segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

uma vida ia mal, o que é o dinheiro que sai do amor e mata um sonho, e matando sonhos a riqueza compensa o que dela se consegue. não digo que os ombros iam caídos, nem que os olhos iam fundos, que fossem, mas pior é coisa não assim, de ombro caído, são os olhos fundos que não enxergam o outro lado do rio, ou para-além dos horizontes, do mundo fincado como o globo ocular, medido por graus, de norte a sul, e assim se mantêm fincados no buraco negro procurando fugir ao abrigo da maça cinzenta, como um animal vegetariano acuado pelo carnívoro; ambos vigiados, o que não é caso, o nosso indo mal, continua, acorda, senta na mesa e fica sonambulando na claridade da janela até ser acordado pela expectativa, porque uma nota no jornal dos classificados ia sim dar algum dinheiro, vida ele já tinha. na caixa de e-mail encontra um assunto pedido e pensa duas vezes, a primeira em trabalho e a segunda em favor, e abre. é trabalho, uma revisão nova, não é lá essas coisas, não é um livro, um artigo, uma petição inicial, é, o que, um epitáfio. vem um número de telefone, liga para não desistir no segundo pensamento, flui naturalmente a negociação porque epitáfio não se cobra por palavra, diz ele, o tamanho da sepultura importa para o preço, mas não para o pai que perdeu a jovem filha de uma doença que se manifestou e matou num espaço de tempo que foi de três dias, segundo os médicos. a eternidade não tem preço, pensa alguém além das linhas telefônicas e do microondas que esquenta uma comida do revisor. tira o prato que percebeu vir cheio demais, mas vai comê-lo todo, talvez por instinto, talvez por economia, essa reflexão não é dele, que vai ocupado com o epitáfio, o que haveria num epitáfio que ele não sabia porque não o havia lido ainda, como de costume só leria o serviço depois de negociado o preço. a jovem tinha dezenove anos quando faleceu, a doença deve tê-la levado branca, fresca na idade, podre nas entranhas, toda uma atividade perdida e agora enviada por e-mail. seus olhos foram negros e fundos, maquiados pela funerária, um caixão branco, talvez. os amigos a levaram com lágrimas verdadeiras, talvez as últimas de uma paixão. tudo lindo, inclusive a defunta, a jovem defunta. a comida esfriou e não deu para comer tudo, o que deu uma certa amargura e o moveu ao trabalho, DARIANA era o nome da jovem, o pai disse que era filha única, junção do amor de dário e de ana, daí o nome. DARIANA FONTANA, com essa rima toda, a defunta, mas a rima a deixa viva como a poesia parnasiana, ele pensa e ri. DARIANA FONTANA, VITIMOU-A A VIDA O QUE A VIDA DAVA-LHE COMO DÁDIVA. a qualidade foi para ser duvidosa, não para ele, que a vida pulsava-lhe como devia pulsar no segundo da morte da jovem. a jovem vencida brevemente, interrompida, ele a segurá-la, a apertá-la no abraço a carne macia e caída, derrubada, vencida. o rosto encostado, as peles sentindo-se onde deviam se sentir, sustentando-se onde deviam se sustentar, em um momento sem preguiça, onde o sono não tem importância, onde a fome é ladainha, onde só importa a vida, que está em festa, como a morte sustentava as lantejoulas, as sedas coloridas, os vestido longos, as sombras nos olhos e uma melodia que remoinhava pelo quarto, como o tufão invisível que movimenta o cabelo de uma mulher no momento de uma paixão. DARIANA FONTANA, VITIMOU-A A VIDA O QUE A VIDA DAVA-LHE COMO DÁDIVA. SEU SOFRIMENTO AGORA É O SENTIMENTO DAQUELES QUE SENTEM SUAS SAUDADES. a última paixão é a eternidade, o amor de pele lisa e macia fica no tato, foge o gosto do beijo da lembrança e fica o assombro da primeira visão, invade o vizinho, a metáfora do mundo que lhe bate a porta, reclamando do barulho ou pedindo farinha ou oferecendo um pedaço do bolo já feito, não importa, é o mundo que ama o mundo, a paixão, um mundo que ama. fosse ontem, fosse amanhã, seria a paixão de agora, que causa distúrbios e flutua, acima de tudo, paira no ar e sobre o vai-e-vem do sol e da lua. o pai havia pedido urgência pois não queria a sepultura muito tempo sem epitáfio, estava no cemitério de *** e no *** questionou o coveiro com as especificações da defunta e chegou na lápide branca, ainda com flores frescas, as marcas das mãos que lhe afagaram ao serem afastadas, das lágrimas, um abraço dado pelo mundo para acolher sua filha de volta ao seio, a saudade dos homens. uma flor, um lírio-do-vale, cheirou-a, acolheu-a, olhando para a lápide sem epitáfio, a negação da morte como sinal da vida que luta, o branco do nada e a ausência do padrão. uma mão que escorre pelo mármore branco, rezingando seu epitáfio de morte na declaração de um amor póstumo, uma declaração viva contra a morte que o construiu, recíproca num beijo de tato frio e suculento, cheirando a lírio e a cemitério, a terra úmida e a premonição de tempestade. correu pela falta do guarda-chuva, segurando com extremo zelo o lírio e a lembrança do não-epitáfio. em casa, DARIANA FONTANA, VITIMOU-A A VIDA O QUE A VIDA DAVA-LHE COMO DÁDIVA. SEU SOFRIMENTO AGORA É O SENTIMENTO DAQUELES QUE SENTEM SUAS SAUDADES. SERÁS SEMPRE JOVEM NA NOSSA MEMÓRIA, armou o cabo da flor em um copo com água mineral ao lado do computador, e o lírio o encarava com sua pupila doce e involuta, seu olhar de estrela solitária que sinaliza uma nova galáxia, o buraco-negro de um desconhecido que encarava silencioso, aceitador, escravo de um lírio-negro, uma flor amarelo-negra como o ciúmes, o amarelo abstrato, o etéreo que vem estapear-lhe a face, roça a ponta do nariz, dá uma vira-volta volteando um bailar e foge para a penumbra assobiando uma cantiga de felicidade, esvaindo-se na ilusão da realidade. o abraço é em vão, não acolhe, mas espanta, e as letras saltam para seu lugar de direito, o que o faz disposto a tudo para manter seu amor-de-vida póstumo, que morre, e morre fixando a morte negra no mármore branco, asfixiando o lírio que brota no coração do estrume da falsa ambição, da decepção e enfim da derrota. o passado desenha o destino, sem rascunhos, com a tinta invisível do futuro no papel em branco-não-branco e não negro do agora, uma memória que costura um tapete que então agora tem um lírio amarelo-negro bordado, como sempre estivera e nunca mais estará, porque o tecelão que borda solitário seu momento tem como bordar seu ofício único e eterno.

o tecelão e o revisor

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