quarta-feira, 28 de fevereiro de 2007

Programa Não-Governamental de Democratização da Arte


morreu

eles choram
eles noticiam
eles culpam
eles argumentam
eles teorizam
eles não reagem
eles pedem
eles reagem
eles votam
eles brigam
eles julgam
eles prendem
eles sofrem
eles esquecem
e o joão hélio morreu

mesmo

Da Et Cetera #9

Saiu há um tempo a Et Cetera nº 9, da Travessa dos Editores - não confundir com a eletrônica revista etcetera. A edição é bonita e o material de dentro, na maioria, muito bom, mesmo. Dá vontade de comprar as anteriores. Alguns trechos de textos interessantes:

Eu no creio-no amor.
Eu num!
cacrinão!
As pessoa se quere comer. Se lambe. Se quere comer tudas. E tudinhorde, té aí. Mas quando quer comer só nenhuma, na certa, naquela (e isso só porque que a dita da outra (pessoa) tinhalá, seimelá, um nariz mais certo, que ela achava (a pessoa) que era o certo, ou uma bunda mais redonda, um brilho nozolhar) aí que elas inventa o treco do amor, pra poder dizer pras outras que era aquela que ela devia comer.
E ai se fosse só isso.
Mas aí elas conta praquela assim também, que que eu te amo, e meu amor, e coise tale tale coisa, e se come. Aí perde a graça e manda embora.
Ou não, porque costuma e melhor não que nada. Aí ficam-se a mando.
Isso que é o amor, amor.
Isso que é.

(Disjecta pedacia d'Orrato, do Caetano Waldrigues Galindo)


A mecânica quântica nos ensina que não se pode saber simultaneamente onde algo está e com que velocidade se move, e nem é possível prever exatamente o que acontecerá em qualquer circunstância. É impossível prever eventos futuros exatamente, quando nem sequer se consegue medir com precisão o estado presente do universo. Provavelmente ninguém entende a mecânica quântica.

(Como não se precipitar em sonhos?, do Pedro Maciel)


Ainda lá, há uma chamada para o site Rattapallax. Não sei direito o que é; posso definir como uma publicação novaiorquina e multimídia de arte contemporânea, com destaque também para a arte brasileira, como Arnaldo Antunes na poesia e Caetano Veloso, Arto Lindsay, Bebel Gilberto e grupo Zuco 103 na música (conforme o artigo publicado na FSP por Manuel da Costa Pinto). A pubicação é distribuída no Brasil pela Editora 34 e parece que o preço de capa é 25 r$ - aliás, o mesmo preço da própria Et Cetera.

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2007

Quesabemos: Cardoso

O FANTÁSTICO MUNDO DAS COISAS

1. A Colher

Colher é um apetrecho TALHÉRICO muito esquisito desde criança e, portanto, muito perturbado pelos coleguinhas na ESCOLA. Com a forma de um GARFO DE LUVA levemente ACONCHEADO, a colher é um ser que cresce para jamais sair do SUBALTERNO. Quando adolescente, serve para fazer todo o trabalho duro; as mais PARRUDAS designadas para SERVIR os pratos e as mais MIRRADINHAS ficam com a tarefa de CAVOCAR sobremesas e sopas. Garfos e facas, que ficam sempre com o mais NOBRE da refeição, deleitam-se com a situação e CAGAM NA CABEÇA da pobre colher.

Mas é no UNDERGROUND que a colher ESMIRILHA todo seu potencial. Já adulta e INVARIAVELMENTE na prisão, desde que BEM LAPIDADA, uma colher pode servir de arma MORTAL. Nas mãos de dentistas CHARLATÕES, que não tem VERBA para adquirir aquele espelhinho altamente tecnológico para ver os dentes lá do FUNDÃO, a colher pode virar um excelente COMPARSA em qualquer tipo de FRAUDE.

Como regra FUNDAMENTAL, uma COLHER somente teme e respeita o profissional do ILUSIONISMO, que tem essa mania irritante de DECAPITAR, AMASSOCAR e MUTILAR o pequeno utensílio com seus PASSES DE MÁGICA. Isto transforma a categoria no único INIMIGO NATURAL da colher que, se não for esperta, já está MOLDADA na forma de um CARRO do URI GELLER a essa altura do campeonato

Cardoso publica em www.qualquer.org/codex

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2007

Neutralização de Carbono do Site

Carnaval. O Brasil unanimemente não quer chuva. O Sol governa com garras mais afiadas: é a falta da camada de ozônio, que deixou de aparecer na mídia para ter edições especiais na pele de todos que o confrontaram sem bloqueios químicos ou físicos.

Diante dessa rubra constatação, o QSEDQ resolveu neutralizar (saiba mais aqui e aqui) suas atividades, em todos os campos em que atua. Bem, como não encontramos meios de calcular quantas árvores deveríamos plantar, e como nenhum de nós possui um automóvel que multiplique drasticamente nossa dívida com o planeta, decidimos que três, por enquanto, é um número razoável (como sempre é).

Em breve postaremos os comprovantes fotográficos dessa investida.

Desconcertos

Do amigo, por ora virtual, Tony Monti (link do blog na coluna da direita):


quinta-feira, 15 de fevereiro de 2007

Que sabemos todos de que?

Afinal, o que você aí sabe de que? Acreditem, as pessoas sabem de tudo. Mas não é nisso que estamos interessados, claro. Queremos a ignorância, o dessaber: o queseieudoque,meufilho, enfim. Foi com esse espírito que convidamos gente de todos os cantos do mundo e de todas as áreas do conhecimento para escreverem sobre algo que desconhecem por completo, que não façam idéia, que não entendem, que nunca sequer tiveram uma distante noção da sua existência material. Teve gente que recusou justificadamente, gente querendo saber do din-din, gente desentendida e, claro, aqueles que aceitaram a tarefa de se sentirem livremente ignorantes. Daí saíram as mais diversas teses e estudos baseados nos mais vagos conhecimentos sobre assuntos importantíssimos para o dia-a-dia da humanidade - como é a praxe da pauta do nosso ignorativo (que, óbvio, não tem pauta). É a série Quesabemos em sua primeira edição: serão publicados dois textos por semana, sem qualquer critério, nem para o dia da semana, nem para a ordem de publicação, acompanhados de uma breve apresentação do autor e onde, na internet, pode ser encontrado (se isso for possível). E, claro, estando nós onde estamos, os textos só serão publicados após o nosso esperado entrudo.
Fiquem com os primeiros colaboradores do Quesabemos, e livres para serem ignorantes conosco.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2007

3





sábado, 10 de fevereiro de 2007

O Teatro Quântico

Quando o último Papa, o Wojtyla, morreu, fiquei triste, minha garganta fechou e no escuro do meu quarto acendi uma vela em sua homenagem – imagino que Papas devem gostar de velas, o que fiz questão de deixar instantaneamente registrado em uma fotografia da minha Polaroid. Para mim, ele foi o último dos branquelos chefes do Vaticano, pelo menos até agora, porque este alemão-com-cara-de-malvado não é um Papa. Está mais com cara de amigo do Berlusconi e confidente do Bush do que de Papa. Mas não é esse o caso.

Não o conhecia muito bem, o falecido. Via o velhinho da sua janelinha no Vaticano, dizendo umas coisas sempre com sotaque estranho e esse era todo o contato que tínhamos. Ele era o Papa, mas ainda assim se equiparava, no setor de cognição do meu cérebro, à mendiga que via todo dia na calçada da minha rua. Com todo respeito a ambos. Fato foi que eu mesmo não entendi a minha reação com a morte do pontífice Josef.

Não depositei a responsabilidade no título da universidade que eu cursava – a Pontifícia de São Paulo, cujas lembranças estão mais para Fernandinho Beira-Mar e Marcola que o Papa em si. Muito menos em sentimentos nostálgicos do colégio de freiras que estudei do Jardim I até meados da sétima série.

Talvez sentisse de forma reflexa a tristeza profunda que deve ter abatido o nosso enorme povo arrebanhado pela santa igreja apostólica romana; o povo brasileiro de verdade, que tem índio e negro e português e sabe-se-lá-mais-o-quê no sangue. Já que Iemanjá nem Tupã vão morrer, já que nem Jesus, que já tentou, morre mais, esse povo católico (mas meio de esguelha) teve o direito de chorar a ida do único mortal que podiam idolatrar unanimamente. Os sucessos das suas visitas bem mostravam isso, ainda que contassem com o atrativo dos shows do Rei. E nem o Lula morreu nesse interregno para sabermos a verdadeira devoção sentimental do brasileiro ao presidente.

Mas acho demasiada essa minha pretensa super-sensibilidade. Ela não me convence sozinha.

Tampouco haveria de ser alguma verve católica da minha parte. Até fui batizado na Igreja Matriz de uma cidadezinha, prima-comunhado em outra Igreja Matriz de outra cidade e, como disse, estudei anos em colégio de freiras. Mas depois me neguei tão peremptoriamente a possibilidade de fazer a Crisma que não houve mais insistência familiar. Hoje Jesus é uma lenda-espelho de Buda, que é outra lenda, e a Bíblia um compilado de lendas vertidas num códice por interesseiros da antiguidade. Tudo com seu devido valor - devido.

O que foi aquilo, então, meu deus?

As forças midiáticas agindo sobre minha mente indefesa?

Dada a minha midiafobia, mesmo ainda em estado inicial, não creio seja essa a resposta.

Coincidência com um meu estado de fragilidade em virtude de uma crise (i) existencial, (ii) amorosa, (iii) familiar, etc? Nãão... não havia crise competindo com o plantão da Rede Globo e as manchetes do UOL.

Foi então que, um ano e tanto depois, o finado Karol me emocionou novamente, agora com o auxílio evidente de artimanhas midiáticas. Isso quando assisti a um filme – patrocinado pelo Vaticano – sobre a história do tal polaco. O roteiro ia da sua infância à eleição vencida no Vaticano. Passava pela perseguição nazista, a morte do pai e dos amigos, o amor de uma mulher renegado pela batina, a pregação, os supostos milagres que justificaram sua santificação-relâmpago, etc. Então e só então aquele sentimento no meu quarto escuro fez sentido; quem viu o filme com o mínimo de sensibilidade deve ao menos compreender o que digo. Nesse tipo de película nos esquecemos de qualquer discussão sobre as maldades que o bom protagonista defendeu para nos concentrarmos nas coisas boas e capazes de nos emocionar – exercício, aliás, que pode ser praticado de vez em quando com relação a outras coisas neste mundo. Ademais, eu até concordo com a sua contrariedade à camisinha, embora tenhamos, eu e ele, motivos distintos para tanto; mas os motivos não importam quando chegam ao mesmo lugar.

Era a hora certa de entrar em cena. Foi só então que se fecharam as cortinas. Os sentimentos me mostraram que nada têm a ver com esse Tempo que me empurra o tempo todo. Eles se interconectam quanticamente como se estivessem lado-a-lado no mesmo palco e na mesma peça, ainda que anos ou quilômetros distantes entre si; se explicam, se completam, se relacionam, travam diálogos e desfilam monólogos, tudo neste palco aqui: eu. O caso do Papa foi uma peça no meio de outras infinitas que nem sei se começaram e ainda vão terminar, ou se já terminaram e ainda vão começar. Neste meu teatro quântico particular nem eu tenho voz; não posso escolher a hora de entrar ou sair de cena: sou só o palco.

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2007

Whuffie

O Cris Dias cantou e eu reverbero. Informe-se você mesmo na fonte, e depois responda: como anda seu patrimônio?

terça-feira, 6 de fevereiro de 2007

EntreVistas: Pira (Parte Final)

(...)

JP: Pira, qual foi a viagem mais marcante que você fez?
PIRA: Um vez sobrevoei as cataratas do Iguaçu de helicóptero...
JP: (interrompendo) Playboy, hein...
MARCO: Qual era o modelo?
PIRA: Do helicóptero?
MARCO: Não, do seu vestidinho...
JP: (risos contidos)
PIRA: (vermelho, o rosto) Sei lá, porra.
JP: Hum, ficou nervoso.
MARCO: Então foi por ali que você aprendeu o seu fluente espanhol?
PIRA: Não, não, eu já tinha ido pra Argentina outras vezes.
JP: (cochichando) Marco, gravou isso?
MARCO: (também cochichando) Sim. Parece que ele foi pra Argentina...
JP: Esse cara é louco.
MARCO: Pirado...
PIRA: Comé que é?
MARCO: Pira, mudando de assunto, por acaso você não viu por lá um sujeito de baixa estatura, chamado Galberti Mainardi?
PIRA: Mainardi... Mainardi... Não é aquele escritor?
MARCO e JP: Isso!
PIRA: Sim, sim. Li a última coluna dele na Veja.
JP: Na Veja?
MARCO: Veja?
PIRA: ...
JP: (decepcionado) Pira, obrigado pela entrevista.
MARCO: (calado, ajeita suas anotações - como faz o William Bonner - e se retira do ambiente).
PIRA: ...

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2007

Relato inacreditável

Mosquitos atravessam vidros. Isto mesmo. Aqueles mosquitos de banana conseguem atravessar o vidro de nossas janelas. E voam, sim, até o décimo andar; nada daquela história que se prega por aí que eles vêm de elevador. Acabei de constatar o fato diante de mim mesmo.

Passo os dias, já faz algum tempo, sentado à minha mesa que é voltada para a janela. Não que fique olhando pela janela o dia todo; não é esse o intuito. Mas acontece, não raro, de eu ser levado por um pensamento passageiro a divagar e contemplar a vista, diga-se de passagem não das mais bonitas. Paisagem urbana repleta de prédios encavalados uns nos outros, com cores horrendas, arquiteturas esquisitas (os arquitetos realmente não tiveram muito bom gosto nos anos 70 e 80) e, mais recentemente, consta na vista uma imensa antena que brota por entre os prédios para ganhar os céus, concorrendo com os helicópteros que pousam aqui ao lado. Essa antena, em particular, faz da experiência de morar aqui um bocado peculiar: me sinto sendo fotografado continuamente quando aqui nesta mesa estou lendo nas madrugadas. Há quatro lâmpadas ao longo da antena que funcionam como flashes que disparam simultaneamente de segundo em segundo e com tamanha potência que quando está escuro - ou quase escuro, porque escuro realmente é difícil de ficar com tanta iluminação afora - funcionam como verdadeiros flashes de máquina fotográfica. Por vezes é deveras incômodo, mas ao menos já me valeu um momento de êxtase interativo-literário. Outro dia, eu lia e, quando num episódio em que a personagem chegava à delegacia cercada de jornalistas a fotografando, senti que os flashes da antena à minha janela saíam mesmo era do livro. Serendipidade.

E lendo estava eu quando algum pensamento mais forte que minha concentração me fez levantar a cabeça. Tirei os olhos do livro e os coloquei a olhar pela janela. Nessas ocasiões, não é difícil ver um mosquito qualquer debatendo-se no vidro, com planos de atravessá-lo. Quando estão do lado de dentro até faço questão de os ajudar a sair, abrindo a janela e os colocando para fora com uns abanões. Hoje, porém, ocorreu algo inacreditável. Olhando pela janela, vi que um mosquito vinha de fora e estava resoluto a entrar. Não debatia-se no vidro repetidamente. Foi como se ele tivesse apenas uma única chance, quando veio de chofre e atravessou o vidro num vôo reto e certeiro. Até joguei a cabeça para trás, como quando se assiste a um filme 3d. Quântica! Esses mosquitos entendem é de quântica! Passada a surpresa, fiz como de costume. Abri a janela e o ajudei a sair - quem é que quer ficar nesta janela a ouvir demolições quando se pode voar?

domingo, 4 de fevereiro de 2007

EntreVistas: Pira (Parte 2)

(...)
JP: Pira, esqueça isso, vamos voltar. Você já preencheu algum formulário?
PIRA: Por supuesto.
MARCO: (comentando) Olha o Pira...
JP: (com todo respeito) Você acrescentaria um terceiro quadradinho na opção "sexo"?
MARCO: (risos contidos).
PIRA: (pensando longamente).
MARCO: Deixa pra lá. Você deve saber que "pira", na língua tupi, é "peixe". Muitos nomes de cidades brasileiras são formados por essa palavra como sufixo ou prefixo, como, por exemplo, a sua própria cidade natal, a agora famosa "peixei grande". Se você pudesse escolher, você seria o quê? Sufixo ou prefixo? Se sufixo, qual seria o seu prefixo, ou vice-e-versa?
JP: (risos mais ou menos contidos).
PIRA: (pensa ainda mais longamente).
MARCO: Então... (ansiosamente tamborilando os dedos na mesa, um seguido pelo outro, começando pelo dedinho).
PIRA: (começa a escorrer uma gota de suor da sua têmpora direita).
JP: Quente hoje, não?
MARCO: Um minuto (sai do ambiente e volta com um termômetro). Vinte e dois graus... (suspira).
JP: É... não muuuito. Onde estava esse... esse...
MARCO: (interrompendo) termômetro.
JP: Isso! Onde estava?
PIRA: (segue pensando e suando).
MARCO: Na geladeira.
JP: (se levanta correndo) Tem que aumentar a temperatura, caralho! As cervejas ... (grito inaudível vindo da cozinha).
MARCO: (segue tamborilando os dedos na mesa).
PIRA: (já não se sabe se ele estava mesmo pensando, mas com certeza suando).
JP: (volta cabisbaixo).
MARCO: João, estava na porta da geladeira.
JP: É...
PIRA: (de supetão) Ah! Já sei!

(a continuar)

Plantão QSEDQ

Da Redação

A Redação acaba de receber uma ligação anônima informando que o escritor Galberti Mainardi, desaparecido desde o último 04 de dezembro, quando misteriosamente sumiu ao meio da procissão de Santa Bárbara em Patchuco, foi visto na fronteira tríplice Brasil-Argentina-Paraguai. As autoridades investigam uma possível ligação do barbudo escritor com Osama Bin Laden e a mundialmente conhecida Al Qaeda (o que repelimos veementemente).

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2007

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2007

QSEDQ EntreVistas: Pira

Francisco Alberto de Pirajá Santos, o Pira, é o primeiro entrevistado da nova série do QSEDQ: EntreVistas. E como algo só pode ser entre duas coisas, no caso, vistas, João Pedro e Marco visualmente conduzem o presente interrogatório. Sim, porque o QSEDQ não entrevista, interroga - sem rogar - e pessoalmente. E prefere gente desconhecida.

Bobagem, vamos ao Pira.

Pira é o gerente administrativo de uma unidade do Exército brasileiro. Ele prefere não mencionar mais detalhes sobre isso. Por que escolhemos o Pira? Ele lê, e escreve. Entrou em contato com a redação deste ignorativo, queria publicar também. Mas como achamos que o Pira era por demais o Pira, pensamos uníssonos (embora os pensamentos não emitam sons, ao menos os das pessoas educadas): interrogue-mo-lo.

A argüição durou aproximadamente 15 horas. Nenhum de nós sabe precisar o tempo exato, pois em certo momento revezamos e em outro, dormimos (cada um em seu respectivo espaço particular). Mas não é isso o que importa: para uma melhor digestão virtual, cortamos os trechos de silêncio (aproximadamente 4 horas), além dos papos-cabeça (27 minutos) e resumimos tudo em 3 partes, que serão publicadas com um breve intervalo entre si, de modo que dê chance para que o leitor naturalmente faça as reflexões cabíveis.

A inqüirição teve um resultado notável pelo nível de QSEDQ do entrevistado (já falamos do índice que inventamos, o "nível QSEDQ" de ignorância positiva?).

A perqüirição se segue, e basta de sinonímia.

JOÃO PEDRO: Pira, prazer. Isso chega a ser um trava-línguas, hein (risos).
MARCO: (que não ri) Não foi boa, não, João.
JP: É... Pira, quantos anos você tem?
PIRA: Trinta e cinco na certidão. Mas onde nasci...
MARCO: (interrompendo) Onde você nasceu?
PIRA: (irritado) Mas onde nasci não havia...
MARCO (interrompendo novamente): Onde você nasceu mesmo?
PIRA: (finalmente ignorando Marco) Não havia cartório nem nenhuma autoridade, lá ...
JP: (enquanto Pira continua falando) Marco, acho que ele não sabe...
MARCO: (Pira ainda fala) É...
JP: (Pira...) Foda-se, volta o gravador pra ele.
MARCO: (...) É melhor...
PIRA: ... então papai e mamãe resolveram fazer isso e eu prefiro dizer mesmo que tenho 35. Mas vai que tenho 40, 45. Ou mesmo 25. Se isso tivesse acontecido mesmo, se eu tivesse mesmo 25 anos, imaginem, há 10 eu tinha 15 e há 25 eu estaria nascendo.
JP: Faz sentido.
MARCO: Mas porque você chama seu pai de papai? Ao invés de você, você também diria "vossa mercê"?
PIRA: Não sei... (pensa longamente). De qualquer jeito, você não é papai (fazendo voz de nenem).
MARCO: Opa, Baby...
JP: Marco, espero que também não seja eu (risos, menos do Pira).
MARCO: (mais risos, não do Pira).
JP: Quero deixar claro, Pira, que não fumamos nada.
MARCO: (termina de rir). Pira, por que Pira?
PIRA: Pira apelido ou pira verbo?
MARCO: E verbo tem letra maiúscula?
JP: Marco, ele não está lendo.
MARCO: É mesmo... (conformado, cruza os braços) apelido.
PIRA: Todo mundo acha que é por causa do Pirajá, mas não é, não. É que lá em Piranguçu, onde nasci...
MARCO e JP: (interrompendo) Ahá!!!

(a continuar)

terça-feira, 30 de janeiro de 2007

Nota de Desaparecimento

Da Redação

Desde o dia 04 de dezembro está desaparecido Galberti Mainardi, 26. Pedimos aos que souberem de qualquer informação que leve à solução de seu paradeiro, que entrem em contato com a redação. Será recompensado.
Galberti foi visto, pela última vez, por um taxista que o deixou na procissão de Santa Bárbara, ocorrida na manhã daquela segunda-feira, na cidade de Patchuco. A foto divulgada pelas autoridades locais mostra a procissão que contou com algumas dezenas de pessoas. O motorista que o conduziu do hotel ao cemitério de onde saiu a procissão, interrogado pela polícia, relatou que o escritor vestia uma jaqueta cor káki, uma calça preta de moletom com os vincilhos desamarrados e levava consigo uma maleta de couro marrom. Disse, ainda, que levava um ar de preocupação e parecia atabalhoado. A queixa de desaparecimento foi dada à polícia pelo gerente do hotel em que Galberti se hospedava, que notou a ausência do hóspede na manhã da quarta-feira. Galberti era devoto de Santa Bárbara e supostamente voltava a Patchuco para agradecer uma graça alcançada.
As autoridades, no entanto, suspeitam que as ligações de Galberti com o escritor e jornalista de sobrenome homônimo, Diogo Mainardi, pode ter sido a causa de um suposto crime de vingança, mas ainda não têm qualquer indício sobre o parentesco ou mesmo sobre a relação entre ambos polêmicos escritores.
Outro linha investigativa seria uma secreta ligação mantida entre Galberti e a poderosa máfia local de Patchuco. Comandada pelo Señor Alvarez, el Chuco, essa organização criminosa domina o cartel mundial de suprimentos para máquinas de datilografar, além do concorrido mercado de antigüidades gráficas. O mais recente levantamento das autoridades locais estima que o Cartel de Chuco movimentou em suas contas espalhadas pelo mundo valores superiores a milhões de dólares, em 2006, contrabandeando, inclusive, cerca 3 mil unidades de fitas-refil para datilográficos de todo o mundo. A participação de Galberti no esquema, entretanto, ainda é obscura e incerta.
Alguns amigos mais próximos não descartam a possibilidade de Galberti ter forjado seu próprio desaparecimento. Eles relatam que ultimamente o escritor vinha apresentando períodos longos de ausência e, contrariando sua natureza, deixava freqüentemente crescer sua barba e seus cabelos.
A redação conversou com um colega do desaparecido, que preferiu não se identificar. Ele confessou que sua opinião particular é de que a solução do caso reside em duas probabilidades.
A primeira é de que Galberti teria se ensandecido com a leitura diuturna de clássicos russos e partiu para Kiev acreditando ser ele mesmo algum escritor cujo nome termina em -ski - em sua época psicológica, Kiev ainda pertencia à Rússia. Ele reforça essa possibilidade com um diálogo que teve com o procurado há aproximadamente uma semana antes da viagem à Patchuco.
Durante a conversa, Galberti teria contado, de forma estranhamente apaixonante, o modo como Trótski morrera em sua casa, golpeado na cabeça por um piolet. Galberti estava começando a escalar. Estaria ele tentando redimir a vida e a morte do escritor russo, outro famoso devoto de Santa Bárbara? O colega acredita que não: segundo ele, Galberti tinha aversão a marxistas.
Ele acredita na segunda possibilidade: Galberti nunca existiu e foi ao cemitério para, então, nascer. O amigo compreende a dificuldade de se entender tal afirmação, mas lança uma bomba: "Galberti nunca foi um sujeito descomplicado". Ele acredita, pela leitura dos escritos deixados pelo escritor, que este vivia em um estado psicológico de não-ser e que só poderia se libertar da inexistência e adentrar num mundo de opostos, onde finalmente poderia ser reconhecido como o que realmente viria a ser, quando provocasse em si mesmo o que chamava de Salto Dialético. Ele conecta diversos indícios da obra e da vida do escritor que apontam para essa possibilidade:
- Galberti exercia trabalho voluntário na favela de Heliópolis.
- O escritor queria ser, na verdade, um famoso escalador.
- O desleixo com a barba e o cabelo seriam, na verdade, um recado do seu Id de que queria ser decapitado, ou seja, romper seus laços com o Grande Pai e a Grande Mãe e, assim, finalmente ser tido como um ser que realmente se é.
- Sua banda musical preferida é o praticamente desconhecido trio de música experimental chamado "Hegel e o Salto Dialético".
- Um de seus famosos contos fantásticos narra a história de um homem rico sendo frito (fried-rich) pelo Rei Guiherme VI (Wilhelm) em uma grill George Foreman Jumbo (Georg): o nome completo de Hegel era Georg Wilhelm Friedrich Hegel.
Coincidências ou premeditação, é algo extraordinário, como tudo aquilo no que Galberti se envolvia (inclusive este site). Até o momento, as investigações das autoridades de Patchuco prosseguem sem qualquer pista concreta.

segunda-feira, 29 de janeiro de 2007

Reflexões úteis sobre a cidade de agora e a do futuro


Suplemen+o Literário de Minas Gerais

Trechos de A memória como fundamento da cidade futura,
de Carlos Antônio Leite Brandão

"O inferno dos vivos não é algo que será; se existe, é aquele que já está aqui, o inferno no qual vivemos todos os dias, que formamos estando juntos.
Existem duas maneiras de não sofrer.
A primeira é fácil para a maioria das pessoas: aceitar o inferno e tornar-se parte deste até o ponto de deixar de percebê-lo. A segunda é arriscada e exige atenção e aprendizagem contínuas: tentar saber reconhecer quem e o que, no meio do inferno, não é inferno, e preservá-lo, e abrir espaço."
(CALVINO, Italo. As cidades invisíveis)

"Comecemos por ver as imagens do futuro da cidade que a ficção nos relata. Em Blade Runner, de Ridley Scott, vemos um espaço público cinzento e decrépito sob a chuva ácida. Todo encontro com o outro é monosilábico e áspero, todo diálogo é evitado no meio do tédio que se expressa nas feições dos pseudo-cidadãos, habitantes de um espaço comum mas que com ele não se sentem comprometidos. (...) Exilados de um destino comum, esses pseudo-cidadãos também não têm memória e um patrimônio compartilhado: não se constituem como membros de uma res publica, mas como seres atomizados numa massa desnorteada, desmemoriada e sem liberdade. A Los Angeles de 2019 figurada na película é o território tumultuoso onde outrora havia cidade e cidadãos e que se tornou uma somatória de guetos e replicantes. Governada pela economia e pela técnica, as leis que a regem não se engendram são-nos impostas: somos, novamente, servos dentro de um espaço composto por feudos e onde o mundo público converteu-se na escória do universo privado. Ele não é mais o abismo onde se enterrou toda memória, toda festa e toda troca de experiências concretas."

"(...) A cidade do futuro, antes pensada em torno de um ideal ou de uma utopia, passou a ser tratada como o supermercado do gozo e como objeto de satisfação e necessidade, não de liberdade."

"(...) A cidade constitui-se como o espaço do diálogo e do encontro com os outros do espaço (dos vivos e contemporâneos) e do tempo (os mortos e os que irão nascer), interlocutores sem os quais não há república, não conquistamos nossa identidade individual e coletiva, não desenvolvemos nossas potencialidades e o sentido de nossa existência. (...) Esse encontro é um encontro entre os heterogêneos que a cidade deve produzir e abrigar, e a partir dos quais realizo minhas escolhas. O encontro entre iguais - como tribos, gangues, condomínios fechados e comunidades restritas; como as dos shoppings, café-bar, clubes e pubs de toda espécie mas nos quais, como ordens religiosas, só interagem os semelhantes - não constitui a pólis e o máximo que se instaura e a sociabilidade de comunidades restritas onde só me relaciono com o igual a mim. O todo da pólis permanece, assim, apenas uma somatória de partes em cujos interstícios ela se perde."

"Trata-se de uma cidade que não fala de nós, e nem nós falamos nela. A cidade do futuro parece muda e muda fica sua memória. Isso já estamos construindo, como ao estetizarmos o patrimônio histórico e a memória herdados."

texto integral em Suplemen+o


sábado, 27 de janeiro de 2007

sou o narrador. essa é uma história e vou contá-la ainda que você não queira. o tema é o suicídio e é verdadeira, posso afiançar. não sou onisciente, como dizem, não sei mais do que um pouco sobre mim, mas não vou me privar de deixar algumas impressões que, se não podem ser vistas, podem ser sentidas. essa história foi a primeira e última coisa que escrevi, e nesse dia eu estava na minha casa de praia, que fica quase na areia, sentado a ver o mar e as gaivotas e os barcos e algumas pessoas que já iam se escasseando pois já ia ficando tarde e não era época de turistas, graças a deus, eu não acredito em deus e nem acredito nas regras gramaticais, seja lá o que isso tudo for. uma mulher sentou à praia sozinha, o que me estranhou, uma porque não era comum mulher sozinha àquela hora e dois porque ela não trazia um canga para protegê-la da areia, mulher gosta de praia mas não gosta de areia nem da água, mulher gosta de homem mas não gosta de futebol nem de briga, não acredito em mulheres, mas acredito no que vejo, e a mulher sentou, não me viu, faço questão de não ser visto, e começou a chorar, também acredito no que ouço. não tive receio algum, continuei observando. o sol, que já estava quase a se esconder, parou na linha da água, as gaivotas de voar, as ondas de espumar, mas essas continuaram quebrando e fazendo um barulho estrondoso, como se tivessem quatro metros de altura a partir da flor da água que vem atrás, mas não tinham, e ainda assim eu podia escutar o choro da mulher, que não era alto, todavia. não gosto desse tipo de situação, me faz pensar que está chegando a hora da minha morte que muito provavelmente não vai chegar, essa coisa do vento ficar parado no ar a esperar que lhe diga algo, não gosto disso nem nos homens, quanto menos no vento, que é futriqueiro e fica louco para ir contar ao próximo morro o que o outro lhe dissera e assim causar as maiores discórdias que já se viu na terra. o sol começou a crescer e cresceu de forma que o céu todo virou um sol só, não pelo calor, mas o mundo tomou uma cor laranjada que meus olhos nunca viram, deveria ser escaldante, mas não era, e o vento ficou ali a brincar com as tonalidades, de vez em quando se movimentando para um lado e para outro a misturar o que parecia ser um óleo, e as lágrimas da mulher escorriam laranjas pela areia, que não preciso dizer estava laranja, para o mar laranja, e tudo era laranja, inclusive eu mesmo, mas o laranja não é a cor certa, talvez mais amarelado que o laranja normal, fica sendo laranja-amarelado. vez em quando o vento resolvia fazer um tracejo vermelho por aqui, outro amarelo por lá, sendo que chegou a levar uma lágrima, talvez por engano, aos meus pés. ao tocá-la, ela escorreu pelos meus olhos e o laranja se dissolveu no vento e no mar e no sol, que também era céu, em um azul arroxeado, mas deveras descolorado, e as lágrimas se tornaram mais tristes, e o vento mais frio, creio que chegou a chover uma areia de cristais finos e gelados, que não caíam sobre mim pois eu estava protegido pelo meu telhado de telhas importadas de um lugar que os pobres mortais não devem conhecer, mas que começaram a cortar o corpo da mulher, que já chorava lágrimas de sangue, compreensíveis, convenhamos, e as minhas também ficaram assim e até tinham gosto de sangue, mas um sangue que não era meu e que não se misturava com o azul arroxeado da areia do mar do sol, que já disse que era céu, e ficava ali a vagar pelo ar, tomado pelas incongruências do vento. foi nessa hora que percebi, esse vento é o culpado de tudo, mas creio que ele também se apercebeu e me escorregou aos pés da moça, que estava já caída, imóvel, é isso, estava morta já, estava já morta, pensei, não sou eu. não estava, me ofereceu um beijo, o beijo insaciável da morte não se oferece, disse a ela com toda educação e delicadeza que se espera de alguém como eu, pois este não é o beijo da morte, mas o beijo da vida, que quer se perpetuar, e que estará sempre ao seu alcance, ela me disse com uma voz doce, talvez de sereia, e beijei-a com paixão, ao que fomos sugados pelo mistério do infinito e cuspidos à imensidão dos céus, vindo cair neste terrível caixão em que resolveram nos colocar, como indigentes, vejam só.


um estudo sobre o suicídio

terça-feira, 23 de janeiro de 2007

Este texto não daria um monólogo para teatro?

aurora, estou trancado em casa. todos saíram, e agora sinto falta da minha chave. não sei se é uma boa coisa aos miolos ficar trancado em casa; aqui é tudo de graça. o meu dinheiro, aurora, não serve para nada. o telefone também não, sem que haja a expectativa do encontro não há razão para o telefone, sabia? não adianta chamar a pizza, que só vou sentir o cheiro. vou ver se fico na porta da geladeira para me esfriar um pouco, daí corro para baixo do cobertor e vejo se isso me dá sono. acordei tarde hoje, quero dizer, já não tenho mais sono, posso ter sono daqui a pouco. mas daqui a pouco demora. acho que vou começar a quebrar as coisas, jogar as garrafas de uísque lá embaixo para ver se tenho algum tipo de relação com o mundo. mas não quero causar problemas para ninguém, aurora. eles foram embora, mas já devem estar voltando, quem sabe semana que vem. a despensa está cheia de gordura trans, justo agora que tinha decidido não comer mais gordura trans. acho que vou comer toda a verdura hoje, e as frutas também, senão vão estragar; será meu dia de vegetariano. tudo bem, amanhã fico um pouco mais de tempo no banheiro, mas não tenho mais problema com o tempo, aurora. o tempo ficou trancado lá fora. as contas eu pago tudo pela internet, é a hora em que me sinto mais próximo do mundo. o internet bank. às vezes também gosto quando fico na janela tirando fotos digitais das pessoas lá embaixo, e depois transfiro para meu computador e fico brincando com elas: aumento o contraste, diminuo o brilho, os tons de cinza, dou uma saturada no vermelho ou no azul ou no verde, dependendo; ou até amarelo. corto as fotos, junto umas nas outras, tenho muita criatividade com isso. outras vezes também fico olhando a torneira aberta, imaginando de onde vem aquela água, quais peixes nadaram nela, as manobras do surfe, dos jet-skis, os mergulhadores, os produtos químicos que colocaram para limpar a sujeira que jogo pelos ralos e pela descarga. ela volta, aurora, ela sempre volta. vai suja, volta limpa. chega a conta, pago pela internet, e eles continuam lembrando de mim. minha vida anda sendo fácil. como exercício, faço cooper nos cinco cômodos, cinco vezes em cada, o mais próximo das paredes que posso. isso me faz correr quinhentos metros todos os dias, que, com as flexões, as barras e os abdominais, me mantém em forma e alivia o peso da gordura trans. aliás, começo a desconfiar que meu corpo necessita delas, justo agora que estão acabando. mas tudo bem, estou substituindo os alimentos sólidos pelos líquidos e por isso já desisti daquela idéia maluca de jogar as garrafas de uísque pela janela. na internet, li que um litro de uísque tem algum valor nutricional e, convenhamos, se o álcool vem do açúcar, nada impede que ele volte a ser açúcar. na internet também consigo uns vídeos pornográficos que me deixam excitado e me fazem gozar rapidinho, assim eles aliviam a falta que às vezes faz uma mulher de verdade. aurora, lembra?, quando todos os dias você vinha me acordar, para depois me ver dormir, e me acordar de novo? agora acordo com o barulho da geladeira, do vizinho ou da linha de trem que passa aqui trás de casa. pois é, tem uma linha de trem aqui trás, só agora percebi. começo a me arrepender de ter doado a televisão, aurora. um filme de hollywood agora ia bem para dar uma animada e entrar em contato com a nossa realidade. é a nossa realidade, não é? afinal, por que mesmo eu não assinei aquela revista? não me resta muito dinheiro no banco, acho que não chega a ser o suficiente para pagar as contas. mas acho que vou assinar uma revista semanal ou um jornal diário. eles vão se amontoar na porta, mas vou ter acesso ao conteúdo exclusivo na internet. então não serei mais excluído e não terei mais que recorrer aos sites piratas que estão infestando meu computador de vírus. o computador anda lento, aurora, parece que vai parar qualquer dia. descobri um site que tem episódios de uma novela dos estados unidos e assim, de lambuja, continuo treinando meu inglês. o gás da cozinha acabou, neste prédio velho ainda é gás de botijão. mas ainda tenho o microondas. já fiz de tudo no microondas, você nem imagina as possibilidades. omelete (quando ainda tinha ovos), arroz, pão de forma com manteiga, de tudo. às vezes ele queima as beiradas e deixa o meio frio, mas daí é só colocar o meio no canto e o canto mais para o canto, que resolve, daí é só jogar os cantos fora e comer o meio. acho que vou criar um blog, aurora, vou ensinar umas artimanhas na relação homem-microondas. cuidados que se deve ter, receitas, agrados. quanto mais pego intimidade com as coisas aqui de casa, mas vou entendendo elas. hoje em dia compreendo a vida da geladeira, do fogão, do computador, além do microondas. mas acho que eles é que vão começando a se enjoar de mim. porque quanto mais faço agrados, mais eles se tornam rebeldes. o computador, por exemplo, parou de funcionar há uns dias e com eles foram meus último planos, aurora. daqui a pouco sei que vão interromper o fornecimento de água, luz, internet a cabo (essa eu não me importo mais). por isso estou estocando o quanto de água eu posso. a banheira eu mantenho cheia e não é para tomar banho. é que eu já não faço mais exercício porque não consumo a quantidade de calorias necessárias para serem queimadas. sempre que sinto sede, bebo direto da banheira, e isso me diverte! me sinto um cachorro sedento que encontrou um monte de água limpa para beber. o microondas estou usando para guardar água também, assim como a geladeira. tive que concentrar esforços na água mesmo, já que não dá para armazenar energia, sabia, aurora? mas não pense que eu ando isolado de tudo. dia desses mudou uma amiguinha para cá, é uma viúva negra. daqui a pouco ela vai ter seus filhotes, mas fico me perguntando do seu marido. sei que ela o mata para dar o que comer para as aranhinhas, mas nós não conseguimos achá-lo até agora. ela é uma mãe muito zelosa. está pensando em uma proposta que fiz: se o marido não chegar a tempo, vamos dar de comer às aranhinhas com as partes do meu corpo. acho que vou começar pelos dedos do pé, que já não uso mais. como elas são pequenas, creio que não será preciso chegar ao meu pinto, ficarão satisfeitas, sei lá, ali pelo joelho. e essa esperança, de alimentar as novas gerações, me faz tão renovado! tão feliz, aurora! assim sinto que estamos, eu e você, juntos, como antes. aurora, sinto saudades daqueles tempos. mas, paciência, quando alguém chegar aqui em casa, eu saio correndo ao seu encontro, aurora. até mais.
aurora

sexta-feira, 19 de janeiro de 2007

o que a senhora está olhando vovó? a vida, minha filha. mas que vida, vovó?

isso é o suficiente, pensei ao colocar o ponto de interrogação, mas o ponto continuou me interrogando, e por mais que eu soubesse a resposta eu não podia respondê-lo, ponto, o que queres comigo, perguntei, assim na segunda pessoa porque ouvi contar que para falar com as palavras, que são antigas, deve-se usar a segunda pessoa, e o ponto, ciente da sua importância, ficou quieto, ah ponto, se te coloco uma resposta ruim, sem poesia nenhuma, ficarás apagado e assim viverás para sempre, e o ponto riu de canto, esse desgraçado pensa que já sabe o futuro, pensei, pois então coloco, se duvidas, falei e enfiei a caneta com força no papel, e ela ali ficou, vocês dois aí estão mancomunados, não é, deixem estar, larguei a caneta, o ponto, a tinta, o papel, toda essa patota, patota não, quadrilha, isso sim, malfeitores, ah, a tecnologia é um alívio dessa ditadura, fui-me ao meu computador, digitei a frase e o ponto de interrogação, não sem certo receio quanto a esse último, o que por óbvio não demonstrei, e aquela barra ficou ali piscando para mim, safados, safados, todos uma quadrilha, repeti exasperado, e o computador carinhosamente me disse, pare com essa mania de perseguição, e isso, devo dizer, por um momento amoleceu meu coração, mas só até ver aquela barrinha piscando ao lado do ponto, ah, esse pinga-pinga filho-da-puta, desliguei o computador, porém ao lado continuava o ponto, e o papel e a caneta, desgraçados, vocês venceram, fui à janela pitar um cigarro, já quase esquecido, e não é que esse danado foi dar com a fumaça lá no ponto e voltou com a interrogação, atirei-lhe à janela, e estava prestes a fazer o mesmo com todo o resto quando me atinou uma idéia, e as idéias vão assim encavalando uma nas outras mesmo, a janela, perguntei-a, como estava a vida, fui puxando assunto, tu que viste tanta coisa nesse mundo, e escondeste tantas outras, fui alisando-a assim com a segunda pessoa também para não desmerecê-la, e ela se deixou levar, distraída que sempre foi, vou-me bem, obrigado por perguntar, que tens visto nos último dias, ah, tanta coisa meu senhor, tanta coisa, mas é você que anda recorrendo aos meus peitoris ultimamente, pois é, minha senhora, estou a escrever um livro, ando a pensar muito e sabes que seus reforçados peitoris são sempre uma boa fonte de inspiração, oh, qual o que, imagina, se eu não os tivesse, você não faria seus livros, perguntou, e eu interrompi o curso fácil da conversa, a pensar, essa janela está é com os outros e quer me enrolar, mas fiquei miúdo, que era para investigá-la melhor, pois que nada, os livros de janela são os melhores dentre os já escritos, não sabes, por exemplo, que fernando pessoa estava acostado a uma quando escreveu sua tabacaria, perguntei, vencedor, pois se engana, ele não só não estava à sua, como lhe contarei uma história e, para lhe mostrar minha fidelidade, apontarei os perigos de quedar-se a uma janela, afora o de dar espaço aos suicídios humanos, e essa história quem ma contou foi meu avô, finado por uma demolição monstruosa e despropositada, quando da reforma de um certo edifício na velha turquia, pois acontecera com ele mesmo e posso lhe jurar que não será mentira tudo o que me foi narrado pelo meu avô, estava ele a mirar, como sempre fez, o estreito do bósforo, conheces, em um fim de outono, um dia bonito, com algumas nuvens no céu, os turcos ali a pescarem com suas famílias, e olha que esses edifícios, ao que me consta, eram o mais caros da cidade, e ali vivia uma velha, herdeira de certa fortuna, que ficava longo tempo a mirar o mar, o céu, as mudanças, mas foi o dia em que ela viu algo, e isso meu finado avô não me soube contar, pois estava olhando para a senhora, o que é prova que lhe conto a verdade, e foi que ela paralisou, paralisou, interrompi, pois é, lhe digo, ficou ali, como tivesse visto algo como a mãe do ouro, essa mesmo aqui da nossa terra, ou a medusa, se prefere, e vendo com a cara que eu estava interrompeu a janela, pois lhe digo, se não queres acreditar... não, imagine, continuas, por favor,


pois sim, continuo mas em favor da memória de meu avô, ali ficou a velha e meu avô, desesperado por não saber o que se passara, atordoou-se por completo, e se não fosse janela diria que chegou a bater com o nariz em uma, mas o era, e ficou ali, até que se virou e viu, o mundo estava cinza, cinza, exclamei, pois cinza, não crê, é que... não crê, eu sabia, pois creio, não crê, a uma janela não se engana facilmente, no entanto agora irei até o fim, seguiu determinada a janela, e me conta meu avô que o mundo continuou cinza, e a senhora ali parada, e assim por meses, até que um ramo começou a nascer em uma árvore, um broto verde, intensamente verde, e meu avô ficou ali a apreciar o ramo, já esquecido das cores que estava, e o ramo crescia, viçoso, e o finado teve uma idéia, se a velha visse a cor poderia voltar a viver, se o feitiço fora do contrário, eu digo feitiço mas não foi isso que me foi dito, eu que tenho isso para mim, pois continue, pois continuo, mas como faria uma janela para mover uma senhora petrificada, lhe pergunto, e eu que não sou janela saberia, oras, pois nem ele, lhe digo, e a minha janela ficou em silêncio a mirar o movimento do exterior, uai, é isso, acabou, perguntei ao esperar alguns segundos a ver se ela rompia o silêncio, sim, ela respondeu e eu, inconformado, só sim, perguntei novamente, sim, ela disse melancólica e perguntou com voz boba, moral da história, não seja tapado, o senhor é escritor, deveria ter mais sensibilidade, hein, e pus-me a pensar, a pensar, e nada, pois pode parar de pensar, não vê que a vida passa de acordo com o que se vê pela janela, ela sentenciou um tanto convencida, mas não é que a danada tinha lá sua razão, e pus-me a pensar novamente, mas agora em reflexões filosóficas, reflexões de janela, devo dizer agora, quando ela me interrompeu, o que está olhando, meu senhor, perguntou, eu, nada, a vida, mas que vida, meu senhor? desgraçada.

a janela

quarta-feira, 17 de janeiro de 2007

Reedição repensada: Verdade instântanea + "Cântico Negro"

"Cântico Negro

"Vem por aqui" -- dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
* Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?


Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.


Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...


Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.


Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!"



José Maria dos Reis Pereira (1901 - 1969 / Portugal)

terça-feira, 16 de janeiro de 2007

Novidades

O QSEDQ está com nova cara e uma nova questão: QDESQ?

quarta-feira, 10 de janeiro de 2007

Anedota de férias: "O peixe fora d'água"

Quando era mais novo, durante as férias, saía a pescar com um tio. Íamos lá: barco no mar, equipamento em mãos, linha na água e uma boa espera. Mas o fundamental era fazer um bom silêncio, porque conversa espanta os bichinhos que demoram a se achegar; e, afinal, "a gente veio aqui pra conversar ou pra pescar?", resmungava sempre o meu tio. O movimento do barco era como a da rede que balança. Barco pra lá, barco pra cá e eis a dúvida que surge: peixe que morre fora d'água, morre de quê? Afogado?

terça-feira, 9 de janeiro de 2007

Jogo do Trenó (ou Line Rider)

Viciante... olha o que é possível fazer. Haja tempo.

Site oficial do brinquedo

Que país é esse?

End of Another Year...
You know your country is in trouble when:

-The UN has to open a special branch just to keep track of the chaos and bloodshed, UNAMI.
-Abovementioned branch cannot be run from your country.
-The politicians who worked to put your country in this sorry state can no longer be found inside of, or anywhere near, its borders.
-The only thing the US and Iran can agree about is the deteriorating state of your nation.
-An 8-year war and 13-year blockade are looking like the country's 'Golden Years'.
-Your country is purportedly 'selling' 2 million barrels of oil a day, but you are standing in line for 4 hours for black market gasoline for the generator.
-For every 5 hours of no electricity, you get one hour of public electricity and then the government announces it's going to cut back on providing that hour.
-Politicians who supported the war spend tv time debating whether it is 'sectarian bloodshed' or 'civil war'.
-People consider themselves lucky if they can actually identify the corpse of the relative that's been missing for two weeks.

A day in the life of the average Iraqi has been reduced to identifying corpses, avoiding car bombs and attempting to keep track of which family members have been detained, which ones have been exiled and which ones have been abducted. (...)

Fonte: http://riverbendblog.blogspot.com/

segunda-feira, 8 de janeiro de 2007

notícias do distante mundo da advocacia

Para alguma coisa a carteirinha da OAB e os anos de imersão no mundo jurídico me valem. Com certa distância pode-se aproveitar um senso do que vai por caminhos com melhor ou pior cheiro. Ao fato, a justiça ordenou que os provedores impedissem o acesso dos seus usuários ao YouTube. Fosse só pela proibição já seria um absurdo facilmente capaz de fazer com que qualquer brasileiro com uma vaga noção da história recente lembrasse do termo censura – e foi o que os meios de comunicação se apressaram em fazer. No Brasil, qualquer coisa que mexa com a imprensa ou o que se possa entender como tal já é logo taxada de censura, mas essa é outra extensão do assunto. No seu interior, vemos a incapacidade do judiciário pensar em sintonia com a atualidade e com a realidade. Como uma China ou a antiga União Soviética pretende estender uma cortina impedindo que os milhões de brasileiros com acesso à internet possam acompanhar tudo o que se pode acessar pelo site de vídeos recentemente vendido por bilhões de dólares à Google. O YT, em certa medida, revolucionou, como fizeram antes outras iniciativas, as potencialidades da internet e as previsões de futuro das mídias tradicionais. Mas vai um desembargador solenemente sentado em seu gabinete no belo prédio do TJ de São Paulo ordenar que um assessor apronte um despacho: “j. bloqueiem-se” o YT. Brasileiro nenhum pode acessar qualquer coisa que seja. Mas agora vem o motivo de tal decisão, que nos força até a desrespeitar a nossa Constituição (constituição? do que?) e rir. Sim, um raro caso em que a justiça, apesar de tudo, torna nosso dia mais alegre (ver texto abaixo): bloqueando o acesso de todos brasileiros ao YT eles querem, na verdade, nos proibir de assistir ao vídeo da Cicarelli! Não é preciso dizer mais, todos sabem o que é o vídeo da Cicarelli, o que ela e o namorado fizeram, onde fizeram, como fizeram – e os que não o receberam por e-mail podem acessá-lo em diversos sites espalhados pela rede. O desembargador diz que queria tirar somente o vídeo do ar, como se isso fosse, na prática, possível. O advogado do casal diz que queria mesmo era punir o site por não tirar o vídeo. O técnico responsável pelo laudo que deu suporte à decisão diz que o que vale é a interpretação do desembargador do seu próprio despacho. Bem, a Google, além da aquisição do site-sensação, parece também ter comprado mais um problema com a justiça brasileira.

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Tenho perdido muito tempo ultimamente com a justiça pelo simples fato dela não se dar bem com internet. Certidões que poderiam ser acessadas pela rede e impressas em casa me obrigaram a ir aos fóruns, enfrentar filas inacreditáveis e, como ocorreu hoje no fórum trabalhista, esperar por três horas para o funcionário público imprimir as duas folhas na minha frente e me cobrasse algo em torno de onze reais por isso. Bem, está lida a piauí do mês.

trecho de um diário

Ficamos assim um tempo, com o pensamento abalado pela lua, sem falar um com o outro, cada um fazendo suas coisas, sem tentar falar quando o silêncio constrange, sendo que ele é adequado e até necessário e não deve ser interrompido por manifestações artificiais. Os mosquitos picavam nossos pés, o que nos fazia olhar pro outro enquanto os caçava, mas logo voltávamos às nossas coisas. Eu escrevendo e desenhando, ele escrevendo mensagens no celular para suas “menininhas”.

sábado, 23 de dezembro de 2006

Uma reflexão para o momento de natal, mas válida para todos os dias.

"Se não estivéssemos tão empenhados
Em manter nossa vida em movimento,
E pelo menos uma vez pudéssemos não fazer nada
Talvez um enorme silêncio
Pudesse interromper a tristeza
De nunca entender a nós mesmos
E de nos ameaçarmos com a morte"

"Ficando em Silêncio", Pablo Neruda

quarta-feira, 20 de dezembro de 2006

Exposição - ENCARA

08.12.06 - Coquetel de Abertura: Vereador Pézinho conta que o fotografado faleceu há pouco.

segunda-feira, 11 de dezembro de 2006

reedição retraduzida

her beauty

her beauty floats alone
fleeing from me and what i know
in the intangible space of the universe

her poised and serene beauty
free from the estuary and the sources
plays with the time being all and remote

the same beauty that flees from the concrete
becomes a black hole of the nothing
and shelters the flee of unfortunates

from there do not spout the humans’ words
but escapes the sound of the truth
as the original creation hum

sexta-feira, 8 de dezembro de 2006

usualmente almoçávamos juntos e terminávamos a refeição comendo algum doce familiar típico: compota, calda, leite, com queijo, fruta, algo. também era usual não levantarem todos ao mesmo tempo, primeiro mamãe que gostava de ir ajeitando as louças para a empregada lavar, e logo papai que tomava sempre um copo d’água na talha. eu pegava minha parte da sobremesa e ia sentar no parapeito da porta, que é parapé na verdade, quando era sol de inverno; não esquentava mais do que o confortável e o movimento da rua não era tão intenso a ponto de confundir os pensamentos: horário perfeito de contemplação. eu bem o sabia, ainda que fosse inconscientemente, e ali estava para tanto: contemplar a natureza – humana ou não. ralhava com um, cumprimentava respeitosamente outro; eram as minhas faces, unidas no meu interior, manifestando-se com tratamentos personalíssimos: um luxo, como dizem. talvez fosse a meia hora mais comprida que se pode ter na vida, essa que passa próxima ao meio-dia de um dia de começo de inverno, quando se está contemplando do parapé. contemple, é o que digo; com o passar dos anos, numa cidade pequena como a minha, o mundo parecerá tão outro que será sempre o mesmo: a unidade. a não ser que lhe ocorra o que me ocorreu, e a muita gente, um certo dia.
tomei um pêssego, segui calmamente para a porta dando a primeira mordida e sentei mastigando, com olhar ainda perdido e se acostumando com a claridade. pouco depois surgiu a dois quarteirões acima um senhor, vestido normalmente, camisa, calça, sapatos, barba aparada, cabelos penteados, e era tudo o que podia ver dali; ouvir ouvia mais, e afinal ele berrava sem pudor, característica que sempre invejei nas pessoas realmente corajosas e despojadas, berrava para todos que encontravam, um a um, - você é feliz? e repetia mais incisivo, talvez inquisidor, inclinando-se para frente e ameaçando com o dedo, - é feliz? e então, diante do silêncio, caía na risada, uma risada autêntica posso assegurar. os transeuntes regularmente o ignoravam cuidando se tratar de mais um louco, embora sua aparência não fosse para tanto; e a cada rosto que lhe era virado, ele repetia para si mesmo, com voz chorosa, também autêntica, transformando o riso em um gesto de conformação tristonha, - é triste!
era um acontecimento ao menos engraçado e fiquei ali esperando minha hora; ele vinha subindo a rua e inevitavelmente passaria por mim, e também inevitavelmente me lançaria a pergunta: o que eu responderia? sou feliz, pensei, devo ser, com esse sol, esse pêssego, esse parapé, devo ser feliz, não há como não ser; mas brequei meus pensamentos, - vai explicar! mas eu é que não queria ser tomado como triste, assim no meio da rua, ainda mais por um louco, que têm a fama de serem honestos; bem capaz! diria, - claro!, e ainda o ofereceria o que ainda houvesse de pêssego, esticando meu braço com a fruta na mão. sim, seria a resposta perfeita.
enquanto isso ele ia repetindo, cada vez mais insistente – chegava a repetir umas três vezes, - é feliz? – e cada vez mais choroso: chegou a sentar por alguns minutos na calçada, pareceu-me chorar de verdade. seria ele triste diante da tristeza dos normais? seria uma boa lição de compaixão, refleti. então do que vale a felicidade se não se pode compartilhá-la? aquele sujeito devia apenas ser louco na medida do desembaraço; tinha consciência da realidade e dos sentimentos, só não hesitava nas suas manifestações. mas, enfim, seria ele feliz? é isso, responderia perguntando a mesma pergunta, o que me soou um pouco clichê, mas tinha lá seu significado. o pior mesmo seria as pessoas presenciarem meu diálogo nivelado por ele; isso certamente iria comprometer minha imagem com o dono da farmácia, onde eu trabalhava, e com certeza iria chegar aos ouvidos dos meus sogros: a gente da cidade não iria aceitar muito bem aquilo. ademais, meus pais ouviriam lá de dentro minha conversa, causaria crise em casa: mamãe zelava muito por essas coisas, papai também.
tive um ímpeto de sair e ir assistir televisão, ficar a par das notícias era uma boa desculpa para mim mesmo, inclusive autorizada pelos outros. até a empregada iria zombar comigo, abriria precedente até para isso: a empregada! oras, mas foda-se! pensei, o sujeito não era louco, talvez sofria de excesso de compaixão, ou felicidade, ou ambos. não há que se recriminar um sujeito por isso! mas vai explicar...
enquanto isso, ele vinha se aproximando implacável, todo rosto lhe correspondia uma oportunidade à pergunta e a posterior consternação lacrimosa: éramos tristes... eu não! tinha boa namorada, acho até que nos amávamos, andamos falando muito em filhos, tínhamos planos; além de um emprego onde podia ter um futuro: era o que todos me faziam crer, ao menos. o sol começava a ficar inexplicavelmente mais quente, fazendo escorrer-me suor pela testa e pela barriga; que diabo de apurrinhação das idéias é essa?! pensei perdendo minha paciência comigo. mas não conseguia chegar a uma conclusão que me parecesse aceitável. tentei me acalmar para clarear as idéias: tenho três opções, convim, fico ou saio; se fico, respondo ou ignoro. pronto, por que não faço o meio termo? fico e ignoro! mas não, eu não sou triste, não tem meio termo, os outros sim que devem ser, sempre me pareceram, mas eu que nunca me pareci, nem creio que aos outros. parece, aliás, que ele está perto demais, - ser ou não ser, então ri, depois me culpei: rir nessas horas, oras! oras por horas, é hora de decidir: comecei a ficar sério novamente.
- você é feliz? ele olhou uns olhos que jesus deve de ter olhado de cima da cruz, - é feliz? insistiu, apontando-me o dedo, e assim ficou: não lhe ignorei, simplesmente olhei nos seus olhos, que é o que me peguei fazendo ainda um minuto depois, durante o qual ficamos ambos paralisados. não sei que me tinha no meu olhar, mas ele não insistiu, ficou parado; não era assustador, como imaginara: era cúmplice, parecia esperar meu sim para vir me abraçar com um pai que encontra seu filho. pode ser, pensei, mas não falei porque ninguém pode ser que seja feliz; feliz ou se é ou não se é. silêncio demais é hesitação, continuei pensando, mas fiz jeito de deixar meu semblante do mesmo jeito durante todo o tempo, o que me demandou algum esforço e me deixava ainda uns segundos sem pensamento. então respondi, muito naturalmente para meu espanto próprio, - sim, sou, emendei com uma mordida na última parte maçuda do pêssego, e respondi de boca-cheia, - por quê?, - porque, ele concordou e disse, - porque..., esperando o complemento.
ainda naturalmente, levantei-me como quem não tem mais tempo para uma conversa, era só um gesto que tentei imitar, e disse, - vai saber, uai, virei as costas, fechei a porta e me soltei meu corpo no primeiro sofá que encontrei, suspirando. no silêncio, ouvi os passos do senhor, uns passos lentos, bobos, e cúmplices do seu próprio silêncio.
a empregada entrou na sala, - que é aí?, como que achando que era assunto para ela. levantei do sofá me dirigindo a ela, coloquei o caroço do pêssego na sua mão e murmurei, - esse povo: cada pergunta!, e virando para ela perguntei, - e você, é feliz?, - ora, senhor! ela respondeu, - só deus sabe!, - então, respondi encerrando o assunto, - ele que tava aí, andou perguntando pra todo mundo; cada pergunta, né não? mas é bom, você já fica avisada, vai vendo aí..., - eu hein, ela resmungou, voltando para a cozinha para jogar o caroço no lixo, enquanto eu ia para o meu quarto, rindo.

a pergunta

quarta-feira, 29 de novembro de 2006

Agenda QSEDQ


eu,
nessa exploração de mim
nesse pó inexplorado
é assim que me exploram
em cima da minha carne
autófaga
cheirando à fadiga
faminta de mim
num apetite aberto pelo mundo
um buraco-negro em plena atividade canibalesca
explorada em si mesma
como um gigante espelho em forma de globo
ou de laranja
e o suco que cai queima
cai em mim ácido
me desfaz de mim mesmo
como amaciante de carne
ou de roupa
fico mais fácil de ser digerido
minha boa digestão.

terça-feira, 21 de novembro de 2006

uma crônica social

vivia eu no oitavo andar de um prédio, e no décimo primeiro um garotinho que devia ter sete anos. era uma criança com ares angélicos, sorriso sempre vivo combinando com os olhos ingênuos, um cabelo loiro escorrido e curto, roupa sempre aprumada. filho de uma mulher jovem, entre trinta e trinta e cinco anos, e que cuidava do garoto sozinha. não alcancei saber se era mãe solteira ou viúva, pois a jovem senhora, embora de trato sempre simpático, conversas afáveis e cumprimentos de costume, se alguma vez lhe batessem à porta da menos recôndita intimidade, dava jeito de interromper a conversa, se despedindo com a desculpa de um forno ligado. esses seus modos recatados, no entanto, não ofuscavam aqueles sociais, e toda a gente do prédio era unânime em tratar a ela e a seu pequeno com afagos, dispensando ao último alguns doces vespertinos e lembrancinhas no doze de outubro. desde que eles se mudaram para o prédio, quando então o menino devia ter seus quatro anos, a lua-de-mel durou bastante, levando em consideração os efeitos da convivência diária que impõe a vizinhança vertical. terminou, porém.
ocorreu que a criança, já adentrada na primeira séria do primeiro grau, não se sabe se pelas matérias de conteúdo mais avançados ou se pela convivência com novos coleguinhas, essa criança aos mimos oferecia só seu sorriso angelical e às vezes, para deleite das mulheres, chegava a dizer um fresco – muito obrigado – com aquela entonação infantil, essa criança passou a cumprimentar todos que cruzava, seja no elevador, na portaria, no hall de entrada ou no parquinho, dizendo, com a mesma tônica infantil e angelical, as seguintes palavras:
- boceta boa!?
de início os ouvidos duvidaram, espicharam para se certificar do que estavam escutando; foi o primeiro passo para deflagrar uma boataria pelos elevadores, na alta velocidade que de costume correm os boatos – que é um assunto quase metafísico, se já não houvesse a comparação com o fogo e a pólvora. no nosso caso, é verdade, estão ambos separados, e embora o primeiro corroa, o faz no manto da imagem pública, sem causar estragos imediatos na segunda. mas também é verdade que no nosso caso o fogo se espalhou e atingiu a mãe, que passou de virtuosa às mais impróprias desconfianças que o gênio da imaginação humana pode edificar.
- boceta boa!? dizia a criança para rubor imediato das garotas. no meu caso, não entendendo por completo aquele fenômeno, me contentava em espalmar-lhe a minha mão no cabelo escorrido, dar-lhe um sorriso – o qual decorei com o tempo, repetindo-o sempre – e em pensar meia dúzia de coisas que se revezavam nas conseguintes edições do fenômeno.
passado o mês, a situação começou a ficar insuportável, visto que o tratamento à dupla do décimo primeiro andar beirava o desrespeito; o zelador, inclusive, antes freqüente fornecedor de mandioquinha com açúcar para o pequeno, agora não suportava vê-lo, sabendo que o garoto iria pronunciar a frase, demasiadamente forte para seus modos humildes e cristãos.
por parte da mãe não verifiquei grande reação e, se alguma vez achei vê-la vermelha, outras encontrei nos seu olhos o orgulho dos genitores; e tais reações vinham a meter obstáculos na minha tentativa de entender a situação. eu, que sempre tive a impertinência com um dos filhos do meu caráter, irmã da curiosidade, estive à beira de bater-lhes à porta ou enviar-lhes uma carta, de modo que certa vez cheguei a introduzir o assunto, seguidamente ao “boceta boa”, mas a mãe logo saiu dizendo que no forno estava assando um pernil – e ela tinha que ir.
outro fator de complicação era que a criança não falava absolutamente outra coisa senão o “boceta boa”, assim mesmo, pronunciando a primeira sílaba “bo” com gosto; também não escondia certa satisfação, transmitida naquele sorriso infantil, ao ver alguma reação, que invariavelmente causava, no rosto dos obsequiados. tal fato, aliás, motivou um senhor morador do décimo sexto andar, que ouvi à beira da piscina, a dizer:
- pois sabe, sou psicólogo há mais de trinta anos, e já não tenho dúvidas do que esse garoto tem: é uma disfunção psicoverbal precoce, quero dizer, uma disfunção do mecanismo psicológico que trabalha com os sentimentos ligados ao sexo, e que foi de alguma maneira acelerado e agora se manifesta pela forma verbal.
- ah, sim? disse eu. e como isso acontece?
- ah, há diversas maneiras. podemos ver frequentemente casos em que a família tem grande parte da culpa, seja por incutir diretamente essas idéias na mente da criança, seja, por exemplo, por permitir que ela tenha acesso a programas de televisão, jogos, revistas, a informações impróprias para seu estágio de desenvolvimento psicológico. pode ser, inclusive, motivado por herança genética.
- entendi, pode ser, concordei incrédulo. e, ademais, não me achava um absoluto desentendido da natureza humana por não ter sentido verdade nas palavras do psicólogo. no entanto, devo dizer, estávamos eu e ele errados.
certo dia foi convocada uma assembléia extraordinária do condomínio para debater uma solução para o assunto, a qual não sei como deram um jeito de não deixar saber a mãe, e onde pude ouvir opiniões de todo tipo. um advogado propôs a via judicial, apontando uma grande possibilidade de êxito; já o psicólogo, na linha da conversa à beira da piscina, sugeria um tratamento terapêutico; houve também a proposta de se estabelecer uma via pela qual, e somente pela qual, a criança deveria atravessar a área comum do prédio, no caminho apartamento-rua-apartamento, e creio que essa sugestão foi dada por um engenheiro, ou professor; não, me lembro, era engenheiro.
- senhores, é uma medida paliativa, sim, até que o garoto esqueça essas palavras, que ele vai esquecer. e além disso beneficia a todos, pois não causa mal-estar aos condôminos e poupará a criança de eventuais repreensões que poderá sofrer, pois sabemos que a situação já está para lá de insustentável!
daí seguiu-se um falatório, donde multiplicavam-se as soluções; retalhos de umas eram colados aos retalhos de outras, formando-se as mais diversas saídas e não poucas aberrações. ao final decidiu-se que uma comissão formada pelo psicólogo, o advogado e o engenheiro iria consultar especialistas e buscaria algumas dissoluções ao dilema, que seriam votadas dali a uma semana.
porém, no dia seguinte ao da assembléia extraordinária, veio o zelador comunicar a todos, ou melhor, a cada um com quem ele topasse pelas áreas do prédio, que o problema parecia que ia ter fim, sem que o condomínio precisasse tomar medidas mais drásticas.
- uma senhora doutora subiu agorinha pouco para o cento e onze, disse ele afobado com a novidade.
- mas que doutora?
- não sei não, mas quando ela anunciou o motivo da visita, disse que era um nome que eu bem sei que era de doutora, de médica.
a visita da tal doutora se repetiu diariamente durante a semana, o que fez a comissão anunciar que a assembléia da próxima semana havia sido adiada, ainda sem data definida, até que se verificasse os reais propósitos da tal médica e que, inclusive, poderia ser definitivamente cancelada caso o garoto alterasse seu hábito vexatório.
lendo o comunicado que me foi entregue em mão e cujas palavras eram mais ou menos essas, fiquei imaginando quem o teria redigido e apostaria minhas fichas no advogado, embora eu mesmo nunca o tenha descoberto.
o fato é que o tratamento para com a dupla do cento e onze vinha melhorando, tendo em conta que o filho era todo silêncio, para alívio da comunidade condominial. da minha parte, no entanto, embora tenha acompanhado toda a mobilização e dado ouvido a toda gente do prédio, confesso que preferia o garoto de antes, cujas palavras não me tiravam o sono, apesar de as estranharem meus ouvidos. o sorriso do garotinho era meu bom dia predileto e meu regozijo de pureza e ingenuidade no fim do dia, que valia mais que muitas formas de diversão. agora não, agora ele ia jururu; o cabelo era o mesmo, mas os olhos iam baixos, a boca sem expressão, e comecei a ficar preocupado quando vi seu cadarço desamarrado. devo confessar que nesse dia perdi o sono e não dormi, e se não me deu de escrever sobre um cadarço desamarrado era porque a tristeza ou me roubava a energia ou me poupava de um ato escabroso de transformar o abatimento de uma criança de verdade em meu lazer pessoal.
foi no dia seguinte, sob os efeitos nefastos de uma insônia, que resolvi bater à porta de cento e onze. fui resoluto, e resoluto apertei o onze do elevador, e abri-lhe a porta e resoluto toquei a campainha. a resolução aí é o efeito de quando aquelas duas filhas do meu caráter unem as mãos e saem cantarolando a cantiga da benevolência. o ruído do lado de dentro do apartamento creio que causou algum efeito, fez talvez uma das irmãs, não sei qual, hesitar um instante, mas a outra deu-lhe um tranco pela mão e assim manteve-se em mim a resolução intacta. estava a doutora de saída, que me cumprimentou com a voz tranqüila e afável, gestos calmos e foi-se pelo elevador que já estava ali por minha causa.
a mãe, reticente, convidou-me a entrar. entrei. ela era uma mãe comum, cuidando dos afazeres do apartamento, atenciosa, jovem e bonita com seus trinta e dois anos. então vi o garoto, que, sentado no sofá, lia histórias em quadrinhos sem se dar conta de mim – creio que um almanaque de férias, que aquele era o tempo desses almanaques – e o lia em voz alta e aberta, com certo artificialismo em algumas palavras, certo esforço que não consegui compreender de imediato. ela, percebendo meu estranhamento, disse calmamente:
- ele está fazendo aulas de fonoaudiologia. está treinando a pronúncia das letras e das palavras, principalmente da letra “v”. ele tem um problema que os fonoaudiólogos chamam de mal de espanha, porque troca o som do “v” pelo do “b”.
fiquei eu ali abestalhado, aturdido, envergonhado. um pouco por mim e pela minha cumplicidade, mas mais pelos meus cúmplices, cujas maldades agora se refletiam no meu mecanismo de culpa, de silêncio e de aceitação. confesso que senti pena deles, de mim e do mundo, mas não tive pena da dupla do cento e onze; deles tive orgulho. mas eles, dali a pouco mais de uma semana, estavam de mudança para outra cidade. eu sentia algo de ruim toda vez que entrava no elevador, via o onze do andar, olhava os vizinhos, conversava com o zelador, dentre outras coisas diárias que me faziam lembrar o garoto; era a vergonha da cumplicidade que vinha me dar tapinhas no rosto, repreensiva e zombadora. não pude suportá-la por muito tempo, e quando mais tarde me mudei eu também do prédio, o apartamento cento e onze ainda estava vago.

o cento e onze

terça-feira, 14 de novembro de 2006

Mais diálogos

- mas! devolva-me!
- não seja por isso, está ali.
- olha a tolice, não vejo nada.
- não vê porque me nega.
- então tá; e se lhe aceito?
- não lhe garanto nada de mais, a não ser respostas às perguntas que você fizer, do jeito que você bem entender. o que é uma liberdade e tanto, concorda?
- não sei. você não me devolve e eu não concordo.
- mas você! você está no caminho oposto.
- e por acaso há direção no caminho?
- digamos que a direção é para chegar ao caminho.
- olha, prometo alcançá-la no meio desse caminho, mas agora é sério que preciso do meu tempo.
- veja, se não lhe tiro o chão, a altitude, nem nada, é porque lhe deixo algo.
- por que você quer me ver na miséria?
- muito pelo contrário.
- e eu faria o que sem tudo isso, senhorita einsten?
- como lhe disse, além do sarcasmo, você erra as perguntas.
- me ensine, então.
- não posso, nem consigo. só lhe dou as respostas.
- mas como você tem respostas sem perguntas?
- perguntar não é a minha parte nessa coisa. além disso, justifica eu ter roubado o seu tempo. assim você pode ver que a resposta sempre existiu.
- e a pergunta?

o homem e a quântica

segunda-feira, 13 de novembro de 2006

sábado, 4 de novembro de 2006

manifesto

*
que pior que ansiedade ou nostalgia é sentir nada - é como estar morto sem fenecer.
que fique registrado: o que se quer é viver; morrer jamais. não ao menos enquanto está-se vivo.

quarta-feira, 1 de novembro de 2006

uma história de amor

no início foi o por quê mudo
o por quê solitário do desejo
que desejou outros por quês
por quês de agora e de futuro
por quês de meio, por quês de beijos
por quês de olhares tristes e felizes
por quês medrosos do fim
mas no fim não sobram por quês
porque no fim só existe você

terça-feira, 31 de outubro de 2006

segunda-feira, 30 de outubro de 2006

sexta-feira, 27 de outubro de 2006

opção (fotopoema ou poema fotográfico?)






























fotos e edição: marco e joão pedro

sérietransportese
+
sériemetalinguísticas

quinta-feira, 26 de outubro de 2006

Então é isso? (A notícia* presenciada)

É começo de noite, estou subindo a alameda Campinas e, ao cruzar a Lorena, passa por mim um sujeito correndo. Quem será que ele deve ter assaltado, penso em humor negro e, em seguida, me arrependo levemente do preconceito. Alguns metros à frente vejo um burburinho e, ao me aproximar, um garoto de uns 10 anos está sentado no canteiro de uma árvore. Ele está em choque, não chora, não fala, só tem os olhos arregalados de um susto que permanece nele. Quando perguntam se ele levou um tiro, vejo na sua camiseta branca um buraco grande um pouco abaixo do peito esquerdo, muito sangue, nenhum buraco e nenhum sangue na parte de trás da camiseta, mas muito sangue na bermuda e nas pernas. O garoto olha para o nada, olha para o buraco na camiseta, e volta a olhar para o nada, que é para onde devem olhar os apavorados. Ele tem os braços levemente levantados e as mãos espalmadas no ar, com as palmas voltadas para o buraco; as mãos deviam dizer "what the hell?!" ou "então é isso?!". A mãe, ou uma mulher que estava ao seu lado, responde que sim, ele foi baleado, e talvez seja a única coisa que ela saiba responder naquele momento. O garoto tem a boca levemente aberta, como se aquele buraco mantivesse seu espanto vivo; mas o espanto ficará na memória do garoto, que aos 10 anos saiu de casa, talvez para comprar picolé na padaria, e levou dois tiros, nenhum deles com atirador conhecido. Talvez um passou ao meu lado correndo.
* FSP (25/10/2006) Tiroteio fere garoto na alameda Campinas
Policiais militares trocaram tiros com acusados de roubar um carro na noite de ontem; garoto, de 10 anos, não corre risco de morteDois dos quatro criminosos foram presos; ainda não se sabe se tiros que acertaram a criança partiram das armas dos PMs ou dos ladrões
DO "AGORA"
DA REPORTAGEM LOCAL
Um menino de dez anos levou dois tiros durante um tiroteio entre policiais militares e assaltantes de carro, na noite de ontem, na alameda Campinas, nos Jardins (zona oeste de São Paulo). Ainda não se sabe se os tiros que acertaram o garoto partiram da arma dos policiais ou dos criminosos.O menino Diego foi levado pela PM ao Hospital das Clínicas e não corre risco de morte. As balas lhe atingiram a perna direita e o tórax. Até o fechamento desta edição, médicos avaliavam se ele teria de passar por uma cirurgia.O assalto ocorreu a poucos metros do local do tiroteio, na esquina da alameda Jaú com a avenida Brigadeiro Luís Antônio. Por volta das 19h30, dois homens -um deles armado- abordaram a dona de um Fox e a obrigaram a deixar o veículo. A vítima, que não quis se identificar, disse que, logo depois, pegou um táxi, que passou a perseguir o Fox. No caminho, o táxi cruzou com PMs, e o taxista lhes contou sobre o ocorrido.Segundo a polícia, havia quatro homens no Fox quando o carro foi abordado, e um dos criminosos saiu atirando. Na troca de tiros, Diego, que ia com a mãe para casa, nas proximidades, acabou ferido.Dois dos criminosos, que não estavam armados, foram presos e encaminhados ao 78º DP. Outros dois conseguiram fugir.As armas dos policiais envolvidos no tiroteio serão levadas à perícia, que irá investigar se os tiros que acertaram o garoto partiram delas.Policiais civis do 78º DP não quiseram dar informações sobre o caso. Oficiais da PM presentes no DP também se recusaram a falar.

quarta-feira, 25 de outubro de 2006

culpa


eu não
é o meu nariz que gosta de ser
cutucado











foto: marco

terça-feira, 17 de outubro de 2006

-

mar, venha
-
molhe-me os pés
-
retire meu chão
-
molhe-me o chão
-
retire meus pés





foto: joão pedro

segunda-feira, 16 de outubro de 2006

constelação urbana


sérietransportese

fotos: jõao pedro e marco

terça-feira, 10 de outubro de 2006

Foi publicado na Cult, mas faltou... (Parte 1)

homem de sorte

trouxe do céu seu último sonho
on-line, sem delay
se fez de inteligente
pensou, foi ator e bacharel
porque na vida a gente é assim
pensa, reflete, imita que sente
até mente um não-sei de quem duvida
mas sabe
que há morte onde há guerra
mas luta
que tem sorte quem se assanha
mas reza
que a dor do amor consome
mas ama
que fast-food é medonho
mas come
que imaginação é hollywood
mas sonha

sexta-feira, 29 de setembro de 2006

o aviso

havia uma proteção de metal isolando os dois homens à beira do bueiro, provavelmente auxiliando alguém ali embaixo. eles pareciam um tanto desnorteados e olhavam para o buraco com cara de preocupação. deviam trabalhar, deviam não, trabalhavam para a nova concessionária de telefone da cidade. ao menos era o que dizia a frase no furgão estacionado logo antes do bueiro onde eles estavam: teleterra, seu novo telefone chegou. enfim, era dia de calor forte, de suar às bicas. a rua tinha um trânsito intenso, algumas pessoas passavam pela calçada quase interditada pela obra. os homens ali, se entreolhando, conferindo o colega lá embaixo e comentando a situação. o porteiro do prédio que dava de frente para o acontecido já havia se achegado e demonstrava preocupação: os homens falavam que havia perigo de explosão. explosão! pensou o porteiro. é melhor eu avisar o seu andré. porém resolveu ficar um pouco e saber mais sobre o que se passava. o homem que estava ali embaixo, na instalação dos equipamentos novos, acertou por acidente uma tubulação de gás de cozinha; começou a vazar. verdade que era pequeno o vazamento, mas também que era gás. os homens acharam um jeito de remendar o cano, o que entretanto não duraria muito. estavam ali, preocupados, e sem fazer muito para resolver o problema. o porteiro, demonstrando ser o mais aflito e preocupado de todos, não demorou a chamar os bombeiros. esqueceu o seu andré e, consultando uma lista telefônica que alguém não havia pego na portaria ainda, ligou também para a companhia de gás. da portaria achou que estava mais seguro e foi onde resolveu ficar até os bombeiros chegarem. vieram rápido, naquela região não há muita chamada e eles quase sempre não têm muito trabalho. viram a situação e acharam prudente interditar a rua; logo veio a companhia de tráfego para cuidar da situação. a caminhoneta da concessionária de gás demorou ainda um bocado para chegar, depois de muito os bombeiros terem visto que nada poderiam fazer, só mesmo a companhia de gás para resolver. ali os dois técnicos da companhia de gás fizeram uma "prospecção do incidente" e concluíram que, realmente, o cano deveria ser reparado urgentemente, mas para isso teriam que quebrar outros canos, o da água e o da tv a cabo. o porteiro do prédio, ainda protegido na sua guarita, mas com os olhos e os ouvidos no que já era uma pequena multidão em frente à garagem do prédio, resolveu ligar para o pessoal da tv a cabo. já o pessoal do departamento de água chegou sem o porteiro saber quem chamou, e foi logo antes dos da tv a cabo, que também oferecia serviços de internet. ocorre que havia uma certa rixa entre a empresa de telefonia e a de tv a cabo, inclusive dos times de futebol dos seus funcionários, afinal ambas ofereciam acesso à internet e vinham brigando ferrenhamente pelos clientes, novos ou da concorrente. reconhecidos os funcionário da tv a cabo, os da telefonia começaram a insinuar que eles não tinham o que fazer. e os da tv, tomando conhecimento que foram os do telefone que iniciaram toda aquela confusão, começaram a formular piadinhas indiretas, que foram se transformando em algo muito próximos a agressões verbais. daí para um empurra-empurra foi pouco mais que um minuto. assustado, o porteiro do prédio resolveu chamar a polícia, porque aqueles técnicos brigando ali, com todas aquelas ferramentas, e um cano de gás prestes a explodir, não poderia dar boa coisa. enquanto não chegava a guarda policial, subiu do bueiro um técnico, que pareceu ser do departamento de água, dizendo que seria algo grande, mas que poderia ser resolvido; e que deveria ser chamado o pessoal do departamento de esgoto. após um protesto tímido, questionando se esgoto e água não eram a mesma coisa, todos cercaram o pobre técnico, que, com a ajuda do outro, tentavam explicar que eles não podiam mexer com esgoto, nossa responsabilidade é com água! bradavam convictos. esgoto é outra coisa, não tem nada a ver! chegaram então os polícias e, vendo aquela confusão de amontoado de técnicos e fardas, foram esbarrando e abrindo caminho em direção ao centro do grupo. no centro do grupo, no entanto, além dos técnicos da água, estava o bueiro aberto. foi onde caiu o primeiro policial, que quase levou o segundo; saldo: dois feridos. o polícia que caiu quebrou o pé e sofreu muitos arranhões. o que ficou se deu pior, pois ao ser puxado pelo que caía, foi com o braço dentro do bueiro, e a cabeça ficou para fora. ou seja, ficou desmaiado, escorrendo sangue pela cabeça. vendo o ocorrido, os bombeiros pediram que abrissem, que dessem espaço. eles não eram os bombeiros treinados para resgate de feridos, mas providenciaram os primeiros socorros e resolveram chamar uma ambulância do hospital dos servidores públicos. o problema foi que o hospital era dos servidores municipais, e não podiam prestar serviço para servidores estaduais, como eram os policiais. então chamaram a ambulância dos servidores estaduais. claro que, nesse meio tempo, os dois policiais estavam já acomodados na calçada, onde havia uma pequena sombra, e o pé quebrado até falava no celular com a mulher sobre as férias que iam tirar quando ele pegasse sua licença. o outro seguia desmaiado. chegou uma ambulância, que foi insuficiente pois só suportava um ferido. então chamaram outra, não se soube quem, nem se soube de que servidor, mas que levou o outro policial para algum lugar que não se soube onde. também não se soube da onde chegou um fiscal da sub-prefeitura, que queria informações acerca da obra que estaria sendo realizada ali, e de outro fiscal, o da prefeitura, que também queria informações, mas mais precisamente o alvará. que alvará? perguntou alguém. oras, o alvará! exclamou o impaciente fiscal da prefeitura, que foi imediatamente apoiado pelo da sub-prefeitura. depois de un cinco minutos de discussões, teses e acertos, chegou um advogado com um estagiário, que foram conversando com todos por ali. diziam que iam "impetrar um mandado de segurança com pedido de liminar para garantir a realização da obra". essa possibilidade, é certo, causou certo alvoroço em todos, com exceção dos dois fiscais, que, percebendo estarem em esmagadora minoria, acharam por bem chamar também a guarda civil metropolitana para protegê-los de eventuais agressões. o da prefeitura parece que também chamou um procurador do município, para que ele esclarecesse as questões jurídicas que os advogados haviam mencionado. o da sub-prefeitura, não se sabe, mas pode ter sido ele quem chamou o sub-prefeito em pessoa, que aproveitou a ocasião para fazer sua campanha para prefeito; as eleições seriam para dali a dois meses. quase simultaneamente à chegada do sub-prefeito com alguns correligionários, bandeirinhas e santinhos, se instalou ali uma barraquinha humilde, de madeira e painéis de plástico, vendendo tapioca, passes de ônibus e pilhas alcalinas, e outro que trazia uma caixa de isopor remendada com fita marrom e vendia suco de laranja em garrafa, refrigerantes em geral, água e cerveja. aquele sol quente fez seus preços aumentarem, assim como seus lucros, e a fome dos que ali estavam há algumas horas, fez o da tapioca mandar buscar mais polvilho. formou-se uma pequena fila, com senhas distribuídas, para comprar os alimentos e as bebidas, e como a fila era a mesma para ambos, houve muita reclamação de quem queria comprar só bebida, ou só comida. mas a fila seguiu. outra se formava, para desespero dos agentes da companhia de tráfego. a rua já estava interditada há algum tempo, em ambas as esquinas do quarteirão, mas os moradores dos prédios daquele trecho insistiam em ultrapassar as barreiras da companhia e tentar alcançar as respectivas garagens, buzinando para abrir caminho pela multidão. a situação piorou um pouco quando um morador, que vinha dirigindo um carro antigo, de coleção, parece que acelerou demais e, com o calor, fundiu o motor; a fumaça causou um princípio de confusão, mas logo estavam todos esclarecidos. o porteiro do prédio estava tratando de escrever em pequenos pedaços de papéis, com a sua letra de quase-analfabeto, as razões do inconveniente daquele dia, para distribuir para os moradores; já tinha visto o seu andré fazer isso algumas vezes, quando o elevador parava ou quando trocaram o motor do portão da garagem. ele estava com o olhar perdido, sentado na sua guarita, imaginando o que escreveria, quando viu a fumaceira do carro. e tendo sido mecânico em uma oficina antes de virar porteiro, resolveu telefonar para o seu ex-patrão. ô senhor! tem um serviço aqui na minha rua, manda o pessoal aqui. dez minutos depois chegaram três guinchos para socorrer o automóvel, mas demoraram mais de meia hora para resolverem quem iria realmente prestar o serviço e outra para o escolhido conseguir chegar ao automóvel fundido. as ruas que davam para rua do prédio já estavam congestionadas e os agentes da companhia de tráfego tiveram que chamar reforço e estudavam interditar um raio de dois quarteirões do incidente. foi quando voltou o advogado dizendo que conseguiu despachar com o juiz e que em poucos minutos chegaria o oficial de justiça com o ofício. logo ele se reuniu com o procurador do município num canto, o mesmo que os policias haviam sido acomodados, para conversarem sobre o caso, trocaram cartão, identificaram conhecidos em comum e o advogado chegou até a propor uma sociedade, a que o procurador respondeu dizendo que teria muito o que pensar. não se sabe como os repórteres demoraram tanto a chegar. esses jornais sensacionalistas ficam de prontidão para os acontecimentos de menor importância, que no final eles conseguem tornar em algo realmente grande. aqui não era o caso; o ocorrido tomara tamanho por si só. na transmissão ao vivo, estilo partida de futebol, o repórter logo partiu para entrevistar o porteiro. o senhor pode nos contar o que aconteceu? sim, senhor. aconteceu que a dona ivete do 62 assinou esse serviço novo aí de telefone, como se precisasse falar com alguém. o marido dela já foi embora faz tempo e a gente aqui do prédio sabe que ela não ocupa de jeito nenhum o telefone, esperando o homem ligar. aí apareceram uns homens para colocar esse novo telefone para a dona ivete e deu nisso tudo. o repórter se deu por satisfeito e passou a palavra para os estúdios, justamente quando chegou o oficial de justiça para dar ciência da liminar ao fiscal da prefeitura. esse, por sua vez, liberou a obra no bueiro. foi alívio geral. o povo comemorou, alguns até ensaiaram uns aplausos e gritos de justiça seja feita, algum buzinaço inclusive. o clima amistoso havia contaminado quase todos; o porteiro é que não estava lá dos mais contentes. a garagem continuava bloqueada, o prédio sem gás, água ou esgoto. o telefone também há muito estava mudo; para chamar alguém só com interfone ou celular. e o pior de tudo, ainda não sabia o que escrever no papel para distribuir e afixar no elevador. caminhou com cara de intrigado e os olhos fincados na ponta do nariz que apontava ali para o burburinho; esperando que alguém lhe explicasse o clima de comemoração, jogou para o alto um e aí, quê vocês resolveram? alguns olharam com cara de desentendido ou desinformado, também se perguntando a mesma coisa, mas a maioria mesmo preferiu não dar ouvidos. ele voltou para a portaria e resolveu escrever o aviso.

texto: joão pedro e marco
fotos: joão pedro