segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

dos destaques e da luz (batalha-reflexão napoleônica)

Era sábado de sol e o pai andava leve, rodando o molho pelo chaveiro. O filho o seguia, sendo obrigado a dar dois ou três passos mais rápidos para não se distanciarem muito. Ao pararem diante da porta, o pai dedilhou as chaves até encontrar a que queria, enquanto o filho postou-se ao seu lado, rente à porta, com os olhos fixos na cata da chave, mas com a imaginação já dentro do quartinho. E, porque imaginação desbandada é coisa perigosa demais, teve que entrar correndo quando seu pai havia apenas girado a maçaneta, gritando como quem agradece aos Céus:
- Valeu!
O pai sorriu satisfeito, retirou a chave e, já esquecido pelas ânsias infantis que lhe haviam interrompido o descanso, voltou ao ócio que justificam aqueles obreiros de pormenores silenciosos e inesgotáveis.
O menino puxou a caixa do fundo do armário de madeira, destacada há tempos para o quartinho do fundo. Gostava do cheiro de pó e de desconhecido que lhe trazia o quartinho. Não faria questão de limpá-lo se fosse gente grande. A caixa verde de tampo vermelho se arrastou resistente sobre o pó, como fazem no íntimo os homens que se destacam do presente e tentam se agarrar ao passado. Quando a tomou plenamente, chacoalhou-a para demonstrar-se dono e levou-a debaixo do braço direito.
A descrição a faço para situar o leitor à história, que não passa de destaques de uma situação de minúcias humanas. Assim como o espírito humano é capaz de prender-se à mais insignificante razão para tecer toda a meada de sua vida, não há motivos para ignorarmos as minúcias que, ao menos, não fugiram a estes olhos. Ademais, essa explicação mesma é vã, não porque revela algo que a boa arte deveria deixar entrelinhado, mas porque todo louco facilmente acha uma explicação, que julga por si a última das verdades eternas, para suas loucuras.
A caixa era de papel, mas de um papel duro e nobre, como se podia perceber daquela que já resistira aos anos. Seu interior era desnudo, da cor pastel do papelão, mas não menos resistente. Nela estavam amontoados diversos bonecos de plástico também duro, mas sensivelmente menos nobre, que representavam soldados de distintas patentes e de duas armadas diferentes, além de alguns equipamentos que ensejavam os protagonistas. Esses, como dito, eram de dois lados. Um se distinguia pela cor rubra do paletó, outro pela azul. Todos eram de pele verde-musgo, e de idêntico corte das vestimentas. Os cavalos se diferenciavam pela cor de seus arreios, acompanhando à da sua armada. E, do mesmo modo, tudo que os acompanhava tinha qualquer detalhe cuja cor possibilitava que se lhe fizesse destacar para um ou para outro lado.
Abrindo a caixa, esquecendo de pronto o tampo, donde se destacava uma ave bela e branca, cujo contorno foi desalinhado pelo tempo e pelo manuseio humano, esparramou todo o conteúdo no tapete falsamente persa da sala de televisão. Ali não atrapalharia o trânsito dos moradores, mas tampouco estaria imune aos olhares curiosos. Era um campo de batalha localizado num vale composto por dois sofás marrons ao sul e ao leste, pelo móvel de madeira, que comportava a televisão, ao norte, e por um flanco a oeste por onde passavam os transeuntes.
Pôs-se, então, a destacar as legiões, com a abstração autista e a concentração absoluta que se manifestam tão típica e naturalmente nas crianças. Talvez ele, no fundo, nem levasse aquilo tão a sério. Mas talvez sim. E o mesmo para os soldadinhos de plástico verde-musgo que, se consciência tivessem, poderiam, assim mesmo, não pretender serem mais que o que realmente eram: peças de um brinquedo. Mas fato é que a guerra é a busca da morte, a resolução última dos homens e talvez, por isso mesmo, a única delas merecedora de ser considerada de forma séria pelos seus compulsórios pretendentes.
Destacou os azuis ao norte e os vermelhos ao sul, a infantaria à frente, entremeada pela cavalaria, seguidos pelas patentes mais altas, que o menino pôde reconhecer pela maior quantidade de adereços em suas vestimentas. Posicionou um ou outro boneco mais distante, alguns como observadores, outros como possíveis elementos surpresas, quando se viu obrigado a decidir para qual exército ele mesmo lutaria. Como comandante geral das operações ele não poderia estar dos dois lados, imaginava não ter o distanciamento necessário às ações para comandar dois times ao mesmo tempo. Ficou pensando por uns bons cinco minutos quando decidiu pelos azuis, e que o vermelho de sangue ficasse para o outro lado. Julgou que aparentar sangue não seria bom agouro a um exército vencedor.
Que iniciem o combate! Sua infantaria era boa, dava tiros certeiros e a cavalaria parecia-lhe oportuna. De início teve algumas baixas, que não lhe preocuparam por não comprometerem a formação do exército. A batalha estava equilibrada, com uma leve vantagem aos exércitos azuis. Para ele estava claro que a vitória seria uma questão de tempo, estava tudo sobre controle.
As pessoas que ali passavam detinham-se em olhar aquele emaranhado de soldados e logo desistiam por não entenderem sequer os propósitos envolvidos. Alguém chegou a questioná-los, porque além da curiosidade está a audácia humana, e foi respondido por um olhar de reprovação esguelha. Afinal, da parte do comandante, não merecia algum crédito ou atenção.
A luta foi minguando e os azuis logo lançaram mão de seus elementos surpresas, a fim de eliminar de uma mão o adversário. Os vermelhos, no entanto, resistiam bravamente, não acuavam. Mas foi diante de um pensamento que o menino estremeceu e se viu distante da sonhada bandeira branca - por parte dos vermelhos, claro –, que é o paradoxo final dos conflitos. Deu-se conta de que os soldados vermelhos não eram mais valentes ou melhores que os seus, pois eram todos verde-musgo. Eram mais persistentes pelo motivo singelo de que, em virtude da cor de seus uniformes, não reconheciam, em si e nos companheiros, derramamento de sangue algum. Não estavam nunca feridos enquanto lutavam e cada um continuava lutando até cair, acreditando que estava sendo acompanhado de outros tantos soldados absolutamente saudáveis. Foi sua derrota. Acreditou naquilo e àquilo creditou seu eminente fracasso. Embora tentasse demonstrar que a crença adversária era falsa, não podia convencer ninguém e nem a si mesmo disso. Com efeito, a desconfiança, principalmente, se destaca como luz naqueles que pretendem ocultá-la. Naturalmente perdeu, sem dar lugar à bandeira qualquer, senão a da honra de ter lutado até seu fim.
Foi justamente no momento final que seu pai, amado e temido como todo pai a uma criança, entrou no cômodo e recebeu o olhar suplicante e envergonhado do filho.
- Olha, pai, eu perdi, disse prestando conta de sua tristeza. Olha, morreram todos e sobrou... contou em sussurros os soldados vermelhos com o dedo indicador ... quatro dos outros.
O pai parou e olhou com profundidade a cena. Ameaçou continuar seu caminho, mas deteve-se e, sob o olhar estranhado do filho diante daquela expressão, resmungou em tom vanglorioso:
- Mísero... e que tu querias brincando com a morte? Que pensaste tu?

Nenhum comentário: