Leitora: Lendo o texto, eu já fiquei meio com o pensamento direcionado pelo que conversamos no outro dia. Pra mim, a parte da terra vermelha e do capim dourado significam um pouco daquelas "fôrmas" das quais vc falou, que são bonitas, são certas, todos gostam, mas às vezes podem não refletir a realidade. Ele tá cansado da aparente "perfeição" e quer buscar outras coisas, que seja para ter que ir sozinho algumas vezes, que sofrer, que estar "esfomeado de sede" e, com isso, por muitas vezes, não conseguir nem matar a sede e nem a fome. Mas é possível que em alguma momento ele fique satisfeito? A "trilha marcada" tb é a mesma questão das fôrmas. Mas acho que ainda preciso ler mais o final para tentar entender melhor. Será que significa que não dá para tentar mudar? Que acabamos voltando às fôrmas? Ou quer dizer o oposto disso? Ou outra coisa totalmente diferente? Ah, e o "pelo que fora do caminho" tb pode ter dois sentido, de "pra fora" ou de "foi", não? Mas não entendi o que é "descongou o congado". E por que ele termina como santo? É santo pq admiram a coragem de tentar sair da trilha? É santo por agüentar as dificuldades?
J.P.Cilli: Pois é, a questão da satisfação é um ponto interessante...acho que ele resolveu sair de onde estava pra buscar sua satisfação pessoal, sair do caminho, pq talvez era só o jeito de fugir do mundo, de não enfrentar as coisas que ele vinha enfrentando, mas pode ser tb que ele cansou do caminho e quis sair, e sofreu, mas tb teve bons momentos. no fim, ele têm satisfação (não sei se ele morreu...) pq as outras pessoas vêem nele algo que elas não podem ser, por isso ele vira santo, por isso a cova que desgosta os humanos....ninguém quer entrar nela, mas aplaudem os que entram, é uma contradição humana. vc chega e diz, vou ser artista, todo mundo ri de vc, aí vc vira um artista famoso, rico, faz um trabalho legal, e todo mundo se gaba que te conhece, que um dia falou com vc... mas enquanto isso, vc estava fora do caminho, tropeçando, espetando a cabeça (isso tem alguns sentidos...), tentando lutar contra a sede e a fome que ele já não sabe contra o que luta, mas continua sem parar, come cacto, que tem água dentro, apesar dos espinhos... mas ele se diverte tb, canta (sozinho), faz coisas novas, coisas boas, mas ninguém quer ouvi-lo, e no fim ele é reconhecido e talvez nem tenha tido chance de saber disso... a trilha marcada do que fora o caminho pode ser a trilha que ele usava e que ficou marcada, era o caminho, antes de tudo, por isso o tempo verbal, mas ele fugiu dessa trilha... o zeca é o animal, mas pode ser outra coisa. pode ser a última tentativa de fugir, de colocar a culpa em outro, mas no fim ele prende, para que ele não o siga, ele quer se livrar do passado, não quer que nada o acompanhe ... pisou de pé rachado/topou o dedo em pedra/pelo finco do cerrado pode ter alguns significados. pé rachado/finco do cerrado é a identidade do homem com o meio ambiente, o pé é rachado, o chão que ele pisa também é. o homem anda junto do meio em que vive, e disso ele não pode fugir nunca (não acho que o personagem o queira, de todo modo). a pedra está no meio, no meio do caminho e aí acho que está uma idéia importante do texto, uma relação com o poema do drummond... a questão pode ser mais ou menos a seguinte: ok, há uma pedra no meio do caminho, mas pq ele está no caminho? pq ele não sai do caminho? e se ele sair, não haverá pedra? ou haverá ainda mais pedras?... descongar o congado, congado é uma tradição que veio do congo, coisa dos escravos, é uma dança/representação da coroação do rei (ou rainha) do Congo, mas é uma tradição que vive até hoje. hoje em dia está ficando em alta nesse meio alternativo-cultural essas danças tradicionais. mas ele queria se desapegar das coisas, então ele resolveu mexer nisso, tirar o congo do congado, criar seu próprio congado, sua própria dança, sua própria música, ser seu próprio rei, sem, no entanto, deixar de lado o passado... mas há ainda a relação disso tudo com a foto. Marco?
Marco: Muito legal a interpretação de vcs. Eu tinha pensado de forma muito menos abrangente, para não dizer que foi limitada. Acabei me fixando mais à idéia de que o texto retrata a jornada do herói, no caso santo, e deixei de perceber os aspectos do seu caminho, principalmente o fato de que ele vai por fora - como diz o Campbell no trecho que vc transcreveu. E a idéia de que Amanto está "fora da caminho" me passa a impressão de que fora do caminho não há caminho algum ou pelo menos não há caminho que leve a lugar algum. Mas ao mesmo tempo, o texto desmente essa idéia incial ao relatar a jornada do seu amanto, que apesar de por fora, não deixa de ser um caminho. Acho legal que o texto mostra, sem precisar ser explícito, essa co-existência de caminhos. Uma outra coisa interessante é ver como tratamos de assuntos parecidos de maneiras completamente diferentes. Aquele texto Aos 23 e 4 meses também fala do caminho traçado, porém de uma outra perspectiva.
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