segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

de cada um e de todos nós (fotografia-reflexão dos espelhos)


de repente, da despretensiosa mirada no espelho, ocupou-se de um só propósito. contava então com uns tantos anos – nisso não há quem possa se colocar com segurança – e enxergava toda sua vida em desenhos fincados na sua face. há uns bons anos podia contar as histórias de cada uma de suas rugas, nas quais arranjava devaneios que as justificavam, culpando as preocupações passadas, amiúdes na sobrevivência humana, provocadas pelo espírito frouxo de todos os seus benquistos, parasitas da sua capacidade de servir incondicionalmente cada um dos seus anseios e caprichos. ocorre que, de uns tempos para cá, tinha perdido a conta, não sabia porquê, mas não era velha de se conformar. fez força, reforçou cada fresta que carregava, olhou para cima e para os lados e, olhando para o chão, conformou-se entristecida com a derrota dos seus próprios ideais. não podia mais com aquilo, amuou-se na idéia de que ninguém além dela mesma era responsável por tudo. dispensou até os contos passados, não queria mais saber de histórias. o agora se fazia suficientemente duro com a tardia recém-descoberta. em seu íntimo sentiu-se superior por se assumir, que cada um deveria fazer o mesmo. e assim, como se lhe voltasse a visão dos olhos, porque há outras mais poderosas que ocupam nossa mente, percebeu que se via novamente, agora em uma poça d’água suja que o destino e um furo em sua barraca colocaram aos seus pés. ignorou que aquele espelho não era tão fiel quanto o outro. todo espelho era espelho, d’água, vidro ou cristal, e aquele, por natureza tão incompetente em lhe mostrar seus detalhes, não lhe trazia as mesmas rugas. arremessou o espelho inimigo para trás e aliviou-se na limpeza dos maus pensamentos que covardemente lhe acometiam. enamorou-se, fitou seu novo espelho como faz o maior dos fiéis ao seu deus, e passou o resto de eternidade que lhe faltava chorando as lágrimas da verdade, mas com o sorriso do triunfo humano nos lábios.

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