segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

trechos do projeto "o carteiro"

(...)
e porque a vida me fecha e trai
e me trava e me flecha
e nas trevas me falaceia
fervo o café, faço a ceia e me entrego ao sono
enquanto o passado dorme incerto nos sonhos do futuro
de morte cínica e certeira
sorridente como o carteiro que chega
essa correspondência prematura que me motiva
e me faz insone e fracassado
e oscila o comando das minhas certezas
até me entregar aquele envelope branco
que passa todo dia até um dia parar.
(...)

o meu deus não é de todos
eles não seriam capazes de me acompanhar
o de ontem faleceu e o de amanhã ainda nem nasceu
são muros instransponíveis que cedem na primeira hora
nos primeiros estalos de loucura da manhã
tiro fotos, faço rabiscos e barulhos
tenho a mente sã e o corpo maltratado pela minha preguiça
minto para mim mesmo tão facilmente quanto minto aos outros
e eles fingem que acreditam como eu ecôo batendo palmas
e faço as pazes em mim
esperando a redenção do céu ou do inferno
o que não vale é ficar sem teto
sem ter onde voar leve ou cair duro
se queres te levo comigo
mas terás que ser melhor
bem melhor do que eu sou
porque tudo isso já fui
e não sou homem de ser tudo de novo.

3 comentários:

Marco disse...

Gostei bastante. Acho que há muitas idéias a serem mais desenvolvidas; não que tenha sido insuficiente o seu escrito, mas para que não sejam desperdiçadas.
Penso muito naquela idéia de se convencer da própria loucura, da "mentira" para si próprio. Mas afinal o que é a verdade?
Gostei do "não sou homem de ser tudo de novo". Convicção. Não sei o que sou, mas sei que não sou isto...

Marco disse...

Cântico Negro

"Vem por aqui" -- dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
* Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?


Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.


Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...


Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.


Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!



Pseudônimo de José Maria dos Reis Pereira (1901 - 1969 / Portugal).

João Pedro disse...

Concordo que ainda deve ser muito desenvolvido, é um projeto ainda né... essa história da própria loucura (que tem naquele conto do garoto e dos soldados) é bem o carteiro, mas o carteiro que entrega as cartas que quer, na casa de quem quer, acreditando na perfeição do seu ofício. Também gostei particularmente dessa última frase, além do significado tem uma sonoridade muito boa. Mas, me diga, se o carteiro é isso, para você, o que são as cartas e as casas (já tenho minha idéia, quero ouvir outras)?