sexta-feira, 27 de abril de 2007
Esclarecimento Necessário
Aconteceu uma vez de eu chegar num colégio em Belo Horizonte, onde me perguntaram o que eu estava escrevendo naquele momento. Eu falei sobre o projeto e nunca mais consegui retomá-lo. Porque quando você fala sobre algo, dá uma roupa feita de palavras ao seu pensamento. E aí, ele já assumiu aquela roupa. E não veste mais aquela outra, a que vestiria se fosse direto para a página. Então aquilo se gasta. Se desperdiça. Não sei se é assim com todos os escritores.
(Ana Maria Machado, no Rascunho)
Corto ma non troppo
quarta-feira, 25 de abril de 2007
Molto Corto
sábado, 21 de abril de 2007
Con-tener
Faz parte de um coletivo chamado El Carromato e tem um blog (link ao lado = Cloroplatinito). De acordo com a última nota de atividades do coletivo,
Ana Matey exponía [ na Jornada de Puertas Abiertas de 30 de março] una muestra de su actual línea de creación, utilizando técnicas mixtas de fotografía y pintura en obras únicas, mostrando imágenes corporales que tratan de expresar la soledad de la persona y sus dificultades de relación y comunicación social. Para ello utiliza muy variados formatos, unidos en su presentación con el sugerente titulo “con-tener”.
Aí vai um exemplo do seu trabalho que, para mim, abriu as portas das possibilidades da fotografia.
sexta-feira, 20 de abril de 2007
Corto
quarta-feira, 18 de abril de 2007
Molto Corto
terça-feira, 17 de abril de 2007
Ela é bela

(Mote: Virginia Woolf, Passeio ao Farol, e, de certo modo, uma reedição repensada)
segunda-feira, 16 de abril de 2007
terça-feira, 10 de abril de 2007
domingo, 8 de abril de 2007
quinta-feira, 5 de abril de 2007
terça-feira, 3 de abril de 2007
Literatura jornalística
Da Redação
Na tragédia do afundamento do buraco no metrô de São Paulo, emergiram como culpadas as empreiteiras: os novos bodes brasileiros. Câmeras escondidas na bolsa, manchetes explosivas e mais uma nova classe de termos para o nosso léxico de desgraças: bacalhau agora também é o que já foi a popular gambiarra. Do mesmo modo, surgiu uma nova profissão na lista negra dos profissionais do Brasil, que volta e meia inclui jornalistas, advogados, policiais e médicos; soldador ainda era inédito.
Jadiel* nasceu no interior de Pernambuco em 1971. Sua família vivia próximo a um engenho, onde prestavam todos o membros o serviço de bóia-fria. “Com o programa do álcool”, ele diz, “todo mundo teve trabalho, ganhou muito dinheiro. Dava até pra comer carne no almoço de domingo”. Mas depois as coisas foram piorando e, assim que Jadiel terminou a 8ª série, ou o ginásio da sua época, atendeu ao convite feito por uma prima ao seu irmão mais velho.
Em São Paulo foi se arranjando. Logo entrou no ramo da construção civil como auxiliar de um pedreiro que se simpatizou com ele. Mais tarde, aprendeu o ofício da solda e, com a nova técnica, conseguia arrumar serviço nas grandes obras tocadas pelas grandes empreiteiras.
“Não tem muita diferença entre construir casa de madame no Morumbi e uma estação de metrô”, afirma. Conta preferir “casa de madame” e justifica-se: “às vezes, a empregada vem trazer suco, café, lanche pros peões da obra, além da bóia, claro”.
Questionado sobre os problemas nas soldas da estação Fradique Coutinho do metrô, em São Paulo, onde trabalhou, Jadiel se mostra sinceramente alterado.
“Não entendi aquilo tudo. O senhor sabe, eu leio e assisto o noticiário. Sei ler e sei pensar, também. Muita gente por aí nem isso faz, não pensa, não quer saber, mas eu sim. Eles metem o pau nos bacalhau [sic], aqueles técnico contratado [sic], aqueles jornalista [sic], mas na casa deles aposto que é igual, que preferiram pagar menos pra fazer bacalhau do que a coisa certinha [sic]. Todo mundo faz bacalhau no Brasil, não faz? Não tem aquilo de jeitinho brasileiro? O Lula não veio falar em projeto pro Brasil crescer mais e tal? A Marta não fez um monte de escola por aí com latão? O Governo não foi tapar buraco no ano passado por causa da eleição, e jogou um piche com brita lá, jogou qualquer coisa que já tá tudo uma merda? E etc. etc. etc.? Olha, é tudo bacalhau, meu filho, tudo bacalhau. O Brasil é um bacalhau que só. Eu sou um bacalhau e tu provavelmente também é. Afinal, por que fui virar soldador? Um dia faltou o cara, me chamaram, me disseram ‘olha, faz assim e assado’ e pronto; em dois tempo eu já tava nas grande, aí [sic]. Aqui é assim, tá precisando a gente é, a gente é o que tá precisando, entende?, o que não deixa de ser um bacalhau, não é?”
E emenda com um repentino bom humor:
“Olha, e pra não dizerem que só fico falando mal, que fico de rancor, um dia aí tive até uma hora que fiz um sambinha com essa história toda que estava me aporrinhando, pra aliviar um pouco, né? É assim: (cantarolando) No Brasil, não tem baixo-astral/ Se o dinheiro não deu/ o financiamento não saiu/ faltou peça na caranga/ ou a comida da janta/ não faz mal/ não faz mal/ por aqui nós fazemo [sic] um bacalhau”.
E ele ri.
* Nome fictício.
sexta-feira, 30 de março de 2007
Conforme prometido: Ulysses
all unkind.
--After all, I should think you are able to free yourself. You are your
own master, it seems to me.
--I am a servant of two masters, Stephen said, an English and an Italian.
--Italian? Haines said.
A crazy queen, old and jealous. Kneel down before me.
--And a third, Stephen said, there is who wants me for odd jobs.
--Italian? Haines said again. What do you mean?
--The imperial British state, Stephen answered, his colour rising, and
the holy Roman catholic and apostolic church.
quarta-feira, 28 de março de 2007
Germinando outros abacaxis
Ah, tomando um desvio, em breve posto um trecho desse Ulysses, uma passagem que é, digamos, engraçada. E não traduzida...
É isso.
Leitura Partilhada e Mapeada
Mas, quer saber, vai lá ver.
Outro site é o Literature-Map, indicado pelo Todoprosa. Você começa digitando um autor qualquer e em torno dele irão flutuar outros nomes de escritores. Segundo o site, quanto mais próximos dois escritores estiverem, mas fácil será você gostar de ambos. Agora, o Paulo Coelho estar ALI com o Gabo e Vargas Llosa é... meio estranho...
segunda-feira, 26 de março de 2007
quinta-feira, 22 de março de 2007
quarta-feira, 21 de março de 2007
Do Quesabemos abaixo
alma projétil
em alvo desconhecido -
caminhos oitavados
rio despassado -
em dezesseis quadros
por cada segundo
outros mais - achados
em trinta e dois dentes
falando calados
terça-feira, 20 de março de 2007
Quesabemos: Julia
Julia não havia publicado nada
sexta-feira, 16 de março de 2007
Lobo Antunes
Com atraso, mas continua bom.
São Paulo, terça-feira, 13 de março de 2007
CECILIA GIANNETTI
Big Book Brasil
Cada participante deveria produzir um conto ou um romance em frente à câmera; a casa era uma réplica da ABL
UM INESPERADO aumento dos índices de leitura no país refletiu sobre a TV aberta nacional na forma de uma queda inédita de ibope -de repente, o povo brasileiro começou a ler insaciavelmente e simplesmente parou de ver televisão. Afogados em números vermelhos, fumando sob sinais de “Não Fume” nas sedes das principais redes de TV, os diretores de programação concluíram que só havia uma saída: a reformulação drástica de suas grades.
No começo, mudanças discretas, reprises de “Meu Pé de Laranja Lima” e “Sítio do Pica-Pau Amarelo”. Mas o público não se deixava mais impressionar tão facilmente. Os diretores -ainda fumando desbragadamente- precisavam ousar. Aí vieram adaptações do premiado “Eles Eram Muitos Cavalos”, de Ruffato, e de toda a obra de Marçal Aquino e Ferréz no “Caso Verdade”.
Nossos elevados padrões causaram inveja entre eruditos na Europa -especialmente os franceses, que tornaram a atear fogo em carros, bicicletas e velocípedes, indignadíssimos com seu recém-adquirido complexo de inferioridade em relação ao Brasil. Foi quando estreou o “Big Book Brasil”, maior inovação da televisão intelectualizada. Cada participante deveria produzir um conto ou um romance na frente das câmeras; todos confinados na casa-réplica da Academia Brasileira de Letras (com piscina). A primeira prova decidiu quem escreveria o quê: houve contista que deu azar de pegar romance e romancista obrigado a aprender a arte do “fazer curtinho”. O prêmio para o vencedor seria a publicação de sua obra - em capa dura.
Uma mocinha da internet e um crítico literário entraram no BBB “pela janela”. Graças a um sorteio, Márcia Moreira (a M@rSil) chegou humildezinha com seu laptop quando os participantes mais cultos já estavam instalados na casa. Ela não escondeu o desconforto ao ser chamada de “blogueira” pelo crítico literário, que fora escolhido por ser amigo do diretor do programa. “O problema, Bial, é que o crítico fala como se eu fosse analfabeta. Tenho meu sonho desde que fiz meu primeiro “post”. Sempre quis escrever um livro. Ele, não! Passou a vida resenhando livro dos outros e agora quer sair do armário na TV. É um frustrado!”
Sonia Sanja (poeta de São João do Meriti) e Pedro Thiago (o que psicografava) viviam juntos sob o edredom. Mas quem chocou mesmo o Brasil foi o crítico literário. Em rede nacional, teve seu primeiro bloqueio de escritor, ao tentar escrever ficção. De roupão, em posição fetal no confessionário, chorou muito e orou a Deus. Seu psicanalista, que tinha assinado o “pay-per-view”, comentou nas revistas de fofoca: “Ele não crê em nada, muito menos em Deus. Tá fazendo tipo”.
Na praia, sempre reluzindo com bronzeador de urucum, espeto de queijo coalho numa das mãos, noutra a cerveja, nosso povo ufanava-se de boca cheia do “Big Book Brasil”: “Librum lego. Littera sacra est; liber sacer, templum sacrum!”. E em latim, pra tirar onda.
(Achado no Bife Sujo)
Quesabemos: Claudinha
Metalinguagem consiste no ato de escrever um texto falando do próprio texto, fazer um filme tratando do filme.
Não, não podemos nos limitar a esses exemplos vagos de metalinguagem, até porque o seu verdadeiro significado ultrapassa a limitação do seu conceito e de seus exemplos.
Mas, vamos lá, escrever um texto sobre a “maneira de escrever um texto metalingüístico”...
Que metalinguagem expressa, não é? Acredita-se (acredito eu, na realidade), porém, que a regra número um para se escrever um bom texto metalingüístico é a de não torná-lo tão expresso, porque o interessante é que o leitor o analise e conclua diante das suas reflexões que se tratava, na realidade, de metalinguagem (“metalinguagem implícita”).
E por que não uma metalinguagem implícita que se relacione com o próprio leitor? Que o faça enquadrar a situação pela qual está vivendo ou já viveu com o texto que se dirigiu a ele? - Como? O texto se dirige ao leitor? Sim, pode-se entender que o texto chega àquele que precisa lê-lo no momento exato em que as questões tratadas naquele texto farão com que o leitor reflita e cresça. - A metalinguagem, neste caso, está no leitor e não no próprio texto.
Mas, será que a metalinguagem expressa também não pode causar esse efeito ao leitor?
Conclui-se que sim; a metalinguagem expressa também pode surtir muitos “efeitos positivos” ao leitor (*) (digo de outros textos metalingüísticos expressos e não deste texto).
Nota-se que a regra número um já foi contrariada...
E então, como se faz para escrever um bom texto metalingüístico, expresso ou não expresso, com “efeitos positivos”??
Aí está a resposta. Se a regra número um já foi de pronto contrariada é que, para se escrever um bom texto, não há regras a se seguir, não há uma forma certa ou errada, porque todas essas regras criam, na realidade, uma limitação. E o escritor limitado não criará textos com “efeitos positivos” e impossibilitará que o leitor “viaje” pelos mundos criados por ambos.
Não se limitar... Mas... Será que isso também não é uma regra?
(*) “Efeitos positivos”: não se pode confundir “efeitos positivos” com sentimento de felicidade e bem-estar instantâneos. Porque um texto bom pode causar um impacto no leitor que não seja, inicialmente, feliz. Aliás, o impacto pode causar no início uma situação de desconforto no leitor e inclusive gerar uma infelicidade, mas o texto pode auxiliá-lo a crescer, a enxergar questões que estavam escondidas por detrás de um véu negro que não lhe saía dos olhos.
Claudinha nunca publicou.
terça-feira, 13 de março de 2007
Suplemento Literário de MG
* Devo confessar que a nova aparência do QSEDQ foi um tanto inspirada pelo que me causa o visual do Suplemento.
PS.: Aliás, no site eles disponibilizam (com algum atraso) versões em PDF do referido, e lá também a assinatura é gratuita para qualquer mortal. E não preciso dizer que vale o clique.
Quesabemos: Ana Lira
Um dia desses, assim, como em um susto, o meu colega João Pedro me perguntou se eu podia escrever algo sobre o que eu não conhecia. Eu fiquei dias pensando e, em outro momento, como em outro susto, me peguei pensando que o desconhecer não é o oposto do conhecer, mas uma etapa no comecinho deste processo de relação com algo que a gente acaba de ser apresentando.
Bom, eu não sei se ficou claro, então, vamos continuar. Eu refleti e vi que existem uma série de coisas no mundo que eu desconheço, mas se você me pedir para fazer uma lista dos elementos, sentimentos, vivências, histórias que eu não conheço, eu jamais conseguiria, porque, de certa maneira, você precisa entrar em contato com o objeto desconhecido para sentir que ele te é estranho.
Por exemplo, algumas pessoas que convivem comigo têm um pouco de preconceito com as benzedeiras – que são aquelas senhoras que aprenderam as rezas das gerações passadas de suas famílias e usam ervas e folhas, como as de arruda, para afastar o excesso de energia, que chamamos popularmente de mau olhado. Para mim, isso é absolutamente normal, pois eu venho de uma família de índios e negras que utilizavam a reza para purificar o lar e a energia das pessoas; mas para quem desconhece o assunto ou não tem proximidade com ele, isso é a maior loucura.
Contudo, para que essas pessoas pudessem ter essa sensação de estranheza com as benzedeiras, elas precisaram saber que essas mulheres existem e um pouco do que fazem. Pensando neste aspecto, eu vi que sou ignorante em uma série de coisas: não sei como funciona o Ciclo de Krebs, por exemplo, mas sei que ele existe e alguém disse que ele é fundamental para o nosso corpo. Também me falaram que tem a ver com a liberação de energia, mas eu nem sei se é verdade. É verdade?
Outro dia me perguntaram se eu não tinha medo da minha tia-avó, que é benzedeira, e se ela não era uma bruxa. Queria eu que ela fosse uma bruxa, assim poderia entender melhor uma série de relações com a natureza, que os bruxos e bruxas da antiguidade cultivavam e que a nossa cultura ocidental e católica exterminou. Está vendo? Este é mais um item que eu desconheço: as religiões que se relacionam a natureza. Conheço bem o catolicismo, um pouco do espiritismo e do candomblé, que foram as religiões que cruzaram parte da minha família, mas o seguimento espiritual do meu bisavô paterno, que era índio, eu não conheço. Acho que vou voltar a pesquisar sobre religiões, que era uma das coisas que eu adorava ler a respeito.
Será que eu consegui explicar a relação entre o conhecer e o desconhecer? Saber que existem coisas no mundo que ignoramos, nós sabemos, mas para saber efetivamente o que nos é estranho, distante, é preciso um primeiro contato. Nem que seja apenas um nome soprado na rua ou uma palavra que te fazem decorar na infância – uma professora me fez decorar inconstitucionalissimamente e eu ignorava o significado desta imensidão vocabular – ou um recado no blog na internet. Eu não conhecia o João Pedro até ele me dar um sinal virtual e ainda não o conheço – apenas fragmentos de sua generosidade com a minha pessoa -, mas o conhecimento nasce disso, dessa coleção de fragmentos que vamos juntando, ao longo da vida, sobre as coisas, sentimentos, pessoas, saberes e vivências que nos interessam.
Ana Lira publica em: (i) A Ostra e o Vento; (ii) Câmera Varzeana; (iii) Revista Rabisco; e (iv) Comunidade Boi Voador
sexta-feira, 9 de março de 2007
Em São Paulo
Conceito
- Você não acha?
- Não sei, você que inventou esse conceito.
Frase
A beleza ajuda a valer a pena.
Frase
Os blogs são tentativas individuais de contribuir com o big brother universal.
Sinal Aberto
- Mas eu nem queria atravessar.
Diálogo
- Ele riu de você.
- Riu nada.
- Não? Riu e ainda cutucou o outro.
Fim da história de amor brasiliense (ou Romeu e Julieta brasiliense)
- O carro dela não tinha ar condicionado.
Diálogo
- Olha, é muito confortável.
- Não ligo pra isso.
- Ih, mas é obrigatório.
Poesia interurbana (ou prosa+enter)
hoje descobri um poema
que fiz.
meu vizinho de banco
depois de quinze minutos cada
de silêncio
resolveu abrir um papel
onde li de esguelha
meio desiludido
meio satisfeito
um poema que eu poderia ter feito.
No Rancho
Certo dia cumpanheiro fui pescá no tararé,
nas barranca desse rio morava uma cobra crué
sartemo pra canoa eu e o cumpadi zé mané
rememo rio acima até aondi num dava pé
quando a cobra viu nóis de braba ela ficou di pé
sartemo na canoa novamente, eu e o cumpadi zé mané
rememo rio abaixo e nunca mais nóis dois pesquemo nesse tar de tararé
ehê cobra crué, fiotona de cascavé!
trem de ferro anda na linha, papagaio anda no á
santo antônio num bate asa mais dá sarto mortá
eu sô memo desse jeito, eu sô memo de amargá
nasci em oklahoma e fui morá em itajubá
fi de cobra verde, neto de cobra corá
eu sô memo desse jeito, não nego meu naturá
se deitado eu dô rasteira, dissera se eu levantá
sobrinho de gato persa e tio de gato angorá
minhocuçu anda na terra, em cima eu prano de avuá
bebo cachaça no armoço e tomo pinga no jantá
cresci naonde judas um dia vai chegá
de artumóvi num tem como chegar lá
onde trem de ferro anda na linha e papagaio anda no á
quinta-feira, 8 de março de 2007
Quesabemos: L. Vukku
Mia Couto
Rosalinda era mulher retaguardada, fornecida de assento. Senhora de muita polpa, carnes aquém e além roupa. Sofria de tanto volume que se sentava no próprio peso, superlativa. Já fora esbelta, dessas mulheres que explicam o amor. Magreza sucedida em seus tempos. Pois que, desde que enviuvou, ela se desentreteu, esquecida de ser. Rosalinda, agora, se cansava de tanta hora: mascava mulala, enrolando a saliva-laranja. As mulheres gordas não zangam com a vida: fazem lembrar os bois que nunca esperam tragédias. No desfolhar das tardes, ela se aprovava em triste rotina. Visitava o cemitério. E isso fazia muito diariamente. A campa do falecido marido, o Jacinto, ficava bem no fundo do cemitério. Condizia com o lugar que ele sempre tivera, nas traseiras da vida. De passo miúdo, Rosalinda rumava entre as moradias subtérreas, vacilando como se magoasse em sua própria sombra.
Já no lugar, ela em si se ajoelhava, vencendo as pernas. E ali se deixava, na companhia sozinha do defunto.
Assim se foram prostrando as datas, anos suados, anos somados. Rosalinda se antepassava, tantos eram os parentes já enroscados no grande sono. Só ela restava, em seus retroactivos pensamentos. Junto à campa, ela se memoriava:
- Jacinto, grande sacana.
Com gesto terno, ela alisava a areia, afagando lembranças. Deus lhe punisse, Deus adoecesse. Mas quem explicava aquela saudade do sofrimento, o doce sabor das amargas lembranças?
- Tu me amarraste a vida, me forneceste de porrada.
(...)
Vukku é um nenhum de Moçambique e, como não sabe nada além de copiar, enviou-nos um texto (bastante incompleto) de um compatriota. Ele agradece à portuguesa Catarina.
domingo, 4 de março de 2007
Quesabemos: E.R.G.
Se há algo que me aguça a curiosidade e se constitui, cada vez mais, em enigma indecifrável, esse algo é o masoquismo – que, diga-se de passagem, sempre vem acompanhado de algum grau de sadismo como contrapeso.
O fato de que alguém possa realmente sentir algum prazer na dor tem me feito gastar, até agora em vão, uns bons neurônios. E digo isso porque minha natureza é completamente avessa a qualquer tipo de sofrimento. Fujo da dor tal qual gato da água. Ela me é incomoda, desorientadora, chega a ser inadmissível. Mesmo quando inevitável, todas as defesas de meu corpo e de minha mente são automaticamente acionadas assim que ela se me apresenta. E quando não há remédio possível para a dor, dada a sua inevitabilidade, trato de sofrer o mais rápido e o mais intensamente possível os seus efeitos para, assim, extinguida, dela logo livrar-me.
Mas como reconhecer um masoquista? Há dois sintomas básicos: o prolongar-se da dor e o reincidir-se nela. Pois a dor mesma, não há como negá-la. Estamos vivos, logo sofremos e sofreremos as dores mais variadas ao longo de nossa efêmera existência. O próprio parto virou símbolo máximo do sofrimento: da mãe pela dor física; do bebê pela perda do conforto uterino; da parteira pela responsabilidade; e até do pai, pela impotência. Qualquer um que já viu um recém-nascido chorando reconhece ali o ato de sofrimento supremo, mesmo que a razão entenda que o choro do bebê nada mais é do que a falta de todas as outras possíveis linguagens: “Quem não chora, não mama!”
Mas mesmo o bebê pára de chorar assim que lhe dão o peito ou trocam-lhe as fraldas. Bebês não tem depressão ou angústias, tem necessidades! Qual o porquê, então, das autodestruições? Dos relacionamentos alimentados pelo conflito? Das depressões prolongadas? Do abuso de anestésicos que só prolongam a dor sem curá-la, mesmo sabendo-se disso? Não sei.
Li em algum livro de psicologia que a dor, quando muito intensa ou quando sentida por um período longo demais, acaba tomando o lugar de todo o resto e se torna o próprio espaço onde a vida se dá. Ou seja, o pensamento do sofredor é o de que se a dor acabar, não haverá mais nada. A dor é algo tão presente, tão intensamente experimentada, que sem ela a vida perde o sentido. Há mesmo um conforto e um prazer nesse “lugar”. Segurança. Enquanto se sente dor, sente-se algo, existe vida. Aquilo torna se a única coisa reconhecível, a derradeira referência existencial.
Certo. Vá lá. É uma teoria válida! Racionalmente, até consigo entender esse “lugar”. O que me atrapalha é reconhecer que o simples fato de existir como ser vivo constituido de bilhões de células – átomos até – coexistindo com bilhões de outros seres vivos, em um planeta magnífico, que por sua vez não é nada além do que uma poeirinha que flutua no nada em meio a um espaço sideral infinito, e ainda ter consciencia disso tudo, já é, por sí só, o maior dos milagres! Que dor é relevante o suficiente para que se sabote o milagre de viver?
Some-se a isso o fato de que cada um é o único responsável por seus atos, que cada um é o único tem o real poder de transformar os próprios valores em quaisquer outros e a qualquer tempo, desde que se tenha a humildade de reconhecer que, no fundo, somos sós e, a rigor, não temos mais ninguém no mundo além de nós mesmos. Daí o prolongamento da dor e do sofrimento torna-se, então, quase que inverossímel, posto que exista. Resta-me apenas a resignação de saber que, perante um autêntico masoquista, nada sei sobre a vida. E o conselho que daria a ele (ou ela, que são muitas, senão todas), acaba servindo para mim mesmo:
“É preciso aprender a só ser. É preciso aprender a ser só.”
E.R.G. publica em www.diariodamadruga.blogspot.com
quinta-feira, 1 de março de 2007
Quesabemos: Nicodomus L.
no meio do caminho tinha um buraco.
Drummond/Nicodomus L.
depois de ler neste site uma terrível previsão, que me fez o divino favor de me dar uma desculpa para ficar dias sem sair de casa, uma previsão de que o mundo inteiro seria sugado por um buraco iniciado pelas mãos de um técnico de uma empresa telefônica chamada teleterra, vi pela televisão um buraco enorme em são paulo que me fez lembrar, se é que ela realmente houve, a minha infância. os carrinhos que eu enterrava, sem saber que, na verdade, eu não tinha era coragem de me enterrar a mim mesmo, que jogava com força no meio do formigueiro, os carrinhos que sumiam nos brejos em meio ao coachar - lembrei dessa - das rãs, esses mesmos pareciam aqueles caminhõeszinhos lá embaixo do buraco de são paulo. da minha parte, que é a que me interessa, tenho minhas conclusões para as causas do incidente, para o que utilizei de métodos os mais cientifícos, como me fora ensinado pelo meu falecido avô de origem iuguslávia. dizia ele que para aqueles lados também foram feitos muitos buracos onde caíam gente, embora no caso deles já fossem morta ou logo seriam. isso me lembrou de hollywood, que me mostrou cordealmente e pela metade do preço, posto que lhes provei que sou estudante, o que não sou, aliás, como ninguém é, pois me mostrou aqueles buracos onde a densidade demográfica de judeus era alta, impressionante, provando mais uma vez a enorme capacidade que esse povo tem de se aglutinar - voluntariamente ou não. outro dia fui ao cartório - eles sempre aparecem na minha frente sem que eu saiba de onde eles vieram - e dei de cara com um homem-buraco, mas não vice-versa. nesse caso não foi nem necessário avançar ao passo onze do roteiro de investigação cientifícia iuguslava que me foi ensinado por um senhor que me dizia ser meu avô e que, por ser isso confirmado por outra pessoa que se dizia ser meu pai, não tive outra saída senão fugir de casa. me lembrei bem disso porque quando jovem também eu tivera espinhas e, embora a igreja ou alguém que não lembro quem me informasse que isso tem relação com atividades masturbatórias, não me considero que eu era um grande punhenteiro à vista do que me fiz hoje, tendo também em conta que meu conceito de punheta aumentou bastante desde então. o pobre cartorário, caso os cônegos estivessem certos, devia de ser um grande mão-de-ferro, se é que me entendem: a auto-ditadura do prazer. essa coisa de dita-dura me faz lembrar outro buraco, de uma menininha de treze anos com quem tive algumas felações superficiais em um show do rock'n roll brasileiro ocorrido em um ginásio universitário de esportes. bem, sei que nessa frase passada há muita coisa errada, principalmente a indicação de existência de rock'n roll brasileiro, o que não me importa agora nem na época me importava; me exportei sim minha mão para dentro da saia dela e, tendo em vista a sua reação típica de um país socialista impondo salvaguardas comerciais para importação de produtos tecnológicos, posso afirmar categoricamente como um garrincha que ela ainda permanece virgem, ou seja, mais um buraco inutilizado neste mundo. o mundo aliás, alguém já me tentou provar que é na verdade um grande buraco, e não uma grande esfera. aceito até atualmente essa teoria, que deixou de sê-la quando tive uma das idéias mais geniais que minha mente já pode produzir sob estado de rampante excitação, com menos ou mais-valia de mim mesmo sobre mim, mas principalmente sobre os outros, enfim: quando, em meio a uma discussão calorada com uma garota marroquina sobre a origem das crateras de golan, ela me disse então que eram colinas, fiquei um pouco irritado e dei um tapa de-baixo-para-cima na tigela de sopa que tomava e esta voou em movimento balístico magnífico até encaixar perfeitamente na cabeça da tal marroquina; daí tirei então duas conclusões: a de que as marroquinas têm cabeça pequena e outra de que uma tigela pode ser também, além de um capacete marroquino-feminino, uma esfera, se bem encaixado em outra meia-tigela. quase escrevi um artigo denominado "a outra face da tigela", mas não encontrei palavras que expressassem de mim mesmo o que eu achava disso tudo, além da ambivalência natural e inerente aos buracos, assim como a tudo neste mundo, ou neste buraco: o fato de que, se sendo, não se é.
Nicodomus L. publica em www.mistiforio-do-cornimboque.blogspot.com
P.S.
Há milhares de buracos.
Um buraco acontece quando se vai longe demais.
A miragem que um sujeito cava pra si mesmo é a face escura do buraco.
A face clara do buraco é o buraco.
O buraco é o lugar de se cultivar a sede.
Não há buracos quentes.
O Saara e o Pólo são buracos frios,
como tudo que a distância faz.
No buraco se anda em círculos.
Não se sabe o tamanho de um buraco,
se ele vai mais fundo.
De dentro tem o tamanho do mundo.
Arnaldo Antunes/Nicodomus L.
quarta-feira, 28 de fevereiro de 2007
morreu
eles noticiam
eles culpam
eles argumentam
eles teorizam
eles não reagem
eles pedem
eles reagem
eles votam
eles brigam
eles julgam
eles prendem
eles sofrem
eles esquecem
e o joão hélio morreu
mesmo
Da Et Cetera #9
Eu no creio-no amor.
Eu num!
cacrinão!
As pessoa se quere comer. Se lambe. Se quere comer tudas. E tudinhorde, té aí. Mas quando quer comer só nenhuma, na certa, naquela (e isso só porque que a dita da outra (pessoa) tinhalá, seimelá, um nariz mais certo, que ela achava (a pessoa) que era o certo, ou uma bunda mais redonda, um brilho nozolhar) aí que elas inventa o treco do amor, pra poder dizer pras outras que era aquela que ela devia comer.
E ai se fosse só isso.
Mas aí elas conta praquela assim também, que que eu te amo, e meu amor, e coise tale tale coisa, e se come. Aí perde a graça e manda embora.
Ou não, porque costuma e melhor não que nada. Aí ficam-se a mando.
Isso que é o amor, amor.
Isso que é.
(Disjecta pedacia d'Orrato, do Caetano Waldrigues Galindo)
A mecânica quântica nos ensina que não se pode saber simultaneamente onde algo está e com que velocidade se move, e nem é possível prever exatamente o que acontecerá em qualquer circunstância. É impossível prever eventos futuros exatamente, quando nem sequer se consegue medir com precisão o estado presente do universo. Provavelmente ninguém entende a mecânica quântica.
(Como não se precipitar em sonhos?, do Pedro Maciel)
Ainda lá, há uma chamada para o site Rattapallax. Não sei direito o que é; posso definir como uma publicação novaiorquina e multimídia de arte contemporânea, com destaque também para a arte brasileira, como Arnaldo Antunes na poesia e Caetano Veloso, Arto Lindsay, Bebel Gilberto e grupo Zuco 103 na música (conforme o artigo publicado na FSP por Manuel da Costa Pinto). A pubicação é distribuída no Brasil pela Editora 34 e parece que o preço de capa é 25 r$ - aliás, o mesmo preço da própria Et Cetera.
segunda-feira, 26 de fevereiro de 2007
Quesabemos: Cardoso
1. A Colher
Colher é um apetrecho TALHÉRICO muito esquisito desde criança e, portanto, muito perturbado pelos coleguinhas na ESCOLA. Com a forma de um GARFO DE LUVA levemente ACONCHEADO, a colher é um ser que cresce para jamais sair do SUBALTERNO. Quando adolescente, serve para fazer todo o trabalho duro; as mais PARRUDAS designadas para SERVIR os pratos e as mais MIRRADINHAS ficam com a tarefa de CAVOCAR sobremesas e sopas. Garfos e facas, que ficam sempre com o mais NOBRE da refeição, deleitam-se com a situação e CAGAM NA CABEÇA da pobre colher.
Mas é no UNDERGROUND que a colher ESMIRILHA todo seu potencial. Já adulta e INVARIAVELMENTE na prisão, desde que BEM LAPIDADA, uma colher pode servir de arma MORTAL. Nas mãos de dentistas CHARLATÕES, que não tem VERBA para adquirir aquele espelhinho altamente tecnológico para ver os dentes lá do FUNDÃO, a colher pode virar um excelente COMPARSA em qualquer tipo de FRAUDE.
Como regra FUNDAMENTAL, uma COLHER somente teme e respeita o profissional do ILUSIONISMO, que tem essa mania irritante de DECAPITAR, AMASSOCAR e MUTILAR o pequeno utensílio com seus PASSES DE MÁGICA. Isto transforma a categoria no único INIMIGO NATURAL da colher que, se não for esperta, já está MOLDADA na forma de um CARRO do URI GELLER a essa altura do campeonato
Cardoso publica em www.qualquer.org/codex
quinta-feira, 22 de fevereiro de 2007
Neutralização de Carbono do Site
Diante dessa rubra constatação, o QSEDQ resolveu neutralizar (saiba mais aqui e aqui) suas atividades, em todos os campos em que atua. Bem, como não encontramos meios de calcular quantas árvores deveríamos plantar, e como nenhum de nós possui um automóvel que multiplique drasticamente nossa dívida com o planeta, decidimos que três, por enquanto, é um número razoável (como sempre é).
Em breve postaremos os comprovantes fotográficos dessa investida.
quinta-feira, 15 de fevereiro de 2007
Que sabemos todos de que?
segunda-feira, 12 de fevereiro de 2007
sábado, 10 de fevereiro de 2007
O Teatro Quântico
Quando o último Papa, o Wojtyla, morreu, fiquei triste, minha garganta fechou e no escuro do meu quarto acendi uma vela em sua homenagem – imagino que Papas devem gostar de velas, o que fiz questão de deixar instantaneamente registrado em uma fotografia da minha Polaroid. Para mim, ele foi o último dos branquelos chefes do Vaticano, pelo menos até agora, porque este alemão-com-cara-de-malvado não é um Papa. Está mais com cara de amigo do Berlusconi e confidente do Bush do que de Papa. Mas não é esse o caso.
Não o conhecia muito bem, o falecido. Via o velhinho da sua janelinha no Vaticano, dizendo umas coisas sempre com sotaque estranho e esse era todo o contato que tínhamos. Ele era o Papa, mas ainda assim se equiparava, no setor de cognição do meu cérebro, à mendiga que via todo dia na calçada da minha rua. Com todo respeito a ambos. Fato foi que eu mesmo não entendi a minha reação com a morte do pontífice Josef.
Não depositei a responsabilidade no título da universidade que eu cursava – a Pontifícia de São Paulo, cujas lembranças estão mais para Fernandinho Beira-Mar e Marcola que o Papa em si. Muito menos em sentimentos nostálgicos do colégio de freiras que estudei do Jardim I até meados da sétima série.
Talvez sentisse de forma reflexa a tristeza profunda que deve ter abatido o nosso enorme povo arrebanhado pela santa igreja apostólica romana; o povo brasileiro de verdade, que tem índio e negro e português e sabe-se-lá-mais-o-quê no sangue. Já que Iemanjá nem Tupã vão morrer, já que nem Jesus, que já tentou, morre mais, esse povo católico (mas meio de esguelha) teve o direito de chorar a ida do único mortal que podiam idolatrar unanimamente. Os sucessos das suas visitas bem mostravam isso, ainda que contassem com o atrativo dos shows do Rei. E nem o Lula morreu nesse interregno para sabermos a verdadeira devoção sentimental do brasileiro ao presidente.
Mas acho demasiada essa minha pretensa super-sensibilidade. Ela não me convence sozinha.
Tampouco haveria de ser alguma verve católica da minha parte. Até fui batizado na Igreja Matriz de uma cidadezinha, prima-comunhado em outra Igreja Matriz de outra cidade e, como disse, estudei anos em colégio de freiras. Mas depois me neguei tão peremptoriamente a possibilidade de fazer a Crisma que não houve mais insistência familiar. Hoje Jesus é uma lenda-espelho de Buda, que é outra lenda, e a Bíblia um compilado de lendas vertidas num códice por interesseiros da antiguidade. Tudo com seu devido valor - devido.
O que foi aquilo, então, meu deus?
As forças midiáticas agindo sobre minha mente indefesa?
Dada a minha midiafobia, mesmo ainda em estado inicial, não creio seja essa a resposta.
Coincidência com um meu estado de fragilidade em virtude de uma crise (i) existencial, (ii) amorosa, (iii) familiar, etc? Nãão... não havia crise competindo com o plantão da Rede Globo e as manchetes do UOL.
Foi então que, um ano e tanto depois, o finado Karol me emocionou novamente, agora com o auxílio evidente de artimanhas midiáticas. Isso quando assisti a um filme – patrocinado pelo Vaticano – sobre a história do tal polaco. O roteiro ia da sua infância à eleição vencida no Vaticano. Passava pela perseguição nazista, a morte do pai e dos amigos, o amor de uma mulher renegado pela batina, a pregação, os supostos milagres que justificaram sua santificação-relâmpago, etc. Então e só então aquele sentimento no meu quarto escuro fez sentido; quem viu o filme com o mínimo de sensibilidade deve ao menos compreender o que digo. Nesse tipo de película nos esquecemos de qualquer discussão sobre as maldades que o bom protagonista defendeu para nos concentrarmos nas coisas boas e capazes de nos emocionar – exercício, aliás, que pode ser praticado de vez em quando com relação a outras coisas neste mundo. Ademais, eu até concordo com a sua contrariedade à camisinha, embora tenhamos, eu e ele, motivos distintos para tanto; mas os motivos não importam quando chegam ao mesmo lugar.
Era a hora certa de entrar em cena. Foi só então que se fecharam as cortinas. Os sentimentos me mostraram que nada têm a ver com esse Tempo que me empurra o tempo todo. Eles se interconectam quanticamente como se estivessem lado-a-lado no mesmo palco e na mesma peça, ainda que anos ou quilômetros distantes entre si; se explicam, se completam, se relacionam, travam diálogos e desfilam monólogos, tudo neste palco aqui: eu. O caso do Papa foi uma peça no meio de outras infinitas que nem sei se começaram e ainda vão terminar, ou se já terminaram e ainda vão começar. Neste meu teatro quântico particular nem eu tenho voz; não posso escolher a hora de entrar ou sair de cena: sou só o palco.
quinta-feira, 8 de fevereiro de 2007
terça-feira, 6 de fevereiro de 2007
EntreVistas: Pira (Parte Final)
JP: Pira, qual foi a viagem mais marcante que você fez?
PIRA: Um vez sobrevoei as cataratas do Iguaçu de helicóptero...
JP: (interrompendo) Playboy, hein...
MARCO: Qual era o modelo?
PIRA: Do helicóptero?
MARCO: Não, do seu vestidinho...
JP: (risos contidos)
PIRA: (vermelho, o rosto) Sei lá, porra.
JP: Hum, ficou nervoso.
MARCO: Então foi por ali que você aprendeu o seu fluente espanhol?
PIRA: Não, não, eu já tinha ido pra Argentina outras vezes.
JP: (cochichando) Marco, gravou isso?
MARCO: (também cochichando) Sim. Parece que ele foi pra Argentina...
JP: Esse cara é louco.
MARCO: Pirado...
PIRA: Comé que é?
MARCO: Pira, mudando de assunto, por acaso você não viu por lá um sujeito de baixa estatura, chamado Galberti Mainardi?
PIRA: Mainardi... Mainardi... Não é aquele escritor?
MARCO e JP: Isso!
PIRA: Sim, sim. Li a última coluna dele na Veja.
JP: Na Veja?
MARCO: Veja?
PIRA: ...
JP: (decepcionado) Pira, obrigado pela entrevista.
MARCO: (calado, ajeita suas anotações - como faz o William Bonner - e se retira do ambiente).
PIRA: ...
segunda-feira, 5 de fevereiro de 2007
Relato inacreditável
Passo os dias, já faz algum tempo, sentado à minha mesa que é voltada para a janela. Não que fique olhando pela janela o dia todo; não é esse o intuito. Mas acontece, não raro, de eu ser levado por um pensamento passageiro a divagar e contemplar a vista, diga-se de passagem não das mais bonitas. Paisagem urbana repleta de prédios encavalados uns nos outros, com cores horrendas, arquiteturas esquisitas (os arquitetos realmente não tiveram muito bom gosto nos anos 70 e 80) e, mais recentemente, consta na vista uma imensa antena que brota por entre os prédios para ganhar os céus, concorrendo com os helicópteros que pousam aqui ao lado. Essa antena, em particular, faz da experiência de morar aqui um bocado peculiar: me sinto sendo fotografado continuamente quando aqui nesta mesa estou lendo nas madrugadas. Há quatro lâmpadas ao longo da antena que funcionam como flashes que disparam simultaneamente de segundo em segundo e com tamanha potência que quando está escuro - ou quase escuro, porque escuro realmente é difícil de ficar com tanta iluminação afora - funcionam como verdadeiros flashes de máquina fotográfica. Por vezes é deveras incômodo, mas ao menos já me valeu um momento de êxtase interativo-literário. Outro dia, eu lia e, quando num episódio em que a personagem chegava à delegacia cercada de jornalistas a fotografando, senti que os flashes da antena à minha janela saíam mesmo era do livro. Serendipidade.
E lendo estava eu quando algum pensamento mais forte que minha concentração me fez levantar a cabeça. Tirei os olhos do livro e os coloquei a olhar pela janela. Nessas ocasiões, não é difícil ver um mosquito qualquer debatendo-se no vidro, com planos de atravessá-lo. Quando estão do lado de dentro até faço questão de os ajudar a sair, abrindo a janela e os colocando para fora com uns abanões. Hoje, porém, ocorreu algo inacreditável. Olhando pela janela, vi que um mosquito vinha de fora e estava resoluto a entrar. Não debatia-se no vidro repetidamente. Foi como se ele tivesse apenas uma única chance, quando veio de chofre e atravessou o vidro num vôo reto e certeiro. Até joguei a cabeça para trás, como quando se assiste a um filme 3d. Quântica! Esses mosquitos entendem é de quântica! Passada a surpresa, fiz como de costume. Abri a janela e o ajudei a sair - quem é que quer ficar nesta janela a ouvir demolições quando se pode voar?
domingo, 4 de fevereiro de 2007
EntreVistas: Pira (Parte 2)
JP: Pira, esqueça isso, vamos voltar. Você já preencheu algum formulário?
PIRA: Por supuesto.
MARCO: (comentando) Olha o Pira...
JP: (com todo respeito) Você acrescentaria um terceiro quadradinho na opção "sexo"?
MARCO: (risos contidos).
PIRA: (pensando longamente).
MARCO: Deixa pra lá. Você deve saber que "pira", na língua tupi, é "peixe". Muitos nomes de cidades brasileiras são formados por essa palavra como sufixo ou prefixo, como, por exemplo, a sua própria cidade natal, a agora famosa "peixei grande". Se você pudesse escolher, você seria o quê? Sufixo ou prefixo? Se sufixo, qual seria o seu prefixo, ou vice-e-versa?
JP: (risos mais ou menos contidos).
PIRA: (pensa ainda mais longamente).
MARCO: Então... (ansiosamente tamborilando os dedos na mesa, um seguido pelo outro, começando pelo dedinho).
PIRA: (começa a escorrer uma gota de suor da sua têmpora direita).
JP: Quente hoje, não?
MARCO: Um minuto (sai do ambiente e volta com um termômetro). Vinte e dois graus... (suspira).
JP: É... não muuuito. Onde estava esse... esse...
MARCO: (interrompendo) termômetro.
JP: Isso! Onde estava?
PIRA: (segue pensando e suando).
MARCO: Na geladeira.
JP: (se levanta correndo) Tem que aumentar a temperatura, caralho! As cervejas ... (grito inaudível vindo da cozinha).
MARCO: (segue tamborilando os dedos na mesa).
PIRA: (já não se sabe se ele estava mesmo pensando, mas com certeza suando).
JP: (volta cabisbaixo).
MARCO: João, estava na porta da geladeira.
JP: É...
PIRA: (de supetão) Ah! Já sei!
(a continuar)
Plantão QSEDQ
A Redação acaba de receber uma ligação anônima informando que o escritor Galberti Mainardi, desaparecido desde o último 04 de dezembro, quando misteriosamente sumiu ao meio da procissão de Santa Bárbara em Patchuco, foi visto na fronteira tríplice Brasil-Argentina-Paraguai. As autoridades investigam uma possível ligação do barbudo escritor com Osama Bin Laden e a mundialmente conhecida Al Qaeda (o que repelimos veementemente).
sexta-feira, 2 de fevereiro de 2007
quinta-feira, 1 de fevereiro de 2007
QSEDQ EntreVistas: Pira
Bobagem, vamos ao Pira.
Pira é o gerente administrativo de uma unidade do Exército brasileiro. Ele prefere não mencionar mais detalhes sobre isso. Por que escolhemos o Pira? Ele lê, e escreve. Entrou em contato com a redação deste ignorativo, queria publicar também. Mas como achamos que o Pira era por demais o Pira, pensamos uníssonos (embora os pensamentos não emitam sons, ao menos os das pessoas educadas): interrogue-mo-lo.
A argüição durou aproximadamente 15 horas. Nenhum de nós sabe precisar o tempo exato, pois em certo momento revezamos e em outro, dormimos (cada um em seu respectivo espaço particular). Mas não é isso o que importa: para uma melhor digestão virtual, cortamos os trechos de silêncio (aproximadamente 4 horas), além dos papos-cabeça (27 minutos) e resumimos tudo em 3 partes, que serão publicadas com um breve intervalo entre si, de modo que dê chance para que o leitor naturalmente faça as reflexões cabíveis.
A inqüirição teve um resultado notável pelo nível de QSEDQ do entrevistado (já falamos do índice que inventamos, o "nível QSEDQ" de ignorância positiva?).
A perqüirição se segue, e basta de sinonímia.
JOÃO PEDRO: Pira, prazer. Isso chega a ser um trava-línguas, hein (risos).
MARCO: (que não ri) Não foi boa, não, João.
JP: É... Pira, quantos anos você tem?
PIRA: Trinta e cinco na certidão. Mas onde nasci...
MARCO: (interrompendo) Onde você nasceu?
PIRA: (irritado) Mas onde nasci não havia...
MARCO (interrompendo novamente): Onde você nasceu mesmo?
PIRA: (finalmente ignorando Marco) Não havia cartório nem nenhuma autoridade, lá ...
JP: (enquanto Pira continua falando) Marco, acho que ele não sabe...
MARCO: (Pira ainda fala) É...
JP: (Pira...) Foda-se, volta o gravador pra ele.
MARCO: (...) É melhor...
PIRA: ... então papai e mamãe resolveram fazer isso e eu prefiro dizer mesmo que tenho 35. Mas vai que tenho 40, 45. Ou mesmo 25. Se isso tivesse acontecido mesmo, se eu tivesse mesmo 25 anos, imaginem, há 10 eu tinha 15 e há 25 eu estaria nascendo.
JP: Faz sentido.
MARCO: Mas porque você chama seu pai de papai? Ao invés de você, você também diria "vossa mercê"?
PIRA: Não sei... (pensa longamente). De qualquer jeito, você não é papai (fazendo voz de nenem).
MARCO: Opa, Baby...
JP: Marco, espero que também não seja eu (risos, menos do Pira).
MARCO: (mais risos, não do Pira).
JP: Quero deixar claro, Pira, que não fumamos nada.
MARCO: (termina de rir). Pira, por que Pira?
PIRA: Pira apelido ou pira verbo?
MARCO: E verbo tem letra maiúscula?
JP: Marco, ele não está lendo.
MARCO: É mesmo... (conformado, cruza os braços) apelido.
PIRA: Todo mundo acha que é por causa do Pirajá, mas não é, não. É que lá em Piranguçu, onde nasci...
MARCO e JP: (interrompendo) Ahá!!!
(a continuar)
terça-feira, 30 de janeiro de 2007
Nota de Desaparecimento
Galberti foi visto, pela última vez, por um taxista que o deixou na procissão de Santa Bárbara, ocorrida na manhã daquela segunda-feira, na cidade de Patchuco. A foto divulgada pelas autoridades locais mostra a procissão que contou com algumas dezenas de pessoas. O motorista que o conduziu do hotel ao cemitério de onde saiu a procissão, interrogado pela polícia, relatou que o escritor vestia uma jaqueta cor káki, uma calça preta de moletom com os vincilhos desamarrados e levava consigo uma maleta de couro marrom. Disse, ainda, que levava um ar de preocupação e parecia atabalhoado. A queixa de desaparecimento foi dada à polícia pelo gerente do hotel em que Galberti se hospedava, que notou a ausência do hóspede na manhã da quarta-feira. Galberti era devoto de Santa Bárbara e supostamente voltava a Patchuco para agradecer uma graça alcançada.
Outro linha investigativa seria uma secreta ligação mantida entre Galberti e a poderosa máfia local de Patchuco. Comandada pelo Señor Alvarez, el Chuco, essa organização criminosa domina o cartel mundial de suprimentos para máquinas de datilografar, além do concorrido mercado de antigüidades gráficas. O mais recente levantamento das autoridades locais estima que o Cartel de Chuco movimentou em suas contas espalhadas pelo mundo valores superiores a milhões de dólares, em 2006, contrabandeando, inclusive, cerca 3 mil unidades de fitas-refil para datilográficos de todo o mundo. A participação de Galberti no esquema, entretanto, ainda é obscura e incerta.
Alguns amigos mais próximos não descartam a possibilidade de Galberti ter forjado seu próprio desaparecimento. Eles relatam que ultimamente o escritor vinha apresentando períodos longos de ausência e, contrariando sua natureza, deixava freqüentemente crescer sua barba e seus cabelos.
A redação conversou com um colega do desaparecido, que preferiu não se identificar. Ele confessou que sua opinião particular é de que a solução do caso reside em duas probabilidades.
Ele acredita na segunda possibilidade: Galberti nunca existiu e foi ao cemitério para, então, nascer. O amigo compreende a dificuldade de se entender tal afirmação, mas lança uma bomba: "Galberti nunca foi um sujeito descomplicado". Ele acredita, pela leitura dos escritos deixados pelo escritor, que este vivia em um estado psicológico de não-ser e que só poderia se libertar da inexistência e adentrar num mundo de opostos, onde finalmente poderia ser reconhecido como o que realmente viria a ser, quando provocasse em si mesmo o que chamava de Salto Dialético. Ele conecta diversos indícios da obra e da vida do escritor que apontam para essa possibilidade:
- Galberti exercia trabalho voluntário na favela de Heliópolis.
- O escritor queria ser, na verdade, um famoso escalador.
- O desleixo com a barba e o cabelo seriam, na verdade, um recado do seu Id de que queria ser decapitado, ou seja, romper seus laços com o Grande Pai e a Grande Mãe e, assim, finalmente ser tido como um ser que realmente se é.
- Sua banda musical preferida é o praticamente desconhecido trio de música experimental chamado "Hegel e o Salto Dialético".
- Um de seus famosos contos fantásticos narra a história de um homem rico sendo frito (fried-rich) pelo Rei Guiherme VI (Wilhelm) em uma grill George Foreman Jumbo (Georg): o nome completo de Hegel era Georg Wilhelm Friedrich Hegel.
Coincidências ou premeditação, é algo extraordinário, como tudo aquilo no que Galberti se envolvia (inclusive este site). Até o momento, as investigações das autoridades de Patchuco prosseguem sem qualquer pista concreta.
segunda-feira, 29 de janeiro de 2007
Reflexões úteis sobre a cidade de agora e a do futuro
Suplemen+o Literário de Minas Gerais
Trechos de A memória como fundamento da cidade futura,
de Carlos Antônio Leite Brandão
"O inferno dos vivos não é algo que será; se existe, é aquele que já está aqui, o inferno no qual vivemos todos os dias, que formamos estando juntos.
Existem duas maneiras de não sofrer.
A primeira é fácil para a maioria das pessoas: aceitar o inferno e tornar-se parte deste até o ponto de deixar de percebê-lo. A segunda é arriscada e exige atenção e aprendizagem contínuas: tentar saber reconhecer quem e o que, no meio do inferno, não é inferno, e preservá-lo, e abrir espaço."
(CALVINO, Italo. As cidades invisíveis)
"Comecemos por ver as imagens do futuro da cidade que a ficção nos relata. Em Blade Runner, de Ridley Scott, vemos um espaço público cinzento e decrépito sob a chuva ácida. Todo encontro com o outro é monosilábico e áspero, todo diálogo é evitado no meio do tédio que se expressa nas feições dos pseudo-cidadãos, habitantes de um espaço comum mas que com ele não se sentem comprometidos. (...) Exilados de um destino comum, esses pseudo-cidadãos também não têm memória e um patrimônio compartilhado: não se constituem como membros de uma res publica, mas como seres atomizados numa massa desnorteada, desmemoriada e sem liberdade. A Los Angeles de 2019 figurada na película é o território tumultuoso onde outrora havia cidade e cidadãos e que se tornou uma somatória de guetos e replicantes. Governada pela economia e pela técnica, as leis que a regem não se engendram são-nos impostas: somos, novamente, servos dentro de um espaço composto por feudos e onde o mundo público converteu-se na escória do universo privado. Ele não é mais o abismo onde se enterrou toda memória, toda festa e toda troca de experiências concretas."
"(...) A cidade do futuro, antes pensada em torno de um ideal ou de uma utopia, passou a ser tratada como o supermercado do gozo e como objeto de satisfação e necessidade, não de liberdade."
"(...) A cidade constitui-se como o espaço do diálogo e do encontro com os outros do espaço (dos vivos e contemporâneos) e do tempo (os mortos e os que irão nascer), interlocutores sem os quais não há república, não conquistamos nossa identidade individual e coletiva, não desenvolvemos nossas potencialidades e o sentido de nossa existência. (...) Esse encontro é um encontro entre os heterogêneos que a cidade deve produzir e abrigar, e a partir dos quais realizo minhas escolhas. O encontro entre iguais - como tribos, gangues, condomínios fechados e comunidades restritas; como as dos shoppings, café-bar, clubes e pubs de toda espécie mas nos quais, como ordens religiosas, só interagem os semelhantes - não constitui a pólis e o máximo que se instaura e a sociabilidade de comunidades restritas onde só me relaciono com o igual a mim. O todo da pólis permanece, assim, apenas uma somatória de partes em cujos interstícios ela se perde."
"Trata-se de uma cidade que não fala de nós, e nem nós falamos nela. A cidade do futuro parece muda e muda fica sua memória. Isso já estamos construindo, como ao estetizarmos o patrimônio histórico e a memória herdados."
texto integral em Suplemen+o
sábado, 27 de janeiro de 2007
um estudo sobre o suicídio
terça-feira, 23 de janeiro de 2007
Este texto não daria um monólogo para teatro?
sexta-feira, 19 de janeiro de 2007
o que a senhora está olhando vovó? a vida, minha filha. mas que vida, vovó?
pois sim, continuo mas em favor da memória de meu avô, ali ficou a velha e meu avô, desesperado por não saber o que se passara, atordoou-se por completo, e se não fosse janela diria que chegou a bater com o nariz em uma, mas o era, e ficou ali, até que se virou e viu, o mundo estava cinza, cinza, exclamei, pois cinza, não crê, é que... não crê, eu sabia, pois creio, não crê, a uma janela não se engana facilmente, no entanto agora irei até o fim, seguiu determinada a janela, e me conta meu avô que o mundo continuou cinza, e a senhora ali parada, e assim por meses, até que um ramo começou a nascer em uma árvore, um broto verde, intensamente verde, e meu avô ficou ali a apreciar o ramo, já esquecido das cores que estava, e o ramo crescia, viçoso, e o finado teve uma idéia, se a velha visse a cor poderia voltar a viver, se o feitiço fora do contrário, eu digo feitiço mas não foi isso que me foi dito, eu que tenho isso para mim, pois continue, pois continuo, mas como faria uma janela para mover uma senhora petrificada, lhe pergunto, e eu que não sou janela saberia, oras, pois nem ele, lhe digo, e a minha janela ficou em silêncio a mirar o movimento do exterior, uai, é isso, acabou, perguntei ao esperar alguns segundos a ver se ela rompia o silêncio, sim, ela respondeu e eu, inconformado, só sim, perguntei novamente, sim, ela disse melancólica e perguntou com voz boba, moral da história, não seja tapado, o senhor é escritor, deveria ter mais sensibilidade, hein, e pus-me a pensar, a pensar, e nada, pois pode parar de pensar, não vê que a vida passa de acordo com o que se vê pela janela, ela sentenciou um tanto convencida, mas não é que a danada tinha lá sua razão, e pus-me a pensar novamente, mas agora em reflexões filosóficas, reflexões de janela, devo dizer agora, quando ela me interrompeu, o que está olhando, meu senhor, perguntou, eu, nada, a vida, mas que vida, meu senhor? desgraçada.
a janela







