terça-feira, 31 de outubro de 2006

segunda-feira, 30 de outubro de 2006

sexta-feira, 27 de outubro de 2006

opção (fotopoema ou poema fotográfico?)






























fotos e edição: marco e joão pedro

sérietransportese
+
sériemetalinguísticas

quinta-feira, 26 de outubro de 2006

Então é isso? (A notícia* presenciada)

É começo de noite, estou subindo a alameda Campinas e, ao cruzar a Lorena, passa por mim um sujeito correndo. Quem será que ele deve ter assaltado, penso em humor negro e, em seguida, me arrependo levemente do preconceito. Alguns metros à frente vejo um burburinho e, ao me aproximar, um garoto de uns 10 anos está sentado no canteiro de uma árvore. Ele está em choque, não chora, não fala, só tem os olhos arregalados de um susto que permanece nele. Quando perguntam se ele levou um tiro, vejo na sua camiseta branca um buraco grande um pouco abaixo do peito esquerdo, muito sangue, nenhum buraco e nenhum sangue na parte de trás da camiseta, mas muito sangue na bermuda e nas pernas. O garoto olha para o nada, olha para o buraco na camiseta, e volta a olhar para o nada, que é para onde devem olhar os apavorados. Ele tem os braços levemente levantados e as mãos espalmadas no ar, com as palmas voltadas para o buraco; as mãos deviam dizer "what the hell?!" ou "então é isso?!". A mãe, ou uma mulher que estava ao seu lado, responde que sim, ele foi baleado, e talvez seja a única coisa que ela saiba responder naquele momento. O garoto tem a boca levemente aberta, como se aquele buraco mantivesse seu espanto vivo; mas o espanto ficará na memória do garoto, que aos 10 anos saiu de casa, talvez para comprar picolé na padaria, e levou dois tiros, nenhum deles com atirador conhecido. Talvez um passou ao meu lado correndo.
* FSP (25/10/2006) Tiroteio fere garoto na alameda Campinas
Policiais militares trocaram tiros com acusados de roubar um carro na noite de ontem; garoto, de 10 anos, não corre risco de morteDois dos quatro criminosos foram presos; ainda não se sabe se tiros que acertaram a criança partiram das armas dos PMs ou dos ladrões
DO "AGORA"
DA REPORTAGEM LOCAL
Um menino de dez anos levou dois tiros durante um tiroteio entre policiais militares e assaltantes de carro, na noite de ontem, na alameda Campinas, nos Jardins (zona oeste de São Paulo). Ainda não se sabe se os tiros que acertaram o garoto partiram da arma dos policiais ou dos criminosos.O menino Diego foi levado pela PM ao Hospital das Clínicas e não corre risco de morte. As balas lhe atingiram a perna direita e o tórax. Até o fechamento desta edição, médicos avaliavam se ele teria de passar por uma cirurgia.O assalto ocorreu a poucos metros do local do tiroteio, na esquina da alameda Jaú com a avenida Brigadeiro Luís Antônio. Por volta das 19h30, dois homens -um deles armado- abordaram a dona de um Fox e a obrigaram a deixar o veículo. A vítima, que não quis se identificar, disse que, logo depois, pegou um táxi, que passou a perseguir o Fox. No caminho, o táxi cruzou com PMs, e o taxista lhes contou sobre o ocorrido.Segundo a polícia, havia quatro homens no Fox quando o carro foi abordado, e um dos criminosos saiu atirando. Na troca de tiros, Diego, que ia com a mãe para casa, nas proximidades, acabou ferido.Dois dos criminosos, que não estavam armados, foram presos e encaminhados ao 78º DP. Outros dois conseguiram fugir.As armas dos policiais envolvidos no tiroteio serão levadas à perícia, que irá investigar se os tiros que acertaram o garoto partiram delas.Policiais civis do 78º DP não quiseram dar informações sobre o caso. Oficiais da PM presentes no DP também se recusaram a falar.

quarta-feira, 25 de outubro de 2006

culpa


eu não
é o meu nariz que gosta de ser
cutucado











foto: marco

terça-feira, 17 de outubro de 2006

-

mar, venha
-
molhe-me os pés
-
retire meu chão
-
molhe-me o chão
-
retire meus pés





foto: joão pedro

segunda-feira, 16 de outubro de 2006

constelação urbana


sérietransportese

fotos: jõao pedro e marco

terça-feira, 10 de outubro de 2006

Foi publicado na Cult, mas faltou... (Parte 1)

homem de sorte

trouxe do céu seu último sonho
on-line, sem delay
se fez de inteligente
pensou, foi ator e bacharel
porque na vida a gente é assim
pensa, reflete, imita que sente
até mente um não-sei de quem duvida
mas sabe
que há morte onde há guerra
mas luta
que tem sorte quem se assanha
mas reza
que a dor do amor consome
mas ama
que fast-food é medonho
mas come
que imaginação é hollywood
mas sonha

sexta-feira, 29 de setembro de 2006

o aviso

havia uma proteção de metal isolando os dois homens à beira do bueiro, provavelmente auxiliando alguém ali embaixo. eles pareciam um tanto desnorteados e olhavam para o buraco com cara de preocupação. deviam trabalhar, deviam não, trabalhavam para a nova concessionária de telefone da cidade. ao menos era o que dizia a frase no furgão estacionado logo antes do bueiro onde eles estavam: teleterra, seu novo telefone chegou. enfim, era dia de calor forte, de suar às bicas. a rua tinha um trânsito intenso, algumas pessoas passavam pela calçada quase interditada pela obra. os homens ali, se entreolhando, conferindo o colega lá embaixo e comentando a situação. o porteiro do prédio que dava de frente para o acontecido já havia se achegado e demonstrava preocupação: os homens falavam que havia perigo de explosão. explosão! pensou o porteiro. é melhor eu avisar o seu andré. porém resolveu ficar um pouco e saber mais sobre o que se passava. o homem que estava ali embaixo, na instalação dos equipamentos novos, acertou por acidente uma tubulação de gás de cozinha; começou a vazar. verdade que era pequeno o vazamento, mas também que era gás. os homens acharam um jeito de remendar o cano, o que entretanto não duraria muito. estavam ali, preocupados, e sem fazer muito para resolver o problema. o porteiro, demonstrando ser o mais aflito e preocupado de todos, não demorou a chamar os bombeiros. esqueceu o seu andré e, consultando uma lista telefônica que alguém não havia pego na portaria ainda, ligou também para a companhia de gás. da portaria achou que estava mais seguro e foi onde resolveu ficar até os bombeiros chegarem. vieram rápido, naquela região não há muita chamada e eles quase sempre não têm muito trabalho. viram a situação e acharam prudente interditar a rua; logo veio a companhia de tráfego para cuidar da situação. a caminhoneta da concessionária de gás demorou ainda um bocado para chegar, depois de muito os bombeiros terem visto que nada poderiam fazer, só mesmo a companhia de gás para resolver. ali os dois técnicos da companhia de gás fizeram uma "prospecção do incidente" e concluíram que, realmente, o cano deveria ser reparado urgentemente, mas para isso teriam que quebrar outros canos, o da água e o da tv a cabo. o porteiro do prédio, ainda protegido na sua guarita, mas com os olhos e os ouvidos no que já era uma pequena multidão em frente à garagem do prédio, resolveu ligar para o pessoal da tv a cabo. já o pessoal do departamento de água chegou sem o porteiro saber quem chamou, e foi logo antes dos da tv a cabo, que também oferecia serviços de internet. ocorre que havia uma certa rixa entre a empresa de telefonia e a de tv a cabo, inclusive dos times de futebol dos seus funcionários, afinal ambas ofereciam acesso à internet e vinham brigando ferrenhamente pelos clientes, novos ou da concorrente. reconhecidos os funcionário da tv a cabo, os da telefonia começaram a insinuar que eles não tinham o que fazer. e os da tv, tomando conhecimento que foram os do telefone que iniciaram toda aquela confusão, começaram a formular piadinhas indiretas, que foram se transformando em algo muito próximos a agressões verbais. daí para um empurra-empurra foi pouco mais que um minuto. assustado, o porteiro do prédio resolveu chamar a polícia, porque aqueles técnicos brigando ali, com todas aquelas ferramentas, e um cano de gás prestes a explodir, não poderia dar boa coisa. enquanto não chegava a guarda policial, subiu do bueiro um técnico, que pareceu ser do departamento de água, dizendo que seria algo grande, mas que poderia ser resolvido; e que deveria ser chamado o pessoal do departamento de esgoto. após um protesto tímido, questionando se esgoto e água não eram a mesma coisa, todos cercaram o pobre técnico, que, com a ajuda do outro, tentavam explicar que eles não podiam mexer com esgoto, nossa responsabilidade é com água! bradavam convictos. esgoto é outra coisa, não tem nada a ver! chegaram então os polícias e, vendo aquela confusão de amontoado de técnicos e fardas, foram esbarrando e abrindo caminho em direção ao centro do grupo. no centro do grupo, no entanto, além dos técnicos da água, estava o bueiro aberto. foi onde caiu o primeiro policial, que quase levou o segundo; saldo: dois feridos. o polícia que caiu quebrou o pé e sofreu muitos arranhões. o que ficou se deu pior, pois ao ser puxado pelo que caía, foi com o braço dentro do bueiro, e a cabeça ficou para fora. ou seja, ficou desmaiado, escorrendo sangue pela cabeça. vendo o ocorrido, os bombeiros pediram que abrissem, que dessem espaço. eles não eram os bombeiros treinados para resgate de feridos, mas providenciaram os primeiros socorros e resolveram chamar uma ambulância do hospital dos servidores públicos. o problema foi que o hospital era dos servidores municipais, e não podiam prestar serviço para servidores estaduais, como eram os policiais. então chamaram a ambulância dos servidores estaduais. claro que, nesse meio tempo, os dois policiais estavam já acomodados na calçada, onde havia uma pequena sombra, e o pé quebrado até falava no celular com a mulher sobre as férias que iam tirar quando ele pegasse sua licença. o outro seguia desmaiado. chegou uma ambulância, que foi insuficiente pois só suportava um ferido. então chamaram outra, não se soube quem, nem se soube de que servidor, mas que levou o outro policial para algum lugar que não se soube onde. também não se soube da onde chegou um fiscal da sub-prefeitura, que queria informações acerca da obra que estaria sendo realizada ali, e de outro fiscal, o da prefeitura, que também queria informações, mas mais precisamente o alvará. que alvará? perguntou alguém. oras, o alvará! exclamou o impaciente fiscal da prefeitura, que foi imediatamente apoiado pelo da sub-prefeitura. depois de un cinco minutos de discussões, teses e acertos, chegou um advogado com um estagiário, que foram conversando com todos por ali. diziam que iam "impetrar um mandado de segurança com pedido de liminar para garantir a realização da obra". essa possibilidade, é certo, causou certo alvoroço em todos, com exceção dos dois fiscais, que, percebendo estarem em esmagadora minoria, acharam por bem chamar também a guarda civil metropolitana para protegê-los de eventuais agressões. o da prefeitura parece que também chamou um procurador do município, para que ele esclarecesse as questões jurídicas que os advogados haviam mencionado. o da sub-prefeitura, não se sabe, mas pode ter sido ele quem chamou o sub-prefeito em pessoa, que aproveitou a ocasião para fazer sua campanha para prefeito; as eleições seriam para dali a dois meses. quase simultaneamente à chegada do sub-prefeito com alguns correligionários, bandeirinhas e santinhos, se instalou ali uma barraquinha humilde, de madeira e painéis de plástico, vendendo tapioca, passes de ônibus e pilhas alcalinas, e outro que trazia uma caixa de isopor remendada com fita marrom e vendia suco de laranja em garrafa, refrigerantes em geral, água e cerveja. aquele sol quente fez seus preços aumentarem, assim como seus lucros, e a fome dos que ali estavam há algumas horas, fez o da tapioca mandar buscar mais polvilho. formou-se uma pequena fila, com senhas distribuídas, para comprar os alimentos e as bebidas, e como a fila era a mesma para ambos, houve muita reclamação de quem queria comprar só bebida, ou só comida. mas a fila seguiu. outra se formava, para desespero dos agentes da companhia de tráfego. a rua já estava interditada há algum tempo, em ambas as esquinas do quarteirão, mas os moradores dos prédios daquele trecho insistiam em ultrapassar as barreiras da companhia e tentar alcançar as respectivas garagens, buzinando para abrir caminho pela multidão. a situação piorou um pouco quando um morador, que vinha dirigindo um carro antigo, de coleção, parece que acelerou demais e, com o calor, fundiu o motor; a fumaça causou um princípio de confusão, mas logo estavam todos esclarecidos. o porteiro do prédio estava tratando de escrever em pequenos pedaços de papéis, com a sua letra de quase-analfabeto, as razões do inconveniente daquele dia, para distribuir para os moradores; já tinha visto o seu andré fazer isso algumas vezes, quando o elevador parava ou quando trocaram o motor do portão da garagem. ele estava com o olhar perdido, sentado na sua guarita, imaginando o que escreveria, quando viu a fumaceira do carro. e tendo sido mecânico em uma oficina antes de virar porteiro, resolveu telefonar para o seu ex-patrão. ô senhor! tem um serviço aqui na minha rua, manda o pessoal aqui. dez minutos depois chegaram três guinchos para socorrer o automóvel, mas demoraram mais de meia hora para resolverem quem iria realmente prestar o serviço e outra para o escolhido conseguir chegar ao automóvel fundido. as ruas que davam para rua do prédio já estavam congestionadas e os agentes da companhia de tráfego tiveram que chamar reforço e estudavam interditar um raio de dois quarteirões do incidente. foi quando voltou o advogado dizendo que conseguiu despachar com o juiz e que em poucos minutos chegaria o oficial de justiça com o ofício. logo ele se reuniu com o procurador do município num canto, o mesmo que os policias haviam sido acomodados, para conversarem sobre o caso, trocaram cartão, identificaram conhecidos em comum e o advogado chegou até a propor uma sociedade, a que o procurador respondeu dizendo que teria muito o que pensar. não se sabe como os repórteres demoraram tanto a chegar. esses jornais sensacionalistas ficam de prontidão para os acontecimentos de menor importância, que no final eles conseguem tornar em algo realmente grande. aqui não era o caso; o ocorrido tomara tamanho por si só. na transmissão ao vivo, estilo partida de futebol, o repórter logo partiu para entrevistar o porteiro. o senhor pode nos contar o que aconteceu? sim, senhor. aconteceu que a dona ivete do 62 assinou esse serviço novo aí de telefone, como se precisasse falar com alguém. o marido dela já foi embora faz tempo e a gente aqui do prédio sabe que ela não ocupa de jeito nenhum o telefone, esperando o homem ligar. aí apareceram uns homens para colocar esse novo telefone para a dona ivete e deu nisso tudo. o repórter se deu por satisfeito e passou a palavra para os estúdios, justamente quando chegou o oficial de justiça para dar ciência da liminar ao fiscal da prefeitura. esse, por sua vez, liberou a obra no bueiro. foi alívio geral. o povo comemorou, alguns até ensaiaram uns aplausos e gritos de justiça seja feita, algum buzinaço inclusive. o clima amistoso havia contaminado quase todos; o porteiro é que não estava lá dos mais contentes. a garagem continuava bloqueada, o prédio sem gás, água ou esgoto. o telefone também há muito estava mudo; para chamar alguém só com interfone ou celular. e o pior de tudo, ainda não sabia o que escrever no papel para distribuir e afixar no elevador. caminhou com cara de intrigado e os olhos fincados na ponta do nariz que apontava ali para o burburinho; esperando que alguém lhe explicasse o clima de comemoração, jogou para o alto um e aí, quê vocês resolveram? alguns olharam com cara de desentendido ou desinformado, também se perguntando a mesma coisa, mas a maioria mesmo preferiu não dar ouvidos. ele voltou para a portaria e resolveu escrever o aviso.

texto: joão pedro e marco
fotos: joão pedro

quinta-feira, 28 de setembro de 2006

foto;montagem ou foto:montagem

foto da foto: marco e joão pedro
série metalinguísticas

terça-feira, 26 de setembro de 2006

metáforas fotográficas, um pleonasmo?

série transportese
+
metalínguísticas

segunda-feira, 25 de setembro de 2006

de mote a foto do marco

meus dedos pegaram
não deixaram meu braço abaixar
foi a cola de um povo rendido
de um bandido que não me deixaram
o braço abaixar

foi um adido cultural
uma operação militar
que fizeram meus dedos pegar

as propagandas eleitorais
a fila do embarque
as setas de contra-mão
o amor à pátria
me botaram o braço de pé

uma lista grande
com fila de espera
fincaram meus pés no chão
e meteram meu braço de pé

terça-feira, 19 de setembro de 2006

segunda-feira, 11 de setembro de 2006

um texto que pensa - e é autobiográfico

aula de gra’mática ou gram’ática:?*
estava escrito, segundo anastazi, todo os jornais de domingo permaneciam na porta da casa do coronel, e eu pensei, todo? ‘o jornal agora deu pra publicar com erros’, então leio e releio a sentença, o parágrafo. todo? “todo”, “todo”. todo... “todo!? sim, ‘que tipo de pessoa escreve nesse “todo” estilo?’, “todo”. ‘“todo os jornais permaneciam na porta”’. permaneciam? por que não era permanece, ‘o jornal permanece’? será que no “todo” estilo a regência do verbo era ‘n”os jornais”’? ‘regência verbal’. sujeito. ‘minhas aulas de gramática na infância’. infância**. anastazi fora assessor do coronel. ‘esse anastazi deve ser um sujeito frio que deixou o corpo no chão frio da cozinha’. não, estava na cama, com uma toalha em cima do único furo no peito. “crime passional”, ‘anastazi não’, anastazi frio não deixaria as coisas assim, mas no chão da cozinha***. diacho, onde deixei aquelas aspas, me perguntei. esse objeto é maior que eu imaginava, fecha’spas ou fech’aspas?.

* a felicidade está. onde:, está?.


um pensamento lento: ** alguma estruturas úteis são atuais. e errado.

outro: *** esta história tem três personagens. como seria isso um trava-línguas?


**** a música:

eu já não sei mais se esse não é sim
ou se esse sim assim é não...
outra:
pra quê trocar o sim por não
se o resultado é solidão?
série metalinguísticas

sexta-feira, 8 de setembro de 2006

trovão

trovão caiu no chão
ão, ão, ão
cachorrão comeu o trovão
chuva apagou o trovão
e o fogo apagou a chuva
caiu uma nuvem
uma pessoa encostou na nuvem e se queimou
uma pessoa pegou o travesseiro com pernas, com olhos,
com mãos e com cara e aconteceu uma coisa
apareceu uma caveira no quarto do menino!!


Obs.: Este é um texto do meu primo Dudu, ele faz 6 anos na semana que vem.

quarta-feira, 6 de setembro de 2006

reedições repensadas

nós

muitas vezes fui interpelado
já sabia algumas vezes a resposta
à morte cabia a vida como consorte
e à compaixão a mão do pecado

ora fugia do dragão
ora sorria para a serpente
choraram onze tentos por mim
pequei trinta e dois então

choramos como nós
vivemos de fome e risos
em círculos pelo pó

atado à minha sombra
sigo homem alado
homem vivo de fome

quinta-feira, 31 de agosto de 2006

Jam Sessions

Interessante. Jam sessions de música e poesia, Cronópios.

terça-feira, 29 de agosto de 2006

Sugestão de uma leitora e, de certa forma, uma reedição





A maior dor do vento é não ser colorido.
Mario Quintana

sábado, 26 de agosto de 2006

A origem da noite - nheengatu/português

Ipirungáua ramé inti maan pituna, ara anhó opaim ara pupê. Pituna okéri oikó y repipe. Inti mahá sooetá opaim mahá onheen.
Boiaussu membira ipahá oiumendare iepé curuminussu irumo. Quahá curuminussu orekó mossapira miassua caturetê.
Oiepé ara upé ocenoim mossapira miassua onheen aetá supé:
-- Pecoim peoatá, xeremirecó inti okéri putári ce irúmo.
Miaussua ossô ana.
Aramê ahê ocenoim xemirecó okéri arama ahê irúmo. Xemirecó ossuaxára:
-- Inti raim pituna.
-- Inti mahá pituna ara anhum.
-- Xe ruba orekó pituna. Rekéri putári ramé xe irumo remundu paimo ahé paraná rupi.
Ahé ocenoim mossapira miassua, xemirekó omundu aetá i ruba oca pýri. Ossó opiamo arama iepé tucumã rainha.
Aetá ocyca ramé Boiaussu oca upé, quahá omehee aetá oiepé tucumã rainha oiucikinau reté, onheen:
-- Kussukui ane rerassó tenhé curi pe pirári... Pepirári ramé pecanhyma curi.
Miassua ossó ana, ocenu teapu tucumã rainha pupé: ten-ten-ten-ten, xi-xi-xi-xi... Aicoreme teapu jaky sapo pupé baê onhengara pituna bo. Oatassaba ojepotámo igapucábo popyatã.
Assapyá nheranacábo xeretaetê aan amoiirê, apu cuaba aicoreme apó baê, nhemonoonga sui igara pupê paum monhanga tatá moycu breu oiucikináu rainha baê. Moputuna atãrupi opá.
Pituna semãorecô tukumã rainha suí. É nhé ui, ocamenduara mõ pupê, ocuabámo mojaboéra baê iraarõ angaetê okéri supê. Boiaussu membyra ucuara onheen:
-- Irabámo pituna; orossô é nhé arõ coema.
Tradução

No princípio não havia noite, somente dia todo o tempo. A noite adormecida estava no fundo do rio. Não havia animais, todas as coisas falavam.
A filha do Cobra-Grande, dizem, casou-se com um rapaz. Este rapaz tinha três excelentes criados.
Um dia ele chamou os três criados e lhes disse:
-- Ide passear, minha mulher não quer dormir comigo.
Os criados foram.
Então ele chamou sua mulher para dormir com ele. Sua mulher respondeu:
-- Ainda não é noite.
-- Não há noite, só dia.
-- O meu pai tem noite. Se quiseres dormir comigo manda buscá-la no rio.
Ele chamou os três criados, sua mulher os mandou à casa de seu pai. Foram buscar um caroço de tucumã.
Quando eles chegaram na casa do Cobra-Grande, este lhes deu um caroço de tucumã bem fechado e disse:
-- Aqui está, levai, mas não o abri... Se o abrirdes, perdê-lo-eis.
Os criados foram, e ouviram o som dentro do caroço de tucumã: ten-ten-ten-ten, xi-xi-xi-xi... Era o barulho dos grilos e sapos dos que cantavam noite pela. A viagem continuaram remando forte.
De repente não mais suportando a curiosidade, para saber que barulho era aquele, reuniram-se no meio da canoa, fizeram fogo e derreteram o breu que fechava o caroço... Tudo escureceu violentamente.
A noite tinha saído de dentro do caroço de tucumã. Nesse instante, longe, lá na cabana nupcial, os que esperavam as sombras para dormir souberam que o caroço fora aberto. A filha do Cobra-Grande, ofegante, disse:
-- Eles soltaram a noite; vamos agora esperar o amanhecer.
Fonte e outros textos em nheengatu/português: http://www.tupi.cafewiki.org/index.php?nheengatu%3A%20textos

um diálogo com deus

- tá foda.
- então retorna.
- não, não, tô de boa aqui.
- reclamas do que, meu jovem?
- cê fala esquisito, hein tru...
- é como ouves, humano.
- ixi, mano, facilita.
- desisto.

sexta-feira, 25 de agosto de 2006

A vanguarda brasileira

Não, o QSEDQ não está virando site político-ideológico. Aliás, o QSEDQ não é site de nada, o que o faz genuína e destemidamente brasileiro, sem sê-lo. Estou um pouco confuso hoje, prossigamos. Notícia da FSP de hoje: "EUA liberam pílula do dia seguinte sem prescrição médica". Isso prova, mais uma vez, o que venho defendendo: o Brasil não é país de formalidades e sistemas, ou melhor, seu sistema é o das não formalidades. Ou algo assim, vocês entendem, leitores espertos.

Um acerto

Ok, não pedimos muito. Vamos combinar o seguinte. Não queremos que o Brasil vire uma Suíça, onde tudo é certinho demais, mas do jeito que está aí é foda. Então vamos fazer um acerto. Os bandidos podem continuar sendo filhos-da-puta, inclusive políticos, não temos problemas com isso. Mas vamos manerar, não é? Um pouco de aventura, de falta de segurança, isso é bom para animar a vida, como diz aquela historinha do tubarão que os japoneses colocam no tanque dos barcos pesqueiros para manter os peixes frescos. Mas o tubarão come só alguns, a maioria, o substancioso dos peixes fica vivo. Então, como disse, vamos pegar mais leve. Quem sabe conseguiremos chegar num ponto que só a ameaça é suficiente? Funcionará mais ou menos assim, vocês enviam uma petição para uma Comissão Especial de Manutenção da Energia Vital, algo assim, mas notem que é "especial". Então se a tal Comissão, formada por lideranças da sociedade, estudiosos renomados, representantes das entidades de classe e do Poder Público, se a tal Comissão julgar que a ameaça apresentada é realmente digna, ou seja, atinge o objetivo de manter a população viva, então ela direciona uma verba para os ameaçadores. Assim ficam todos satisfeitos e ameaçados. Chamo a atenção dos candidatos a ameaçadores que não seria mais necessário correrem risco de traficar ou cometer outros atos criminosos, uma vez que a ameaça será tida como não só lícita, mas também essencial para a sociedade brasileira. Agora, também haverá instrumentos para conter aproveitadores, porque seria inaceitável que pessoas que até então eram as ameaçadas passem a almejar o posto de ameaçadores. Então os ameaçadores seriam cadastrados e suas ações acompanhadas pela Comissão; esta percebendo que o ameaçador não corresponde aos anseios da população, terá poder de destituí-lo de tal cargo e, no caso de insistência, inclusive ordenar sua prisão. Será como um controle da concorrência ao contrário, mas com economistas e tudo mais para calcular o nível exato de ameaça que o povo necessita para continuar cantando e dançando. Ô povo bonito!
PS. Devo esta idéia à recente aparição da jovem austríaca, seqüestrada há oito anos. Na notícia da FSP, diz-se que os moradores, ao verem uma jovem chorando num jardim, chamaram a polícia. No Brasil seria mais provável que mandassem ficar quieta ou que um bêbado quisesse se aproveitar da situação para comer mais uma...rs

Outra utopia - LANÇAMENTO DO QSEDQ

O que vocês acham da cena: um fronte de batalha urbano no Oriente Médio; rajadas cruzando as ruas, granadas explodindo; então se ouve um bum-bum-bum, que vai chegando perto e quanto mais perto chega mais se ouve outros trás-trás-trás e tec-tec-tec; os soldados param e olham para o lado que vêm aqueles sons: é um trio-elétrico com seus dois mil foliões pela avenida principal do árido vilarejo. Que fariam os soldados? É outra utopia, não?
Vamos lançar o OrienteFolia 2007? Ou CarnaMédio 2007? É de se pensar, mas vamos contar com os poderosos lobbies das micaretas, das bebidas alcóolicas e dos lança-perfumes.
É isso, o QSEDQ lança o Projeto Micareta do Osama! Ou seria Micareta do George? Putis, preciso de ajuda.
Outra, os camarotes, onde serão?
Para finalizar, os cordeiros serãos os cotonetes da ONU...
PS. Tive outra idéia, vamos lançar também a Picareta Eleições 2006 - O seu voto nulo vale duas cervejas ou um drink.

terça-feira, 22 de agosto de 2006

Voto Nulo - Isso sim é utopia

Na verdade eu tinha pensado em escrever um texto cheio de argumentos, mas desisti, por motivos que também desisti de escrever. Além do mais, este site é lido em média por 6 pessoas por dia, sendo que 4 lêem frequentemente e 2 são perdidos que o encontram por acaso (ver postagem anterior). Desses 4, eu sou um geralmente, e se o Marco fosse o outro, sobram dois. Não vou escrever um texto sobre política para três pessoas, nem fudendo. Sei, é um atentado contra nossa democracia, todos têm importância. Tá bom. Democracia não funciona e provavelmente nunca vá funcionar, pelo menos não neste país, é um sistema burro por demais. O que também não significa que outro sistema que está por aí também vá. Acho que nada que já foi inventado funciona aqui, mas o fato é: eu é que não vou apoiar nada. Mamãe e papai me ensinaram, se não é para ajudar, não atrapalhe. Confesso que simpatizo com algumas idéias, como uma eleição por loteria, onde cada voto fosse um bilhete para seu candidato concorrer na loteria que escolheria o eleito (http://www.votosnulos.blogspot.com/). Mas é só simpatia, está longe da esperança e desconhece absolutamente qualquer proselitismo. Como já disse para alguns amigos, o Brasil está muito podre, na extensão e na profundidade. Resumindo, eu vou é votar nulo, em prol de um novo sistema, um sistema genuinamente brasileiro, finalmente! Seria bonito, não?, sair nos jornais do mundo que a eleição no Brasil já foi anulada três vezes porque a maioria dos votos foram nulos, e as pesquisas indicam que isso vai continuar se repetindo. Que Che Guevara? Que Tropicalismo? Que Cuba? Que nada! Isso sim é utopia.

segunda-feira, 21 de agosto de 2006

quesabemosnós?

sonho

o pai sente fome
e raiva
como o filho
que mata um homem de lata
marido da boneca da irmã
boneca ninada carinhosamente
e cortada
um aborto clandestino
a mãe está no culto
pedindo pelas suas vontades
e as dos seus semelhantes

a casa vive à solta

um ser sem tamanho dorme
eternamente à parte do tempo
imune ao calor e ao frio
à caça e ao caçador
e sonha
um sonho chamado humanidade

Expressões que levam um leitor perdido ou sem rumo ao QSEDQ

queseieudoque
rubrica teatral
avião poesia
que sei eu do que serei fernando pessoa
cagarola
afeto etimologia
petição incial buraco negro
eu quase que nada não sei. mas desconfio de muita coisa
passaporte servio
tamanho da sepultura
fotos carol volpe
contos folcloricos

sexta-feira, 18 de agosto de 2006

Chefe Seattle ao Governo Americano

O Presidente, em Washington, informa que deseja comprar nossa terra. Mas como é
possível comprar ou vender o céu, ou a terra? A idéia nos é estranha. Se não
possuímos o frescor do ar e a vivacidade da água, como vocês poderão comprá-los?
Cada parte desta terra é sagrada para meu povo. Cada arbusto brilhante do pinheiro,
cada porção de praia, cada bruma na floresta escura, cada campina, cada inseto que
zune. Todos são sagrados na memória e na experiência do meu povo.
Conhecemos a seiva que circula nas árvores, como conhecemos o sangue que
circula em nossas veias. Somos parte da terra, e ela é parte de nós. As flores
perfumadas são nossas irmãs. O urso, o gamo e a grande águia são nossos irmãos. O
topo das montanhas, o húmus das campinas, o calor do corpo do pônei, e o homem,
pertencem todos à mesma família.
A água brilhante que se move nos rios e riachos não é apenas água, mas o sangue de
nossos ancestrais. Se lhes vendermos nossa terra, vocês deverão lembrar se de que
ela é sagrada. Cada reflexo espectral nas claras águas dos lagos fala de eventos e
memórias na vida do meu povo. O murmúrio da água é a voz do pai do meu pai.
Os rios são nossos irmãos. Eles saciam nossa sede, conduzem nossas canoas e
alimentam nossos filhos. Assim, é preciso dedicar aos rios a mesma bondade que se
dedicaria a um irmão.
Se lhes vendermos nossa terra, lembrem se de que o ar é precioso para nós, o ar
partilha seu espírito com toda a vida que ampara. O vento, que deu ao nosso avô seu
primeiro alento, também recebe seu último suspiro. O vento também dá às nossas
crianças o espírito da vida. Assim, se lhes vendermos nossa terra, vocês deverão
mantê-la à parte e sagrada, como um lugar onde o homem possa ir apreciar o vento,
adocicado pelas flores da campina.
Ensinarão vocês às suas crianças o que ensinamos às nossas? Que a terra é nossa
mãe? O que acontece à terra acontece a todos os filhos da terra.
O que sabemos é isto: a terra não pertence ao homem, o homem pertence à terra.
Todas as coisas estão ligadas, assim como o sangue nos une a todos. O homem não
teceu a rede da vida, é apenas um dos fios dela. O que quer que ele faça à rede, fará
a si mesmo.
Uma coisa sabemos: nosso deus é também o seu deus. A terra é preciosa para ele e
magoá-la é acumular contrariedades sobre o seu criador.
O destino de vocês é um mistério para nós. O que acontecerá quando os búfalos
forem todos sacrificados? Os cavalos selvagens, todos domados? O que acontecerá
quando os cantos secretos da floresta forem ocupados pelo odor de muitos homens e
a vista dos montes floridos for bloqueada pelos fios que falam? Onde estarão as
matas? Sumiram! Onde estará a águia? Desapareceu! E o que será dizer adeus ao
pônei arisco e à caça? Será o f im da vida e o início da sobrevivência.
Quando o último pele vermelha desaparecer, junto com sua vastidão selvagem, e a
sua memória for apenas a sombra de uma nuvem se movendo sobre a planície...
estas praias e estas florestas ainda estarão aí? Alguma coisa do espírito do meu povo
ainda restará?
Amamos esta terra como o recém nascido ama as batidas do coração da mãe. Assim,
se lhes vendermos nossa terra, amem na como a temos amado. Cuidem dela como
temos cuidado. Gravem em suas mentes a memória da terra tal como estiver quando
a receberem. Preservem a terra para todas as crianças e amem na, como Deus nos
ama a todos.
Assim como somos parte da terra, vocês também são parte da terra. Esta terra é
preciosa para nós, também é preciosa para vocês. Uma coisa sabemos: existe apenas
um Deus. Nenhum homem, vermelho ou branco, pode viver à parte. Afinal, somos
irmãos.

quinta-feira, 17 de agosto de 2006

reedições repensadas IV

dor, tempero do sal
marco e jp cilli

De repente
Saio à rua
A tua procura

O sol me queima o corpo

Do peito entupido
Do coração engasgado
As lágrimas me vencem os olhos
Derramam-me à boca
Que o suor encontra no rosto

Não posso te encontrar
Gosto de você

terça-feira, 15 de agosto de 2006

era uma esquina torneada em roda, ao que acompanhava o prédio e o portão de aço cinzas, o primeiro andar alto, e seguiam-se todos para os dois lados, com o abraço da calçada regular e do horizonte da rua. uma senhora de yves saint laurent cor de rosa-claro fincava seu salto doze vermelho ao pé do portão cinza, firmando na mão um chapéu de plumas rosas e de cabeça para o chão e apoiando o cotovelo da mão que firma na mão encostada ao corpo. é assim que ela e o dinheiro que está dentro do chapéu permanecem. ela se conserva durante algum tempo, algumas semanas ou alguns dias. um homem que passa deixa-lhe uma nota, uma velha deixa uma moeda e houve até uma criança que um dia lhe trouxe uma matula, e está tudo ali. a expressão da mulher mantinha-se naturalmente a dela, que era bonita, sem sorrir mas não séria, o cabelo em coque restando alguns fios na altura média da testa, umas mechas negras que faziam a pele clara manter-se natural, uma mecha formada por duas madeixas, a mais grossa em cima, separadas por um clarão finíssimo da pele clara. ela permanece com o pulso derrubado na linha do horizonte, o dedão como apoio de cima e o indicador como o principal encosto de baixo, mas também contava com a sorte que era a firmeza do entorno do chapéu, da aba aramada, onde se pressionando mais de um lado consegue-se sustentar toda a roda. o que não se alterava tampouco com o peso do dinheiro, que não pesava para o chapéu nem para o pulso levemente derrubado. umas veias saíam da mão, eram espremidas no pulso e seguiam pelo corpo para o coração, os olhos seguiam com seus cílios espetados, redondos, sobrancelha feita cujo fim caía em curva para acompanhar a forma do rosto, que era belo e redondo. ao seu lado, no portão havia uma camada de poeira e atrás a meada do coque havia desenhado uma limpeza aleatória com pincéis finíssimos, que não se movem com os barulhos dos carros que dirigem pelo seu horizonte direito nem pelo aviso de uma promoção em uma loja à sua esquerda. se movem com o vento, que um dia traz um senhor de calça de brim bege e camisa xadrez de algodão aveludado, sapatos de couro marrom bem lustrados e um chapéu de feltro bege-escuro. aproximando-se naturalmente o homem com seu chapéu na mão, de cabeça virada para baixo, deita-lhe a mulher o dinheiro do seu chapéu no dele, coloca-o, ajeita-o e sai como que olhando o relógio que não tem. o homem se vira de costas para o portão cinza, espalma a mão na cabeça do chapéu, seus cabelos colados à testa e sua outra mão no bolso. outros senhores, outras idosas e outros pequenos vão lhe deixar alguma coisa, aquela nota, aquela moeda e aquela matula, que poderá ser um sanduíche ou um apanhado de arroz com frango. mas um cão que anda por ali, de rabo abanado e língua de fora, vai sentar ao seu lado, coçar as orelhas, respirar ofegante e olhar no mesmo horizonte que o homem aponta o chapéu.

a esquina

segunda-feira, 14 de agosto de 2006

Link

Site interessante para encontrar textos, imagens e outros documentos em domínio público: http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/PesquisaObraForm.jsp

domingo, 13 de agosto de 2006

Expressões

Serendipidade literária
Serendipidade bibliográfica

sexta-feira, 11 de agosto de 2006

josé, gritei

josé
me acuda, josé
ela me enganou
vingou sua ilusão
sua ilusão, josé

josé
me ajuda, josé
ela me iludiu
com um não de última hora
na última hora, josé

josé, gritei
ele ocupado com o agora
vem me responder
joão

quinta-feira, 10 de agosto de 2006

another bootstrap

com os olhos fechados
vigiam
as coisas que não faço

quarta-feira, 9 de agosto de 2006

mensagem

hoje não tem lua
nem notícia sua
ufa! parou, e só agora consigo enxergar a correria estrebuchada que nos move. uma amiga me disse que eu deveria era explorar mais os temas e agora que eu enxergo todos parados, como posados para mim, tenho menos vontade de escrevê-los. chego a ter pena deles não fosse a ausência de ilusão que é própria de quando o tempo pára. tampouco quero fotografá-los, pintá-los, filmá-los; parados já não servem a nada. muita coisa se esvai quando o tempo pára, evapora sem subir nem descer, simplesmente desaparece. não digo isso do tempo, que está ali, como que esperando a minha ordem para seguir e ignora minha pergunta, talvez porque não ouça, talvez porque é incabível na sua concepção, talvez por ser cogitação de escravo. não sei, sem a sua resposta, não sei. mas não digo que seja imprescindível, seria só mais um ponto de vista ou o silêncio de uma ausência. tenho dúvida se deveria escrever no presente ou no passado ou no futuro, além da dúvida se devo realmente escrever, as palavras existindo, colocá-las no espaço seria coisa a ser realizada automaticamente, na falta de outro advérbio que traduza o tempo de algo sem tempo. e assim seria coisa que nunca seria realizada. se não fosse o tempo parado, diria eu que o próximo passo seria o espaço sumir, que é a equivalência do parar para o espaço. mas não há próximo e tenho alguma dúvida se um dia houve, não fosse uma coceira que me dá, um comichão nas idéias, se me explico. devo dizer que posso ouvir a verdadeira melodia, não sei se o som da criação, do universo, mas asseguro que a reconheço nas sinfonias, no samba e nos choros de neném. ainda acho que não me explico, não é que parou, porque parar é movimento, talvez tenha sumido se tivesse imagem. fica assim, sumiu o tempo. mas não fugiu, tampouco sei se entrou, só sei que não está aqui. esse negócio de tempo verbal é coisa que não consigo entender muito bem, começo a desconfiar que essa coisa de escrever não é amiga para se ter quando some o tempo, parece coisa convulsa, uma trás outra, futricando. eu que não preciso futricar, que não tenho mais sede nem fome nem curiosidade, que são coisas do movimento. não há movimento, devo dizer, como não há muita coisa, ou pouca coisa é que há, não sei, não há ninguém que troque um par de idéias comigo. talvez seja esse o motivo desta coisa de escrever, um resquício de humanidade. se corre o rio, nunca soube dizê-lo com precisão, que lá no fundo vai saber, mas na superfície tem pirapora, tem rebojo e tem grande atividade dos insetos, das frutas e das folhas, e dos peixes e das aves. grande atividade que vai se dissolver no campo-mar de imensidão, onde meu resquício é nada, onde estamos juntos e distantes, observando coisas pequenas e coisas grandes, tudo coisa de restolho. isso de falta de tempo veja onde me leva, tem uma minha idéia que descansa à beira do rio ou na sombra de árvore, não sei explicar bem se é cavalo, joaninha ou outro alguém ou outra coisa e isso me dá dúvidas se a idéia é realmente minha. ela tem cheiro de ser e tem cor de ser, aliás são tantas que começo a duvidar se esse cheiro não é o de sempre e essa cor não é branca ou negra. estão todas juntas, não sei de onde vieram e não posso distinguí-las uma das outras. fossem pai, fossem filho, seriam todas avôs. o sol tem cara da lua, daquela sombra sem sombra, um vento que não sei. a solidão creio que está batendo na porta, mas são tantas que não há porta para bater e de toda essa coisa e das minhas palavras, talvez de uma ampulheta, escorrega meu resquício.

a ampulheta caída

terça-feira, 8 de agosto de 2006

Sugestão de uma leitora

"Eu quase de nada sei, mas desconfio de muita coisa"
João Guimarães Rosa (1908-1967)

Welcome

Estive na Sérvia e talvez por ser um pacifista me interessava saber sobre a guerra; e os sérvios as experimentam desde séculos. Meu amigo sérvio me contava a sua experiência e o seu conhecimento, em meio a "não quero mais falar de guerra". Nosso principal assunto foi Kosovo e não havia momento melhor para identificar esse conflito com o que acontece atualmente em Israel: política e economia dos Estados Unidos. Capitalismo, petróleo. Isso, somado à justificativa da proteção de direito humanos, que não é verdadeira, leva o país ao que vemos. No caso da Sérvia, a comandar uma OTAN em bombardeios à capital Belgrado, inclusive a civis e hospitais, como fazem os israelenses no Líbano, com a diferença que agora há alguma resposta, também triste. Meu amigo me narrou que passava as noites com os amigos em uma cidade ao norte de Belgrado vendo os tomahawks passarem em direção à capital e as artilharias anti-mísseis tentando pará-los. Até o dia em que o míssel parecia vir a eles, o que chegou a causar correria em alguns mais apressados. Mas o míssel não caiu ali. A capital está praticamente reconstruída, mas a OTAN continua apoiando a máfia de Kosovo. Sim, Kosovo, que é uma região sérvia, abriga uma máfia albanesa financiada pelos EUA contra uma Sérvia simpática aos interesses russos. O que meu amigo contou é uma história diferente da contada pela mídia aqui no Ocidente. Contou que os sérvios (mas não só sérvios, senão todos os que não são albaneses) são mortos e expulsos do seu próprio país, com o apoio da OTAN. Isso causa revolta nele, "Não quero mais falar sobre isso, minha vontade era juntar um exército e mandar matar todos eles". E eu entendo o seu ódio quando imagino amigos brasileiros fugindo do Rio Grande do Sul com medo de argentinos, por exemplo. É uma hipótese, impossível creio, mas me ajuda a entendê-lo. No mais, temos muita coisa em comum com os sérvios; eles, por exemplo, também gostam de rir da própria desgraça. Meu amigo me conta uma história verdadeira, mas como piada, de que um amigo visitara o Líbano e enquanto aguardava na fila do passaporte notou que o oficial estava deveras mal humorado. Chegando sua vez, entregou o passaporte e o oficial, ao notar que era sérvio, abriu um largo sorriso e disse: "You terrorist, we terrorist. Welcome."
Há muitos sites sobre o assunto. Um é http://resistir.info/europa/kosovo_port.html

quarta-feira, 2 de agosto de 2006

por entre o dedão


a laranja no pé
a laranja no prato
a laranja no pé
espremida por entre o dedão
a laranja no pé



fotos: Carol Volpe

terça-feira, 25 de julho de 2006

Su belleza

Su belleza fluctúa solitaria
Huyendo de mi y de lo que sé
En el espacio etéreo del Universo.

Su belleza suspendida y serena,
Libre de la Hoz y de las Fuentes,
Juega con el Tiempo siendo todo y distante.

La misma belleza que huye del concreto,
Se convierte en un agujero negro de la Nada
Y abriga la fuga de los desafortunados.

Allí no brotan las palabras de los Hombres.
Todavía se escapa el sonido de la Verdad,
Como el ruido original de la Creación.


P. Neruda

quarta-feira, 19 de julho de 2006

Noite






É noite, sinto que é noite.
Não, querida. Olhe.

são paulo em cor-de-rosa


J.P. Cilli said...

ao agito cor-de-rosa
da trégua negra
camuflada
avança a cidade
um mendigo descansa sobre ti

segunda-feira, 17 de julho de 2006

sexta-feira, 14 de julho de 2006

reedições repensadas II


toque de recolher

- ouve só
- ...
- é isso, venceram
- eu ia ficar em casa mesmo
...
- escuta, de novo
- e daí?
- ...
- olha, vai começar a novela

neta hora

o relógio marca sete horas
ontem foi sete horas

a manhã sete horas
e tudo passa

passou um sonho
sonho sobrinho
sonho filho
era de não lugar

serei eu
será você
seremos canção?

a luz perturba
derruba
ladeira de enchente
água preta, de tronco e de bujão
de televisão e gente e rato
esgoto

era,
senão amanhã
ontem então
sabe?

o piso de taco antigo grita
vale quinze reais?
meu relógio sete horas
sempre tem razão

quinta-feira, 13 de julho de 2006

vento

se um dia levares de volta tudo que trazes
voltarás com paz ou guerras?
soprarás poeira nos olhos
ou limparás as casas?
e o cabelo que fazes esvoaçar
será bem visto pelos homens
e odiado pelas mulheres?
como a força que destelha
infla velas a cortar os mares
e a embalar o pescador
pode também remexer a flor d'água
como cardume de sardinhas
fugindo de um predador?
as nuvens que trazes
são as mesmas que levas?
ah, vento
se um dia compreender-te
apontarias Um caminho
a resposta do universo?

terça-feira, 11 de julho de 2006

reedições repensadas

vogal ou consoante vírgula interrogação

foi só subir?
foi lutar só?
só pegar o táxi
e fugir desse calor?

e lá peguei no frio
meu ônibus a tempo
meu pé tinha calo
de cair do muro só
de só brincar de fogo

ah, essas consoantes
lá no meio daquelas vogais
com toda aquela pontuação
quem serei eu quem será você
seremos nós interrogação

sexta-feira, 7 de julho de 2006

1 ANO!

Nosso querido QSEDQ completa um ano, leitores esquecidos. Cadê um texto triunfante de homenagem, comemoração?Não há. Faça você, leitor insatisfeito. Só não escancaro um concurso para não sofrer a vergonha de não ter nenhum texto submetido. Então fica assim, se vem um texto, abre-se um concurso. Se não, fica a piada.

terça-feira, 4 de julho de 2006

um indigente


hoje parei
e discordo de mim
meu olhar e meu pensamento
fogem
fingem olhar e pensar
mas fogem

as lágrimas do meu sofrimento
secaram no vento que levou minha verdade
ao vale do esquecimento
e da miséria

não mereço o prêmio dos resolutos
e sentado nas rochas
olho o movimento do mar nas ondas
e penso
sou indigente de alvorecer
sem olhar e pensamento

sentado nas rochas da mentira
fujo do vento
e finjo um crepúsculo
minha única verdade

segunda-feira, 3 de julho de 2006

XCIX - Fim

Otros días vendrán, será entendido
el silencio de plantas y planetas
y cuántas cosas puras pasarán!

pablo neruda
capítulo final – pandora

dissera-se que a vida das coisas ficara estúpida diante do homem... – não te assustes, disse ela, minha inimizade não mata; é sobretudo pela vida que se afirma. vives: não quero outro flagelo.
machado de assis

guiado pelo maître, sentei-me na frente de cecília, agradecendo a gentileza do funcionário. suspirei querendo olhar para cecília como quem vai cheio de saudades ao fundo da gaveta pela fotografia de sua amada. antes vi um papel dobrado em cima da mesa, na minha frente, que abri. não vi fotografia, não vi cecília: senão o Branco como nenhum branco já alcançado pelas retinas e pelas imaginações humanas. e se ali havia letras, não sei, estariam escondidas e eram desnecessárias. os olhos de cecília, sentia-os brancos, estou certo. seriam brancos assim que a vela se apagasse pelo sopro seco da eterna expectação. e ali viveria cecília a me iluminar, por um, dois, três, cem anos, um guardião em padecimento puro e silencioso.
o Branco foi se desfazendo em retalhos das cores que voltavam a se distinguir, ao passo que cecília ia desaparecendo e, completada a visão com ínfimos pedaços de cor, ela já não estava mais ali; uma situação embaraçosa, fiquei aturdido. um homem, talvez o garçom, me perguntava com uma voz impaciente se eu desejava alguma coisa, e repetia a pergunta insistentemente. eu, que tinha o rosto abaixado entre as mãos, levantei os olhos e vi uma porta abrindo, um amigo, como é, vou bater na porta até quando? levanta daí, disseram que se fica mais um minuto dentro deste quarto é capaz de enlouquecer.

sexta-feira, 30 de junho de 2006

sábado, 24 de junho de 2006

XCIX - II

Otros días vendrán, será entendido
el silencio de plantas y planetas
y cuántas cosas puras pasarán!

pablo neruda



capítulo segundo – a resolução, a revelação e o encontro

lá dentro, ela padecia, e não pouco, - ou fosse mágoa pura, ou só despeito; e porque a dor que se dissimula dói mais, é mui provável que virgília padecesse em dobro do que realmente devia padecer. creio que isto é metafísica.
machado de assis

não havendo meios, e sendo eminente a lua cheia, resolvi passar um mês com meus familiares no interior. no entanto, foi-se a lua cheia e não deram coisas do amor, tanto por mim quanto por ela, que não haveria de fazer mais pelos amantes. passadas duas semanas, fechei-me no quarto para descansar e acendi uma vela simples, coloquei alguma música e perdi-me em cecília por mais de uma hora, creio. estando a vela e a imaginação ao fim, dei-me conta do que resolveria meu sofrimento. é aí que chegamos ao início da história.
aquela era a cecília que mil eisteins não revelariam, perdoem minha falta de modéstia. mas destrinçando-a como faço, fica fácil, facílimo, o que não era, creiam-me. descobri, enfim, sob a luz arquejante e moribunda daquelas velas, o segredo de cecília – ah, se aquiles soubesse, agradeceria seu calcanhar! em poucos minutos tratei de escrever-lhe uma carta e fazê-la despachar logo pela manhã. aquela é cecília lendo a carta que a remeti, posso jurar-lhes. a carta, devo dizer, era uma legítima obra-prima, e como aquiles veio-nos em metáfora, que fiquem ao chão mais mil homeros! antecipei minha volta, estava exultante, cecília nenhuma resistiria àquele golpe.

chegando à capital, liguei para cecília, dei-me um dia, marcamos um almoço em um restaurante próximo à sua casa, discreto, sim, mas escolha minha. no outro dia me aprontei e fui ao seu encontro. a bordo de um táxi que me levava ao destino, sonhei uma cecília desmascarada, uma cecília de olhos claros e brilhantes, que abriria os braços para me beijar no meio do restaurante! ah, naquele caminho, as esquinas eram bodas, os automóveis padrinhos da nossa felicidade, os ruídos, as freadas, o burburinho, fogos que estouravam ao nosso beijo! o troco da corrida foi o dízimo devido ao procurador dos céus que selou com benção nosso amor: taxistas, se tuas corridas fossem movidas do meu sentimento, seríeis ricos, riquíssimos; mas não haveria de haver amor como aquele, perdoai-me a sinceridade. pois deixemos de aforismos religiosos e vamos indo. chegando ao restaurante, achei cecília sentada de costas, virada para a janela que dava para o jardim, a claridade do sol caía-lhe no vestido branco, imagem linda, cingindo-a com uma espécie de áurea luminosa. lindíssima. dei por esquecido meu coração desavisado, indeciso entre os solavancos das emoções e a serenidade da visão, e fui ao encontro de cecília com uma bela rosa branca na mão.

sexta-feira, 16 de junho de 2006

ESCLARECIMENTO PÚBLICO

O QSEDQ esclarece a quem isto possa interessar que é a favor do tráfico de
idéias.

quarta-feira, 14 de junho de 2006

?: estado permanente das coisas

XCIX

Otros días vendrán, será entendido
el silencio de plantas y planetas
y cuántas cosas puras pasarán!

pablo neruda



capítulo primeiro – as velas, a vela e cecília

a pedra é sofrimento
paralítico, eterno.
carlos drummond

era um quarto com grande pé-direito, a luz que saía das velas pendia no escuro, espetando às paredes um bilho fraco, amarelado, degladiando-se com o ar: murmurando vida, enfim. e porque viver é lutar e velar, ali estavam os olhos de cecília. mantinham-se discretos, com ares de desprezo ao mundo que sempre tiveram, mas que vida queriam não ser? a vela teimava no brilho dos olhos de cecília. postada como quem é vítima de outros olhos, cecília lia a carta relutando, talvez bravamente, às primeiras linhas, certa maneira em coro com as velas agonizantes. ah, como se relutava naquele quarto de grande pé-direito! o papel, digo-lhes desde já, fora cuidadosamente escolhido, tinha ares originais de luz de vela, ainda que o sol fosse por ali despejar toda sua candura.

cecília era vida mas também era morte, a semente da essência humana cultivada e produzida pela mais desumana das mulheres que conheci, pura como as plantas, silenciosa como os planetas. desprezava o mundo por se sentí-lo todo, como uma santa sem um deus, ou uma bela fotografia nunca vista. era alva porque nem o sol a atingia e nem a noite a escurecia. era de altura mediana, olhos e cabelos escuros, ouvia clássicos, dizia-se. usava vestidos soltos e com pouca ou nenhuma estampa que a deixavam bela, cecília era bela, devo dizer, uma beleza que padecia em um banho de sombras e luzes.
apaixonei-me por muitas mulheres, valendo-me das qualidades e desprezando os defeitos. mas cecília não tinha um nem outro. era sempre algo justamente por não ser, tudo sendo nada. sua pele clara estendia uma longa e opaca cortina negra aos olhos dos homens. o seus, desabitados de janelas, suas vozes vazias de ruídos; um eterno nevoeiro, nítido como a leda de da vinci. creiam-me, não há outro modo de descrição: desvendá-la era mergulhar no universo pelo abismo do nada; mirar o infinito; chegar a cem contando até noventa e nove. e amá-la... quanto sofri amando cecília!
se o leitor é distraído, confesso-lhe: dali a pouco estava eu dando voltas para conquistá-la. de início, pelo modos ternos em que se afigura, fui-lhe com pequenos recados, coisas doces e discretas; mas tendo ela se mantido indiferente a todos meus chocolates, mais ou menos amargos, saí com outras estratégias, de efeitos igualmente vãos e efêmeros. a essa altura, no entanto, os sentimentos por ela fizeram da insânia o crepúsculo do amor. porém eu, de boas razões e companhias, avisado por ambas do caminho que havia tomado, tomei uma resolução.

quinta-feira, 8 de junho de 2006

Parcos e Menosprezados Leitores,

Espero que esse tempo esteja chegando ao fim, vejam que lhes coloco letra maiúscula como sinal de respeito. Finalmente consegui preparar-lhes algo que deixasse de lado minha habitual preguiça. Que lhes alcancem a altura em qualidade, não digo, mas em esforço, confesso. Publicarei nas próximas três semanas uma história de amor, dividida em capítulos, a cumprir as exigências dos patrocinadores e o dever de não enfastiá-los. Ah, sim, peço já que me perdoem por alguma dissidência com o dicionário e com a gramática, tenho desculpa: as dissidências enriquecem. O primeiro capítulo vai pela semana que vem, os outros seguirão.

E vamos.

terça-feira, 6 de junho de 2006

Mais Contos Folclóricos

uma certa mulher tinha um filho mui casmurro, que não brincava nunca, nem sozinho, nem com as outras crianças. tendo ido consultar uma velha curandeira da região para resolver o problema do filho, ela foi instruída a fazer certa coisa. meditou muito a mãe se realmente deveria fazer aquilo, mas, ficando mais desesperada dia após dia, decidiu tentar. então, num dia de chuva, fez-lhe um barquinho de papel, mui grande e formoso, levou o filho com muito esforço para fora de casa, colocou-o em cima do barco e ambos numa pequena corredeira formada pela água da chuva, que carregou-os abaixo. ao lado de tal barco, colocou outro, bem menor e com um pedido escrito num pedaço de papel, que o garoto fosse como uma criança qualquer. o barco grande, então, encalhou em um local de profundidade menor e o pequeno seguiu até desaparecer da vista da mãe. a curandeira afirmara que, assim, o pequeno barco iria para o rio sagrado e circular de anutaz e que, ao completar a primeira volta, o desejo começaria a ser realizado. passado um ano, a mãe, não tendo notado diferença nenhuma no comportamento do filho, procurou a curandeira. ela a recebeu com muita atenção, perguntando-lhe o que desejava. a mãe, angustiada com o filho, questionou-a quando o pequeno barco daria a primeira volta. a velha encarou-a séria e disse:
- a volta do rio durará a vida do seu pequeno filho.
a mãe, então, ficou revoltada com a resposta e a velha, vendo o nervosismo da mãe, acrescentou:
- se quiseres, podes acompanhar o pequeno barco, eu posso te mostrar o caminho.

sexta-feira, 2 de junho de 2006

Contos Folclóricos da Anutaz

havia a história, narrada pelos antepassados, de que um jovem filho, tendo se revoltado com as imposições do pai, fugiu de casa e andou muito, embrenhando pela floresta, até alcançar um rio, de água correntes e límpidas. posto já estar escurecendo, resolveu acender uma fogueira e repousar ali, embaixo de uma árvore de frutos doces, e dali a algum tempo, adormeceu. tendo o fogo apagado, e o frio lhe abatido, acordou trêmulo, desejoso de seu quarto e sua coberta, e temeroso dos espíritos que habitam a floresta. foi então que, mirando apavorado e imóvel a última brasa, esta começou-lhe a falar com brilhos. assim que, de brilhar mais ou menos, fazia-se sua linguagem, perfeitamente compreendida pelo jovem. a conversa foi longa, mas ao fim, a brasa, identificando-se como a mensageira da natureza, lançou uma maldição ao filho rebelde. o jovem deveria perseguir a onda d’água do rio que primeiro refletisse o sol da manhã. aquele era o rio anutaz, o rio que gerou o grande criador, que não possuía nascedouro nem tampouco foz.

segunda-feira, 22 de maio de 2006

o preço de deus


- não sei, eu queria ser cego, às vezes.
- por que?
- porque ver é doloroso.
- mas há várias coisas para se ver...
- mas não consigo deixar de enxergar coisas que para os meus olhos são extremamente injustas e controversas, mas que para as pessoas, a maioria delas pelo menos, é algo comum, é fonte de dinheiro, é o cotidiano.
- você deve considerar que está em uma fase ruim...
- não sei, não consigo deixar de pensar que eu não quero viver essa vida quando acabar essa merda toda.
- veja por outro lado, veja as pessoas, você tem sorte, não acha?
- fodam-se as pessoas, foda-se o que as pessoas esperam de mim, porque o que eu espero da vida não é isso.
- o que você espera da vida, então?
- sabe, ontem estava com uma amiga e perguntei o que era deus para ela. ela respondeu que era o ser que dava destino ao mundo. então perguntei qual era o sentido da vida para ela, por que deus a colocou aqui. ela disse que a vida era nascer, estudar, fazer faculdade, trabalhar, ganhar dinheiro, comprar coisas e saber fazer disso o melhor para você. então eu ponderei se deus (o deus que ela acredita) realmente a colocou aqui para ganhar dinheiro. e essa idéia é inaceitável.
- mas é a realidade...
- eu sei, mas que a realidade é essa, tem que ter grana para se viver? quero dizer, o dinheiro é inerente à experiência de se viver, na sua forma original, fundamental?
- não digo que seja, mas me parece que atualmente sim.
- certo, mas daí surgem várias questões. como ganhar grana? o que fazer com isso? será que é isso mesmo, tem que ficar sentado na cadeira para viver?
- não, não é preciso ficar sentado na cadeira, mas tem que se sacrificar. pelo menos é isso que enxergo.
- não, eu não consigo me convencer com isso. é quase uma tortura pensar que amanhã, semana que vem, ano que vem, eu ainda estarei aqui. que tem um puta mundo aí fora para se conhecer, um monte de cultura para viver, montanhas pra subir, mares para velejar, pores e nasceres de sol para se ver, enfim, há toda uma criação divina para se experimentar, e que eu vou estar aqui, acordando as oito, chegando as nove, saindo as dezenove, dormindo a uma.
- essa é a sua vida...
- quem disse, quem colocou essas regras na nossa vida? quem nos obrigou a fazer isso que a gente faz? isso é o melhor pra gente?
- você vive em uma sociedade, deve obedecer a suas regras, do contrário não estará vivendo.
- não sei, continuo sendo contra as instituições, enquanto conjunto de regras criadas por alguém para te direcionar. como se eu precisasse desse tipo de regras. respeito as regras da natureza, respeito as regras que nossa essência nos impõe e que a personalidade de cada um impõe a cada um.
- sim, há essas regras, mas não são as únicas.
- deveriam ser. tudo é tão passageiro e a gente é tão preso sem razão alguma para isso...
- essa coisa de tudo é passageiro é pensamento de velho, hein...
- é, eu posso ter me cansado cedo demais de seguir o rebanho, passar pela porteira, ser carimbado, comer ração...
- ...
- é tudo aparentemente bom, mas se você vir o pasto cercado de cima da montanha, acho que você poderá ver que a liberdade realmente não tem preço.

quarta-feira, 17 de maio de 2006

Testemunho de um leitor

ela me ligou logo cedo, eu ainda nem tinha começado a tomar meu café, lido meu jornal, nada. estava lavando o rosto e corri para molhar o telefone. queria combinar algo, queria que dessa vez desse certo. a gente era assim, desses romances que darão certo, mas ainda não deram. na verdade nunca se sabe se vai ou não. ela queria, eu também. achei bom, vamos sair, sem compromisso, talvez a falta de peso ajudasse a decolar, eu sei, a metáfora, mas é isso. comecei o dia bem, pensei, pensei... fui ler o jornal, na verdade fui direto pro horóscopo, ia dizer “hoje vênus alinhado com mercúrio proporcionará bons fluidos aos seus relacionamentos”. mas não, dizia que sol, ou a lua, já não sei mais, ia atrapalhar, era pra ficar em casa praticamente. aí fudeu, pensei, não podia ser hoje, não hoje. fudeu. liguei pra ela, nem lembro, disse que não dava e acho que ela concordou rápido porque eu estava alterado, não como agora, agora estou mais calmo, quer dizer, um pouco, imagina você no meu lugar. puta merda, só comigo. desmarquei e pelo menos fiquei mais tranqüilo, até porque ficou de algum jeito marcado para o dia seguinte pelo menos. mas aí que veio a merda, saí pra tomar um café depois do trabalho, sei lá, fazer alguma coisa pra não lembrar que tinha deixado de sair com ela depois de ter pensado que daquela vez daria certo, e antes de chegar na padaria senti alguma coisa, que iria encontrá-la, não que eu soubesse que ela estava lá nem nada, mas foi uma coisa esquisita, não sei, um aperto estranho, pressentimento, sabe. não vi mais ninguém, parecia que o resto tinha escurecido e só ela estava sentada em uma mesa no meio de tudo, iluminada para mim, meu coração quase veio pela boca e saiu pulando com vergonha, e antes de eu poder pensar em voltar atrás, ela me viu. puta, sequei, acho que devo ter ficado branco. puta que pariu, acho que nunca pensei tanta coisa em tão pouco tempo. mas quando a imagem foi melhorando, ela me olhando também pálida, vi que ela estava com um outro cara. puta merda, caralho. filho da puta, filha da puta, ela, ele, eu, todo mundo. vai toma no cu, que que eu ia fazer? comprei um chiclete, dei um oi de longe, sei lá o que mais. saí, lógico! nem sabia o que pensar, o que fazer, fui parar em algum lugar, aquele filho da puta, goiaba, com aquela cara de parceiro perfeito, “ai bem te compreendo”, vai toma no cu todo mundo. saí cego, não devia ter saído, pensei, horóscopo é tiro-e-queda. mas aí olha só, voltei pra casa, não quis nada, fui tomar banho, bebi quase uma garrafa de vinho e dormi, é tudo que eu precisava. acordei mal hoje, tô um pouco mal ainda, enfim primeira coisa do dia fui ler o horóscopo, e não é que aqueles filhos da puta do jornal dão um aviso “desculpem leitores o horóscopo de hoje foi publicado ontem”. e agora?

P.S.: Se interessar, temos o testemunho em áudio...

E agora, José?

terça-feira, 16 de maio de 2006

operação ilegal

por em ordem alfabética

Marco e J.P. Cilli

cagarola

povo ficou de estola
o povo pachola
o povo da bola e da viola
o povo da esmola
o povo agora é cagarola


Marco e J.P. Cilli

sexta-feira, 12 de maio de 2006

Ainda sobre o 3º olho

Primeiro, não acho que é possível ver tudo de fora sem a consciência de ser o que é. É por isso que fiz a questão, isso dá tilti mesmo. Mas no fim tenho a impressão que o terceiro olho faz as coisas perderem a magia. Daí penso duas coisas: será que as coisas na realidade não têm magia alguma ou será que a realidade não pode ser experimentada pelo terceiro olho (a realidade que o terceiro olho observa)? Para entender isso, também há de se definir uma coisa: o terceiro olho é um sujeito ou não? Ou seja, ele participa ou só observa? Nesse último caso, podemos considerar que ele não tem sentimentos? Pois sim, ele tem sentimentos porque analisa (e sente) tudo o que vê, tendo como preceito que está se enxergando, o que lhe dá uma alta carga de sentimentalismo. Então ele participa. Então é sujeito, está ali, dentro de nós. Sempre? Isso deixa a gente doente...
Obs. 1: Não assisti o filme ainda.
Obs. 2: Com relação à quântica, acho que tudo isso é quântico na medida que é uma visão holística da realidade e que inclui a "confusão" de conceitos (estabelecidos pela velha ciência). Como sabemos, na quântica tudo é energia, não há diferença. Afirma-se que além disso, só existe o pensamento. De todo modo, ficam perguntas: se tudo é energia, como as coisas se diferenciam umas das outras diante da nossa percepção? Será que há acúmulos de energias? O que determina o comportamento (instável) dessa energia? Seria isso o que tentamos expressar com o conceito de Deus?

pés e jornais

arnoldo não podia mais com aquela situação. sentado, de pés para cima e mãos cruzadas, jornal na mesa, concebia. aquela sala, pensou, era pequena demais para aquele plano, e resolveu botar os pés na escada para sentar ao ar livre, de pés no chão e fingir ler um jornal que nunca leu. também nunca havia feito mal algum para alguém, afora coisinhas circunstanciais, mas logo se predispôs a parear o adversário. então, jornal debaixo do braço, meteu os pés à casa de orlando. delegou o coração acelerado e as mãos suadas ao mecanismo biológico, no abrigo de sua bondade. com os pés pela calçada, depois ao pé da porta, imaginou, sonhou, esqueceu-se e concentrou-se. enrijeceu-se. ouvindo os passos, manteve-se. o jornal, amassou-se. a porta aberta, os olhos de orlando, furtivos, encarando-o. tranqüilos e raivosos. assustadoramente certos de tudo. o sangue de arnoldo, assustadoramente quente, inflado, jorrava-se da testa aos pés. enxergou a névoa negra, perdeu os pés e o jornal, ouviu todo funcionamento do seu mecanismo biológico, não encontrou nada. resolveu dar tempo a tudo, contou os segundos, ok, você venceu, disse para si. e tudo ficou claro e silencioso, segundos antes de orlando meter uma bala na sua testa. ou de meter uma bala na testa de orlando, vai saber.

sexta-feira, 5 de maio de 2006

quinta-feira, 4 de maio de 2006

O 3º Olho

iiih, J.P. Cilli, travou! deu tilti, rapaz. esse tipo de reflexão da pau no cérebro. mas vamos lá.
Antes de mais nada, uma pergunta: vc quis dizer "e se eu estivesse vendo tudo TAMBÉM de fora ou simplesmente estivesse vendo de fora sem a consciência simultânea de estar vivendo também de dentro, como dois momentos separados? Por hora vou considerar que é apenas um terceiro olho que vive uma visão de cada vez e não ao mesmo tempo. Quanto a isso vc tem que ver o filme Quero Ser John Malkovicth sem falta. Sei que vc não gostou da primeira vez, mas vc tem que ver novo. Bom, acho, sim, que a pessoa vive um momento de acordo com tudo que a compõe e que isso faz com que as experiências sejam únicas desse ponto de vista. A mesma experiência vivida de dentro de nós mesmos é uma e é outra quando vivida de fora, mesmo sendo você espectador de você mesmo e por isso tendo a mesma consciência de quem está vivendo aquele momento - você. Isso porque existimos em nós mesmos e ao mesmo tempo no outro, até porque sem o outro não seríamos nada, pelo menos no que diz respeito à nossa consciência. Assim, se estivessemos nos vendo de fora, seria como ver uma outra pessoa - o seu eu duplicado. Acho que de certa forma vc deixa de ser vc quando se vê de fora. Tem a ver com a consciência. Não sei se é quântico, nesse sentido.
Na quântica, como fica a consciência em relação a nossa existência? Tenho essa dúvida.

O TERCEIRO OLHO

MARCO, QUERIA DISCUTIR UM TEMA. A PESSOA VIVE UM MOMENTO. ELA O VIVE DE ACORDO COM TUDO QUE A COMPÕE, CERTO? AÍ TEM AQUELA COISA DA PESSOA PENSAR: E SE EU ESTIVESSE VENDO TUDO ISSO DE FORA?

sexta-feira, 28 de abril de 2006

come on, brasil - QSEDQ com consciência (ou não...)

acho que um dos problemas do país é a seriedade. o brasil não tem formação séria, sempre foi palco das peraltices da elite, que nunca levou o país a sério. mas a seriedade de outros países (principalmente europeus, além dos eua), atrapalhou a brincadeira por aqui. e o país virou o que é. não é sério nem burlesco o suficiente para ser efetivamente algo. fica nesse vai-não-vai. sugiro que assumamos de vez nossa veia patusca. vamos abolir a quarta-feira de cinzas.