o seu josé já ajuntava seus oitenta anos de grandes repercussões. nunca fora sujeito de ficar calado, mas desprezava discussões de botequim. o s. josé tinha jeito e espaço com a imprensa, era homem culto, de palavras bem estruturadas, inclusive no que diz respeito à oportunidade de serem lidas. s. josé vivera toda sua prestigiada vida naquela cidade. vida que comportou, e veja que tratamos de sujeito das qualidades do s. josé, grandes viagens para grandes cidades, pólos culturais da humanidade da esquerda que ela mesma criou. embora já de idade para muito além do equador da vida, aparência singela e gestos ingênuos, s. josé não era homem caturra, mas antes sujeito antenado ao, dizia, terceiro mundo que vivia: o primeiro quando aqui se dera, o segundo quando aqui viveu e o terceiro, pelos tempos de agora, quando já aguardava a morte com a angústia de se sentir cada vez melhor, cada vez mais perto de ver tudo isso desperdiçado. mas que fique claro que s. josé não era sujeito mau humorado, muito menos velho rabugento. via sim a vida com a vista de quem vai ao céu por determinado astro. era, portanto, e de certo modo, um astrônomo, ou um satélite que fotografa a terra com as lentes do espaço. s. josé tinha um humor assim ácido, como dizem. era de comportamento agradável e cordial, mas a ele não escapava nada, nenhum desvio, nenhum corretismo.
agora que o leitor ao s. josé já foi apresentado, conto-lhes uma breve historinha. já no seu último ano de vida, sim, s. josé já não está entre nós, ele andava por uma antiga ruela de sua cidade, onde costumava ir quase que pontualmente à livraria, e observou como ela havia mudado desde os tempos que a ela fora apresentado. já não era mais ruela, já não era mais local de prazeres gentis, conversas soltas, cumprimentos e saudações. já não era mais lugar que hoje se diria um lugar de sábado a tarde, ou de domingo de manhã. já, enfim, não era mais a mesma ruela, e isso só agora lhe havia tocado. justo ele, observador rapino da realidade humana, deixou-se esvair da paisagem urbana que lhe satisfazia os dias. acompanhado de um velho amigo, chegando eles à livraria, fê-lo parar ao pé da porta e virou-se para a rua, as calçadas, as vitrines, para os transeuntes que andavam apressados e que tampouco tinham tempo para pedir as desculpas pelo esbarrão dado. s. josé, já com dificuldade de se expressar com a fala, apontou para a frente com sua bengala de madeira nobre e confessou ao velho amigo: veja, meu caro, uma festa; ao que o velho amigo lhe olhou com o espanto pacífico dos idosos, e observou que s. josé dava um sorriso de olhar no horizonte, que só poderia ser respondido pelo silêncio. então s. josé virou-se de frente para o velho amigo, que estava ao seu lado esquerdo, ficando a meio caminho da porta da livraria, e esgotou o assunto: festa de estalagem, todos dançam, ninguém se conhece.
trouxe do céu seu último sonho
on-line, sem delay
se fez de inteligente
pensou, foi ator e bacharel
porque na vida a gente é assim
pensa, reflete, imita que sente
até mente um não-sei de quem duvida
mas sabe
que há morte onde há guerra
mas luta
que tem sorte quem se assanha
mas reza
que a dor do amor consome
mas ama
que fast-food é medonho
mas come
que imaginação é hollywood
mas sonha
s. josé

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