segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Reedição repensada

que quero eu do que?

I
nunca vivi o que fui:

nem o que vejo é tudo o que sou

II
deito com eles
sonho com o tudo:

acordo com o nada

III
meu querer é míope;
sente
e não sabe nada:

o resto busca saber em mim

IV
sou o que vejo
o que ouço
o que toco
o que cheiro e gosto
ou desgosto:

eu mesmo eu não sou

V
porque vejo, quero
porque quero, sou cego
e sou velho porque apanho o passado que não vivi
mas que agora vejo:

estranho

VI
sou míope
louco
cego:

e estranho

VI
e no dia da minha morte prematura
a primeira delas
as trevas se ocuparam de mim
resolutivas e derradeiras como a fruta madura que cai:

vi frestas da luz criativa e dos seus colaterais

VII
essa luz me ofusca
por escassez ou excesso, não sei
pela tolice talvez
e bebo a água da realidade para curar a dor da ressaca
de atrevido que fui
ou guiado que permiti
por tomar certas resoluções:

sou tolo

VIII
quê pode querer um míope?
como eu
senão a boa-venturança de um futuro límpido?

quê pode querer um louco?
como eu
senão a imediata obediência das suas loucuras?

quê pode querer um cego?
como eu
senão a planície absoluta de seus caminhos?

quê pode querer um estranho?
como eu
senão o aceite justo do seu íntimo?

IX

:mas, meu deus, o que pode querer um tolo?

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