segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

dos casais e das utopias (máquina-reflexão dos capitais)

não tinha surpresa nem frio na barriga. sem pestanejar ele lançou sua frase do bolso de dentro do paletó velho, daquele de lã trançada em xadrez. dela não me recordo, o que trato logo de reconhecer e abandonar o pontapé. de todo modo, minhas impressões são mais fiéis que minha memória e desde já julgo que ela nada nos acrescentaria, sendo que em nada era original. e pela reação, até adverteria os mais afoitos. num lapso pensei que "o ridículo é uma espécie de lastro da alma quando ela entra no mar da vida” e concordei em como “algumas fazem toda a navegação sem outra espécie de carregamento". enfim, o ponto é que, assim como a chuva de verão que interpelou Nash, guardadas as genialidades, os propósitos e os dispêndios de energia, foi daí que me surgiram algumas idéias, parecendo-me tão velhas quanto o paletó do peralta.
pois que do bailar dos casais, geralmente levado pelo macho, enxerguei uma lógica que buscava, ainda que sem grandes esforços, insatisfeito que era com os alarmes marxistas. vislumbrei, então, a semente do capitalismo na tempestade, por vezes ruborosa e noutras acanhada, provocada pelo ímpeto da acasalação.
é que um insurge contra o outro por motivos que julga por si mesmo, mas que quase sempre são outros, poucas vezes conscientes e intensamente incrustados no espírito. a dança é, então, pretensamente comandada pelo impetuoso, que nada mais passa da vítima da situação. todas suas energias vão para determinado ponto. ele chega a crer dogmaticamente que tudo corresponde, que é fruto das conspirações. pobres incautos que somos: sentimos os ouvidos tirlintarem, as idéias ofuscarem, os impulsos invadirem. e nos cegamos. são combustível e engrenagem. sendo irracional, o desejo é razão de tudo. dele não se deve esperar limites e dos homens infertilidade nenhuma a qualquer semente.
e desejar é ser estúpido? sem desejo não passariam os homens e mulheres de meras máquinas? mas qual não é a máquina que somos, engrenados e movidos pelo desejo freudiano de possuir o ser e sermos quem possui?
o mundo perene com seus sofredores intermitentes é máquina. crer enxergar é pretensão desaforada dos nobéis cotidianos e dos escritores imperativos - como eu. perdoem todos a eles, que julgam possuir e ser, ainda que vivam na roda, sonhem nas correntes e morram nas fumaças. homens grandes, sim, são graxas: de nada são parte, mas donos do divino poder de parecer parar o mundo pela sua própria ausência. fiquem eles com as agulhas!
se aos medíocres cabe a máquina, reservando-se aos maiores parte do controle, não há demasiados segredos no sucesso de público do capitalismo, ainda que dele emirjam os frutos podres que a todos nauseiam. é a hibridização, por fim tão utópica quanto as teorias da igualdade, da saciação com o impulso de chegar o quanto mais alto, o quanto mais longe.

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