segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

do arroz e do precipício (refeição-reflexões de guimarães)

Dia desses, à mesa do jantar, comendo inconscientemente às pressas, observei o comportamento do arroz, se é que comportamento é palavra que se presta a dar movimento às coisas sem vida. O arroz, como um todo branco e como cada parte - o grão. E daí ruminei uns pensamentos.
Refleti em como a boa arte é arte em seu todo e arte em sua parte. Cada frase, cada parágrafo de Machado de Assis é uma arte em si, assim como o é o texto visto como todo. E nas suas mais diversas óticas. Então indaguei-me por que "cada frase, cada parágrafo", mas não cada palavra. E justifiquei para mim que as palavras são pré-existentes e que, por isso mesmo, por não serem parte do impulso criativo, não há como serem arte em si.
Mas meus teimosos pensamentos voltaram logo com uma nova indagação. Por que não seria possível fazer das palavras arte e daí impor o limite nas letras? Que toda arte tenha sua limitação física última, posto que seja expressão humana, que tenha. Algumas se sujeitam a limitações maiores, outras a menores e, quanto menores, maior o espaço a ser preenchido. Então por que não empurrar aqui, esbarrar dali, e fazer da arte escrita mais ampla?
O limite, matutei, deveria ir até o ponto em que ainda seria possível a compreensão, ou tornaria a linguagem inócua. Já admitira a abstração das palavras, aceitara o limite das letras, haveria de haver um meio termo. Isso, assim, não funcionaria. Pus que tomaria comigo algumas palavras e daria alforria a outras. E, diante dos propósitos, pus que soltaria as relevantes e tomaria as acessórias. Assim que, não sendo essas principais, atrapalhariam menos e, sendo aquelas relevantes, ao faltarem, tornariam o residual, objeto das minhas reflexões, mais corpulento.
Fiz jus aos verbos e aos substantivos. Aqueles são a engrenagem, esses a verdade nua e crua, o naturalismo do vocabulário. Demais importantes, dei-lhes a alforria. Teria que me apegar aos artigos, pois sinalizam o entendimento, indicam caminho. Acessórios, mas imprescindíveis na minha jornada. Precavi-me, também, com as preposições, as conjunções e os pronomes. Podem até ser reles no todo, mas são úteis no dia-a-dia. Aos adjetivos, como porção idealista e metafísica do idioma, dei-lhes receoso a liberdade, mas encorajei-me na idéia de que a metafísica vai além e deles, pois, prescinde.
Fiquei assim, de Sancho com os artigos, pronomes, conjunções e preposições, e livre dos moinhos - adjetivos, verbos e substantivos. Às interjeições não dei conta, são expressões das idéias humanas e não vislumbrei considerá-las. Os advérbios, já esses, fizeram festa diante da minha indecisão. Pois que compadeci e os acolhi, ainda que, como castigo, adverti os incautos festeiros que poderia acontecer de, lá pelo meio do caminho, terem que seguir o rumo por eles mesmos. Não foi, porém, a mesma sorte que a das locuções. Essas, ainda que não sejam de muita importância, estão, no fim, como as interjeições. Como derivam todas de outras, fiz que não vi. Por fim, os numerais equivali às próprias letras e, portanto, ficaram aqui comigo, à beira do precipício.

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