ele veio ela veio todos vieram
a luz podia estar acesa ou mesmo apagada
como lua
não fazia diferença
tinha olho verde olho azul olho preto como jabuticaba
e até mel
você vai vir vai ver e tudo vai parecer outras coisas
que não estavam por aqui comigo
ou estavam
com outras caras outros gritos outras cores
outra verdade que cada mente vê
e mente pro resto do corpo que é bobo e aceita
instrumento das paixões do ponto de vista
que depende do fim
na direita os ocidentais na esquerda os orientais
mas no fim todos vêem
e cada um enxerga
segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026
do arroz e do precipício (refeição-reflexões de guimarães)
Dia desses, à mesa do jantar, comendo inconscientemente às pressas, observei o comportamento do arroz, se é que comportamento é palavra que se presta a dar movimento às coisas sem vida. O arroz, como um todo branco e como cada parte - o grão. E daí ruminei uns pensamentos.
Refleti em como a boa arte é arte em seu todo e arte em sua parte. Cada frase, cada parágrafo de Machado de Assis é uma arte em si, assim como o é o texto visto como todo. E nas suas mais diversas óticas. Então indaguei-me por que "cada frase, cada parágrafo", mas não cada palavra. E justifiquei para mim que as palavras são pré-existentes e que, por isso mesmo, por não serem parte do impulso criativo, não há como serem arte em si.
Mas meus teimosos pensamentos voltaram logo com uma nova indagação. Por que não seria possível fazer das palavras arte e daí impor o limite nas letras? Que toda arte tenha sua limitação física última, posto que seja expressão humana, que tenha. Algumas se sujeitam a limitações maiores, outras a menores e, quanto menores, maior o espaço a ser preenchido. Então por que não empurrar aqui, esbarrar dali, e fazer da arte escrita mais ampla?
O limite, matutei, deveria ir até o ponto em que ainda seria possível a compreensão, ou tornaria a linguagem inócua. Já admitira a abstração das palavras, aceitara o limite das letras, haveria de haver um meio termo. Isso, assim, não funcionaria. Pus que tomaria comigo algumas palavras e daria alforria a outras. E, diante dos propósitos, pus que soltaria as relevantes e tomaria as acessórias. Assim que, não sendo essas principais, atrapalhariam menos e, sendo aquelas relevantes, ao faltarem, tornariam o residual, objeto das minhas reflexões, mais corpulento.
Fiz jus aos verbos e aos substantivos. Aqueles são a engrenagem, esses a verdade nua e crua, o naturalismo do vocabulário. Demais importantes, dei-lhes a alforria. Teria que me apegar aos artigos, pois sinalizam o entendimento, indicam caminho. Acessórios, mas imprescindíveis na minha jornada. Precavi-me, também, com as preposições, as conjunções e os pronomes. Podem até ser reles no todo, mas são úteis no dia-a-dia. Aos adjetivos, como porção idealista e metafísica do idioma, dei-lhes receoso a liberdade, mas encorajei-me na idéia de que a metafísica vai além e deles, pois, prescinde.
Fiquei assim, de Sancho com os artigos, pronomes, conjunções e preposições, e livre dos moinhos - adjetivos, verbos e substantivos. Às interjeições não dei conta, são expressões das idéias humanas e não vislumbrei considerá-las. Os advérbios, já esses, fizeram festa diante da minha indecisão. Pois que compadeci e os acolhi, ainda que, como castigo, adverti os incautos festeiros que poderia acontecer de, lá pelo meio do caminho, terem que seguir o rumo por eles mesmos. Não foi, porém, a mesma sorte que a das locuções. Essas, ainda que não sejam de muita importância, estão, no fim, como as interjeições. Como derivam todas de outras, fiz que não vi. Por fim, os numerais equivali às próprias letras e, portanto, ficaram aqui comigo, à beira do precipício.
Refleti em como a boa arte é arte em seu todo e arte em sua parte. Cada frase, cada parágrafo de Machado de Assis é uma arte em si, assim como o é o texto visto como todo. E nas suas mais diversas óticas. Então indaguei-me por que "cada frase, cada parágrafo", mas não cada palavra. E justifiquei para mim que as palavras são pré-existentes e que, por isso mesmo, por não serem parte do impulso criativo, não há como serem arte em si.
Mas meus teimosos pensamentos voltaram logo com uma nova indagação. Por que não seria possível fazer das palavras arte e daí impor o limite nas letras? Que toda arte tenha sua limitação física última, posto que seja expressão humana, que tenha. Algumas se sujeitam a limitações maiores, outras a menores e, quanto menores, maior o espaço a ser preenchido. Então por que não empurrar aqui, esbarrar dali, e fazer da arte escrita mais ampla?
O limite, matutei, deveria ir até o ponto em que ainda seria possível a compreensão, ou tornaria a linguagem inócua. Já admitira a abstração das palavras, aceitara o limite das letras, haveria de haver um meio termo. Isso, assim, não funcionaria. Pus que tomaria comigo algumas palavras e daria alforria a outras. E, diante dos propósitos, pus que soltaria as relevantes e tomaria as acessórias. Assim que, não sendo essas principais, atrapalhariam menos e, sendo aquelas relevantes, ao faltarem, tornariam o residual, objeto das minhas reflexões, mais corpulento.
Fiz jus aos verbos e aos substantivos. Aqueles são a engrenagem, esses a verdade nua e crua, o naturalismo do vocabulário. Demais importantes, dei-lhes a alforria. Teria que me apegar aos artigos, pois sinalizam o entendimento, indicam caminho. Acessórios, mas imprescindíveis na minha jornada. Precavi-me, também, com as preposições, as conjunções e os pronomes. Podem até ser reles no todo, mas são úteis no dia-a-dia. Aos adjetivos, como porção idealista e metafísica do idioma, dei-lhes receoso a liberdade, mas encorajei-me na idéia de que a metafísica vai além e deles, pois, prescinde.
Fiquei assim, de Sancho com os artigos, pronomes, conjunções e preposições, e livre dos moinhos - adjetivos, verbos e substantivos. Às interjeições não dei conta, são expressões das idéias humanas e não vislumbrei considerá-las. Os advérbios, já esses, fizeram festa diante da minha indecisão. Pois que compadeci e os acolhi, ainda que, como castigo, adverti os incautos festeiros que poderia acontecer de, lá pelo meio do caminho, terem que seguir o rumo por eles mesmos. Não foi, porém, a mesma sorte que a das locuções. Essas, ainda que não sejam de muita importância, estão, no fim, como as interjeições. Como derivam todas de outras, fiz que não vi. Por fim, os numerais equivali às próprias letras e, portanto, ficaram aqui comigo, à beira do precipício.
Prologo
Para começar, uma citação...
Poema de Sete Faces
Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.
As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.
O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.
O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode
Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.
Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria a solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.
Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.
Carlos Drummond de Andrade
Poema de Sete Faces
Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.
As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.
O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.
O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode
Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.
Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria a solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.
Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.
Carlos Drummond de Andrade
Confissões a uma flor
Vê-la e nem ao menos tentar tê-la é insistir em um desejo platônico, é praticamente suicídio, é desistir de viver.Contemplá-la sem dúvida me dá prazer. Gosto de vê-la; é, para mim, fonte de paz, de conforto, de beleza, de prazer. Incrível como gosto das coisas belas. Seria a maior das hipocrisias negar que a beleza não é essencial. Gosto da simetria, das curvas perfeitas, das cores bem utilizadas, dos seus arranjos cacheados, do corpo bem usado, do seu charme de mulher.
Flores são femininas por natureza; talvez seja por isso que reverenciamos as mulheres com flores intermináveis, simplesmente para celebrar a beleza.
Infelizmente -- ou felizmente -- acho que contemplá-la não me basta, meus desejos são maiores. Não quero ficar a imaginar palavras que essa flor nunca me dirá.
Flor, não quero apenas ver-te, quero tocar-te, quero sentir-te, cheirar-te, morder-te, quero comer-te com todos os meus dentes e sentir suas pétalas se desmancharem na minha boca lentamente... saborear-te, além de admirar-te. Viver-te por completo, ver teu interior, enfim sentir-te até o “último fim de sentimento que permaneceria apenas vago e sufocador”.
Flores são femininas por natureza; talvez seja por isso que reverenciamos as mulheres com flores intermináveis, simplesmente para celebrar a beleza.
Infelizmente -- ou felizmente -- acho que contemplá-la não me basta, meus desejos são maiores. Não quero ficar a imaginar palavras que essa flor nunca me dirá.
Flor, não quero apenas ver-te, quero tocar-te, quero sentir-te, cheirar-te, morder-te, quero comer-te com todos os meus dentes e sentir suas pétalas se desmancharem na minha boca lentamente... saborear-te, além de admirar-te. Viver-te por completo, ver teu interior, enfim sentir-te até o “último fim de sentimento que permaneceria apenas vago e sufocador”.
Esquecimento
A memória que é curta?
Ou o esquecer é proposital?
Como se as experiências fossem sempre vividas como se pela primeira vez.
Ou o esquecer é proposital?
Como se as experiências fossem sempre vividas como se pela primeira vez.
que mar, que céu? (por quês-reflexão a niemeyer)
as formas surgiram daquele cheiro da maresia e daquele azul para cima de azul. daí iluminou-se para a igualdade das raças, deu-se conta das pessoas e de que as formas seriam casulos da riqueza, mas que sua maior beleza só poderia ser vista pelos seus desalojados.
que as possibilidades haveriam de ser, assim, sincronizadas. que deixaria a funcionalidade, e até alguma beleza, para seus interiores, que não podia abdicar do seu ofício assim. mas que para fotografia-cartão-postal tem que botar o pé na terra, andar para trás, quiçá tropeçar no que não se vê.
que as possibilidades e esperanças sejam relevantes, ninguém duvide - e converso agora sobre aquilo que se concretiza nos olhos dos mais cegos. mas que sejam principais, daí vêm esses quês e por quês. que o espírito humano é único em sua matéria, e vivo por sua energia. essa que, ao acaso ou não, irá de positiva a negativa - e que, realmente, às vezes me parece nula. que do imbróglio humano, por vezes cobertor da sua própria natureza, surge a personalidade, os feitios, os olhares e tudo mais que se vê concretizar.
que essa terra infinitamente heterogênea, como a vista em horizonte do pôr-do-sol nas águas do oceano, – e que chamaram de "pó" – independe das possibilidades que os meios de produção lhe oferece. que são muito gerais e não atingem sobremaneira o espírito humano, blindado que é do que lhe tenta melhorar ou piorar por vias abruptas. que, então, dê-se ao homem a possibilidade de evoluir seu espírito para o bem, que ele transformará a esperança na foz dos seus anseios, e o mundo no espelho da sua própria evolução. que toda arte que cuida do espaço cubra todos os ângulos, porque ângulo algum sozinho será capaz de cumprir sua função e revelar, como foz ou espelho, o mínimo de toda a natureza humana e das formas que produz.
que as possibilidades haveriam de ser, assim, sincronizadas. que deixaria a funcionalidade, e até alguma beleza, para seus interiores, que não podia abdicar do seu ofício assim. mas que para fotografia-cartão-postal tem que botar o pé na terra, andar para trás, quiçá tropeçar no que não se vê.
que as possibilidades e esperanças sejam relevantes, ninguém duvide - e converso agora sobre aquilo que se concretiza nos olhos dos mais cegos. mas que sejam principais, daí vêm esses quês e por quês. que o espírito humano é único em sua matéria, e vivo por sua energia. essa que, ao acaso ou não, irá de positiva a negativa - e que, realmente, às vezes me parece nula. que do imbróglio humano, por vezes cobertor da sua própria natureza, surge a personalidade, os feitios, os olhares e tudo mais que se vê concretizar.
que essa terra infinitamente heterogênea, como a vista em horizonte do pôr-do-sol nas águas do oceano, – e que chamaram de "pó" – independe das possibilidades que os meios de produção lhe oferece. que são muito gerais e não atingem sobremaneira o espírito humano, blindado que é do que lhe tenta melhorar ou piorar por vias abruptas. que, então, dê-se ao homem a possibilidade de evoluir seu espírito para o bem, que ele transformará a esperança na foz dos seus anseios, e o mundo no espelho da sua própria evolução. que toda arte que cuida do espaço cubra todos os ângulos, porque ângulo algum sozinho será capaz de cumprir sua função e revelar, como foz ou espelho, o mínimo de toda a natureza humana e das formas que produz.
da caixinha colorida (samba-reflexão em paralelos)
foi do samba do fone de ouvido que tirei a idéia do batuque na caixinha de balas, feita de plástico colorido verde, cujo suprimento deveria resistir toda a viagem. para onde ia não havia caixinha nem samba.
assim como não enjôo em viagens, nunca enjoei de olhar a paisagem da janela, nem do samba e nem daquela balinha. também é certo que o fato de se enjoar não corresponde necessariamente à intensidade do gostar de cada coisa. é que de emoções e sensações dificilmente se enjoa, ao passo que ao objeto não se passa o mesmo. eu mesmo não vislumbro renegar os sentimentos que trazem uma viagem, uma paisagem, um samba, uma balinha e muito menos uma mulher. reconheço, porém, que já reneguei belezas por se tornarem algo de aparência e não mais de sentimento. e, daí, quando aquele mundo, também meu, torna-se somente aquele mundo externo, mudo como a janela de persiana fechada, o plástico verde da caixinha vazia, o radinho sem pilha, a mulher que se esqueceu, então o homem, como ser sedento que é, sente-se em tarde de domingo, com o perdão do clichê.
há homens que não se enjoam por dois motivos: ou reconhecem que seu mundo interior é demais incerto e imune aos clichês que vivem por lá, ou por lá mesmo se resignam ao se arrastarem inertes repetindo:
- amanhã é segunda-feira. amanhã é segunda-feira.
por isso me refugio no samba de sempre batucado na caixinha, acompanhado pela paisagem da janela e pelas mulheres de mundos passados. porque a verdadeira fuga do domingo é tê-lo como um domingo infinito. afinal o problema está mesmo na segunda-feira, ou na música, ou na paisagem...
assim como não enjôo em viagens, nunca enjoei de olhar a paisagem da janela, nem do samba e nem daquela balinha. também é certo que o fato de se enjoar não corresponde necessariamente à intensidade do gostar de cada coisa. é que de emoções e sensações dificilmente se enjoa, ao passo que ao objeto não se passa o mesmo. eu mesmo não vislumbro renegar os sentimentos que trazem uma viagem, uma paisagem, um samba, uma balinha e muito menos uma mulher. reconheço, porém, que já reneguei belezas por se tornarem algo de aparência e não mais de sentimento. e, daí, quando aquele mundo, também meu, torna-se somente aquele mundo externo, mudo como a janela de persiana fechada, o plástico verde da caixinha vazia, o radinho sem pilha, a mulher que se esqueceu, então o homem, como ser sedento que é, sente-se em tarde de domingo, com o perdão do clichê.
há homens que não se enjoam por dois motivos: ou reconhecem que seu mundo interior é demais incerto e imune aos clichês que vivem por lá, ou por lá mesmo se resignam ao se arrastarem inertes repetindo:
- amanhã é segunda-feira. amanhã é segunda-feira.
por isso me refugio no samba de sempre batucado na caixinha, acompanhado pela paisagem da janela e pelas mulheres de mundos passados. porque a verdadeira fuga do domingo é tê-lo como um domingo infinito. afinal o problema está mesmo na segunda-feira, ou na música, ou na paisagem...
dos casais e das utopias (máquina-reflexão dos capitais)
não tinha surpresa nem frio na barriga. sem pestanejar ele lançou sua frase do bolso de dentro do paletó velho, daquele de lã trançada em xadrez. dela não me recordo, o que trato logo de reconhecer e abandonar o pontapé. de todo modo, minhas impressões são mais fiéis que minha memória e desde já julgo que ela nada nos acrescentaria, sendo que em nada era original. e pela reação, até adverteria os mais afoitos. num lapso pensei que "o ridículo é uma espécie de lastro da alma quando ela entra no mar da vida” e concordei em como “algumas fazem toda a navegação sem outra espécie de carregamento". enfim, o ponto é que, assim como a chuva de verão que interpelou Nash, guardadas as genialidades, os propósitos e os dispêndios de energia, foi daí que me surgiram algumas idéias, parecendo-me tão velhas quanto o paletó do peralta.
pois que do bailar dos casais, geralmente levado pelo macho, enxerguei uma lógica que buscava, ainda que sem grandes esforços, insatisfeito que era com os alarmes marxistas. vislumbrei, então, a semente do capitalismo na tempestade, por vezes ruborosa e noutras acanhada, provocada pelo ímpeto da acasalação.
é que um insurge contra o outro por motivos que julga por si mesmo, mas que quase sempre são outros, poucas vezes conscientes e intensamente incrustados no espírito. a dança é, então, pretensamente comandada pelo impetuoso, que nada mais passa da vítima da situação. todas suas energias vão para determinado ponto. ele chega a crer dogmaticamente que tudo corresponde, que é fruto das conspirações. pobres incautos que somos: sentimos os ouvidos tirlintarem, as idéias ofuscarem, os impulsos invadirem. e nos cegamos. são combustível e engrenagem. sendo irracional, o desejo é razão de tudo. dele não se deve esperar limites e dos homens infertilidade nenhuma a qualquer semente.
e desejar é ser estúpido? sem desejo não passariam os homens e mulheres de meras máquinas? mas qual não é a máquina que somos, engrenados e movidos pelo desejo freudiano de possuir o ser e sermos quem possui?
o mundo perene com seus sofredores intermitentes é máquina. crer enxergar é pretensão desaforada dos nobéis cotidianos e dos escritores imperativos - como eu. perdoem todos a eles, que julgam possuir e ser, ainda que vivam na roda, sonhem nas correntes e morram nas fumaças. homens grandes, sim, são graxas: de nada são parte, mas donos do divino poder de parecer parar o mundo pela sua própria ausência. fiquem eles com as agulhas!
se aos medíocres cabe a máquina, reservando-se aos maiores parte do controle, não há demasiados segredos no sucesso de público do capitalismo, ainda que dele emirjam os frutos podres que a todos nauseiam. é a hibridização, por fim tão utópica quanto as teorias da igualdade, da saciação com o impulso de chegar o quanto mais alto, o quanto mais longe.
pois que do bailar dos casais, geralmente levado pelo macho, enxerguei uma lógica que buscava, ainda que sem grandes esforços, insatisfeito que era com os alarmes marxistas. vislumbrei, então, a semente do capitalismo na tempestade, por vezes ruborosa e noutras acanhada, provocada pelo ímpeto da acasalação.
é que um insurge contra o outro por motivos que julga por si mesmo, mas que quase sempre são outros, poucas vezes conscientes e intensamente incrustados no espírito. a dança é, então, pretensamente comandada pelo impetuoso, que nada mais passa da vítima da situação. todas suas energias vão para determinado ponto. ele chega a crer dogmaticamente que tudo corresponde, que é fruto das conspirações. pobres incautos que somos: sentimos os ouvidos tirlintarem, as idéias ofuscarem, os impulsos invadirem. e nos cegamos. são combustível e engrenagem. sendo irracional, o desejo é razão de tudo. dele não se deve esperar limites e dos homens infertilidade nenhuma a qualquer semente.
e desejar é ser estúpido? sem desejo não passariam os homens e mulheres de meras máquinas? mas qual não é a máquina que somos, engrenados e movidos pelo desejo freudiano de possuir o ser e sermos quem possui?
o mundo perene com seus sofredores intermitentes é máquina. crer enxergar é pretensão desaforada dos nobéis cotidianos e dos escritores imperativos - como eu. perdoem todos a eles, que julgam possuir e ser, ainda que vivam na roda, sonhem nas correntes e morram nas fumaças. homens grandes, sim, são graxas: de nada são parte, mas donos do divino poder de parecer parar o mundo pela sua própria ausência. fiquem eles com as agulhas!
se aos medíocres cabe a máquina, reservando-se aos maiores parte do controle, não há demasiados segredos no sucesso de público do capitalismo, ainda que dele emirjam os frutos podres que a todos nauseiam. é a hibridização, por fim tão utópica quanto as teorias da igualdade, da saciação com o impulso de chegar o quanto mais alto, o quanto mais longe.
mêdô - carta à laura
veja
olhe nos olhos do outro
eles podem estar rindo que o resto do corpo não seja
e aí é coisa de olho mesmo
não veja a cor
não interessa
meça
conheça
veja quem te quer e escolha quem te mereça
daí deixe esse mundo estranho girar
seja feliz por vivê-lo sem medo
porque no escuro não há olho que enxerga
nem felicidade sem tempo, nem verdade
nem amor sem saudade, nem tesão
porque no escuro não tem coisa de olho
e se os olhos não enxergam
imagine o coração
versão música:
veja
olhe nos olhos e veja
eles podem estar rindo
que o resto do corpo não seja
seja você mesma
não veja a cor da certeza
a cor que não te interessa
mas meça
conheça
veja quem te queira
e escolha quem te mereça
deixa o mundo girar
seja feliz e viva sem medo
no escurdo você não pode enxergar
não, não
sem tempo
não há felicidade
não há perdão, não
sem saudade
não há amor, não há
e nem tesão, não
no escuro
não tem coisa de ver
e se os olhos não podem
meu bem
também não pode o coração
olhe nos olhos do outro
eles podem estar rindo que o resto do corpo não seja
e aí é coisa de olho mesmo
não veja a cor
não interessa
meça
conheça
veja quem te quer e escolha quem te mereça
daí deixe esse mundo estranho girar
seja feliz por vivê-lo sem medo
porque no escuro não há olho que enxerga
nem felicidade sem tempo, nem verdade
nem amor sem saudade, nem tesão
porque no escuro não tem coisa de olho
e se os olhos não enxergam
imagine o coração
versão música:
veja
olhe nos olhos e veja
eles podem estar rindo
que o resto do corpo não seja
seja você mesma
não veja a cor da certeza
a cor que não te interessa
mas meça
conheça
veja quem te queira
e escolha quem te mereça
deixa o mundo girar
seja feliz e viva sem medo
no escurdo você não pode enxergar
não, não
sem tempo
não há felicidade
não há perdão, não
sem saudade
não há amor, não há
e nem tesão, não
no escuro
não tem coisa de ver
e se os olhos não podem
meu bem
também não pode o coração
de cada um e de todos nós (fotografia-reflexão dos espelhos)

de repente, da despretensiosa mirada no espelho, ocupou-se de um só propósito. contava então com uns tantos anos – nisso não há quem possa se colocar com segurança – e enxergava toda sua vida em desenhos fincados na sua face. há uns bons anos podia contar as histórias de cada uma de suas rugas, nas quais arranjava devaneios que as justificavam, culpando as preocupações passadas, amiúdes na sobrevivência humana, provocadas pelo espírito frouxo de todos os seus benquistos, parasitas da sua capacidade de servir incondicionalmente cada um dos seus anseios e caprichos. ocorre que, de uns tempos para cá, tinha perdido a conta, não sabia porquê, mas não era velha de se conformar. fez força, reforçou cada fresta que carregava, olhou para cima e para os lados e, olhando para o chão, conformou-se entristecida com a derrota dos seus próprios ideais. não podia mais com aquilo, amuou-se na idéia de que ninguém além dela mesma era responsável por tudo. dispensou até os contos passados, não queria mais saber de histórias. o agora se fazia suficientemente duro com a tardia recém-descoberta. em seu íntimo sentiu-se superior por se assumir, que cada um deveria fazer o mesmo. e assim, como se lhe voltasse a visão dos olhos, porque há outras mais poderosas que ocupam nossa mente, percebeu que se via novamente, agora em uma poça d’água suja que o destino e um furo em sua barraca colocaram aos seus pés. ignorou que aquele espelho não era tão fiel quanto o outro. todo espelho era espelho, d’água, vidro ou cristal, e aquele, por natureza tão incompetente em lhe mostrar seus detalhes, não lhe trazia as mesmas rugas. arremessou o espelho inimigo para trás e aliviou-se na limpeza dos maus pensamentos que covardemente lhe acometiam. enamorou-se, fitou seu novo espelho como faz o maior dos fiéis ao seu deus, e passou o resto de eternidade que lhe faltava chorando as lágrimas da verdade, mas com o sorriso do triunfo humano nos lábios.
ode sem porquê
é que às vezes fica tão perto
que o resto já não ocupa a paisagem
é que às vezes fica tão intenso
que o eterno já é lugar de disfarce
é que às vezes fica tão incerto
que o tempo já faz fuga da felicidade
é que às vezes fica tão inquieto
que o silêncio já refuta a eternidade
o senão então abre entraves à fé
e a urgência já é ode sem porquê
que o resto já não ocupa a paisagem
é que às vezes fica tão intenso
que o eterno já é lugar de disfarce
é que às vezes fica tão incerto
que o tempo já faz fuga da felicidade
é que às vezes fica tão inquieto
que o silêncio já refuta a eternidade
o senão então abre entraves à fé
e a urgência já é ode sem porquê
Tabacaria
"...
Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.
Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como a uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de se estar mal disposto.
..."
Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.
Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como a uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de se estar mal disposto.
..."
pega-pega (música)
e agora josé
a festa acabou mais cedo
a bola parou de rolar
o peão não resistiu, caiu
e agora joão
o bem-te-vi pousou com medo
a corda só quer enforcar
o teto não aguentou, desabou
e agora, vai cedo embora, josé
sai dessa aurora, joão
e chora demais
sem mais
e agora maria
implora, maria
finge que gosta
e faz romaria, maria
e agora tereza
adora a tua beleza
não pára o teu rebolado
e enxota a certeza, tereza
então inté tereza
olha sua hora maria
samba na roda joão
mas e agora josé
e agora, vai cedo embora, josé
sai dessa aurora, joão
maria não chora demais
tereza não tem mais tristeza
tristeza
e agora, sai dessa tristeza, maria
você chora demais, seu josé
não tem mais embora, tereza
vai cedo da aurora, joão
aurora
demora na aurora, tereza
chora sem tristeza, josé
trai mas não cora, maria
corre mas não rende, joão
corre
corre agora, josé
dorme sem sono, joão
corta o cabelo, maria
prepara o vestido, tereza.
a festa acabou mais cedo
a bola parou de rolar
o peão não resistiu, caiu
e agora joão
o bem-te-vi pousou com medo
a corda só quer enforcar
o teto não aguentou, desabou
e agora, vai cedo embora, josé
sai dessa aurora, joão
e chora demais
sem mais
e agora maria
implora, maria
finge que gosta
e faz romaria, maria
e agora tereza
adora a tua beleza
não pára o teu rebolado
e enxota a certeza, tereza
então inté tereza
olha sua hora maria
samba na roda joão
mas e agora josé
e agora, vai cedo embora, josé
sai dessa aurora, joão
maria não chora demais
tereza não tem mais tristeza
tristeza
e agora, sai dessa tristeza, maria
você chora demais, seu josé
não tem mais embora, tereza
vai cedo da aurora, joão
aurora
demora na aurora, tereza
chora sem tristeza, josé
trai mas não cora, maria
corre mas não rende, joão
corre
corre agora, josé
dorme sem sono, joão
corta o cabelo, maria
prepara o vestido, tereza.
dos destaques e da luz (batalha-reflexão napoleônica)
Era sábado de sol e o pai andava leve, rodando o molho pelo chaveiro. O filho o seguia, sendo obrigado a dar dois ou três passos mais rápidos para não se distanciarem muito. Ao pararem diante da porta, o pai dedilhou as chaves até encontrar a que queria, enquanto o filho postou-se ao seu lado, rente à porta, com os olhos fixos na cata da chave, mas com a imaginação já dentro do quartinho. E, porque imaginação desbandada é coisa perigosa demais, teve que entrar correndo quando seu pai havia apenas girado a maçaneta, gritando como quem agradece aos Céus:
- Valeu!
O pai sorriu satisfeito, retirou a chave e, já esquecido pelas ânsias infantis que lhe haviam interrompido o descanso, voltou ao ócio que justificam aqueles obreiros de pormenores silenciosos e inesgotáveis.
O menino puxou a caixa do fundo do armário de madeira, destacada há tempos para o quartinho do fundo. Gostava do cheiro de pó e de desconhecido que lhe trazia o quartinho. Não faria questão de limpá-lo se fosse gente grande. A caixa verde de tampo vermelho se arrastou resistente sobre o pó, como fazem no íntimo os homens que se destacam do presente e tentam se agarrar ao passado. Quando a tomou plenamente, chacoalhou-a para demonstrar-se dono e levou-a debaixo do braço direito.
A descrição a faço para situar o leitor à história, que não passa de destaques de uma situação de minúcias humanas. Assim como o espírito humano é capaz de prender-se à mais insignificante razão para tecer toda a meada de sua vida, não há motivos para ignorarmos as minúcias que, ao menos, não fugiram a estes olhos. Ademais, essa explicação mesma é vã, não porque revela algo que a boa arte deveria deixar entrelinhado, mas porque todo louco facilmente acha uma explicação, que julga por si a última das verdades eternas, para suas loucuras.
A caixa era de papel, mas de um papel duro e nobre, como se podia perceber daquela que já resistira aos anos. Seu interior era desnudo, da cor pastel do papelão, mas não menos resistente. Nela estavam amontoados diversos bonecos de plástico também duro, mas sensivelmente menos nobre, que representavam soldados de distintas patentes e de duas armadas diferentes, além de alguns equipamentos que ensejavam os protagonistas. Esses, como dito, eram de dois lados. Um se distinguia pela cor rubra do paletó, outro pela azul. Todos eram de pele verde-musgo, e de idêntico corte das vestimentas. Os cavalos se diferenciavam pela cor de seus arreios, acompanhando à da sua armada. E, do mesmo modo, tudo que os acompanhava tinha qualquer detalhe cuja cor possibilitava que se lhe fizesse destacar para um ou para outro lado.
Abrindo a caixa, esquecendo de pronto o tampo, donde se destacava uma ave bela e branca, cujo contorno foi desalinhado pelo tempo e pelo manuseio humano, esparramou todo o conteúdo no tapete falsamente persa da sala de televisão. Ali não atrapalharia o trânsito dos moradores, mas tampouco estaria imune aos olhares curiosos. Era um campo de batalha localizado num vale composto por dois sofás marrons ao sul e ao leste, pelo móvel de madeira, que comportava a televisão, ao norte, e por um flanco a oeste por onde passavam os transeuntes.
Pôs-se, então, a destacar as legiões, com a abstração autista e a concentração absoluta que se manifestam tão típica e naturalmente nas crianças. Talvez ele, no fundo, nem levasse aquilo tão a sério. Mas talvez sim. E o mesmo para os soldadinhos de plástico verde-musgo que, se consciência tivessem, poderiam, assim mesmo, não pretender serem mais que o que realmente eram: peças de um brinquedo. Mas fato é que a guerra é a busca da morte, a resolução última dos homens e talvez, por isso mesmo, a única delas merecedora de ser considerada de forma séria pelos seus compulsórios pretendentes.
Destacou os azuis ao norte e os vermelhos ao sul, a infantaria à frente, entremeada pela cavalaria, seguidos pelas patentes mais altas, que o menino pôde reconhecer pela maior quantidade de adereços em suas vestimentas. Posicionou um ou outro boneco mais distante, alguns como observadores, outros como possíveis elementos surpresas, quando se viu obrigado a decidir para qual exército ele mesmo lutaria. Como comandante geral das operações ele não poderia estar dos dois lados, imaginava não ter o distanciamento necessário às ações para comandar dois times ao mesmo tempo. Ficou pensando por uns bons cinco minutos quando decidiu pelos azuis, e que o vermelho de sangue ficasse para o outro lado. Julgou que aparentar sangue não seria bom agouro a um exército vencedor.
Que iniciem o combate! Sua infantaria era boa, dava tiros certeiros e a cavalaria parecia-lhe oportuna. De início teve algumas baixas, que não lhe preocuparam por não comprometerem a formação do exército. A batalha estava equilibrada, com uma leve vantagem aos exércitos azuis. Para ele estava claro que a vitória seria uma questão de tempo, estava tudo sobre controle.
As pessoas que ali passavam detinham-se em olhar aquele emaranhado de soldados e logo desistiam por não entenderem sequer os propósitos envolvidos. Alguém chegou a questioná-los, porque além da curiosidade está a audácia humana, e foi respondido por um olhar de reprovação esguelha. Afinal, da parte do comandante, não merecia algum crédito ou atenção.
A luta foi minguando e os azuis logo lançaram mão de seus elementos surpresas, a fim de eliminar de uma mão o adversário. Os vermelhos, no entanto, resistiam bravamente, não acuavam. Mas foi diante de um pensamento que o menino estremeceu e se viu distante da sonhada bandeira branca - por parte dos vermelhos, claro –, que é o paradoxo final dos conflitos. Deu-se conta de que os soldados vermelhos não eram mais valentes ou melhores que os seus, pois eram todos verde-musgo. Eram mais persistentes pelo motivo singelo de que, em virtude da cor de seus uniformes, não reconheciam, em si e nos companheiros, derramamento de sangue algum. Não estavam nunca feridos enquanto lutavam e cada um continuava lutando até cair, acreditando que estava sendo acompanhado de outros tantos soldados absolutamente saudáveis. Foi sua derrota. Acreditou naquilo e àquilo creditou seu eminente fracasso. Embora tentasse demonstrar que a crença adversária era falsa, não podia convencer ninguém e nem a si mesmo disso. Com efeito, a desconfiança, principalmente, se destaca como luz naqueles que pretendem ocultá-la. Naturalmente perdeu, sem dar lugar à bandeira qualquer, senão a da honra de ter lutado até seu fim.
Foi justamente no momento final que seu pai, amado e temido como todo pai a uma criança, entrou no cômodo e recebeu o olhar suplicante e envergonhado do filho.
- Olha, pai, eu perdi, disse prestando conta de sua tristeza. Olha, morreram todos e sobrou... contou em sussurros os soldados vermelhos com o dedo indicador ... quatro dos outros.
O pai parou e olhou com profundidade a cena. Ameaçou continuar seu caminho, mas deteve-se e, sob o olhar estranhado do filho diante daquela expressão, resmungou em tom vanglorioso:
- Mísero... e que tu querias brincando com a morte? Que pensaste tu?
- Valeu!
O pai sorriu satisfeito, retirou a chave e, já esquecido pelas ânsias infantis que lhe haviam interrompido o descanso, voltou ao ócio que justificam aqueles obreiros de pormenores silenciosos e inesgotáveis.
O menino puxou a caixa do fundo do armário de madeira, destacada há tempos para o quartinho do fundo. Gostava do cheiro de pó e de desconhecido que lhe trazia o quartinho. Não faria questão de limpá-lo se fosse gente grande. A caixa verde de tampo vermelho se arrastou resistente sobre o pó, como fazem no íntimo os homens que se destacam do presente e tentam se agarrar ao passado. Quando a tomou plenamente, chacoalhou-a para demonstrar-se dono e levou-a debaixo do braço direito.
A descrição a faço para situar o leitor à história, que não passa de destaques de uma situação de minúcias humanas. Assim como o espírito humano é capaz de prender-se à mais insignificante razão para tecer toda a meada de sua vida, não há motivos para ignorarmos as minúcias que, ao menos, não fugiram a estes olhos. Ademais, essa explicação mesma é vã, não porque revela algo que a boa arte deveria deixar entrelinhado, mas porque todo louco facilmente acha uma explicação, que julga por si a última das verdades eternas, para suas loucuras.
A caixa era de papel, mas de um papel duro e nobre, como se podia perceber daquela que já resistira aos anos. Seu interior era desnudo, da cor pastel do papelão, mas não menos resistente. Nela estavam amontoados diversos bonecos de plástico também duro, mas sensivelmente menos nobre, que representavam soldados de distintas patentes e de duas armadas diferentes, além de alguns equipamentos que ensejavam os protagonistas. Esses, como dito, eram de dois lados. Um se distinguia pela cor rubra do paletó, outro pela azul. Todos eram de pele verde-musgo, e de idêntico corte das vestimentas. Os cavalos se diferenciavam pela cor de seus arreios, acompanhando à da sua armada. E, do mesmo modo, tudo que os acompanhava tinha qualquer detalhe cuja cor possibilitava que se lhe fizesse destacar para um ou para outro lado.
Abrindo a caixa, esquecendo de pronto o tampo, donde se destacava uma ave bela e branca, cujo contorno foi desalinhado pelo tempo e pelo manuseio humano, esparramou todo o conteúdo no tapete falsamente persa da sala de televisão. Ali não atrapalharia o trânsito dos moradores, mas tampouco estaria imune aos olhares curiosos. Era um campo de batalha localizado num vale composto por dois sofás marrons ao sul e ao leste, pelo móvel de madeira, que comportava a televisão, ao norte, e por um flanco a oeste por onde passavam os transeuntes.
Pôs-se, então, a destacar as legiões, com a abstração autista e a concentração absoluta que se manifestam tão típica e naturalmente nas crianças. Talvez ele, no fundo, nem levasse aquilo tão a sério. Mas talvez sim. E o mesmo para os soldadinhos de plástico verde-musgo que, se consciência tivessem, poderiam, assim mesmo, não pretender serem mais que o que realmente eram: peças de um brinquedo. Mas fato é que a guerra é a busca da morte, a resolução última dos homens e talvez, por isso mesmo, a única delas merecedora de ser considerada de forma séria pelos seus compulsórios pretendentes.
Destacou os azuis ao norte e os vermelhos ao sul, a infantaria à frente, entremeada pela cavalaria, seguidos pelas patentes mais altas, que o menino pôde reconhecer pela maior quantidade de adereços em suas vestimentas. Posicionou um ou outro boneco mais distante, alguns como observadores, outros como possíveis elementos surpresas, quando se viu obrigado a decidir para qual exército ele mesmo lutaria. Como comandante geral das operações ele não poderia estar dos dois lados, imaginava não ter o distanciamento necessário às ações para comandar dois times ao mesmo tempo. Ficou pensando por uns bons cinco minutos quando decidiu pelos azuis, e que o vermelho de sangue ficasse para o outro lado. Julgou que aparentar sangue não seria bom agouro a um exército vencedor.
Que iniciem o combate! Sua infantaria era boa, dava tiros certeiros e a cavalaria parecia-lhe oportuna. De início teve algumas baixas, que não lhe preocuparam por não comprometerem a formação do exército. A batalha estava equilibrada, com uma leve vantagem aos exércitos azuis. Para ele estava claro que a vitória seria uma questão de tempo, estava tudo sobre controle.
As pessoas que ali passavam detinham-se em olhar aquele emaranhado de soldados e logo desistiam por não entenderem sequer os propósitos envolvidos. Alguém chegou a questioná-los, porque além da curiosidade está a audácia humana, e foi respondido por um olhar de reprovação esguelha. Afinal, da parte do comandante, não merecia algum crédito ou atenção.
A luta foi minguando e os azuis logo lançaram mão de seus elementos surpresas, a fim de eliminar de uma mão o adversário. Os vermelhos, no entanto, resistiam bravamente, não acuavam. Mas foi diante de um pensamento que o menino estremeceu e se viu distante da sonhada bandeira branca - por parte dos vermelhos, claro –, que é o paradoxo final dos conflitos. Deu-se conta de que os soldados vermelhos não eram mais valentes ou melhores que os seus, pois eram todos verde-musgo. Eram mais persistentes pelo motivo singelo de que, em virtude da cor de seus uniformes, não reconheciam, em si e nos companheiros, derramamento de sangue algum. Não estavam nunca feridos enquanto lutavam e cada um continuava lutando até cair, acreditando que estava sendo acompanhado de outros tantos soldados absolutamente saudáveis. Foi sua derrota. Acreditou naquilo e àquilo creditou seu eminente fracasso. Embora tentasse demonstrar que a crença adversária era falsa, não podia convencer ninguém e nem a si mesmo disso. Com efeito, a desconfiança, principalmente, se destaca como luz naqueles que pretendem ocultá-la. Naturalmente perdeu, sem dar lugar à bandeira qualquer, senão a da honra de ter lutado até seu fim.
Foi justamente no momento final que seu pai, amado e temido como todo pai a uma criança, entrou no cômodo e recebeu o olhar suplicante e envergonhado do filho.
- Olha, pai, eu perdi, disse prestando conta de sua tristeza. Olha, morreram todos e sobrou... contou em sussurros os soldados vermelhos com o dedo indicador ... quatro dos outros.
O pai parou e olhou com profundidade a cena. Ameaçou continuar seu caminho, mas deteve-se e, sob o olhar estranhado do filho diante daquela expressão, resmungou em tom vanglorioso:
- Mísero... e que tu querias brincando com a morte? Que pensaste tu?
dos ipês e do amarelo (presente-reflexão da natureza)
Hoje os ipês floresceram amarelo. A montanha ficou repleta de amarelo-brasil, a montanha de verde-pasto, de negro-rocha, de marrom-cupim, agora também é amarelo-ipê. Minha máquina fotográfica não quis pegar aquela cor, disse que a luz não estava à altura, depois porque precisava de filtro, porque seria ofensa a fotografia irreal de amarelo-ipê como amarelo-normal. A realidade bela, a realidade florescida de ipê amarelo precisava de filtro para sair fotografia, precisava dizer xis para parecer bela, para valer a pena o amarelo do ipê. O agora-já-se-foi das minhas retinas foi tudo o que me foi permitido, fui abençoado pelos ipês amarelos e alejado pela minha máquina fotográfica. Mas os ipês amarelos estão-estavam tão belos, as flores estão-estavam tão belas nos galhos, no chão. Então, o tapete verde-capim ficou amarelo-flor e as flores amarelas caídas fizeram o vazio dos galhos, que furavam o céu-pano-de-fundo, que parecia querer engolir os indefesos galhos, que choravam amarelo no verde-capim da montanha. A primavera é bela, mas o amarelo dos ipês floresce lá pelo fim do inverno e o ipê-amarelo chora o fim do inverno, porque a luz do pôr-do-sol-de-inverno é mais do que amarela e deixa as flores dos ipês amarelos mais belas no verde-mato ou no galho que rasga o céu. É bonito de ver o sol que estapeia a encosta, que encosta no céu, que abraça os galhos dos ipês de pés amarelos que já têm outros tons. É bonito de ver o verde também, mas o verde você pode ver também no outono, que ficou belo com a chuva que o verão presenteou. Mas o presente dos ipês amarelos já é futuro e passado no verão e no outono, é presente que fica e que se vai, e volta. E espera passar a primavera, o verão, o outono, explode no inverno e passa deixando meu coração amarelo, que desbota na primavera, no verão, no outono e o inverno bota mais amarelo no meu coração. Meu coração andava tão desamarelado, mas agora os ipês floresceram amarelo.
em mim sem fim
ó, escrevi tudo isso aí
disso aí fiz o ó
olhei o mundo aos meus pés
os mestres deixei pra trás
fiz bonito, viu
bonito que só vendo
era só botar ponto final e pronto
não havia pedra no caminho
não tinha alma na terra
que resistia a um sorriso falso
intelectual, mas falso que só
mesquinho quase
afinal, ninguém é de pedra, né
viajei muito, sabe
tudo grátis, uma beleza
acumulei muita milha
fiz muito aprendiz, muito amigo
me pediam aprovação até
- olha só, vou arriscar umas palavras nesse livro...
- olha aí, vê o que você acha disso...
sabe, até lia coisa ou outra
viu, não conta pra ninguém não
mas não lia todas porque eram ruins que só vendo
eu mesmo não comprava essa idéia de livro de palavra arriscada
coitado de mim, imagina
muito risco, compreende
essas coisas contaminam a gente
olha, não vá contar isso pra alguém, viu
resolvi por bem parar, então
não li nada além da minha própria poesia
ela ficou assim que só ela
uns dias me pedia companhia
mas logo se esquecia dessas idéias sem juízo
calava bonito, de dar gosto
vencia o próprio desejo, quem diria
eu ficava orgulhoso, precisa vê
mas foi numa noite que me abandonou
foi sem dó no escuro que o deus do mal ofereceu
fiquei eu só que só eu
tive notícias um dia
mas me doeu tanto o coração
saber que podia ser feliz sem mim, sabe...
ih, mas fiz mais que você nem faz idéia
tratei de ter um novo amigo
suei de um tanto, mas encontrei
dei um trato, ficou um brilho
é pena que dele não posso dizer muita coisa
é tímido, desses gênios que não se encontra por aí
diz que queria ficar assim mesmo, escondido, fazer o quê?
entendi, pois é, disso não tem como ser contra
digo, melhor um domo sem saída que uma vida sem dono, né?
disso aí fiz o ó
olhei o mundo aos meus pés
os mestres deixei pra trás
fiz bonito, viu
bonito que só vendo
era só botar ponto final e pronto
não havia pedra no caminho
não tinha alma na terra
que resistia a um sorriso falso
intelectual, mas falso que só
mesquinho quase
afinal, ninguém é de pedra, né
viajei muito, sabe
tudo grátis, uma beleza
acumulei muita milha
fiz muito aprendiz, muito amigo
me pediam aprovação até
- olha só, vou arriscar umas palavras nesse livro...
- olha aí, vê o que você acha disso...
sabe, até lia coisa ou outra
viu, não conta pra ninguém não
mas não lia todas porque eram ruins que só vendo
eu mesmo não comprava essa idéia de livro de palavra arriscada
coitado de mim, imagina
muito risco, compreende
essas coisas contaminam a gente
olha, não vá contar isso pra alguém, viu
resolvi por bem parar, então
não li nada além da minha própria poesia
ela ficou assim que só ela
uns dias me pedia companhia
mas logo se esquecia dessas idéias sem juízo
calava bonito, de dar gosto
vencia o próprio desejo, quem diria
eu ficava orgulhoso, precisa vê
mas foi numa noite que me abandonou
foi sem dó no escuro que o deus do mal ofereceu
fiquei eu só que só eu
tive notícias um dia
mas me doeu tanto o coração
saber que podia ser feliz sem mim, sabe...
ih, mas fiz mais que você nem faz idéia
tratei de ter um novo amigo
suei de um tanto, mas encontrei
dei um trato, ficou um brilho
é pena que dele não posso dizer muita coisa
é tímido, desses gênios que não se encontra por aí
diz que queria ficar assim mesmo, escondido, fazer o quê?
entendi, pois é, disso não tem como ser contra
digo, melhor um domo sem saída que uma vida sem dono, né?
sábado de feijoada
eu não estou fazendo nada
mas meu irmão mandou me avisar
que ontem foi dia de dizer não
eu não estou dizendo nada
mas meu irmão mandou me dizer
que hoje é dia de fazer feijão
eu não estou querendo nada
mas meu irmão mandou me falar
que amanhã é dia de sambar
eu não estou ouvindo nada
mas meu irmão me mandou cozinhar
que amanhã é dia de querer feijoada
mas meu irmão mandou me avisar
que ontem foi dia de dizer não
eu não estou dizendo nada
mas meu irmão mandou me dizer
que hoje é dia de fazer feijão
eu não estou querendo nada
mas meu irmão mandou me falar
que amanhã é dia de sambar
eu não estou ouvindo nada
mas meu irmão me mandou cozinhar
que amanhã é dia de querer feijoada
a rua que bifurca (pequeno estudo)
à luisa
a rua anunciava escura
luzia muda a labuta
julgamento universal das deusas
pendular mundano da lua
ângulo da loucura
a rua anunciava escura
luzia muda a labuta
julgamento universal das deusas
pendular mundano da lua
ângulo da loucura
disputa da nuca
aluga, esmiúça
anuncia a chuva noturna
judia amiúde
municia diuturna
luta do nunca
Judas da ajuda futura
Buda da tortura
única e muitas
urtica e unhas
ilusão mundana
testemunha que saúda
a pergunta em dupla
desconjura dura
dura crua
alguma culpa
outra pintura
pouca desculpa
aluga, esmiúça
anuncia a chuva noturna
judia amiúde
municia diuturna
luta do nunca
Judas da ajuda futura
Buda da tortura
única e muitas
urtica e unhas
ilusão mundana
testemunha que saúda
a pergunta em dupla
desconjura dura
dura crua
alguma culpa
outra pintura
pouca desculpa
soneto dos vagabundos (outro pequeno estudo)
foi deus quem no último dia
sentou cansado nas heras da criação,
vendo que era paisagem sua vocação,
fez de tudo calmaria.
como um velho experiente,
que com tempo ganha sabedoria e paz,
percebeu que só perderá quem tudo faz
e ganhará quem for inerte.
então eu pobre mortal,
quem sou eu para questionar
o nosso grande senhor
e inventar de trabalhar,
ignorando o descanso
que o nosso senhor fez santo?
sentou cansado nas heras da criação,
vendo que era paisagem sua vocação,
fez de tudo calmaria.
como um velho experiente,
que com tempo ganha sabedoria e paz,
percebeu que só perderá quem tudo faz
e ganhará quem for inerte.
então eu pobre mortal,
quem sou eu para questionar
o nosso grande senhor
e inventar de trabalhar,
ignorando o descanso
que o nosso senhor fez santo?
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