terça-feira, 25 de julho de 2006

Su belleza

Su belleza fluctúa solitaria
Huyendo de mi y de lo que sé
En el espacio etéreo del Universo.

Su belleza suspendida y serena,
Libre de la Hoz y de las Fuentes,
Juega con el Tiempo siendo todo y distante.

La misma belleza que huye del concreto,
Se convierte en un agujero negro de la Nada
Y abriga la fuga de los desafortunados.

Allí no brotan las palabras de los Hombres.
Todavía se escapa el sonido de la Verdad,
Como el ruido original de la Creación.


P. Neruda

quarta-feira, 19 de julho de 2006

Noite






É noite, sinto que é noite.
Não, querida. Olhe.

são paulo em cor-de-rosa


J.P. Cilli said...

ao agito cor-de-rosa
da trégua negra
camuflada
avança a cidade
um mendigo descansa sobre ti

segunda-feira, 17 de julho de 2006

sexta-feira, 14 de julho de 2006

reedições repensadas II


toque de recolher

- ouve só
- ...
- é isso, venceram
- eu ia ficar em casa mesmo
...
- escuta, de novo
- e daí?
- ...
- olha, vai começar a novela

neta hora

o relógio marca sete horas
ontem foi sete horas

a manhã sete horas
e tudo passa

passou um sonho
sonho sobrinho
sonho filho
era de não lugar

serei eu
será você
seremos canção?

a luz perturba
derruba
ladeira de enchente
água preta, de tronco e de bujão
de televisão e gente e rato
esgoto

era,
senão amanhã
ontem então
sabe?

o piso de taco antigo grita
vale quinze reais?
meu relógio sete horas
sempre tem razão

quinta-feira, 13 de julho de 2006

vento

se um dia levares de volta tudo que trazes
voltarás com paz ou guerras?
soprarás poeira nos olhos
ou limparás as casas?
e o cabelo que fazes esvoaçar
será bem visto pelos homens
e odiado pelas mulheres?
como a força que destelha
infla velas a cortar os mares
e a embalar o pescador
pode também remexer a flor d'água
como cardume de sardinhas
fugindo de um predador?
as nuvens que trazes
são as mesmas que levas?
ah, vento
se um dia compreender-te
apontarias Um caminho
a resposta do universo?

terça-feira, 11 de julho de 2006

reedições repensadas

vogal ou consoante vírgula interrogação

foi só subir?
foi lutar só?
só pegar o táxi
e fugir desse calor?

e lá peguei no frio
meu ônibus a tempo
meu pé tinha calo
de cair do muro só
de só brincar de fogo

ah, essas consoantes
lá no meio daquelas vogais
com toda aquela pontuação
quem serei eu quem será você
seremos nós interrogação

sexta-feira, 7 de julho de 2006

1 ANO!

Nosso querido QSEDQ completa um ano, leitores esquecidos. Cadê um texto triunfante de homenagem, comemoração?Não há. Faça você, leitor insatisfeito. Só não escancaro um concurso para não sofrer a vergonha de não ter nenhum texto submetido. Então fica assim, se vem um texto, abre-se um concurso. Se não, fica a piada.

terça-feira, 4 de julho de 2006

um indigente


hoje parei
e discordo de mim
meu olhar e meu pensamento
fogem
fingem olhar e pensar
mas fogem

as lágrimas do meu sofrimento
secaram no vento que levou minha verdade
ao vale do esquecimento
e da miséria

não mereço o prêmio dos resolutos
e sentado nas rochas
olho o movimento do mar nas ondas
e penso
sou indigente de alvorecer
sem olhar e pensamento

sentado nas rochas da mentira
fujo do vento
e finjo um crepúsculo
minha única verdade

segunda-feira, 3 de julho de 2006

XCIX - Fim

Otros días vendrán, será entendido
el silencio de plantas y planetas
y cuántas cosas puras pasarán!

pablo neruda
capítulo final – pandora

dissera-se que a vida das coisas ficara estúpida diante do homem... – não te assustes, disse ela, minha inimizade não mata; é sobretudo pela vida que se afirma. vives: não quero outro flagelo.
machado de assis

guiado pelo maître, sentei-me na frente de cecília, agradecendo a gentileza do funcionário. suspirei querendo olhar para cecília como quem vai cheio de saudades ao fundo da gaveta pela fotografia de sua amada. antes vi um papel dobrado em cima da mesa, na minha frente, que abri. não vi fotografia, não vi cecília: senão o Branco como nenhum branco já alcançado pelas retinas e pelas imaginações humanas. e se ali havia letras, não sei, estariam escondidas e eram desnecessárias. os olhos de cecília, sentia-os brancos, estou certo. seriam brancos assim que a vela se apagasse pelo sopro seco da eterna expectação. e ali viveria cecília a me iluminar, por um, dois, três, cem anos, um guardião em padecimento puro e silencioso.
o Branco foi se desfazendo em retalhos das cores que voltavam a se distinguir, ao passo que cecília ia desaparecendo e, completada a visão com ínfimos pedaços de cor, ela já não estava mais ali; uma situação embaraçosa, fiquei aturdido. um homem, talvez o garçom, me perguntava com uma voz impaciente se eu desejava alguma coisa, e repetia a pergunta insistentemente. eu, que tinha o rosto abaixado entre as mãos, levantei os olhos e vi uma porta abrindo, um amigo, como é, vou bater na porta até quando? levanta daí, disseram que se fica mais um minuto dentro deste quarto é capaz de enlouquecer.

sexta-feira, 30 de junho de 2006

sábado, 24 de junho de 2006

XCIX - II

Otros días vendrán, será entendido
el silencio de plantas y planetas
y cuántas cosas puras pasarán!

pablo neruda



capítulo segundo – a resolução, a revelação e o encontro

lá dentro, ela padecia, e não pouco, - ou fosse mágoa pura, ou só despeito; e porque a dor que se dissimula dói mais, é mui provável que virgília padecesse em dobro do que realmente devia padecer. creio que isto é metafísica.
machado de assis

não havendo meios, e sendo eminente a lua cheia, resolvi passar um mês com meus familiares no interior. no entanto, foi-se a lua cheia e não deram coisas do amor, tanto por mim quanto por ela, que não haveria de fazer mais pelos amantes. passadas duas semanas, fechei-me no quarto para descansar e acendi uma vela simples, coloquei alguma música e perdi-me em cecília por mais de uma hora, creio. estando a vela e a imaginação ao fim, dei-me conta do que resolveria meu sofrimento. é aí que chegamos ao início da história.
aquela era a cecília que mil eisteins não revelariam, perdoem minha falta de modéstia. mas destrinçando-a como faço, fica fácil, facílimo, o que não era, creiam-me. descobri, enfim, sob a luz arquejante e moribunda daquelas velas, o segredo de cecília – ah, se aquiles soubesse, agradeceria seu calcanhar! em poucos minutos tratei de escrever-lhe uma carta e fazê-la despachar logo pela manhã. aquela é cecília lendo a carta que a remeti, posso jurar-lhes. a carta, devo dizer, era uma legítima obra-prima, e como aquiles veio-nos em metáfora, que fiquem ao chão mais mil homeros! antecipei minha volta, estava exultante, cecília nenhuma resistiria àquele golpe.

chegando à capital, liguei para cecília, dei-me um dia, marcamos um almoço em um restaurante próximo à sua casa, discreto, sim, mas escolha minha. no outro dia me aprontei e fui ao seu encontro. a bordo de um táxi que me levava ao destino, sonhei uma cecília desmascarada, uma cecília de olhos claros e brilhantes, que abriria os braços para me beijar no meio do restaurante! ah, naquele caminho, as esquinas eram bodas, os automóveis padrinhos da nossa felicidade, os ruídos, as freadas, o burburinho, fogos que estouravam ao nosso beijo! o troco da corrida foi o dízimo devido ao procurador dos céus que selou com benção nosso amor: taxistas, se tuas corridas fossem movidas do meu sentimento, seríeis ricos, riquíssimos; mas não haveria de haver amor como aquele, perdoai-me a sinceridade. pois deixemos de aforismos religiosos e vamos indo. chegando ao restaurante, achei cecília sentada de costas, virada para a janela que dava para o jardim, a claridade do sol caía-lhe no vestido branco, imagem linda, cingindo-a com uma espécie de áurea luminosa. lindíssima. dei por esquecido meu coração desavisado, indeciso entre os solavancos das emoções e a serenidade da visão, e fui ao encontro de cecília com uma bela rosa branca na mão.

sexta-feira, 16 de junho de 2006

ESCLARECIMENTO PÚBLICO

O QSEDQ esclarece a quem isto possa interessar que é a favor do tráfico de
idéias.

quarta-feira, 14 de junho de 2006

?: estado permanente das coisas

XCIX

Otros días vendrán, será entendido
el silencio de plantas y planetas
y cuántas cosas puras pasarán!

pablo neruda



capítulo primeiro – as velas, a vela e cecília

a pedra é sofrimento
paralítico, eterno.
carlos drummond

era um quarto com grande pé-direito, a luz que saía das velas pendia no escuro, espetando às paredes um bilho fraco, amarelado, degladiando-se com o ar: murmurando vida, enfim. e porque viver é lutar e velar, ali estavam os olhos de cecília. mantinham-se discretos, com ares de desprezo ao mundo que sempre tiveram, mas que vida queriam não ser? a vela teimava no brilho dos olhos de cecília. postada como quem é vítima de outros olhos, cecília lia a carta relutando, talvez bravamente, às primeiras linhas, certa maneira em coro com as velas agonizantes. ah, como se relutava naquele quarto de grande pé-direito! o papel, digo-lhes desde já, fora cuidadosamente escolhido, tinha ares originais de luz de vela, ainda que o sol fosse por ali despejar toda sua candura.

cecília era vida mas também era morte, a semente da essência humana cultivada e produzida pela mais desumana das mulheres que conheci, pura como as plantas, silenciosa como os planetas. desprezava o mundo por se sentí-lo todo, como uma santa sem um deus, ou uma bela fotografia nunca vista. era alva porque nem o sol a atingia e nem a noite a escurecia. era de altura mediana, olhos e cabelos escuros, ouvia clássicos, dizia-se. usava vestidos soltos e com pouca ou nenhuma estampa que a deixavam bela, cecília era bela, devo dizer, uma beleza que padecia em um banho de sombras e luzes.
apaixonei-me por muitas mulheres, valendo-me das qualidades e desprezando os defeitos. mas cecília não tinha um nem outro. era sempre algo justamente por não ser, tudo sendo nada. sua pele clara estendia uma longa e opaca cortina negra aos olhos dos homens. o seus, desabitados de janelas, suas vozes vazias de ruídos; um eterno nevoeiro, nítido como a leda de da vinci. creiam-me, não há outro modo de descrição: desvendá-la era mergulhar no universo pelo abismo do nada; mirar o infinito; chegar a cem contando até noventa e nove. e amá-la... quanto sofri amando cecília!
se o leitor é distraído, confesso-lhe: dali a pouco estava eu dando voltas para conquistá-la. de início, pelo modos ternos em que se afigura, fui-lhe com pequenos recados, coisas doces e discretas; mas tendo ela se mantido indiferente a todos meus chocolates, mais ou menos amargos, saí com outras estratégias, de efeitos igualmente vãos e efêmeros. a essa altura, no entanto, os sentimentos por ela fizeram da insânia o crepúsculo do amor. porém eu, de boas razões e companhias, avisado por ambas do caminho que havia tomado, tomei uma resolução.

quinta-feira, 8 de junho de 2006

Parcos e Menosprezados Leitores,

Espero que esse tempo esteja chegando ao fim, vejam que lhes coloco letra maiúscula como sinal de respeito. Finalmente consegui preparar-lhes algo que deixasse de lado minha habitual preguiça. Que lhes alcancem a altura em qualidade, não digo, mas em esforço, confesso. Publicarei nas próximas três semanas uma história de amor, dividida em capítulos, a cumprir as exigências dos patrocinadores e o dever de não enfastiá-los. Ah, sim, peço já que me perdoem por alguma dissidência com o dicionário e com a gramática, tenho desculpa: as dissidências enriquecem. O primeiro capítulo vai pela semana que vem, os outros seguirão.

E vamos.

terça-feira, 6 de junho de 2006

Mais Contos Folclóricos

uma certa mulher tinha um filho mui casmurro, que não brincava nunca, nem sozinho, nem com as outras crianças. tendo ido consultar uma velha curandeira da região para resolver o problema do filho, ela foi instruída a fazer certa coisa. meditou muito a mãe se realmente deveria fazer aquilo, mas, ficando mais desesperada dia após dia, decidiu tentar. então, num dia de chuva, fez-lhe um barquinho de papel, mui grande e formoso, levou o filho com muito esforço para fora de casa, colocou-o em cima do barco e ambos numa pequena corredeira formada pela água da chuva, que carregou-os abaixo. ao lado de tal barco, colocou outro, bem menor e com um pedido escrito num pedaço de papel, que o garoto fosse como uma criança qualquer. o barco grande, então, encalhou em um local de profundidade menor e o pequeno seguiu até desaparecer da vista da mãe. a curandeira afirmara que, assim, o pequeno barco iria para o rio sagrado e circular de anutaz e que, ao completar a primeira volta, o desejo começaria a ser realizado. passado um ano, a mãe, não tendo notado diferença nenhuma no comportamento do filho, procurou a curandeira. ela a recebeu com muita atenção, perguntando-lhe o que desejava. a mãe, angustiada com o filho, questionou-a quando o pequeno barco daria a primeira volta. a velha encarou-a séria e disse:
- a volta do rio durará a vida do seu pequeno filho.
a mãe, então, ficou revoltada com a resposta e a velha, vendo o nervosismo da mãe, acrescentou:
- se quiseres, podes acompanhar o pequeno barco, eu posso te mostrar o caminho.

sexta-feira, 2 de junho de 2006

Contos Folclóricos da Anutaz

havia a história, narrada pelos antepassados, de que um jovem filho, tendo se revoltado com as imposições do pai, fugiu de casa e andou muito, embrenhando pela floresta, até alcançar um rio, de água correntes e límpidas. posto já estar escurecendo, resolveu acender uma fogueira e repousar ali, embaixo de uma árvore de frutos doces, e dali a algum tempo, adormeceu. tendo o fogo apagado, e o frio lhe abatido, acordou trêmulo, desejoso de seu quarto e sua coberta, e temeroso dos espíritos que habitam a floresta. foi então que, mirando apavorado e imóvel a última brasa, esta começou-lhe a falar com brilhos. assim que, de brilhar mais ou menos, fazia-se sua linguagem, perfeitamente compreendida pelo jovem. a conversa foi longa, mas ao fim, a brasa, identificando-se como a mensageira da natureza, lançou uma maldição ao filho rebelde. o jovem deveria perseguir a onda d’água do rio que primeiro refletisse o sol da manhã. aquele era o rio anutaz, o rio que gerou o grande criador, que não possuía nascedouro nem tampouco foz.

segunda-feira, 22 de maio de 2006

o preço de deus


- não sei, eu queria ser cego, às vezes.
- por que?
- porque ver é doloroso.
- mas há várias coisas para se ver...
- mas não consigo deixar de enxergar coisas que para os meus olhos são extremamente injustas e controversas, mas que para as pessoas, a maioria delas pelo menos, é algo comum, é fonte de dinheiro, é o cotidiano.
- você deve considerar que está em uma fase ruim...
- não sei, não consigo deixar de pensar que eu não quero viver essa vida quando acabar essa merda toda.
- veja por outro lado, veja as pessoas, você tem sorte, não acha?
- fodam-se as pessoas, foda-se o que as pessoas esperam de mim, porque o que eu espero da vida não é isso.
- o que você espera da vida, então?
- sabe, ontem estava com uma amiga e perguntei o que era deus para ela. ela respondeu que era o ser que dava destino ao mundo. então perguntei qual era o sentido da vida para ela, por que deus a colocou aqui. ela disse que a vida era nascer, estudar, fazer faculdade, trabalhar, ganhar dinheiro, comprar coisas e saber fazer disso o melhor para você. então eu ponderei se deus (o deus que ela acredita) realmente a colocou aqui para ganhar dinheiro. e essa idéia é inaceitável.
- mas é a realidade...
- eu sei, mas que a realidade é essa, tem que ter grana para se viver? quero dizer, o dinheiro é inerente à experiência de se viver, na sua forma original, fundamental?
- não digo que seja, mas me parece que atualmente sim.
- certo, mas daí surgem várias questões. como ganhar grana? o que fazer com isso? será que é isso mesmo, tem que ficar sentado na cadeira para viver?
- não, não é preciso ficar sentado na cadeira, mas tem que se sacrificar. pelo menos é isso que enxergo.
- não, eu não consigo me convencer com isso. é quase uma tortura pensar que amanhã, semana que vem, ano que vem, eu ainda estarei aqui. que tem um puta mundo aí fora para se conhecer, um monte de cultura para viver, montanhas pra subir, mares para velejar, pores e nasceres de sol para se ver, enfim, há toda uma criação divina para se experimentar, e que eu vou estar aqui, acordando as oito, chegando as nove, saindo as dezenove, dormindo a uma.
- essa é a sua vida...
- quem disse, quem colocou essas regras na nossa vida? quem nos obrigou a fazer isso que a gente faz? isso é o melhor pra gente?
- você vive em uma sociedade, deve obedecer a suas regras, do contrário não estará vivendo.
- não sei, continuo sendo contra as instituições, enquanto conjunto de regras criadas por alguém para te direcionar. como se eu precisasse desse tipo de regras. respeito as regras da natureza, respeito as regras que nossa essência nos impõe e que a personalidade de cada um impõe a cada um.
- sim, há essas regras, mas não são as únicas.
- deveriam ser. tudo é tão passageiro e a gente é tão preso sem razão alguma para isso...
- essa coisa de tudo é passageiro é pensamento de velho, hein...
- é, eu posso ter me cansado cedo demais de seguir o rebanho, passar pela porteira, ser carimbado, comer ração...
- ...
- é tudo aparentemente bom, mas se você vir o pasto cercado de cima da montanha, acho que você poderá ver que a liberdade realmente não tem preço.

quarta-feira, 17 de maio de 2006

Testemunho de um leitor

ela me ligou logo cedo, eu ainda nem tinha começado a tomar meu café, lido meu jornal, nada. estava lavando o rosto e corri para molhar o telefone. queria combinar algo, queria que dessa vez desse certo. a gente era assim, desses romances que darão certo, mas ainda não deram. na verdade nunca se sabe se vai ou não. ela queria, eu também. achei bom, vamos sair, sem compromisso, talvez a falta de peso ajudasse a decolar, eu sei, a metáfora, mas é isso. comecei o dia bem, pensei, pensei... fui ler o jornal, na verdade fui direto pro horóscopo, ia dizer “hoje vênus alinhado com mercúrio proporcionará bons fluidos aos seus relacionamentos”. mas não, dizia que sol, ou a lua, já não sei mais, ia atrapalhar, era pra ficar em casa praticamente. aí fudeu, pensei, não podia ser hoje, não hoje. fudeu. liguei pra ela, nem lembro, disse que não dava e acho que ela concordou rápido porque eu estava alterado, não como agora, agora estou mais calmo, quer dizer, um pouco, imagina você no meu lugar. puta merda, só comigo. desmarquei e pelo menos fiquei mais tranqüilo, até porque ficou de algum jeito marcado para o dia seguinte pelo menos. mas aí que veio a merda, saí pra tomar um café depois do trabalho, sei lá, fazer alguma coisa pra não lembrar que tinha deixado de sair com ela depois de ter pensado que daquela vez daria certo, e antes de chegar na padaria senti alguma coisa, que iria encontrá-la, não que eu soubesse que ela estava lá nem nada, mas foi uma coisa esquisita, não sei, um aperto estranho, pressentimento, sabe. não vi mais ninguém, parecia que o resto tinha escurecido e só ela estava sentada em uma mesa no meio de tudo, iluminada para mim, meu coração quase veio pela boca e saiu pulando com vergonha, e antes de eu poder pensar em voltar atrás, ela me viu. puta, sequei, acho que devo ter ficado branco. puta que pariu, acho que nunca pensei tanta coisa em tão pouco tempo. mas quando a imagem foi melhorando, ela me olhando também pálida, vi que ela estava com um outro cara. puta merda, caralho. filho da puta, filha da puta, ela, ele, eu, todo mundo. vai toma no cu, que que eu ia fazer? comprei um chiclete, dei um oi de longe, sei lá o que mais. saí, lógico! nem sabia o que pensar, o que fazer, fui parar em algum lugar, aquele filho da puta, goiaba, com aquela cara de parceiro perfeito, “ai bem te compreendo”, vai toma no cu todo mundo. saí cego, não devia ter saído, pensei, horóscopo é tiro-e-queda. mas aí olha só, voltei pra casa, não quis nada, fui tomar banho, bebi quase uma garrafa de vinho e dormi, é tudo que eu precisava. acordei mal hoje, tô um pouco mal ainda, enfim primeira coisa do dia fui ler o horóscopo, e não é que aqueles filhos da puta do jornal dão um aviso “desculpem leitores o horóscopo de hoje foi publicado ontem”. e agora?

P.S.: Se interessar, temos o testemunho em áudio...

E agora, José?

terça-feira, 16 de maio de 2006

operação ilegal

por em ordem alfabética

Marco e J.P. Cilli

cagarola

povo ficou de estola
o povo pachola
o povo da bola e da viola
o povo da esmola
o povo agora é cagarola


Marco e J.P. Cilli

sexta-feira, 12 de maio de 2006

Ainda sobre o 3º olho

Primeiro, não acho que é possível ver tudo de fora sem a consciência de ser o que é. É por isso que fiz a questão, isso dá tilti mesmo. Mas no fim tenho a impressão que o terceiro olho faz as coisas perderem a magia. Daí penso duas coisas: será que as coisas na realidade não têm magia alguma ou será que a realidade não pode ser experimentada pelo terceiro olho (a realidade que o terceiro olho observa)? Para entender isso, também há de se definir uma coisa: o terceiro olho é um sujeito ou não? Ou seja, ele participa ou só observa? Nesse último caso, podemos considerar que ele não tem sentimentos? Pois sim, ele tem sentimentos porque analisa (e sente) tudo o que vê, tendo como preceito que está se enxergando, o que lhe dá uma alta carga de sentimentalismo. Então ele participa. Então é sujeito, está ali, dentro de nós. Sempre? Isso deixa a gente doente...
Obs. 1: Não assisti o filme ainda.
Obs. 2: Com relação à quântica, acho que tudo isso é quântico na medida que é uma visão holística da realidade e que inclui a "confusão" de conceitos (estabelecidos pela velha ciência). Como sabemos, na quântica tudo é energia, não há diferença. Afirma-se que além disso, só existe o pensamento. De todo modo, ficam perguntas: se tudo é energia, como as coisas se diferenciam umas das outras diante da nossa percepção? Será que há acúmulos de energias? O que determina o comportamento (instável) dessa energia? Seria isso o que tentamos expressar com o conceito de Deus?

pés e jornais

arnoldo não podia mais com aquela situação. sentado, de pés para cima e mãos cruzadas, jornal na mesa, concebia. aquela sala, pensou, era pequena demais para aquele plano, e resolveu botar os pés na escada para sentar ao ar livre, de pés no chão e fingir ler um jornal que nunca leu. também nunca havia feito mal algum para alguém, afora coisinhas circunstanciais, mas logo se predispôs a parear o adversário. então, jornal debaixo do braço, meteu os pés à casa de orlando. delegou o coração acelerado e as mãos suadas ao mecanismo biológico, no abrigo de sua bondade. com os pés pela calçada, depois ao pé da porta, imaginou, sonhou, esqueceu-se e concentrou-se. enrijeceu-se. ouvindo os passos, manteve-se. o jornal, amassou-se. a porta aberta, os olhos de orlando, furtivos, encarando-o. tranqüilos e raivosos. assustadoramente certos de tudo. o sangue de arnoldo, assustadoramente quente, inflado, jorrava-se da testa aos pés. enxergou a névoa negra, perdeu os pés e o jornal, ouviu todo funcionamento do seu mecanismo biológico, não encontrou nada. resolveu dar tempo a tudo, contou os segundos, ok, você venceu, disse para si. e tudo ficou claro e silencioso, segundos antes de orlando meter uma bala na sua testa. ou de meter uma bala na testa de orlando, vai saber.

sexta-feira, 5 de maio de 2006

quinta-feira, 4 de maio de 2006

O 3º Olho

iiih, J.P. Cilli, travou! deu tilti, rapaz. esse tipo de reflexão da pau no cérebro. mas vamos lá.
Antes de mais nada, uma pergunta: vc quis dizer "e se eu estivesse vendo tudo TAMBÉM de fora ou simplesmente estivesse vendo de fora sem a consciência simultânea de estar vivendo também de dentro, como dois momentos separados? Por hora vou considerar que é apenas um terceiro olho que vive uma visão de cada vez e não ao mesmo tempo. Quanto a isso vc tem que ver o filme Quero Ser John Malkovicth sem falta. Sei que vc não gostou da primeira vez, mas vc tem que ver novo. Bom, acho, sim, que a pessoa vive um momento de acordo com tudo que a compõe e que isso faz com que as experiências sejam únicas desse ponto de vista. A mesma experiência vivida de dentro de nós mesmos é uma e é outra quando vivida de fora, mesmo sendo você espectador de você mesmo e por isso tendo a mesma consciência de quem está vivendo aquele momento - você. Isso porque existimos em nós mesmos e ao mesmo tempo no outro, até porque sem o outro não seríamos nada, pelo menos no que diz respeito à nossa consciência. Assim, se estivessemos nos vendo de fora, seria como ver uma outra pessoa - o seu eu duplicado. Acho que de certa forma vc deixa de ser vc quando se vê de fora. Tem a ver com a consciência. Não sei se é quântico, nesse sentido.
Na quântica, como fica a consciência em relação a nossa existência? Tenho essa dúvida.

O TERCEIRO OLHO

MARCO, QUERIA DISCUTIR UM TEMA. A PESSOA VIVE UM MOMENTO. ELA O VIVE DE ACORDO COM TUDO QUE A COMPÕE, CERTO? AÍ TEM AQUELA COISA DA PESSOA PENSAR: E SE EU ESTIVESSE VENDO TUDO ISSO DE FORA?

sexta-feira, 28 de abril de 2006

come on, brasil - QSEDQ com consciência (ou não...)

acho que um dos problemas do país é a seriedade. o brasil não tem formação séria, sempre foi palco das peraltices da elite, que nunca levou o país a sério. mas a seriedade de outros países (principalmente europeus, além dos eua), atrapalhou a brincadeira por aqui. e o país virou o que é. não é sério nem burlesco o suficiente para ser efetivamente algo. fica nesse vai-não-vai. sugiro que assumamos de vez nossa veia patusca. vamos abolir a quarta-feira de cinzas.


quarta-feira, 26 de abril de 2006

fotografia quântica

O que foi pode ser mais presente do que o próprio presente.
Como diria o poeta, Dificuldade do olvido.
Como diria o metafísico, quântica.

foto: J.P. Cilli e Marco

pé - a quântica infantil


“o pé perguntou pro pé qual pé era mais pé. o pé respondeu pro pé que se algum pé fosse mais pé, esse pé seria a mão do chipanzé”

o teu pé é
o meu pé foi
o nosso pé são
o pé de deus
do mendigo e do milionário
o pé-quente do diabo
o pé-frio do napoleão
ué, cadê meu pé?

QSEDQ no mundo da auto-ajuda (mas ainda quântico)

isso tudo é reflexo do nosso jeito reducionista de pensar a vida. pensamos em termos racionais, enxergando cada processo de forma isolada. se queremos viver bem, temos que ganhar dinheiro, então temos que trabalhar em algo que dê dinheiro. tudo bem, não vou negar a importância do dinheiro, por mais que isso cheire muito mal. é uma realidade que tem que ser vivida. mas sacrificar a única coisa que importa por isso é suicidar aos poucos. a única coisa que importa. é isso que você está fazendo agora e isso envolve diversos processos. viver. essa é a verdadeira realidade.

terça-feira, 25 de abril de 2006

conversas urbanas - continuação

foi estúpido!
mas você não vai me contar?
tá, conto...
então conta!
tá! foi assim... foi estúpido!
ai!
tá bom. eu tinha parado o carro na pista da direita daquela avenida, mas tinha ligado o pisca-alerta.
em fila dupla naquela avenida!?
é, mas com pisca-alerta!
hã...
então, aí veio o cara e bateu na traseira do meu carro, ali, com pisca-alerta e tudo e o cara vem e faz isso!
mas seu carro estava parado, não?
é.
e em fila dupla, né?
é...
então por que foi estúpido?
ué, porque tava com pisca-alerta!

segunda-feira, 24 de abril de 2006

a verdade - homenagem à cruz

chovia
fiéis aos céus
- que caia chuva!
cruz aprumada
multidão arriada
no rumo do raio
- nem a natureza respeita mais!
e ouviu-se um suspiro tenaz
o suspiro da eternidade

mais sobre "a cruz"

24/04/2006 - 14h52
Raio cai sobre cruz e mata cinco adolescentes mexicanos

CIDADE DO MÉXICO, 24 abr (AFP) - Cindo adolescentes morreram na madrugada de domingo no México em conseqüência da queda de um raio sobre uma cruz situada numa colina durante os preparativos para uma cerimônia religiosa, no estado de San Luis Potosí (norte), informou a Defesa Civil.
Uma forte tempestade elétrica ocorreu no momento em que as vítimas estavam junto a outras cerca de 50 pessoas realizando os preparativos para uma cerimônia religiosa que será realizada em 3 de maio na região. Doze pessoas também ficaram feridas.

quarta-feira, 19 de abril de 2006

poemas de avião (poesia quântica)

1. seu soneto de amor

meu coração tem pressa de viver
mas tem calma de te amar
minhas milhares de escolhas
têm certeza de você
me perguntaram o que queria
e eu não sabia responder
leram a minha mão
não tinham o que fazer
não viram meu futuro
só podiam ver você

2. vogal ou consoante vírgula interrogação

e lá peguei no frio
meu ônibus a tempo
meu pé tinha calo
de só cair do muro
de só brincar com fogo

foi só subir?
foi só lutar?
é só pegar um táxi
e fugir desse calor?

ah, essas consoantes
lá no meio daquelas vogais
com toda aquela pontuação
quem serei eu
quem será você
seremos nós
interrogação

segunda-feira, 17 de abril de 2006

O egoísmo de viver - um diálogo inacabado

Não sou negro, não sou índio, não sou mendigo nem sou gay.
Tenho casa, namorada, olhos claros e pela clara.
Não tive parentes assassinados, meus antepassados não foram massacrados.
Não tenho religião, não pratico proselitismo.
Tenho grau superior, emprego, passei nos exames que me propuseram para chegar onde cheguei.
Afinal, luto por quem e o quê?
















Foto: Carol Volpe

segunda-feira, 10 de abril de 2006

liberdade (a cruz dois)


estive preso
por muito tempo estive preso
feito refém das minhas algemas
vivendo estive preso
estive bem

me tornei livre
saltei para o mundo livre dos livres
iluminado pelo terror do abismo do nada
do não se estar caindo
do não ser mal e não ter medo
o infinito terror do não amar e não ser amado

livre estaria triste
se tristeza não fosse presa

enquanto estive preso
fui livre para ser triste

Foto: Carol Volpe

domingo, 9 de abril de 2006

Nota à Imprensa

QSDQ sai do papel e amplia suas atividades. Abriu na última quarta-feira o QSDQ café; cerveja.

quinta-feira, 6 de abril de 2006

outra conversa

pois é, meu carro foi guinchado ontem.
mas onde?
ali no começo daquela ruazinha curva que cai na avenida aqui, sabe?
aquela que vai por trás?
é, essa mesma.
xii, fala sério!
por que?
foi no comecinho dela?
foi.
putis!
o que foi?
rapaz...
fala!
é que ontem mesmo eu coloquei uma placa lá, de proibido estacionar...
o que!?
pois é, toda vez atrapalhava, os carros se espremiam...

quarta-feira, 5 de abril de 2006

uma conversa

mandando mensagens eletrônicas, conversando ao telefone, nada demais.
hã...
tinha acabado de pedir um lanche para comer no escritório, não tinha muito trabalho e já era tarde.
que horas?
umas oito da noite.
sim, continue.
então fui para a janela espairecer, sabe? olhar os carros passando, sair da frente do computador, às vezes é bom. e tem ainda aquela esperança do motoqueiro chegar na hora que você está na janela, né?
a janela que dá de frente para a rua, então?
justamente.
sim.
foi então que o cara parou na frente do portão, apontou a arma para mim e gritou alguma coisa. eu fiz o movimento de sair da janela, assustei, né?
claro.
aí o cara atirou!
mas sem motivo nenhum?
pois é, ele atirou! quer dizer, acho que foi porque eu ia sair da janela, né? mas foi aí que a bala bateu na grade do portão e voltou na cabeça dele.
então não foi você quem atirou?
não! imagina! nem tenho arma nem nada.

sexta-feira, 31 de março de 2006

poesia quântica (holopoética), continuando

blanca soledad

fui divagar
no céu terra
na terra azul
pelo muro alto da solidão branca
serei finalmente eu

pelotón de fusilamiento
nuevos inventos
gitanos corpulentos
piedras pulidas blancas y enormes
trescientos años de soledad
tiempo ingenio de áspero acento
dientes de soldado
movimiento impuro de la humanidad

tell me about your saint
when it did live, when?
times are sad
times of white pounder
times of white solders
doors are always open
are you ready to be you
only you
right now?

terça-feira, 28 de março de 2006

poesia quântica (holopoética)

bootstrap

chorar
a lágrima
fará
o amor


promessa

sonharei contigo, prometo. causarei enganos, pularei de prédios, andarei pela rua. prometo amar sempre, chorar sempre, sentir sempre saudades. deitarei para te esperar e ficarei aborrecido com teu atraso. e assim não chegas. aborreça-me, prometi. prometa-me, aborrecerás. e assim seremos um só e dormiremos à luz do dia, à luz serena e clara do dia. e assim teus acalantos serão bom-dia. assim, enfim, seremos. e assim, enfim, não haverá mais promessa.


a minutos atrás

a minutos atrás dormiremos no senão
a minutos atrás acordamos no então
a minutos atrás vivera na torre alta dos sonhos
a minutos atrás morreu na virtude dos sonhos
a minutos atrás é ultimamente
a minutos atrás foi para sempre
a minutos atrás era bonito por não ser
a minutos atrás será bonito por ainda ser
a minutos atrás não haverá mais atrasos
a minutos atrás fora atraso das horas
a minutos atrás serão acalantos de agora


jealousy

jauntily
runs my pain
going to stranges
arms of myself


o ponto de mutação – fritjof capra

“de acordo com essa teoria [eletrodinâmica quântica], a mesma expressão matemática descreve um pósitron – a antipartícula do elétron – movendo-se do passado para o futuro ou um elétron movendo-se do futuro para o passado. as interações das partículas podem estender-se em qualquer direção do espaço-tempo quadridimensional, deslocando-se para trás e para frente no tempo tal como se movimentam para a esquerda e para a direita no espaço. para descrever essas interações necessitamos de mapas quadridimensionais que abranjam toda a extensão do tempo, assim como toda a região do espaço. esses mapas, conhecidos como diagramas espaço-tempo, não incluem uma direção definida do tempo. por conseguinte, não há ‘antes’ e ‘depois’ nos processos que descrevem e, assim, nenhuma relação linear de causa e efeito.”

não é muito interessante o fato de que, quando conseguirmos viajar pelo tempo, já não teremos (e é porque já não teremos) a noção de passado nem de futuro?



quinta-feira, 23 de março de 2006

mais sobre o(s) caminho(s)


Não sei. Não sei não, mas me parece que os caminhos se misturam.

terça-feira, 21 de março de 2006

"O Poder do Mito" x fora do caminho

"Moyers: Em que um mito é diferente de um sonho?

Campbell: Ah, é que o sonho é uma experiência pessoal daquele profundo, escuro fundamento que dá suporte às nossas vidas conscientes, e o mito é o sonho da sociedade. O mito é o sonho público, e o sonho é o mito privado. Se o seu mito privado, seu sonho, coincide com o da sociedade, você está em bom acordo com seu grupo. Se não, a aventura o aguarda na densa floresta à sua frente.

Moyers: Então, se meus sonhos privados estão em acordo com a mitologia pública, eu tenho boas chances de uma vida saudável nessa sociedade. Mas se meus sonhos privados estão em descompasso com a mitologia pública...

Campbell: ... você terá problemas. Se forçado a viver nesse sistema, você será um neurótico.

Moyers: Mas não acontece de muitos visionários e mesmo líderes e heróis estarem muito perto dos limites da neurosa?

Campbell: Sem dúvida.

Moyers: Como você explica isso?

Campbell: São pessoas que se afastaram da sociedade que poderia protegê-los e ingressaram na floresta densa, no mundo do fogo e da experiência original. A experiência original é aquela que ainda não foi interpretada para você; assim, você tem que construir sua vida por você mesmo. Você pode encará-lo, ou não, e não precisa afastar-se demais do caminho conhecido para se ver em situações muito difíceis. A coragem de enfrentar julgamentos e trazer todo um novo conjunto de possibilidades para o campo da experiência interpretável, para serem experimentadas por outras pessoas – é essa a façanha do herói."

Pedacinho


Eu pedi um pedacinho do sorvete e a resposta foi um sorriso lindo. Não quis mais sorvete, pedi um pedacinho do sorriso.

(foto: Carol Volpe; texto em co-autoria)

[coloque seu título aqui] ou pedaço de felicidade

rio manso já vai longe
onde já não há diabo
e nem anjo alado há

onde já não há espaço
e o tempo esconde
onde nada houve e nada há

rio manso, agora!
ela implora, mas ignora
que lá o agora já não há

segunda-feira, 13 de março de 2006

leitura instânea da realidade em co-autoria

a vela derreteu o sol
não teve chama
nela não vi a luz
não teve reza
nela não vi santa

a lua esfriou a vela
esfriou a cera
formou lagoas e serras
do choro cunhou as cores

ela me ama
não tenho amores
ela me chama
nao vejo as cores

ela se acanha com meus sonhos
a envergonho com meus gritos
ela tenta me calar com beijos
ela tenta esfriar minha chama

me irrita quando sorri
me irrita quando negas
sofre quando me beijas
e me pega entre as pernas

enquanto penso em te ter
peco e silencio
enquanto penso em viver
peco e não vivo

vou me embora
vou calar meu desejo
o sol derreteu
pecado de calor
lua que chora
gota de amor

por Julia, J.P. Cilli, Marco e Galberti Mainardi

quarta-feira, 8 de março de 2006

fora do caminho (foto do marco)


o senhor seu amanto
cabocolo velho
dum tanto cansado
da terra vermelha
do capim dourado
prumou a serra
descongou o congado
encabrestou o zeca
eita burrico folgado
pisou de pé rachado
topou o dedo em pedra
pelo finco do cerrado
fugiu de trilha marcada
do que fora caminho
espetou cabeça
cantarolou sozinho
esfomeado de sede
gostou cacto de espinho
banhou de sol e da lua
cunhou fala nova
quando não teve quem falar
foi-se embora pela cova
maldita aos olhos humanos
pra mais tarde voltar
senhor santo amanto

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2006

Poesia interpretada em co-autoria

De repente
Do peito entupido
Do coração engasgado
As lágrimas me vencem os olhos
Derramam-me à boca
Gosto de você

Saio à rua
A tua procura
O sol me queima o corpo
O suor encontra a boca no meu rosto
Não posso te encontrar
Gosto de você

__________________________________________________

J.P. Cilli para mim
olha no site. nos rascunhos, tive a liberdade de continuar um poema seu...

Marco para J.P. Cilli
vou olhar.
à vontade, ainda mais nesses tempos de prisão de "mente"...

Marco para J.P. Cilli
Gostei da continuação que vc fez. Gostei do suor que encontra a boca em contraposição ao eu que não encontra o que procura. E o suor completa a idéia do salgado, do gosto da procura... legal. Vou postá-lo depois. Gostei da idéia de co-autoria.

J.P. Cilli para Marco
o engraçado é que, por causa das rimas, vc fica mais em dúvida se é gósto ou gôsto... ou seja, vc não encontra a rima, pode ser os dois...

Marco para J.P. Cilli
Uma coisa que me surgiu depois é que além de gôsto e gósto, há ainda sentidos do gôsto que se fala: pode ser o gosto salgado da lágrima e do suor ou ainda o gôsto do amor que não se encontra mais. Por isso que gostei do "Não posso te encontrar/ Gosto de você". É uma contrariedade dizer que não se encontra o gôsto depois de se falar do gôsto do suor e das lágrimas na boca, e daí a possibilidade de se entender o último Gosto como o gosto de algo mais...

J.P. Cilli para Marco
outra coisa que me surgiu, também depois, é que na primeira parte, o sofrimento é romântico, pq chora e engasga o coração. no segundo, é mais físico, parece que é um sofrimento mais cru, que dói o físico e não o coração, entende? acho que isso, os dois juntos, o sofrimento físico mais o sofrimento sentimental, se completam e passam a imagem do sofrimento completo mesmo. pq quando sofre, além do sentimento, às vezes parece que dói mesmo, né...

Marco para J.P. Cilli
E apesar de sofrimentos diferentes, eles têm o sabor do sal em comum.

J.P. Cilli para Marco
bem, de todo modo, "você" pode ser outra coisa que não mulher... pode ser felicidade, paz, liberdade, inspiração, sei lá...
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J.P. Cilli para Marco
"ô", ficou bem legal a postagem! a foto e os comentário embaixo, bem legal mesmo...

Marco para J.P. Cilli
achei que ficou bacana também. Gosto muito daquela foto e achei que dá para relacionar com as gotas de suor e lágrimas que ficam meio que congeladas dentro de nós esperando um pouco de calor para se deixarem sair.

J.P. Cilli para Marco
pois é, essa coisa da gota de gelo esperando para derreter, é um pouco do "peito entupido/ coração engasgado" e do "não consigo te encontrar/gosto de você"...

domingo, 12 de fevereiro de 2006

inferno


rio manso já não és
das pedras já não sabes
em tua terra foste manto
em tua terra já não cabes

(choras tuas águas
mágoas de rios e chuva
curvas à sina do teu chão
onde fincas tuas unhas)

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2006

purgatório


rio nem sempre manso
canto margens de encosta
morro onde nascente chora
rio que não alcanço

(qual tua felicidade
tens a me oferecer
quando descobrir-te
minha última idade?)

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2006

paraíso


estradas de rio manso
não sabes quanto quero
há quanto tempo espero
e ainda sentado me canso

(seria feliz para eternidade
onde pudesse cutucar o nariz
e publicar alguns versos
que fossem nenhuma novidade)

terça-feira, 7 de fevereiro de 2006

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2006

das manhãs e das janelas (distração-reflexão sobre a tristeza)


quem se apaixona às 11 e 45 da manhã? eram amigos há tempos, não havia dúvidas com relação a isso. ele estava triste, desanimado. nunca te vi assim, disse ela. aconteceu alguma coisa? não, talvez seja isso. ela distraiu sua atenção a ele e com seus pensamentos sentiu compaixão. que, logo depois, tornou-se paixão. olhou-o durante um tempo, ele que nem a percebia. sentiu a paixão crescer, quis beijá-lo, passar o resto da vida fazendo-lhe carinhos, esquecer o namorado. mas ele continuou triste, olhando a luz da janela indefinidamente. ao meio dia, ela já havia se distraído com as suas coisas e se esquecido da sua paixão. ele continou triste e desanimado, olhando a luz do sol pela janela.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2006

tijolo por tijolo


construímos o mundo. sim, construímos. o muro – ou o abismo – que divide este país em duas partes. as duas constroem. uma vai colocando tijolos ingleses em cima do muro, enquanto a outra vai colocando seus tijolos baianos ao lado, tentando, por uma escada, pedir ajuda. mas o dia-a-dia é duro e os tijolos têm outras funções. ou se constrói a escada e os meninos se alimentam de luz, ou faz-se um fogão para cozinhar o pé-de-galinha para os cinco filhos únicos e pródigos. enquanto isso, o muro cresce. o Pedro, pedreiro, ajuda na construção do muro mágico, enquanto ganha tijolos para fazer o seu flácido fogão. se ele morre atropelado, atrapalha o tráfego, o público, o sábado. a escada? ah, a escada um dia vai chegar. se Deus quiser. mas está bom, não está? Deus lhe pague, moço, pelo tijolinho.
Foto de Carol Volpe. Sugiro ouvir as músicas: "Construção", "Pedro Pedreiro" e "Brejo da Cruz", todas do Chico Buarque.