sexta-feira, 10 de agosto de 2007
QuoMércio - Bolhinhas Anti-Estresse QSEDQ®
Não se estresse mais no trânsito! Não destrua suas unhas! Pare de ficar buzinando, xingando e perdendo preciosos anos de vida! Chegou o mais novo produto reciclado do QSEDQ: As bolhinhas anti-estresse! Por apenas 1 real por metro você garantirá sua tranquilidade nas horas do rush descontando todo seu nervosismo nas bolhinhas. É fácil, barato e sem efeitos colaterais.
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Não perca tempo nem mais cabelos, entre em contato com o departamento comercial do QSEDQ e adquira seu estoque de tranquilidade com as Bolhinhas QSEDQ®.
quarta-feira, 8 de agosto de 2007
ATENÇÃO - PódiArroz Nº 0
É com muita ignorância que apresentamos a edição número zero do video-podcast do QSEDQ: o PódiArroz!
E nesta edição falamos sobre:
- O que fazer quando não se está trabalhando? (00:00)
- "Terra Estrangeira" (Walter Salles) (00:50)
- O "Minhocão" (03:31)
- Silêncio (com fundo musical de Caetano Veloso) (04:47)
- Voltando a "Terra Estrangeira" (05:12)
- Brasileiros lá fora (05:53)
- Fim (06:22)
Só isso.
E nesta edição falamos sobre:
- O que fazer quando não se está trabalhando? (00:00)
- "Terra Estrangeira" (Walter Salles) (00:50)
- O "Minhocão" (03:31)
- Silêncio (com fundo musical de Caetano Veloso) (04:47)
- Voltando a "Terra Estrangeira" (05:12)
- Brasileiros lá fora (05:53)
- Fim (06:22)
Só isso.
terça-feira, 7 de agosto de 2007
quinta-feira, 2 de agosto de 2007
Chave, portão e pasto.
Era o fim da tarde e eu estava saindo de casa para comer uma mexerica no quintal. E por ser uma tarde de inverno, no meu quintal rodeado pelas montanhas do vale do sul não batia sol. Na pequena faixa de concreto no piso da frente da casa é onde batia o tal do sol de fim de uma tarde de inverno. Meus olhos se recolheram no vão entre as casas e muros onde se projetavam o restante da vargem e as colinas do oeste, tudo já naquela escuridão ofuscante, para depois se dirigirem à brilhante mexerica laranja nas minhas mãos. Não havia sentido não dar uma volta pelo menos até o pasto dos fins da rua – uma caminhada de cinquenta metros de ida. O frio me levava ao sol; a própria logística do se comer uma mexerica!: adubaria a natureza com a casca e o bagaço (é que ultimamente não tenho comido o bagaço), além das sementes que poderiam germinar uma nova árvore – frutífera! – naquele pasto. Para tanto eu deveria voltar para casa e pegar a chave do portão; eu estava disposto a fazer isso mas não estava disposto a esperar para comer despretensiosamente minha única mexerica. Assim, adubei primeiro meu quintal, enquanto voltava já com a chave na mão. Naturalmente abri o cadeado (com todo procedimento regular), forcei um pouco mais que de costume o ferrolho sempre emperrado (mais – porque não costumo chegar ou sair e casa com mexericas na mão) e ganhei a rua e o sol livre esquecendo – propositadamente, embora desconhecesse meus propósitos com aquilo – o portão de grade aberto; é que, na verdade, tudo na frente era uma grade (e naquele momento) (uma frente que ficava para trás)(na sombra)(minha). Ainda na rua, antes de chegar ao pasto, despejei minha sobra orgânica (que de outro modo seria lixo) no meio-fio e parei um pouco passado de dois pedreiros que construíam uma casa num terreno onde todos os muros com exceção do frontal já haviam sido construídos – pelo mesmo “mestre”, como fui saber adiante. Dali para frente começava o pasto a margear a rua pelos dois lados, o sol me atingia na posição de duas horas, bem em cheio na mão que transportava os gomos da outra à boca e o meu resto orgânico para a direção decidida (e não vou entrar no mérito dessa decisão). Virei para esse lado uma meia volta e iniciei uma conversa com o pedreiro que trabalhava o cimento num canto da rua. Conversamos sobre o dono da casa e sua família, depois falamos sobre o que cada um fazia da vida, e por fim sobre a própria vida: a importância do dinheiro, as escolhas que a compõem. Essa conversa, claro, durou mais que o tempo de comer uma mexerica, durou até acontecer d’ele comentar que estava com pressa porque ainda tinha que pegar a filha na escola e eu, que antes desse comentário havia dito algo sobre a segurança que tive ao viver naquele rua, observar meu portão aberto e me despedir prometendo recomendá-lo a um pequeno empreiteiro conhecido meu. Caminhei de volta, já sem nada para dificultar a abertura do portão por estar ocupando minha mão (embora, sim, o portão já estivesse aberto), já sem ofuscar meus olhos que miram minha sombra, as mãos fechando o portão, o sol poente intercalado pelas sombras verticais da grade e minha própria sombra se unindo à sombra da casa.
terça-feira, 31 de julho de 2007
segunda-feira, 30 de julho de 2007
A serendipidade literária
Qual o critério para se optar por algum livro? No meu caso, grande parte das leituras não segue uma ordem pré-estabelecida: decido ler determinado livro por uma razão diferente da que me levou aos anteriores. Não sei se o mesmo acontece com todos os leitores, mas comigo, a despeito dessa aleatoriedade, por algum caminho inconsciente os livros acabam sempre se relacionando. Três deles, lidos em seguida, dão um exemplo disso.
“Os Cus de Judas”, livro do premiado António Lobo Antunes, trata da experiência do personagem-narrador na guerra de Angola. Uma matéria na revista “Língua Portuguesa” (link para assinantes UOL ou da revista) me despertou o interesse na história, ao defini-la como um “anti-épico”. Ou seja, o narrador, um médico português servindo na África, se põe implicitamente como um antagonista do velho Camões. A guerra o faz enxergar (e narrar) as coisas patéticas intrincadas no dia-a-dia e no passado do português; a arquitetura, os hábitos, os anseios: todos os ingredientes que formam o sentimento de sociedade lhe surgem como premissas de reflexão. E tudo isso, se por um lado vai lhe despertar a nostalgia do sossego provinciano de Lisboa diante da confusão e violência da campanha africana, por outro o fere e incomoda; se une ao absurdo da guerra como uma mancha no seu sangue lusitano. Lobo Antunes, portanto, transpõe o conflito angolano para outras dimensões: em primeiro lugar, para as atitudes do país ao qual pertence, ratificada por seus cidadãos (afinal, Salazar venceu como o maior português da história... ); em segundo, a própria luta individual gerada pelos sentimentos nacionalistas e saudosistas contra as decepções e as incapacidades que lhe vão sendo estampadas pela vida conforme se constrói a inevitável solidão (caindo num estilo Campos de Carvalho, como no trecho abaixo). Se, como o médico convocado, deixa o país para ir à distante África e retorna depois de muito tempo, seus sentimentos também realizam o mesmo movimento. Deixam o âmbito familiar acolhedor, quase sufocante, para cair no imenso vazio de Angola e se deparar com a morte, o sofrimento e relações humanas paradoxalmente superficiais. De volta à Portugal, vive sozinho, tendo relações igualmente superficiais com mulheres transitórias; quer a família, aquela de hábitos tão conservadores e ridículos. Espera ela de volta como quem deseja reencontrar a velha pátria imaginada, o antigo casamento feliz, tudo o que foi desmascarado pela realidade de um conflito.
***
Depois, li “Os Sertões” (“A Luta”), do Euclides da Cunha, cujas apresentações seriam dispensáveis. Só li agora pois, ao estudar um pouco da literatura brasileira num desses volumes didáticos, me deparei com um trecho tocante descrevendo a suposta rendição dos sertanejos na tal guerra de Canudos (ver trecho abaixo). O que posso dizer? Vale o adjetivo de monumento. O livro fala da campanha republicana contra a “cidadela” do Conselheiro, por ele chamada de “Belo Monte”, com o rigor de um jornalista com experiência na carreira militar. E a sensibilidade de um escritor. Ao mesmo tempo em que descreve e analisa com precisão técnica os movimentos (errados na maioria) do exército brasileiro e a geografia do “palco de ação”, não deixa de lado os diálogos travados nas linhas de combate, os sentimentos dos homens diante das diversas situações apresentadas pela batalha e o imenso disparate que era aquilo tudo. A narração não busca filosofias; o autor não deseja transformá-la na sua visão pessoal do acontecimento. Como esclarece na introdução, quer ser o narrador sincero da História, denunciando ao mundo o crime que ali se cometera. Até onde isso for possível, parece alcançar seu objetivo. É espantoso como consegue manter austeridade enquanto disserta, por exemplo, sobre “a psicologia do soldado”: busca todos os detalhes possíveis para que o leitor tenha a mais completa idéia do que ocorreu. Está certo de que os fatos por si só são suficientes para deixar indubitável a insensatez de se combater o fanatismo do sertanejo, miserável que é, trucidando milhares deles em nome do fanatismo à recém criada República. Euclides parece dizer ao leitor de hoje que há muito tempo o Brasil trata o erro dos desamparados com o erro dos “doutores”: não inclui, combate; derruba e não os ajuda a levantar.
***
***
***
“Os Cus de Judas”, p. 148-149:
“(...) Não, a sério, a felicidade, esse estado difuso resultante da impossível convergência de paralelas de uma digestão sem azia com o egoísmo satisfeito e sem remorsos, continua a parecer-me, a mim, que pertenço à dolorosa classe dos inquietos tristes, eternamente à espera de uma explosão ou de um milagre, qualquer coisa de tão abstracto e estranho como a inocência, a justiça, a honra, conceitos grandiloquentes, profundos e afinal vazios que a família, a escola, a catequese e o Estado me haviam solenemente impingido para melhor me domarem, para extinguirem, se assim me posso exprimir, no ovo, os meus desejos de protesto e de revolta. O que os outros exigem de nós, entende, é que os não ponhamos em causa, não sacudamos as suas vidas miniaturas calafetadas contra o desespero e a esperança, não quebremos os seus aquários de peixes surdos a flutuarem na água limosa do dia-a-dia, aclarada de viés pela lâmpada sonolenta do que chamamos virtude e que consiste apenas, se observada de perto, na ausência morna de ambições.
“Quer um uísque? (...)”
“Os Sertões”, p. 263 (versão eletrônica baixada da Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro):
“(...) Uma megera assustadora, bruxa rebarbativa e magra – a velha mais hedionda talvez destes sertões – a única que alevantava a cabeça espalhando sobre os espectadores, como faúlhas, olhares ameaçadores; e nervosa e agitante, ágil apesar da idade, tendo sobre as espáduas de todo despidas, emaranhados, os cabelos brancos e cheios de terra – rompia, em andar sacudido, pelos grupos miserandos, atraindo a atenção geral. Tinha nos braços finos uma menina, neta, bisneta, tataraneta talvez. E essa criança horrorizava. A sua face esquerda fora arrancada, havia tempos, por um estilhaço de granada; de sorte que os ossos dos maxilares se destacavam alvíssimos, entre os bordos vermelhos da ferida já cicatrizada... A face direita sorria. E era apavorante aquele riso incompleto e dolorosíssimo aformoseando uma face e extinguindo-se repentinamente na outra, no vácuo de um gilvaz.
“Aquela velha carregava a criação mais monstruosa da campanha. Lá se foi com o seu andar agitante, de atáxica, seguindo a extensa fila de infelizes... (...)”
“A Cavalaria Vermelha”, p. 76:
“(...) O Cavalo do chefão era mesmo uma beleza, mas parecia estafado. Então o Pan general alveja-me com a sua Mauser e faz um buraco em minha perna.
“- Está bem – pensei – vou fazê-lo espernear aqui mesmo.
“Assim, trato de agir e cravo duas balas no cavalinho. Tive pena do garanhão. Era um pequeno bolchevista, aquele garanhão, castanho, luzente como uma moeda de cobre, com uma bonita cauda e jarretes que pareciam cordas. Eu tinha pensado: Vou levá-lo vivo para Lênin. Mas tal não aconteceu, matei o cavalo, que caiu de costas, como uma recém-casada, e o general caiu da sela. Pulou de lado e atirou novamente. Assim, agora eu me distinguiria três vezes na ação.
“- Jesus – pensei – ele pode matar-me por engano.
“Galopei em sua direção, e ele já tirara a espada. As lágrimas escorriam-lhe no rosto, lágrimas brancas, verdadeiro leite humano.
“- Por sua causa vou ganhar a Ordem da Bandeira Vermelha – grito. – Mãos ao alto, estou vivo, excelência. (...)”
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“Os Cus de Judas”, livro do premiado António Lobo Antunes, trata da experiência do personagem-narrador na guerra de Angola. Uma matéria na revista “Língua Portuguesa” (link para assinantes UOL ou da revista) me despertou o interesse na história, ao defini-la como um “anti-épico”. Ou seja, o narrador, um médico português servindo na África, se põe implicitamente como um antagonista do velho Camões. A guerra o faz enxergar (e narrar) as coisas patéticas intrincadas no dia-a-dia e no passado do português; a arquitetura, os hábitos, os anseios: todos os ingredientes que formam o sentimento de sociedade lhe surgem como premissas de reflexão. E tudo isso, se por um lado vai lhe despertar a nostalgia do sossego provinciano de Lisboa diante da confusão e violência da campanha africana, por outro o fere e incomoda; se une ao absurdo da guerra como uma mancha no seu sangue lusitano. Lobo Antunes, portanto, transpõe o conflito angolano para outras dimensões: em primeiro lugar, para as atitudes do país ao qual pertence, ratificada por seus cidadãos (afinal, Salazar venceu como o maior português da história... ); em segundo, a própria luta individual gerada pelos sentimentos nacionalistas e saudosistas contra as decepções e as incapacidades que lhe vão sendo estampadas pela vida conforme se constrói a inevitável solidão (caindo num estilo Campos de Carvalho, como no trecho abaixo). Se, como o médico convocado, deixa o país para ir à distante África e retorna depois de muito tempo, seus sentimentos também realizam o mesmo movimento. Deixam o âmbito familiar acolhedor, quase sufocante, para cair no imenso vazio de Angola e se deparar com a morte, o sofrimento e relações humanas paradoxalmente superficiais. De volta à Portugal, vive sozinho, tendo relações igualmente superficiais com mulheres transitórias; quer a família, aquela de hábitos tão conservadores e ridículos. Espera ela de volta como quem deseja reencontrar a velha pátria imaginada, o antigo casamento feliz, tudo o que foi desmascarado pela realidade de um conflito.
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Depois, li “Os Sertões” (“A Luta”), do Euclides da Cunha, cujas apresentações seriam dispensáveis. Só li agora pois, ao estudar um pouco da literatura brasileira num desses volumes didáticos, me deparei com um trecho tocante descrevendo a suposta rendição dos sertanejos na tal guerra de Canudos (ver trecho abaixo). O que posso dizer? Vale o adjetivo de monumento. O livro fala da campanha republicana contra a “cidadela” do Conselheiro, por ele chamada de “Belo Monte”, com o rigor de um jornalista com experiência na carreira militar. E a sensibilidade de um escritor. Ao mesmo tempo em que descreve e analisa com precisão técnica os movimentos (errados na maioria) do exército brasileiro e a geografia do “palco de ação”, não deixa de lado os diálogos travados nas linhas de combate, os sentimentos dos homens diante das diversas situações apresentadas pela batalha e o imenso disparate que era aquilo tudo. A narração não busca filosofias; o autor não deseja transformá-la na sua visão pessoal do acontecimento. Como esclarece na introdução, quer ser o narrador sincero da História, denunciando ao mundo o crime que ali se cometera. Até onde isso for possível, parece alcançar seu objetivo. É espantoso como consegue manter austeridade enquanto disserta, por exemplo, sobre “a psicologia do soldado”: busca todos os detalhes possíveis para que o leitor tenha a mais completa idéia do que ocorreu. Está certo de que os fatos por si só são suficientes para deixar indubitável a insensatez de se combater o fanatismo do sertanejo, miserável que é, trucidando milhares deles em nome do fanatismo à recém criada República. Euclides parece dizer ao leitor de hoje que há muito tempo o Brasil trata o erro dos desamparados com o erro dos “doutores”: não inclui, combate; derruba e não os ajuda a levantar.
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Em seguida, “A Cavalaria Vermelha”, do russo Isaac Babel, reunindo contos baseados na época em que o autor lutou a campanha russo-polonesa de 1920. O título, com a nova tradução publicada recentemente pela Cosacnaif na coleção “Prosas do Mundo”, diretamente do russo para o português, virou “O Exército Vermelho”; a minha pobre versão ensebada tem lá suas origens no final da década de 1960, publicada pela editora Civilização Brasileira. Encontrei-a num sebo em São Paulo depois de sofrer uma tragicômica chuva de livros ao tentar tirar, de uma pilha enorme e mal equilibrada, um título do Garcia Márquez. Naquele monte esparramado no chão, lá estava. O preço me resignou em não ter a nova tradução, por ora. Sobre ele? Há muito lugar comum ao falar sobre o livro e eu não vou fugir deles aqui. O que mais espanta é a capacidade do autor em narrar a luta – travada, o que é pior, entre os sanguinários cossacos – com um estilo naturalmente lírico. A morte se iguala ao aparecer de uma estrela no céu. Os piores momentos são campos de trigo e cevada iluminados pela aurora. Parece que, no fundo, Babel faz da guerra um simbolismo qualquer. Ele, um jovem judeu intelectual em busca das provações capazes de transformá-lo em adulto, só deseja ser capaz de matar um homem. É como um adolescente virgem em busca da sua primeira vez, uma menina atrás de seu príncipe encantado, a dona-de-casa diante do bolo queimado no forno. O perigo real da morte vem por meio de uma narrativa cômica, atributo inevitável diante da mistura entre morte, violência, lirismo e humor (como no trecho abaixo).
***
Todos os três, portanto, falam explicitamente da guerra. Talvez eu devesse me alistar, se ainda é tempo, mas não creio seja esse o caso. Por sobre as profundezas do meu inconsciente, garanto, é tudo uma coincidência. Coincidem, aliás, num ponto interessante: extraem do non-sense da guerra o burlesco. Em geral, sentem alguma necessidade de atenuar o horror com o humor (perdão pela rima), muitas vezes entrincheirado, camuflado, um humor soldado disparando contra seus leitores.
***
TRECHOS
“Os Cus de Judas”, p. 148-149:
“(...) Não, a sério, a felicidade, esse estado difuso resultante da impossível convergência de paralelas de uma digestão sem azia com o egoísmo satisfeito e sem remorsos, continua a parecer-me, a mim, que pertenço à dolorosa classe dos inquietos tristes, eternamente à espera de uma explosão ou de um milagre, qualquer coisa de tão abstracto e estranho como a inocência, a justiça, a honra, conceitos grandiloquentes, profundos e afinal vazios que a família, a escola, a catequese e o Estado me haviam solenemente impingido para melhor me domarem, para extinguirem, se assim me posso exprimir, no ovo, os meus desejos de protesto e de revolta. O que os outros exigem de nós, entende, é que os não ponhamos em causa, não sacudamos as suas vidas miniaturas calafetadas contra o desespero e a esperança, não quebremos os seus aquários de peixes surdos a flutuarem na água limosa do dia-a-dia, aclarada de viés pela lâmpada sonolenta do que chamamos virtude e que consiste apenas, se observada de perto, na ausência morna de ambições.
“Quer um uísque? (...)”
“Os Sertões”, p. 263 (versão eletrônica baixada da Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro):
“(...) Uma megera assustadora, bruxa rebarbativa e magra – a velha mais hedionda talvez destes sertões – a única que alevantava a cabeça espalhando sobre os espectadores, como faúlhas, olhares ameaçadores; e nervosa e agitante, ágil apesar da idade, tendo sobre as espáduas de todo despidas, emaranhados, os cabelos brancos e cheios de terra – rompia, em andar sacudido, pelos grupos miserandos, atraindo a atenção geral. Tinha nos braços finos uma menina, neta, bisneta, tataraneta talvez. E essa criança horrorizava. A sua face esquerda fora arrancada, havia tempos, por um estilhaço de granada; de sorte que os ossos dos maxilares se destacavam alvíssimos, entre os bordos vermelhos da ferida já cicatrizada... A face direita sorria. E era apavorante aquele riso incompleto e dolorosíssimo aformoseando uma face e extinguindo-se repentinamente na outra, no vácuo de um gilvaz.
“Aquela velha carregava a criação mais monstruosa da campanha. Lá se foi com o seu andar agitante, de atáxica, seguindo a extensa fila de infelizes... (...)”
“A Cavalaria Vermelha”, p. 76:
“(...) O Cavalo do chefão era mesmo uma beleza, mas parecia estafado. Então o Pan general alveja-me com a sua Mauser e faz um buraco em minha perna.
“- Está bem – pensei – vou fazê-lo espernear aqui mesmo.
“Assim, trato de agir e cravo duas balas no cavalinho. Tive pena do garanhão. Era um pequeno bolchevista, aquele garanhão, castanho, luzente como uma moeda de cobre, com uma bonita cauda e jarretes que pareciam cordas. Eu tinha pensado: Vou levá-lo vivo para Lênin. Mas tal não aconteceu, matei o cavalo, que caiu de costas, como uma recém-casada, e o general caiu da sela. Pulou de lado e atirou novamente. Assim, agora eu me distinguiria três vezes na ação.
“- Jesus – pensei – ele pode matar-me por engano.
“Galopei em sua direção, e ele já tirara a espada. As lágrimas escorriam-lhe no rosto, lágrimas brancas, verdadeiro leite humano.
“- Por sua causa vou ganhar a Ordem da Bandeira Vermelha – grito. – Mãos ao alto, estou vivo, excelência. (...)”
sábado, 28 de julho de 2007
quarta-feira, 25 de julho de 2007
Caraminguás
"O Diário [Carioca] pagou os caraminguás devidos por duas colaborações: "Canção oculta", de 28.XII.1952, e "Para esquecer", de 8.III.53. Por sinal que anda agora mais generoso, e elevou de 300 a 500 cruzeiros a tarifa de poesia. Em consequência do que, mando-lhe hoje pelo Banco Financial a importância de 800 cruzeiros. Quanto aos poemas anteriores, o pagamento deve ser feito por intermédio de um redator que até novembro do ano passado cuidava do suplemento. Não o procurei, porque será mais prático indicar-lhe a data de publicação dos dois trabalhos, e só tenho a do soneto "Abril" (29.VI.1952); quando saiu o "Retorno de Pasárgada"? (Já vê você que eu recorto todos os seus poemas e os guardo; ponho mesmo as datas respectivas, mas no "Retorno" me esqueci disso). (...) Nunca publique nada de graça, porque é um desaforo: jornais e revistas são empresas mercantis, e se aproveitam do nosso trabalho. Além disso, muitos escritores pobres necessitam desses adminículos (como dizia o nosso caro Arduíno), e se não cobrarmos pelo que publicamos eles terão dificuldade em fazê-lo. Não haverá nisso mercantilização da inteligência e muito menos da poesia, porque o ato da criação literária não ficará afetado. E ganhe seus cobrinhos suplementares, que não são de todo despiciendos nesta era de arroz vendido nas joalherias."
Carta de Carlos Drummond de Andrade a Abgar Renault. Excerto publicado no Suplemento mineiro de junho.
Carta de Carlos Drummond de Andrade a Abgar Renault. Excerto publicado no Suplemento mineiro de junho.
Qualquer dia
Estranha essa coisa de “isso poderia ter acontecido qualquer dia” (ou na versão sic: “isso podia ter acontecido qualquer dia”). Você está saindo de carro; no dia anterior seu seguro venceu. A primeira coisa que você irá fazer é renovar o seguro (e quanto a isso você nunca teve qualquer dúvida). Você, saindo da garagem, entra de ré num carro que está passando; ou, na versão diet: num motoqueiro maluco; na versão light: num ciclista que vinha na contramão; e, na versão zero: um flanelinha correndo para extorquir outro motorista (embora donzelas-culpadas sempre busquem esses tipos para os defenderem do mundo cruel – ao qual pertencem - afirmando que o atropelado já é flanelinha ali há mais de dez anos, bem antes d’eu pensar em frequentar aquela rua, que ele, enfim, já é quase da família). Enfim: você mete a bunda do seu carro em alguém no único dia em que ele ficou sem seguro em toda sua vida pós-montadora e, provavelmente, também o último dia de toda vida pré-desmanche. Era, portanto, o único dia em que exatamente isso poderia acontecer: como, então, “isso poderia ter acontecido qualquer dia”?
Fato noti-ocioso
Da redação
Segundo registro da mais nova ferramenta tecno-informativa instalada neste ignorativo (clustr-map), fomos acessados por algum brasuca que fazia a travessia da fronteira mexico-norte-americana, em busca do eldorado americano. Imaginamos que o leitor - embora não haja muito o que ler aqui ultimamente - distraía-se no meio do deserto mexicano à espera de uma brecha para passar despercebido pelos guardas estado-unidenses.
Desejamos sorte ao corajoso compatriota na terra das batatas-fritas (são francesas ou americanas, afinal?) Oxalá você faça fortuna, amigo (amigo em espanhol mesmo)! Essa opção de deixar este país se faz cada vez mais forte e tentadora, principalmente com esses últimos atentados no país. Mas olha que há quem diga por aí que o Brasil virou país de primeiro mundo, pois até 11/09 à la tupiniquim nós arrumamos. A conclusão é de cada um, conforme a coragem (a saber se é mais corajoso o que fica ou o que se vai). ¡Suerte! A todos.
Segundo registro da mais nova ferramenta tecno-informativa instalada neste ignorativo (clustr-map), fomos acessados por algum brasuca que fazia a travessia da fronteira mexico-norte-americana, em busca do eldorado americano. Imaginamos que o leitor - embora não haja muito o que ler aqui ultimamente - distraía-se no meio do deserto mexicano à espera de uma brecha para passar despercebido pelos guardas estado-unidenses.
Desejamos sorte ao corajoso compatriota na terra das batatas-fritas (são francesas ou americanas, afinal?) Oxalá você faça fortuna, amigo (amigo em espanhol mesmo)! Essa opção de deixar este país se faz cada vez mais forte e tentadora, principalmente com esses últimos atentados no país. Mas olha que há quem diga por aí que o Brasil virou país de primeiro mundo, pois até 11/09 à la tupiniquim nós arrumamos. A conclusão é de cada um, conforme a coragem (a saber se é mais corajoso o que fica ou o que se vai). ¡Suerte! A todos.
segunda-feira, 23 de julho de 2007
domingo, 22 de julho de 2007
sexta-feira, 20 de julho de 2007
quinta-feira, 19 de julho de 2007
terça-feira, 17 de julho de 2007
segunda-feira, 16 de julho de 2007
domingo, 15 de julho de 2007
sábado, 14 de julho de 2007
sexta-feira, 13 de julho de 2007
quinta-feira, 12 de julho de 2007
quarta-feira, 11 de julho de 2007
Plin-Plin em ARG07
Você também tem um blog?
Você não tem, mas não vive sem ler?
Tem dúvidas se é viciado em postação ou blogagem?
Acesse o Mingle - How Addicted to Blogging Are You? e saiba definir exatamente seu nível de dependência blogueira.
A que isso irá te levar, não sei... Quem sabe uma nova postagem para seu blog?
Como eu...
Aí vai meu resultado (surpresa para mim, que nem tenho internet em casa...):
55%How Addicted to Blogging Are You?
Você não tem, mas não vive sem ler?
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Mingle2 - Online Dating
terça-feira, 10 de julho de 2007
Exceções a QLDM
Uma leitora apontou uma exceção à série QLDM: as tomadas. Não fotografamos as tomadas argentinas, mas o comentário da leitora trouxe à luz o sentido de uma foto que tiramos - outra exceção: as placas dos carros.
segunda-feira, 9 de julho de 2007
terça-feira, 3 de julho de 2007
quinta-feira, 28 de junho de 2007
segunda-feira, 11 de junho de 2007
terça-feira, 5 de junho de 2007
domingo, 3 de junho de 2007
quinta-feira, 31 de maio de 2007
Fatalidades (Este texto é pós-datado para 19 de novembro)
Para uns a vida é um enorme de possibilidades, para outros só é possível uma: viver, daí uma grande diferença - uns vivem dos cacos, outros da louça. Que para todo rio o mundo é dois, e se esquece do outro; que o atalho às vezes é mais longo e de segui-lo se atrasa o tempo. Até o amor.
segunda-feira, 28 de maio de 2007
quinta-feira, 24 de maio de 2007
sexta-feira, 18 de maio de 2007
"Aurélio" (Claudinha)
- Vamos tirar o ciúme do dicionário?
- Como??
- Isso, nós podemos apagá-lo do dicionário e quem sabe assim ele não nos atormenta mais. Porque, convenhamos, quem gosta de ciúme? Ninguém! Nem o dicionário sabe explicar direito o significado dessa praga. Li outro dia e dizia algo de egoísmo, mas não sei se é isso. Eu posso dar a seguinte definição para ciúme: sentimento inútil que não leva a nada, mas apenas ao sofrimento daquele que o sente, além de poder causar brigas entre o enciumado e quem desencadeou o ciúme.
Posso ainda descrever a maneira de senti-lo assim: ardor no peito, acompanhado de calor repentino, inquietação e, posteriormente, sentimento de ânsia e enjôo.
- Tá, continue...
- Há também os tipos de ciúme. Veja só.
Ciúme do passado: dificuldade de lidar com o agora/o presente - que é o que vale - e de reconhecer, por outro lado, que o passado também contribuiu para as características atuais da pessoa. Ou seja, alguém é assim hoje pelas experiências que viveu até agora e a razão de cruzar com outro alguém pode estar justamente nessa vivência anterior.
Ciúme de amor: pode ser entendido como insegurança em relação ao ser amado.
Ciúme de amigo: sentimento de posse, egoísmo acompanhado de uma insegurança intensa do enciumado quanto aos seus valores perante o amigo.
Ciúme das coisas inanimadas: materialismo exacerbado.
- Calma, mas você que está concluindo essas definições. O dicionário não traz tudo isso.
- Tá, tá, eu sei, mas todo esse desenrolar só surgiu porque o dicionário criou o ciúme. E então, se optarmos por tirá-lo do dicionário, a sociedade nem saberá que ciúmes existem! Tudo bem, terá a fase de transição devido às pessoas que ainda conhecerão o antigo dicionário, mas com o tempo isso irá se apagando...
- Não, não dá.
- Mas por que não??? Vamos revolucionar!
- Você já assistiu a “Brilho Eterno de Uma Mente sem Lembranças”?
- Hã?
- Pois então assista e você entenderá; não adianta tentar apagar tudo e tentar procurar as raízes, porque o sentimento em si não se apaga. Faz parte do íntimo humano.
- Mmmmm (pensando)... Ah, mas tirar o conhecimento da sociedade pode ser um passo, vai...
- Como??
- Isso, nós podemos apagá-lo do dicionário e quem sabe assim ele não nos atormenta mais. Porque, convenhamos, quem gosta de ciúme? Ninguém! Nem o dicionário sabe explicar direito o significado dessa praga. Li outro dia e dizia algo de egoísmo, mas não sei se é isso. Eu posso dar a seguinte definição para ciúme: sentimento inútil que não leva a nada, mas apenas ao sofrimento daquele que o sente, além de poder causar brigas entre o enciumado e quem desencadeou o ciúme.
Posso ainda descrever a maneira de senti-lo assim: ardor no peito, acompanhado de calor repentino, inquietação e, posteriormente, sentimento de ânsia e enjôo.
- Tá, continue...
- Há também os tipos de ciúme. Veja só.
Ciúme do passado: dificuldade de lidar com o agora/o presente - que é o que vale - e de reconhecer, por outro lado, que o passado também contribuiu para as características atuais da pessoa. Ou seja, alguém é assim hoje pelas experiências que viveu até agora e a razão de cruzar com outro alguém pode estar justamente nessa vivência anterior.
Ciúme de amor: pode ser entendido como insegurança em relação ao ser amado.
Ciúme de amigo: sentimento de posse, egoísmo acompanhado de uma insegurança intensa do enciumado quanto aos seus valores perante o amigo.
Ciúme das coisas inanimadas: materialismo exacerbado.
- Calma, mas você que está concluindo essas definições. O dicionário não traz tudo isso.
- Tá, tá, eu sei, mas todo esse desenrolar só surgiu porque o dicionário criou o ciúme. E então, se optarmos por tirá-lo do dicionário, a sociedade nem saberá que ciúmes existem! Tudo bem, terá a fase de transição devido às pessoas que ainda conhecerão o antigo dicionário, mas com o tempo isso irá se apagando...
- Não, não dá.
- Mas por que não??? Vamos revolucionar!
- Você já assistiu a “Brilho Eterno de Uma Mente sem Lembranças”?
- Hã?
- Pois então assista e você entenderá; não adianta tentar apagar tudo e tentar procurar as raízes, porque o sentimento em si não se apaga. Faz parte do íntimo humano.
- Mmmmm (pensando)... Ah, mas tirar o conhecimento da sociedade pode ser um passo, vai...
segunda-feira, 14 de maio de 2007
Há Séculos...
" (...) 'quando se aperfeiçoar o vapor, quando unido ao telégrafo tiver feito desaparecer as distâncias, não hão de ser só as mercadorias que hão de viajar de um lado a outro do globo, com a rapidez do relâmpago; hão de ser também as idéias' (...)"
Chateaubriand citado por Machado de Assis em "O passado, o presente e o futuro da literatura".
Chateaubriand citado por Machado de Assis em "O passado, o presente e o futuro da literatura".
domingo, 13 de maio de 2007
sexta-feira, 11 de maio de 2007
Desabafo
Acompanho muitos sites pela internet. A maioria envolve alguma arte: literatura e fotografia são meus assuntos preferidos, nessa ordem; mas não ficam de lado o cinema, a música e a arquitetura - além daqueles desvios naturais que a rede quase nos impõe. Mas eu não quero falar sobre mim, ao contrário, isto é uma espécie de desabafo, daqueles do tipo "não é possível que eles não percebam".
É o seguinte: algum tipo de doença afeta muitos "editores" da internet e os fazem pensar que o mundo inteiro é conectado. É impossível que quem está sempre por aqui nunca tenha lido coisas do tipo, "a internet está acabando com a imprensa 'de papel'", "com o rádio", "com a televisão".
Bem, no final de 2005 68% dos brasileiros nunca tinham acessado esta nossa grande rede e 55% nunca havia sequer usado um computador. A mesma pesquisa dizia que 9,6% acessava diariamente e 24% o fizeram alguma vez em três meses. Mas isso foi em 2005. Vamos supor que no final deste ano o número tenha triplicado, vá: 30% acessa diariamente. É um exagero, claro, para os que conhecem o poder financeiro de 80% da população e podem compará-lo ao custo da internet.
Pois então. Que acabe com a imprensa "de papel" é até imaginável, embora improvável por enquanto. Mas com o rádio e a televisão? Se desses hipotéticos 30%, metade já tivessem alguma vez escutado um "pod-cast", já seria um espanto. Creio que essa metade nem sabe o que é um pod-cast. E aquela imensa parte da população que continua escutando seu rádio no carro (nas grandes cidades onde se fica muito tempo dentro do carro)? E aquela gente que tem o rádio em casa, aquelas donas-da-casa, empregadas, que ficam escutando durante suas atividades domésticas? Será que há menos donas-de-casa no Brasil do que "internautas"?
Bem, esse auê todo é parte de uma estratégia bastante usada por uma parte das pessoas cujo mundo é visto pelas janelinhas dos computadores: costumam exagerar sobre tudo o que falam (e que naturalmente leva o prefixo "http://www."). Tudo é genial, tudo é o máximo. Às vezes a gente lê e pensa "Porra, como é que eu nunca tinha visto tudo isso nesse tal Fulano?" ou "Onde é que eu estava?". Talvez seja isso mesmo que eles queiram. Polarizam uma espécie de batalha entre comunicação tradicional x internet tal qual um jovem da década de 50 (do século XIX) defendia aquelas então novíssimas teorias socialistas. Talvez tenham a esperança de um dia poderem dizer: "Eu estava lá, fui pioneiro, vanguarda, um dos responsáveis por isso que se transformou". Mas utilizam das mesmas armas: aquela propaganda maléfica cuja mensagem é basicamente "Quem tem, tá dentro, quem não tem, é um merda". Agora, vai explicar que o que eles gastam com o acesso banda larga (que na realidade dessa gente é a única opção possível) é o dinheiro que uns bons milhões de brasileiros usam para sustentar a família...
***
Não sei se era preciso, mas vou esclarecer umas coisas:
1. Não sou contra a internet (não era preciso...);
2. Não sou contra o acesso banda larga, os pod-casts, os You Tubes, etc. (tampouco...);
3. Aliás, não sou contra a maioria das coisas (nem contra quem ganha seu dinheirinho e quer gastá-lo como quiser).
4. Às vezes a gente precisa somente levantar os olhos e olhar através da janela que fica atrás da nossa tela.
5. O mundo todo é um só, nós que o dividimos e depois nos colocamos em umas dessas ilusões.
6. Tudo bem, mas vamos manter pelo menos a consciência de que é uma ilusão...
É o seguinte: algum tipo de doença afeta muitos "editores" da internet e os fazem pensar que o mundo inteiro é conectado. É impossível que quem está sempre por aqui nunca tenha lido coisas do tipo, "a internet está acabando com a imprensa 'de papel'", "com o rádio", "com a televisão".
Bem, no final de 2005 68% dos brasileiros nunca tinham acessado esta nossa grande rede e 55% nunca havia sequer usado um computador. A mesma pesquisa dizia que 9,6% acessava diariamente e 24% o fizeram alguma vez em três meses. Mas isso foi em 2005. Vamos supor que no final deste ano o número tenha triplicado, vá: 30% acessa diariamente. É um exagero, claro, para os que conhecem o poder financeiro de 80% da população e podem compará-lo ao custo da internet.
Pois então. Que acabe com a imprensa "de papel" é até imaginável, embora improvável por enquanto. Mas com o rádio e a televisão? Se desses hipotéticos 30%, metade já tivessem alguma vez escutado um "pod-cast", já seria um espanto. Creio que essa metade nem sabe o que é um pod-cast. E aquela imensa parte da população que continua escutando seu rádio no carro (nas grandes cidades onde se fica muito tempo dentro do carro)? E aquela gente que tem o rádio em casa, aquelas donas-da-casa, empregadas, que ficam escutando durante suas atividades domésticas? Será que há menos donas-de-casa no Brasil do que "internautas"?
Bem, esse auê todo é parte de uma estratégia bastante usada por uma parte das pessoas cujo mundo é visto pelas janelinhas dos computadores: costumam exagerar sobre tudo o que falam (e que naturalmente leva o prefixo "http://www."). Tudo é genial, tudo é o máximo. Às vezes a gente lê e pensa "Porra, como é que eu nunca tinha visto tudo isso nesse tal Fulano?" ou "Onde é que eu estava?". Talvez seja isso mesmo que eles queiram. Polarizam uma espécie de batalha entre comunicação tradicional x internet tal qual um jovem da década de 50 (do século XIX) defendia aquelas então novíssimas teorias socialistas. Talvez tenham a esperança de um dia poderem dizer: "Eu estava lá, fui pioneiro, vanguarda, um dos responsáveis por isso que se transformou". Mas utilizam das mesmas armas: aquela propaganda maléfica cuja mensagem é basicamente "Quem tem, tá dentro, quem não tem, é um merda". Agora, vai explicar que o que eles gastam com o acesso banda larga (que na realidade dessa gente é a única opção possível) é o dinheiro que uns bons milhões de brasileiros usam para sustentar a família...
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Não sei se era preciso, mas vou esclarecer umas coisas:
1. Não sou contra a internet (não era preciso...);
2. Não sou contra o acesso banda larga, os pod-casts, os You Tubes, etc. (tampouco...);
3. Aliás, não sou contra a maioria das coisas (nem contra quem ganha seu dinheirinho e quer gastá-lo como quiser).
4. Às vezes a gente precisa somente levantar os olhos e olhar através da janela que fica atrás da nossa tela.
5. O mundo todo é um só, nós que o dividimos e depois nos colocamos em umas dessas ilusões.
6. Tudo bem, mas vamos manter pelo menos a consciência de que é uma ilusão...
Momento QSEDQ - Política
- "Eu entendo de algumas coisas, mas de outras confesso minha total
ignorância. Do assunto Franklin Martins, por exemplo. Só para começar, o que
faz uma pessoa que ganha - e sem nem fazer muito esforço - entre R$ 50 mil e
R$ 100 mil por mês, se demitir para aceitar um cargo onde vai passar a
ganhar R$ 8.000." - Danuza Leão
ignorância. Do assunto Franklin Martins, por exemplo. Só para começar, o que
faz uma pessoa que ganha - e sem nem fazer muito esforço - entre R$ 50 mil e
R$ 100 mil por mês, se demitir para aceitar um cargo onde vai passar a
ganhar R$ 8.000." - Danuza Leão
quinta-feira, 10 de maio de 2007
quarta-feira, 9 de maio de 2007
Puertas Abiertas El Carromato
Esse é da Internacional...

2ª Jornadas de Puertas Abiertas, la fecha es el 18 de Mayo y esta vez bajo título:
"Construcción de Fragmentos, de Trayectos y Alteración de Espacios"
Mostrando a través de fotografías, instalaciones, proyecciones..., las diversas visiones que el Colectivo tiene en torno a la idea del tiempo y el espacio, ya sea a través de un viaje por otro continente, o del interior de la persona, dentro de un contenido, de una emoción, de un suceso, ...

***
2ª Jornadas de Puertas Abiertas, la fecha es el 18 de Mayo y esta vez bajo título:
"Construcción de Fragmentos, de Trayectos y Alteración de Espacios"
Mostrando a través de fotografías, instalaciones, proyecciones..., las diversas visiones que el Colectivo tiene en torno a la idea del tiempo y el espacio, ya sea a través de un viaje por otro continente, o del interior de la persona, dentro de un contenido, de una emoción, de un suceso, ...
Colectivo El Carromato
c/ San Pedro 6
terça-feira, 8 de maio de 2007
segunda-feira, 7 de maio de 2007
Corto
Tudo começou há mais ou menos um mês. Até então eu não odiava os cachorros, mas não sei que sensibilidade pegou meus ouvidos quando seus latidos começaram a me matar aos poucos. Era eu ou eles. Pensei ininterruptamente em todos os meios de eliminá-los. Pensei nas bolinhas de carne, pensei em espingardas, pensei em abaixo-assinado para criar uma zona de “dog-off”. Mas não precisei fazer mais nada, pensar foi suficiente. Hoje de manhã morreu o primeiro; o dono falou de uma doença misteriosa e fulminante: uma semana divisou sua saúde e sua morte. O vizinho da frente levou o seu ontem no veterinário; o diagnóstico, o mesmo: vermes. O medo se espalhou em poucas horas e as casas das sogras logo vão se encher de latidos.
sexta-feira, 4 de maio de 2007
terça-feira, 1 de maio de 2007
Molto Corto
Naquele dia eu vi até uma mulher sendo queimada. A roupa dela se esfarelou, foi um desespero.
sexta-feira, 27 de abril de 2007
Esclarecimento Necessário
Vestir o pensamento
Aconteceu uma vez de eu chegar num colégio em Belo Horizonte, onde me perguntaram o que eu estava escrevendo naquele momento. Eu falei sobre o projeto e nunca mais consegui retomá-lo. Porque quando você fala sobre algo, dá uma roupa feita de palavras ao seu pensamento. E aí, ele já assumiu aquela roupa. E não veste mais aquela outra, a que vestiria se fosse direto para a página. Então aquilo se gasta. Se desperdiça. Não sei se é assim com todos os escritores.
(Ana Maria Machado, no Rascunho)
Aconteceu uma vez de eu chegar num colégio em Belo Horizonte, onde me perguntaram o que eu estava escrevendo naquele momento. Eu falei sobre o projeto e nunca mais consegui retomá-lo. Porque quando você fala sobre algo, dá uma roupa feita de palavras ao seu pensamento. E aí, ele já assumiu aquela roupa. E não veste mais aquela outra, a que vestiria se fosse direto para a página. Então aquilo se gasta. Se desperdiça. Não sei se é assim com todos os escritores.
(Ana Maria Machado, no Rascunho)
Corto ma non troppo
A Clarah foi um susto. Chegou de uma sombra armada pelo telhado de um ponto de táxi numa rua do centro, como a lua que aparece atrás de uma nuvem espessa. Podia estar vomitando, mas foi tudo silencioso; o antes, o durante e o depois. Saiu escorrendo a boca nas costas da mão, mas podia ser culpa de uma lata de cerveja. Não sei se a Clarah jogou a lata na rua ou a colocou carinhosamente em cima do banco dos taxistas. Ou se simplesmente estava vomitando. Podia estar chorando, porque veio de um vácuo apinhado de coisas ausentes. Na verdade, a Clarah poderia nem ter vindo, teria ficado bem ali. Muito bem, aliás. Podia ficar tranqüilamente doze horas sem escovar os dentes e em dez minutos explodir com a ânsia do áspero na boca, arrebentando de amores por escova e pasta; aquele amor intenso cuja consciência do ralo não existe. Mas ela nem usaria uma trema e talvez escovasse militarmente os dentes. A Clarah pode escrever em italiano, pode citar de cabeça um trecho obscuro de um cantor espanhol que nunca ouvi falar, mas não sei se escreveria com trema. A Clarah virou a esquina como quem vai correr em seguida, dar a volta no quarteirão e aparecer do outro lado esbaforida e sorridente. Quando desapareceu na borda do prédio antigo, corri para alcançá-la, mas a Clarah se foi de novo pela escuridão.
quarta-feira, 25 de abril de 2007
Molto Corto
Tinha a nossa música. A gente não sabia cantar tudo; na verdade, sabia a mesma parte. Tive que terminar com ela, não agüentei, depois só tinha o silêncio.
sábado, 21 de abril de 2007
Con-tener
É a série de uma amiga madrileña que conheci em Budapeste (onde pude presenciar seu jeito bem interessante de trabalhar com a fotografia). Ela fez a sua própria câmera (uma caixa de madeira, basicamente) e ultrapassa muito a nossa idéia de 35mm+revelação.
Faz parte de um coletivo chamado El Carromato e tem um blog (link ao lado = Cloroplatinito). De acordo com a última nota de atividades do coletivo,
Ana Matey exponía [ na Jornada de Puertas Abiertas de 30 de março] una muestra de su actual línea de creación, utilizando técnicas mixtas de fotografía y pintura en obras únicas, mostrando imágenes corporales que tratan de expresar la soledad de la persona y sus dificultades de relación y comunicación social. Para ello utiliza muy variados formatos, unidos en su presentación con el sugerente titulo “con-tener”.
Aí vai um exemplo do seu trabalho que, para mim, abriu as portas das possibilidades da fotografia.
Faz parte de um coletivo chamado El Carromato e tem um blog (link ao lado = Cloroplatinito). De acordo com a última nota de atividades do coletivo,
Ana Matey exponía [ na Jornada de Puertas Abiertas de 30 de março] una muestra de su actual línea de creación, utilizando técnicas mixtas de fotografía y pintura en obras únicas, mostrando imágenes corporales que tratan de expresar la soledad de la persona y sus dificultades de relación y comunicación social. Para ello utiliza muy variados formatos, unidos en su presentación con el sugerente titulo “con-tener”.
Aí vai um exemplo do seu trabalho que, para mim, abriu as portas das possibilidades da fotografia.
sexta-feira, 20 de abril de 2007
Corto
Inventei a máquina do tempo. Tive dúvida se ganharia na megasena ou se salvaria meu amigo do atropelamento. Comprei um rifle de precisão com mira telescópica, muita munição e me mandei para Canudos. Esperei todas as expedições me fingindo um jagunço doente e louco. Armazenei bastante mantimento. A última estava ocupando já metade do arraial. Iam se espreitando como formigas no formigueiro alheio. Fui para um local adequado e comecei. Até agora conto cento e vinte e dois oficiais mortos. Estou ansioso para a minha primeira leitura do tal Euclides. Esse eu preservo.
quarta-feira, 18 de abril de 2007
Molto Corto
Era um momento delicado. Estavam todos contra mim. Ele teve a coragem maravilhosa de se colocar na frente da multidão que queria meu sangue. Tinha de agradecê-lo, sou generosa, dei pra ele.
terça-feira, 17 de abril de 2007
Ela é bela

Se eu lhe disser que sua beleza não é absoluta, esse é o meu maior elogio. A beleza assim, pura e grandiloqüente, é destinada às estátuas; elas não têm vida, são moldadas, planejadas e executadas e, por fim, não se alteram diante dos terrores e dos prazeres que dançam aos seus pés; a única mudança que aceitam é a destruição: um vândalo lhe martela o rosto, que se estilhaça pelo chão como lascas e restos, e não mais como estátua. Ela não iria querer isso de mim; sua beleza vai até o ponto de se permitir, sem se perder, pequenas mudanças cotidianas. Seu rosto cresce com o sono e com o choro, deforma-se lindamente num sorriso ou na carência. Sua beleza não se impõe como sombra, nem imobiliza a vida. Sua beleza evolui; dissolve-se, envolve e toma fluidamente todo o meu espaço.
(Mote: Virginia Woolf, Passeio ao Farol, e, de certo modo, uma reedição repensada)
(Mote: Virginia Woolf, Passeio ao Farol, e, de certo modo, uma reedição repensada)
segunda-feira, 16 de abril de 2007
terça-feira, 10 de abril de 2007
domingo, 8 de abril de 2007
quinta-feira, 5 de abril de 2007
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