foi do samba do fone de ouvido que tirei a idéia do batuque na caixinha de balas, feita de plástico colorido verde, cujo suprimento deveria resistir toda a viagem. para onde ia não havia caixinha nem samba.
assim como não enjôo em viagens, nunca enjoei de olhar a paisagem da janela, nem do samba e nem daquela balinha. também é certo que o fato de se enjoar não corresponde necessariamente à intensidade do gostar de cada coisa. é que de emoções e sensações dificilmente se enjoa, ao passo que ao objeto não se passa o mesmo. eu mesmo não vislumbro renegar os sentimentos que trazem uma viagem, uma paisagem, um samba, uma balinha e muito menos uma mulher. reconheço, porém, que já reneguei belezas por se tornarem algo de aparência e não mais de sentimento. e, daí, quando aquele mundo, também meu, torna-se somente aquele mundo externo, mudo como a janela de persiana fechada, o plástico verde da caixinha vazia, o radinho sem pilha, a mulher que se esqueceu, então o homem, como ser sedento que é, sente-se em tarde de domingo, com o perdão do clichê.
há homens que não se enjoam por dois motivos: ou reconhecem que seu mundo interior é demais incerto e imune aos clichês que vivem por lá, ou por lá mesmo se resignam ao se arrastarem inertes repetindo:
- amanhã é segunda-feira. amanhã é segunda-feira.
por isso me refugio no samba de sempre batucado na caixinha, acompanhado pela paisagem da janela e pelas mulheres de mundos passados. porque a verdadeira fuga do domingo é tê-lo como um domingo infinito. afinal o problema está mesmo na segunda-feira, ou na música, ou na paisagem...
segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026
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