...]. daí tem muita coisa pra falar... (alguém???)

...

a minutos atrás

a minutos atrás dormiremos no senão
a minutos atrás acordamos no então
a minutos atrás vivera na torre alta dos sonhos
a minutos atrás morreu na virtude dos sonhos
a minutos atrás é ultimamente
a minutos atrás foi para sempre
a minutos atrás era bonito por não ser
a minutos atrás será bonito por ainda ser
a minutos atrás não haverá mais atrasos
a minutos atrás fora atraso das horas
a minutos atrás serão acalantos de agora

promessa

sonharei contigo, prometo. causarei enganos, pularei de prédios, andarei pela rua. prometo amar sempre, chorar sempre, sentir sempre saudades. deitarei para te esperar e ficarei aborrecido com teu atraso. e assim não chegas. aborreça-me, prometi. prometa-me, aborrecerás. e assim seremos um só e dormiremos à luz do dia, à luz serena e clara do dia. e assim teus acalantos serão bom-dia. assim, enfim, seremos. e assim, enfim, não haverá mais promessa.

sobreviver (ou o poema infinito)

chore
a lágrima
fará
o amor

jealousy

jauntily
runs my pain
going to stranges
arms of myself

Ocorrido

Que foi? Nada não Diz o que você tem? Não é nada É que você está estranho comigo Não estou não, amor Tem certeza? Sabe o que é, ai, sei lá mas é que eu acho que gostava mais de você sem franja.
(foto R.S.)

E agora, José? v.2

superstição

foi quando o jornal publicou ontem o horóscopo de hoje.

masp

Quem se apaixona às 11 e 45 de domingo? Saindo do metrô, indo em direção ao prédio vermelho, vazado, decidiu que não ia mais se apaixonar. Comprou seu ingresso, desceu antes para tomar um café. A rampa suspensa, achou-a interessante, deu três pulos para senti-la balançar em segurança. Observou o grande vão e imaginou um jardim interno de obras suspensas em vidros. Gostou dos vidros e das luzes mágicas. De elevador subiu e foi ver algumas fotografias. Amou uma que mostrava um homem olhando o mar, outra que mostrava uma senhora sentada em sua casa no sertão. No outro andar, apaixonou por um certo holandês, e por outro francês, alguns brasileiros. Saiu, no hall do elevador olhou a cidade pelo vidro, sentiu-se verdadeiramente bem. Não tinha jeito, ela já havia se apaixonado de novo.

Que sei eu de geo-política?

Líbano = Hezbollah + Síria?
Israel = EUA + UE * judeus?
Síria = Império Otomano/UE+EUA?

Determinador comum?


Obs.: E o Brasil?

Série Dicionário

ciúme
Datação
sXV cf. IVPM
Acepções■ substantivo masculino 1 estado emocional complexo que envolve um sentimento penoso provocado em relação a uma pessoa de que se pretende o amor exclusivo; receio de que o ente amado dedique seu afeto a outrem; zelo (mais us. no pl.) 2 medo de perder alguma coisa 3 m.q. inveja Ex.: ele tem c. do seu sucesso 4 Rubrica: angiospermas. arbusto ou árvore pequena (Calotropis gigantea) da fam. das asclepiadáceas, nativa da Ásia, com casca de que se extraem fibras us. em cordoalha, folhas coriáceas, comestíveis e medicinais, flores em cimeiras laterais e folículos arredondados, com sementes envoltas em filamentos sedosos, us. no fabrico de tecidos; mudar 5 Rubrica: angiospermas. m.q. bombardeira (Calotropis procera) ciúmes ■ substantivo masculino plural Rubrica: angiospermas. 6 m.q. beijo-de-frade (Impatiens balsamina)
Etimologia
lat. *zelúmen,ìminis 'id., por zélus,i 'ciúme amoroso, desejo'; ver cium-; f.hist. sXV cehume, sXV çiume, sXV cyume, sXVI ciume
Sinônimos
ver sinonímia de inveja
Homônimos
ciúme(fl.ciumar)

Série Dicionário - Paixão

paixão
Datação
sXIII cf. FichIVPM
Acepções■ substantivo feminino 1 o sofrimento de Jesus Cristo na cruz Obs.: inicial maiúsc. 2 Derivação: por metonímia. o segmento do Evangelho que trata do martírio de Cristo; esse martírio, e o dos santos Obs.: inicial maiúsc. 3 Rubrica: teatro. peça teatral cantada, ou oratório sobre o tema da Paixão (acp. 2) Obs.: inicial maiúsc. 4 Derivação: por extensão de sentido (da acp. 1). grande sofrimento; martírio Ex.: recebeu o conforto que sua p. merecia 5 (sXIV) sentimento, gosto ou amor intensos a ponto de ofuscar a razão; grande entusiasmo por alguma coisa; atividade, hábito ou vício dominador 6 a coisa, o objeto da paixão ou da predileção Ex.: a leitura é sua p. 7 furor incontrolável; exaltação, cólera Ex.: dominado pela p., agrediu o motorista que provocou a colisão 8 ânimo favorável ou contrário a alguma coisa e que supera os limites da razão; fanatismo Ex.: a p. religiosa tem provocado graves conflitos na Índia 9 sensibilidade, entusiasmo que um artista transmite através da obra; calor, emoção, vida Ex.: filme pleno de p. 10 Rubrica: filosofia. no kantismo, inclinação emocional violenta, capaz de dominar completamente a conduta humana e afastá-la da desejável capacidade de autonomia e escolha racional Obs.: p.opos. a ação ('atividade livre') 11 Rubrica: filosofia. no nietzschianismo, estado em que determinado afeto organiza e orienta toda a difusa emotividade humana em uma disposição plena de saúde e vigor 12 Rubrica: lógica. categoria aristotélica que indica a passividade, a inatividade perante uma ação alheia Obs.: p.opos. a ação ('categoria aristotélica')
Etimologia
lat.tar. passìo,ónis 'paixão, passividade; sofrimento', pelo vulg.; ver 2pass-; f.hist. sXIII paixon, sXIII paxon, sXIV payxõ, sXIV payxõoes, sXV paixão, sXV passiom, sXV paxam 'martírio', sXV paixões, sXV passõoes 'sentimento'
Sinônimos
ver sinonímia de mania e martírio e antonímia de desleixo e indiferença
Antônimos
imparcialidade
uma vida ia mal, o que é o dinheiro que sai do amor e mata um sonho, e matando sonhos a riqueza compensa o que dela se consegue. não digo que os ombros iam caídos, nem que os olhos iam fundos, que fossem, mas pior é coisa não assim, de ombro caído, são os olhos fundos que não enxergam o outro lado do rio, ou para-além dos horizontes, do mundo fincado como o globo ocular, medido por graus, de norte a sul, e assim se mantêm fincados no buraco negro procurando fugir ao abrigo da maça cinzenta, como um animal vegetariano acuado pelo carnívoro; ambos vigiados, o que não é caso, o nosso indo mal, continua, acorda, senta na mesa e fica sonambulando na claridade da janela até ser acordado pela expectativa, porque uma nota no jornal dos classificados ia sim dar algum dinheiro, vida ele já tinha. na caixa de e-mail encontra um assunto pedido e pensa duas vezes, a primeira em trabalho e a segunda em favor, e abre. é trabalho, uma revisão nova, não é lá essas coisas, não é um livro, um artigo, uma petição inicial, é, o que, um epitáfio. vem um número de telefone, liga para não desistir no segundo pensamento, flui naturalmente a negociação porque epitáfio não se cobra por palavra, diz ele, o tamanho da sepultura importa para o preço, mas não para o pai que perdeu a jovem filha de uma doença que se manifestou e matou num espaço de tempo que foi de três dias, segundo os médicos. a eternidade não tem preço, pensa alguém além das linhas telefônicas e do microondas que esquenta uma comida do revisor. tira o prato que percebeu vir cheio demais, mas vai comê-lo todo, talvez por instinto, talvez por economia, essa reflexão não é dele, que vai ocupado com o epitáfio, o que haveria num epitáfio que ele não sabia porque não o havia lido ainda, como de costume só leria o serviço depois de negociado o preço. a jovem tinha dezenove anos quando faleceu, a doença deve tê-la levado branca, fresca na idade, podre nas entranhas, toda uma atividade perdida e agora enviada por e-mail. seus olhos foram negros e fundos, maquiados pela funerária, um caixão branco, talvez. os amigos a levaram com lágrimas verdadeiras, talvez as últimas de uma paixão. tudo lindo, inclusive a defunta, a jovem defunta. a comida esfriou e não deu para comer tudo, o que deu uma certa amargura e o moveu ao trabalho, DARIANA era o nome da jovem, o pai disse que era filha única, junção do amor de dário e de ana, daí o nome. DARIANA FONTANA, com essa rima toda, a defunta, mas a rima a deixa viva como a poesia parnasiana, ele pensa e ri. DARIANA FONTANA, VITIMOU-A A VIDA O QUE A VIDA DAVA-LHE COMO DÁDIVA. a qualidade foi para ser duvidosa, não para ele, que a vida pulsava-lhe como devia pulsar no segundo da morte da jovem. a jovem vencida brevemente, interrompida, ele a segurá-la, a apertá-la no abraço a carne macia e caída, derrubada, vencida. o rosto encostado, as peles sentindo-se onde deviam se sentir, sustentando-se onde deviam se sustentar, em um momento sem preguiça, onde o sono não tem importância, onde a fome é ladainha, onde só importa a vida, que está em festa, como a morte sustentava as lantejoulas, as sedas coloridas, os vestido longos, as sombras nos olhos e uma melodia que remoinhava pelo quarto, como o tufão invisível que movimenta o cabelo de uma mulher no momento de uma paixão. DARIANA FONTANA, VITIMOU-A A VIDA O QUE A VIDA DAVA-LHE COMO DÁDIVA. SEU SOFRIMENTO AGORA É O SENTIMENTO DAQUELES QUE SENTEM SUAS SAUDADES. a última paixão é a eternidade, o amor de pele lisa e macia fica no tato, foge o gosto do beijo da lembrança e fica o assombro da primeira visão, invade o vizinho, a metáfora do mundo que lhe bate a porta, reclamando do barulho ou pedindo farinha ou oferecendo um pedaço do bolo já feito, não importa, é o mundo que ama o mundo, a paixão, um mundo que ama. fosse ontem, fosse amanhã, seria a paixão de agora, que causa distúrbios e flutua, acima de tudo, paira no ar e sobre o vai-e-vem do sol e da lua. o pai havia pedido urgência pois não queria a sepultura muito tempo sem epitáfio, estava no cemitério de *** e no *** questionou o coveiro com as especificações da defunta e chegou na lápide branca, ainda com flores frescas, as marcas das mãos que lhe afagaram ao serem afastadas, das lágrimas, um abraço dado pelo mundo para acolher sua filha de volta ao seio, a saudade dos homens. uma flor, um lírio-do-vale, cheirou-a, acolheu-a, olhando para a lápide sem epitáfio, a negação da morte como sinal da vida que luta, o branco do nada e a ausência do padrão. uma mão que escorre pelo mármore branco, rezingando seu epitáfio de morte na declaração de um amor póstumo, uma declaração viva contra a morte que o construiu, recíproca num beijo de tato frio e suculento, cheirando a lírio e a cemitério, a terra úmida e a premonição de tempestade. correu pela falta do guarda-chuva, segurando com extremo zelo o lírio e a lembrança do não-epitáfio. em casa, DARIANA FONTANA, VITIMOU-A A VIDA O QUE A VIDA DAVA-LHE COMO DÁDIVA. SEU SOFRIMENTO AGORA É O SENTIMENTO DAQUELES QUE SENTEM SUAS SAUDADES. SERÁS SEMPRE JOVEM NA NOSSA MEMÓRIA, armou o cabo da flor em um copo com água mineral ao lado do computador, e o lírio o encarava com sua pupila doce e involuta, seu olhar de estrela solitária que sinaliza uma nova galáxia, o buraco-negro de um desconhecido que encarava silencioso, aceitador, escravo de um lírio-negro, uma flor amarelo-negra como o ciúmes, o amarelo abstrato, o etéreo que vem estapear-lhe a face, roça a ponta do nariz, dá uma vira-volta volteando um bailar e foge para a penumbra assobiando uma cantiga de felicidade, esvaindo-se na ilusão da realidade. o abraço é em vão, não acolhe, mas espanta, e as letras saltam para seu lugar de direito, o que o faz disposto a tudo para manter seu amor-de-vida póstumo, que morre, e morre fixando a morte negra no mármore branco, asfixiando o lírio que brota no coração do estrume da falsa ambição, da decepção e enfim da derrota. o passado desenha o destino, sem rascunhos, com a tinta invisível do futuro no papel em branco-não-branco e não negro do agora, uma memória que costura um tapete que então agora tem um lírio amarelo-negro bordado, como sempre estivera e nunca mais estará, porque o tecelão que borda solitário seu momento tem como bordar seu ofício único e eterno.

o tecelão e o revisor

A Teoria do Desemprego

Tenho uma TEORIA (outra...) sobre o desemprego. Resumindo, é o seguinte. Todos humanos têm defeitos, dos quais não devem se envergonhar. Para a infelicidade de alguns, seus defeitos são "piores" no atual sistema social. É o caso da grande maioria dos desempregados. São gente com defeito, como qualquer um, mas sua sina é que seu(s) defeito(s) leva ao desemprego. Bem, não digo mais porque corro risco que as más interpretações levem à mágoa. São más. Fica o leitor com a sua boa imaginação.

uma frase e uma foto

"Aqui vive gente para a qual o território vale mais que uma sensação de posse"
Alberto Baraya

reflexos II (reedição repensada) + fotografia quântica

Enigma profético encontrado, no séc. XVI, nas abadia de Télema: jogo de tênis, de vôlei ou a decadência e a conservação da verdade divina?

Pobres humanos, que esperais a sorte, elevai vossos corações para ouvir-me. Se com firmeza é permitido crer que, dos corpos que estão no firmamento, um espírito humano possa vir para anunciar as coisas do futuro, ou se, em virtude de um poder divino, pode ser o destino revelado, de forma que, por meio de palavras, se julgue o curso dos futuros anos, faço saber a quem quiser ouvir que, no próximo inverno, o mais tardar, antes talvez, no mundo em vivemos, surgirá uma nova espécie de homens que, fartos de repouso e de lazer, francamente virão, em pleno dia, aliciar gente de toda qualidade para as suas demandas e processos. Aos que lhe derem créditos e os ouvirem, tratarão logo, custe o que custar, de mostrar, em debates simulados, amigos entre e até parentes. Não fugirá o filho ao impropério de rebelar-se contra o próprio pai. Mesmo os fidalgos da mais pura estirpe serão agredidos por seus vassalos. O grande dever de honra e reverência perderá por completo seu sentido, pois dirão que cada um por sua vez há de subir, para depois descer: tanta briga haverá por causa disso, tantas discórdias, tanta confusão, que não existe ainda em toda a história notícia de emoções assim tão fortes. Muitos homens ilustres serão vistos que, pela tentação da juventude, no calor do seu férvido apetite, serão cedo arrastados para a morte. A ninguém será dado abandonar a tarefa de início começada, sem encher, com disputas e debates, o céu de bulha e a terra com seus passos. Terão, nessa era, a mesma autoridade tanto os homens sem fé como os verazes, pois todos seguirão a crença e o estudo da estúpida ignorante multidão, da qual o mais boçal será juiz. Que horrível e fatídico dilúvio! Sim, digo bem, dilúvio, e com motivo, porque essa luta não terá mais fim e livre dela o mundo ficará somente quando as águas subitâneas, irrompendo da terra, submergirem mesmo os mais moderados combatentes: com razão, pois para isso pelejaram, de forma que nem mesmo perdoarão os pobres e inocentes animais, com cujos intestinos desonestos não sacrificarão, decerto, aos deuses, mas aos mortais irão prestar serviço. Desejo, agora, ver-vos descobrir de que maneira será gasto tudo e que repouso, em tão profunda luta, terá o corpo da máquina redonda. Os mais felizes, os que mais tiverem, não querendo fazer-lhe grande mal, procurarão, por todas as maneiras, submetê-la e, por fim, encarcerá-la, de tal forma que a pobre desgraçada recurso algum terá além de Deus. E, tornando maior a desventura, o claro Sol, antes de entrar no ocaso, deixará que sobre ela a escuridão seja maior que a noite natural. Perderá, pois, não só a liberdade, mas também o favor e a luz do céu, ou, pelo menos, ficará deserta. Antes, porém, dessa ruína e perda, será sensivelmente sacudida por tão grande e violenta terremoto que nem o Etna teria feito tanto ao cair sobre um filho do Titã. Nem mais súbito deve ser julgado o movimento feito por Inárima quando Tifeu, colérico, lançou as montanhas no fundo do oceano. E, assim, será tão triste o seu estado e tamanhas mudanças sofrerá que mesmo os que a fizeram prisioneira deixarão que outros venham ocupá-la. O momento propício chegará de terminar, enfim, este exercício: as grandes águas de que ouvis falar farão que todos tratem de abrigar-se. Mas, antes da partida, lá no empíreo, poderá distinguir-se, claramente a luz intensa de uma grande chama que porá fim à água e à empresa. Só restará que os salvos do acidente, refeitas suas forças, como eleitos, recebam o maná e os bens celestes, e, finalmente, como recompensa, se enriqueçam bastante. Quanto aos outros: não devem ganhar nada, e com razão, pois é preciso que, chegando aqui, cada pessoa saiba o seu destino. Foi esse o acordo, que só podem honrar aqueles que no mesmo persistirem!

"A lua vem da Ásia" - Campos de Carvalho - I

"(...). Dai-me, eu vos peço, a receita de não chorar à toa sobre as mazelas e as incongruências deste mundo tão cotidiano, e de ver com olhos de cego, como vós fazeis, as aparentes belezas deste vasto cemitério sobre o qual caminhamos e que, de tão repleto de mortos, já está até cheirando mal, apesar da primavera que há no céu e nas flores. Dai-me a fórmula da sabedoria que me permita, aos quarenta anos - idade da minha imagem no espelho - contentar-me com o efêmero espetáculo do dinheiro e da mulher nua, e com os fugidios prazeres que nos podem advir do corpo ou do espírito, QUANDO sobre nossas cabeças paira, cada vez mais densa, a gigantesca sombra da morte, com a sua certeza que não admite sofismas nem tergiversações, por mais que a queiramos ignorar em nossos instantes de sono ou mesmo de vigília."

"A vaca de nariz sutil" - Campos de Carvalho - II

"Aproveito para entrar no meu desrumo: deixo-vos os trilhos, vou ver se ainda me alcanço: não disponho de vossa eternidade para viver, muito menos para pensar.
É agora ou nunca."

Dinheiro em penca (Tom Jobim e Cacaso) (1979)

O mati é passo preto
Ele é muito tapereiro
Ele canta por amor
Eu só canto por dinheiro
No seu canto tem valor
No meu canto tem vintém
Ele geme a sua dor
Eu não choro por ninguém
Ninguém sabe ir pelo Catumbi
Ninguém sabe, ninguém sabe
Eu casei com ela
Fiz um filho nela
Bati muito nela
Fui feliz com ela
Se o santo cai do andor
E o barro cobre o ladrilho
Quem roubou o meu amor
E me escondeu do meu filho
Renda de filó
Carretel de linha
Jorro de cascata
Canja de galinha
Sino de Belém
Mofo de farinha
Vou cantar agora
Uma prenda minha
O mati ao meio-dia
Tá piando no soleiro
Ele canta no estio
Eu debaixo do chuveiro
Ele mora no sertão
Eu no Rio de Janeiro
Ninguém sabe ir por Andaraí
Ninguém sabe, ninguém sabe
Se o peito guarda rancor
O raio pisca o seu brilho
Do porto sai o vapor
Da vaca sai o novilho
Tem gente que faz favor
Pamonha é feita de milho
Quem roubou o meu amor
E me escondeu do meu filho
Fé de bisavó
Praga de madrinha
Laço de gravata
Bando de rolinha
Sorte de repente
Jura de modinha
Vou cantar agora
Uma prenda munha
Eu fui lá, na grota funda
Avisar meu feiticeiro
Fiquei bom do reumatismo
E ganhei muito dinheiro
Melhorei do meu cansaço
E ganhei muito dinheiro
Ninguém sabe ir pelo Buriti
Ninguém sabe, ninguém sabe
Se o cheiro muda de cor
O nego puxa o gatilho
A lucidez sai da dor
O trem de ferro do trilho
Se o vento liga o motor
E a morte presta um auxílio
Quem roubou o meu amor
E me escondeu do meu filho
Rede de cipó
Lata de sardinha
Porta de alçapão
Ceva de tainha
Bolha de sabão
Sopa de letrinha
Bucha de balão
Papo de cozinha
Meu padrinho quando moço
Era muito fazendeiro
Tirou outro do sertão
Foi gastar no estrangeiro
O dinheiro da boiada
Transferiu pro estrangeiro
Ninguém sabe ir pelo Piauí
Ninguém sabe, ninguém sabe
O avião salta do chão
O padre sai do retiro
O acaso faz o ladrão
Da espingarda parte o tiro
Do verso nasce a canção
Do sertão meu estribilho
Quem roubou o meu amor
E me escondeu do meu filho
Medo de ladrão
Noite de arrepio
Boca de fogão
Casco de navio
Pipa de papel
Ben-te vi no cio
Corda de relógio
Bomba de pavio
Tive léguas e mais léguas
Muito gado, cafezais
Sesmarias, mata virgem
Onde a vista já não vai
Extensão de terra roxa
Ia até o Paraguai
Tive até um burro preto
Que vovó deu pro papai
Eu também já tive um tio
Que virou velho gaiteiro
Que gostava de mulher
Como eu gosto de dinheiro
Era louco por mulher
Eu me amarro no dinheiro
Fui mascate no sertão
Caminhei o norte inteiro
Vendi grampo a prestação
Guarda-chuva em fevereiro
Até hoje estou esperando
A remessa do dinheiro
O mati é passo preto
De janeiro até janeiro
Ele casa no verão
Eu namoro o ano inteiro
O mati já tem bisneto
Eu ainda tô solteiro
Ele voa em liberdade
Inda tô no cativeiro
E voou pra imensidão
Eu ainda prisioneiro
Canta curió
Canta coleirinho
Sabiá da mata
Garnizé de ninho
Terra de niguém
Viração marinha
Vou cantar agora uma prenda minha
Uma vez em Nova York
Liguei pro meu feiticeiro
Que atendeu o telefone
Lá no Rio de Janeiro
Eu então falei pra ele
Procurar meu macumbeiro
Pra avisar pro pai-de-santo
Pra arranjar algum dinheiro
Pra pedir pro delegado
Pra soltar meu curandeiro
Ao doutor seu delegado
Pra soltar meu curandeiro
Mas no tal telefonema
Lá se foi o meu dinheiro
Sunga de lagarto
Dente de galinha
Sovaco de cobra
Pena de tainha
Asa de tatu
Jura de Maria
Gritos de minhoca
Rabo de Cotia

Poética


Nasço amanhã
Ando onde há espaço:
- Meu tempo é quando.

Vinícius de Moraes, NY, 1950.

certo dia
veio à minha morada
a vida;
não sei se de entrada
ou de saída,
mas vinha apressada
e urgida,
com a face cansada
e fugidia;
parecia embuçada
e ferida,
não sei se pelo nada
ou pela lida,
mas vinha vitimada;
que tinha?
não sei, queria explicação.
- minha?
lhe respondi que não;
se havia,
agora não vejo razão
na forma divina
que jaz neste chão
ou nesta sina
que vai no céu feito balão.
- e se fica,
lhe disse indo embora,
minha querida,
só não me faça demora:
o tempo migra
e me põe a sua hora,
maligna
ou boa senhora,
sempre fria,
que não se liga com o agora
nem choraminga:
vai indo e lhe faz aurora
e amiga
para ainda lhe jogar fora,
suicida,
destruindo sua obra
antiga.
- mas por fim lhe digo,
minha vida,
como seu velho amigo:
antes de caída
melhor que fique comigo;
vamos indo,
que só ficam os inimigos.

Reedição repensada

que quero eu do que?

I
nunca vivi o que fui:

nem o que vejo é tudo o que sou

II
deito com eles
sonho com o tudo:

acordo com o nada

III
meu querer é míope;
sente
e não sabe nada:

o resto busca saber em mim

IV
sou o que vejo
o que ouço
o que toco
o que cheiro e gosto
ou desgosto:

eu mesmo eu não sou

V
porque vejo, quero
porque quero, sou cego
e sou velho porque apanho o passado que não vivi
mas que agora vejo:

estranho

VI
sou míope
louco
cego:

e estranho

VI
e no dia da minha morte prematura
a primeira delas
as trevas se ocuparam de mim
resolutivas e derradeiras como a fruta madura que cai:

vi frestas da luz criativa e dos seus colaterais

VII
essa luz me ofusca
por escassez ou excesso, não sei
pela tolice talvez
e bebo a água da realidade para curar a dor da ressaca
de atrevido que fui
ou guiado que permiti
por tomar certas resoluções:

sou tolo

VIII
quê pode querer um míope?
como eu
senão a boa-venturança de um futuro límpido?

quê pode querer um louco?
como eu
senão a imediata obediência das suas loucuras?

quê pode querer um cego?
como eu
senão a planície absoluta de seus caminhos?

quê pode querer um estranho?
como eu
senão o aceite justo do seu íntimo?

IX

:mas, meu deus, o que pode querer um tolo?