sábado, 24 de junho de 2006

XCIX - II

Otros días vendrán, será entendido
el silencio de plantas y planetas
y cuántas cosas puras pasarán!

pablo neruda



capítulo segundo – a resolução, a revelação e o encontro

lá dentro, ela padecia, e não pouco, - ou fosse mágoa pura, ou só despeito; e porque a dor que se dissimula dói mais, é mui provável que virgília padecesse em dobro do que realmente devia padecer. creio que isto é metafísica.
machado de assis

não havendo meios, e sendo eminente a lua cheia, resolvi passar um mês com meus familiares no interior. no entanto, foi-se a lua cheia e não deram coisas do amor, tanto por mim quanto por ela, que não haveria de fazer mais pelos amantes. passadas duas semanas, fechei-me no quarto para descansar e acendi uma vela simples, coloquei alguma música e perdi-me em cecília por mais de uma hora, creio. estando a vela e a imaginação ao fim, dei-me conta do que resolveria meu sofrimento. é aí que chegamos ao início da história.
aquela era a cecília que mil eisteins não revelariam, perdoem minha falta de modéstia. mas destrinçando-a como faço, fica fácil, facílimo, o que não era, creiam-me. descobri, enfim, sob a luz arquejante e moribunda daquelas velas, o segredo de cecília – ah, se aquiles soubesse, agradeceria seu calcanhar! em poucos minutos tratei de escrever-lhe uma carta e fazê-la despachar logo pela manhã. aquela é cecília lendo a carta que a remeti, posso jurar-lhes. a carta, devo dizer, era uma legítima obra-prima, e como aquiles veio-nos em metáfora, que fiquem ao chão mais mil homeros! antecipei minha volta, estava exultante, cecília nenhuma resistiria àquele golpe.

chegando à capital, liguei para cecília, dei-me um dia, marcamos um almoço em um restaurante próximo à sua casa, discreto, sim, mas escolha minha. no outro dia me aprontei e fui ao seu encontro. a bordo de um táxi que me levava ao destino, sonhei uma cecília desmascarada, uma cecília de olhos claros e brilhantes, que abriria os braços para me beijar no meio do restaurante! ah, naquele caminho, as esquinas eram bodas, os automóveis padrinhos da nossa felicidade, os ruídos, as freadas, o burburinho, fogos que estouravam ao nosso beijo! o troco da corrida foi o dízimo devido ao procurador dos céus que selou com benção nosso amor: taxistas, se tuas corridas fossem movidas do meu sentimento, seríeis ricos, riquíssimos; mas não haveria de haver amor como aquele, perdoai-me a sinceridade. pois deixemos de aforismos religiosos e vamos indo. chegando ao restaurante, achei cecília sentada de costas, virada para a janela que dava para o jardim, a claridade do sol caía-lhe no vestido branco, imagem linda, cingindo-a com uma espécie de áurea luminosa. lindíssima. dei por esquecido meu coração desavisado, indeciso entre os solavancos das emoções e a serenidade da visão, e fui ao encontro de cecília com uma bela rosa branca na mão.

sexta-feira, 16 de junho de 2006

ESCLARECIMENTO PÚBLICO

O QSEDQ esclarece a quem isto possa interessar que é a favor do tráfico de
idéias.

quarta-feira, 14 de junho de 2006

?: estado permanente das coisas

XCIX

Otros días vendrán, será entendido
el silencio de plantas y planetas
y cuántas cosas puras pasarán!

pablo neruda



capítulo primeiro – as velas, a vela e cecília

a pedra é sofrimento
paralítico, eterno.
carlos drummond

era um quarto com grande pé-direito, a luz que saía das velas pendia no escuro, espetando às paredes um bilho fraco, amarelado, degladiando-se com o ar: murmurando vida, enfim. e porque viver é lutar e velar, ali estavam os olhos de cecília. mantinham-se discretos, com ares de desprezo ao mundo que sempre tiveram, mas que vida queriam não ser? a vela teimava no brilho dos olhos de cecília. postada como quem é vítima de outros olhos, cecília lia a carta relutando, talvez bravamente, às primeiras linhas, certa maneira em coro com as velas agonizantes. ah, como se relutava naquele quarto de grande pé-direito! o papel, digo-lhes desde já, fora cuidadosamente escolhido, tinha ares originais de luz de vela, ainda que o sol fosse por ali despejar toda sua candura.

cecília era vida mas também era morte, a semente da essência humana cultivada e produzida pela mais desumana das mulheres que conheci, pura como as plantas, silenciosa como os planetas. desprezava o mundo por se sentí-lo todo, como uma santa sem um deus, ou uma bela fotografia nunca vista. era alva porque nem o sol a atingia e nem a noite a escurecia. era de altura mediana, olhos e cabelos escuros, ouvia clássicos, dizia-se. usava vestidos soltos e com pouca ou nenhuma estampa que a deixavam bela, cecília era bela, devo dizer, uma beleza que padecia em um banho de sombras e luzes.
apaixonei-me por muitas mulheres, valendo-me das qualidades e desprezando os defeitos. mas cecília não tinha um nem outro. era sempre algo justamente por não ser, tudo sendo nada. sua pele clara estendia uma longa e opaca cortina negra aos olhos dos homens. o seus, desabitados de janelas, suas vozes vazias de ruídos; um eterno nevoeiro, nítido como a leda de da vinci. creiam-me, não há outro modo de descrição: desvendá-la era mergulhar no universo pelo abismo do nada; mirar o infinito; chegar a cem contando até noventa e nove. e amá-la... quanto sofri amando cecília!
se o leitor é distraído, confesso-lhe: dali a pouco estava eu dando voltas para conquistá-la. de início, pelo modos ternos em que se afigura, fui-lhe com pequenos recados, coisas doces e discretas; mas tendo ela se mantido indiferente a todos meus chocolates, mais ou menos amargos, saí com outras estratégias, de efeitos igualmente vãos e efêmeros. a essa altura, no entanto, os sentimentos por ela fizeram da insânia o crepúsculo do amor. porém eu, de boas razões e companhias, avisado por ambas do caminho que havia tomado, tomei uma resolução.

quinta-feira, 8 de junho de 2006

Parcos e Menosprezados Leitores,

Espero que esse tempo esteja chegando ao fim, vejam que lhes coloco letra maiúscula como sinal de respeito. Finalmente consegui preparar-lhes algo que deixasse de lado minha habitual preguiça. Que lhes alcancem a altura em qualidade, não digo, mas em esforço, confesso. Publicarei nas próximas três semanas uma história de amor, dividida em capítulos, a cumprir as exigências dos patrocinadores e o dever de não enfastiá-los. Ah, sim, peço já que me perdoem por alguma dissidência com o dicionário e com a gramática, tenho desculpa: as dissidências enriquecem. O primeiro capítulo vai pela semana que vem, os outros seguirão.

E vamos.

terça-feira, 6 de junho de 2006

Mais Contos Folclóricos

uma certa mulher tinha um filho mui casmurro, que não brincava nunca, nem sozinho, nem com as outras crianças. tendo ido consultar uma velha curandeira da região para resolver o problema do filho, ela foi instruída a fazer certa coisa. meditou muito a mãe se realmente deveria fazer aquilo, mas, ficando mais desesperada dia após dia, decidiu tentar. então, num dia de chuva, fez-lhe um barquinho de papel, mui grande e formoso, levou o filho com muito esforço para fora de casa, colocou-o em cima do barco e ambos numa pequena corredeira formada pela água da chuva, que carregou-os abaixo. ao lado de tal barco, colocou outro, bem menor e com um pedido escrito num pedaço de papel, que o garoto fosse como uma criança qualquer. o barco grande, então, encalhou em um local de profundidade menor e o pequeno seguiu até desaparecer da vista da mãe. a curandeira afirmara que, assim, o pequeno barco iria para o rio sagrado e circular de anutaz e que, ao completar a primeira volta, o desejo começaria a ser realizado. passado um ano, a mãe, não tendo notado diferença nenhuma no comportamento do filho, procurou a curandeira. ela a recebeu com muita atenção, perguntando-lhe o que desejava. a mãe, angustiada com o filho, questionou-a quando o pequeno barco daria a primeira volta. a velha encarou-a séria e disse:
- a volta do rio durará a vida do seu pequeno filho.
a mãe, então, ficou revoltada com a resposta e a velha, vendo o nervosismo da mãe, acrescentou:
- se quiseres, podes acompanhar o pequeno barco, eu posso te mostrar o caminho.

sexta-feira, 2 de junho de 2006

Contos Folclóricos da Anutaz

havia a história, narrada pelos antepassados, de que um jovem filho, tendo se revoltado com as imposições do pai, fugiu de casa e andou muito, embrenhando pela floresta, até alcançar um rio, de água correntes e límpidas. posto já estar escurecendo, resolveu acender uma fogueira e repousar ali, embaixo de uma árvore de frutos doces, e dali a algum tempo, adormeceu. tendo o fogo apagado, e o frio lhe abatido, acordou trêmulo, desejoso de seu quarto e sua coberta, e temeroso dos espíritos que habitam a floresta. foi então que, mirando apavorado e imóvel a última brasa, esta começou-lhe a falar com brilhos. assim que, de brilhar mais ou menos, fazia-se sua linguagem, perfeitamente compreendida pelo jovem. a conversa foi longa, mas ao fim, a brasa, identificando-se como a mensageira da natureza, lançou uma maldição ao filho rebelde. o jovem deveria perseguir a onda d’água do rio que primeiro refletisse o sol da manhã. aquele era o rio anutaz, o rio que gerou o grande criador, que não possuía nascedouro nem tampouco foz.

segunda-feira, 22 de maio de 2006

o preço de deus


- não sei, eu queria ser cego, às vezes.
- por que?
- porque ver é doloroso.
- mas há várias coisas para se ver...
- mas não consigo deixar de enxergar coisas que para os meus olhos são extremamente injustas e controversas, mas que para as pessoas, a maioria delas pelo menos, é algo comum, é fonte de dinheiro, é o cotidiano.
- você deve considerar que está em uma fase ruim...
- não sei, não consigo deixar de pensar que eu não quero viver essa vida quando acabar essa merda toda.
- veja por outro lado, veja as pessoas, você tem sorte, não acha?
- fodam-se as pessoas, foda-se o que as pessoas esperam de mim, porque o que eu espero da vida não é isso.
- o que você espera da vida, então?
- sabe, ontem estava com uma amiga e perguntei o que era deus para ela. ela respondeu que era o ser que dava destino ao mundo. então perguntei qual era o sentido da vida para ela, por que deus a colocou aqui. ela disse que a vida era nascer, estudar, fazer faculdade, trabalhar, ganhar dinheiro, comprar coisas e saber fazer disso o melhor para você. então eu ponderei se deus (o deus que ela acredita) realmente a colocou aqui para ganhar dinheiro. e essa idéia é inaceitável.
- mas é a realidade...
- eu sei, mas que a realidade é essa, tem que ter grana para se viver? quero dizer, o dinheiro é inerente à experiência de se viver, na sua forma original, fundamental?
- não digo que seja, mas me parece que atualmente sim.
- certo, mas daí surgem várias questões. como ganhar grana? o que fazer com isso? será que é isso mesmo, tem que ficar sentado na cadeira para viver?
- não, não é preciso ficar sentado na cadeira, mas tem que se sacrificar. pelo menos é isso que enxergo.
- não, eu não consigo me convencer com isso. é quase uma tortura pensar que amanhã, semana que vem, ano que vem, eu ainda estarei aqui. que tem um puta mundo aí fora para se conhecer, um monte de cultura para viver, montanhas pra subir, mares para velejar, pores e nasceres de sol para se ver, enfim, há toda uma criação divina para se experimentar, e que eu vou estar aqui, acordando as oito, chegando as nove, saindo as dezenove, dormindo a uma.
- essa é a sua vida...
- quem disse, quem colocou essas regras na nossa vida? quem nos obrigou a fazer isso que a gente faz? isso é o melhor pra gente?
- você vive em uma sociedade, deve obedecer a suas regras, do contrário não estará vivendo.
- não sei, continuo sendo contra as instituições, enquanto conjunto de regras criadas por alguém para te direcionar. como se eu precisasse desse tipo de regras. respeito as regras da natureza, respeito as regras que nossa essência nos impõe e que a personalidade de cada um impõe a cada um.
- sim, há essas regras, mas não são as únicas.
- deveriam ser. tudo é tão passageiro e a gente é tão preso sem razão alguma para isso...
- essa coisa de tudo é passageiro é pensamento de velho, hein...
- é, eu posso ter me cansado cedo demais de seguir o rebanho, passar pela porteira, ser carimbado, comer ração...
- ...
- é tudo aparentemente bom, mas se você vir o pasto cercado de cima da montanha, acho que você poderá ver que a liberdade realmente não tem preço.

quarta-feira, 17 de maio de 2006

Testemunho de um leitor

ela me ligou logo cedo, eu ainda nem tinha começado a tomar meu café, lido meu jornal, nada. estava lavando o rosto e corri para molhar o telefone. queria combinar algo, queria que dessa vez desse certo. a gente era assim, desses romances que darão certo, mas ainda não deram. na verdade nunca se sabe se vai ou não. ela queria, eu também. achei bom, vamos sair, sem compromisso, talvez a falta de peso ajudasse a decolar, eu sei, a metáfora, mas é isso. comecei o dia bem, pensei, pensei... fui ler o jornal, na verdade fui direto pro horóscopo, ia dizer “hoje vênus alinhado com mercúrio proporcionará bons fluidos aos seus relacionamentos”. mas não, dizia que sol, ou a lua, já não sei mais, ia atrapalhar, era pra ficar em casa praticamente. aí fudeu, pensei, não podia ser hoje, não hoje. fudeu. liguei pra ela, nem lembro, disse que não dava e acho que ela concordou rápido porque eu estava alterado, não como agora, agora estou mais calmo, quer dizer, um pouco, imagina você no meu lugar. puta merda, só comigo. desmarquei e pelo menos fiquei mais tranqüilo, até porque ficou de algum jeito marcado para o dia seguinte pelo menos. mas aí que veio a merda, saí pra tomar um café depois do trabalho, sei lá, fazer alguma coisa pra não lembrar que tinha deixado de sair com ela depois de ter pensado que daquela vez daria certo, e antes de chegar na padaria senti alguma coisa, que iria encontrá-la, não que eu soubesse que ela estava lá nem nada, mas foi uma coisa esquisita, não sei, um aperto estranho, pressentimento, sabe. não vi mais ninguém, parecia que o resto tinha escurecido e só ela estava sentada em uma mesa no meio de tudo, iluminada para mim, meu coração quase veio pela boca e saiu pulando com vergonha, e antes de eu poder pensar em voltar atrás, ela me viu. puta, sequei, acho que devo ter ficado branco. puta que pariu, acho que nunca pensei tanta coisa em tão pouco tempo. mas quando a imagem foi melhorando, ela me olhando também pálida, vi que ela estava com um outro cara. puta merda, caralho. filho da puta, filha da puta, ela, ele, eu, todo mundo. vai toma no cu, que que eu ia fazer? comprei um chiclete, dei um oi de longe, sei lá o que mais. saí, lógico! nem sabia o que pensar, o que fazer, fui parar em algum lugar, aquele filho da puta, goiaba, com aquela cara de parceiro perfeito, “ai bem te compreendo”, vai toma no cu todo mundo. saí cego, não devia ter saído, pensei, horóscopo é tiro-e-queda. mas aí olha só, voltei pra casa, não quis nada, fui tomar banho, bebi quase uma garrafa de vinho e dormi, é tudo que eu precisava. acordei mal hoje, tô um pouco mal ainda, enfim primeira coisa do dia fui ler o horóscopo, e não é que aqueles filhos da puta do jornal dão um aviso “desculpem leitores o horóscopo de hoje foi publicado ontem”. e agora?

P.S.: Se interessar, temos o testemunho em áudio...

E agora, José?

terça-feira, 16 de maio de 2006

operação ilegal

por em ordem alfabética

Marco e J.P. Cilli

cagarola

povo ficou de estola
o povo pachola
o povo da bola e da viola
o povo da esmola
o povo agora é cagarola


Marco e J.P. Cilli

sexta-feira, 12 de maio de 2006

Ainda sobre o 3º olho

Primeiro, não acho que é possível ver tudo de fora sem a consciência de ser o que é. É por isso que fiz a questão, isso dá tilti mesmo. Mas no fim tenho a impressão que o terceiro olho faz as coisas perderem a magia. Daí penso duas coisas: será que as coisas na realidade não têm magia alguma ou será que a realidade não pode ser experimentada pelo terceiro olho (a realidade que o terceiro olho observa)? Para entender isso, também há de se definir uma coisa: o terceiro olho é um sujeito ou não? Ou seja, ele participa ou só observa? Nesse último caso, podemos considerar que ele não tem sentimentos? Pois sim, ele tem sentimentos porque analisa (e sente) tudo o que vê, tendo como preceito que está se enxergando, o que lhe dá uma alta carga de sentimentalismo. Então ele participa. Então é sujeito, está ali, dentro de nós. Sempre? Isso deixa a gente doente...
Obs. 1: Não assisti o filme ainda.
Obs. 2: Com relação à quântica, acho que tudo isso é quântico na medida que é uma visão holística da realidade e que inclui a "confusão" de conceitos (estabelecidos pela velha ciência). Como sabemos, na quântica tudo é energia, não há diferença. Afirma-se que além disso, só existe o pensamento. De todo modo, ficam perguntas: se tudo é energia, como as coisas se diferenciam umas das outras diante da nossa percepção? Será que há acúmulos de energias? O que determina o comportamento (instável) dessa energia? Seria isso o que tentamos expressar com o conceito de Deus?

pés e jornais

arnoldo não podia mais com aquela situação. sentado, de pés para cima e mãos cruzadas, jornal na mesa, concebia. aquela sala, pensou, era pequena demais para aquele plano, e resolveu botar os pés na escada para sentar ao ar livre, de pés no chão e fingir ler um jornal que nunca leu. também nunca havia feito mal algum para alguém, afora coisinhas circunstanciais, mas logo se predispôs a parear o adversário. então, jornal debaixo do braço, meteu os pés à casa de orlando. delegou o coração acelerado e as mãos suadas ao mecanismo biológico, no abrigo de sua bondade. com os pés pela calçada, depois ao pé da porta, imaginou, sonhou, esqueceu-se e concentrou-se. enrijeceu-se. ouvindo os passos, manteve-se. o jornal, amassou-se. a porta aberta, os olhos de orlando, furtivos, encarando-o. tranqüilos e raivosos. assustadoramente certos de tudo. o sangue de arnoldo, assustadoramente quente, inflado, jorrava-se da testa aos pés. enxergou a névoa negra, perdeu os pés e o jornal, ouviu todo funcionamento do seu mecanismo biológico, não encontrou nada. resolveu dar tempo a tudo, contou os segundos, ok, você venceu, disse para si. e tudo ficou claro e silencioso, segundos antes de orlando meter uma bala na sua testa. ou de meter uma bala na testa de orlando, vai saber.

sexta-feira, 5 de maio de 2006

quinta-feira, 4 de maio de 2006

O 3º Olho

iiih, J.P. Cilli, travou! deu tilti, rapaz. esse tipo de reflexão da pau no cérebro. mas vamos lá.
Antes de mais nada, uma pergunta: vc quis dizer "e se eu estivesse vendo tudo TAMBÉM de fora ou simplesmente estivesse vendo de fora sem a consciência simultânea de estar vivendo também de dentro, como dois momentos separados? Por hora vou considerar que é apenas um terceiro olho que vive uma visão de cada vez e não ao mesmo tempo. Quanto a isso vc tem que ver o filme Quero Ser John Malkovicth sem falta. Sei que vc não gostou da primeira vez, mas vc tem que ver novo. Bom, acho, sim, que a pessoa vive um momento de acordo com tudo que a compõe e que isso faz com que as experiências sejam únicas desse ponto de vista. A mesma experiência vivida de dentro de nós mesmos é uma e é outra quando vivida de fora, mesmo sendo você espectador de você mesmo e por isso tendo a mesma consciência de quem está vivendo aquele momento - você. Isso porque existimos em nós mesmos e ao mesmo tempo no outro, até porque sem o outro não seríamos nada, pelo menos no que diz respeito à nossa consciência. Assim, se estivessemos nos vendo de fora, seria como ver uma outra pessoa - o seu eu duplicado. Acho que de certa forma vc deixa de ser vc quando se vê de fora. Tem a ver com a consciência. Não sei se é quântico, nesse sentido.
Na quântica, como fica a consciência em relação a nossa existência? Tenho essa dúvida.

O TERCEIRO OLHO

MARCO, QUERIA DISCUTIR UM TEMA. A PESSOA VIVE UM MOMENTO. ELA O VIVE DE ACORDO COM TUDO QUE A COMPÕE, CERTO? AÍ TEM AQUELA COISA DA PESSOA PENSAR: E SE EU ESTIVESSE VENDO TUDO ISSO DE FORA?

sexta-feira, 28 de abril de 2006

come on, brasil - QSEDQ com consciência (ou não...)

acho que um dos problemas do país é a seriedade. o brasil não tem formação séria, sempre foi palco das peraltices da elite, que nunca levou o país a sério. mas a seriedade de outros países (principalmente europeus, além dos eua), atrapalhou a brincadeira por aqui. e o país virou o que é. não é sério nem burlesco o suficiente para ser efetivamente algo. fica nesse vai-não-vai. sugiro que assumamos de vez nossa veia patusca. vamos abolir a quarta-feira de cinzas.


quarta-feira, 26 de abril de 2006

fotografia quântica

O que foi pode ser mais presente do que o próprio presente.
Como diria o poeta, Dificuldade do olvido.
Como diria o metafísico, quântica.

foto: J.P. Cilli e Marco

pé - a quântica infantil


“o pé perguntou pro pé qual pé era mais pé. o pé respondeu pro pé que se algum pé fosse mais pé, esse pé seria a mão do chipanzé”

o teu pé é
o meu pé foi
o nosso pé são
o pé de deus
do mendigo e do milionário
o pé-quente do diabo
o pé-frio do napoleão
ué, cadê meu pé?

QSEDQ no mundo da auto-ajuda (mas ainda quântico)

isso tudo é reflexo do nosso jeito reducionista de pensar a vida. pensamos em termos racionais, enxergando cada processo de forma isolada. se queremos viver bem, temos que ganhar dinheiro, então temos que trabalhar em algo que dê dinheiro. tudo bem, não vou negar a importância do dinheiro, por mais que isso cheire muito mal. é uma realidade que tem que ser vivida. mas sacrificar a única coisa que importa por isso é suicidar aos poucos. a única coisa que importa. é isso que você está fazendo agora e isso envolve diversos processos. viver. essa é a verdadeira realidade.

terça-feira, 25 de abril de 2006

conversas urbanas - continuação

foi estúpido!
mas você não vai me contar?
tá, conto...
então conta!
tá! foi assim... foi estúpido!
ai!
tá bom. eu tinha parado o carro na pista da direita daquela avenida, mas tinha ligado o pisca-alerta.
em fila dupla naquela avenida!?
é, mas com pisca-alerta!
hã...
então, aí veio o cara e bateu na traseira do meu carro, ali, com pisca-alerta e tudo e o cara vem e faz isso!
mas seu carro estava parado, não?
é.
e em fila dupla, né?
é...
então por que foi estúpido?
ué, porque tava com pisca-alerta!

segunda-feira, 24 de abril de 2006

a verdade - homenagem à cruz

chovia
fiéis aos céus
- que caia chuva!
cruz aprumada
multidão arriada
no rumo do raio
- nem a natureza respeita mais!
e ouviu-se um suspiro tenaz
o suspiro da eternidade

mais sobre "a cruz"

24/04/2006 - 14h52
Raio cai sobre cruz e mata cinco adolescentes mexicanos

CIDADE DO MÉXICO, 24 abr (AFP) - Cindo adolescentes morreram na madrugada de domingo no México em conseqüência da queda de um raio sobre uma cruz situada numa colina durante os preparativos para uma cerimônia religiosa, no estado de San Luis Potosí (norte), informou a Defesa Civil.
Uma forte tempestade elétrica ocorreu no momento em que as vítimas estavam junto a outras cerca de 50 pessoas realizando os preparativos para uma cerimônia religiosa que será realizada em 3 de maio na região. Doze pessoas também ficaram feridas.

quarta-feira, 19 de abril de 2006

poemas de avião (poesia quântica)

1. seu soneto de amor

meu coração tem pressa de viver
mas tem calma de te amar
minhas milhares de escolhas
têm certeza de você
me perguntaram o que queria
e eu não sabia responder
leram a minha mão
não tinham o que fazer
não viram meu futuro
só podiam ver você

2. vogal ou consoante vírgula interrogação

e lá peguei no frio
meu ônibus a tempo
meu pé tinha calo
de só cair do muro
de só brincar com fogo

foi só subir?
foi só lutar?
é só pegar um táxi
e fugir desse calor?

ah, essas consoantes
lá no meio daquelas vogais
com toda aquela pontuação
quem serei eu
quem será você
seremos nós
interrogação

segunda-feira, 17 de abril de 2006

O egoísmo de viver - um diálogo inacabado

Não sou negro, não sou índio, não sou mendigo nem sou gay.
Tenho casa, namorada, olhos claros e pela clara.
Não tive parentes assassinados, meus antepassados não foram massacrados.
Não tenho religião, não pratico proselitismo.
Tenho grau superior, emprego, passei nos exames que me propuseram para chegar onde cheguei.
Afinal, luto por quem e o quê?
















Foto: Carol Volpe

segunda-feira, 10 de abril de 2006

liberdade (a cruz dois)


estive preso
por muito tempo estive preso
feito refém das minhas algemas
vivendo estive preso
estive bem

me tornei livre
saltei para o mundo livre dos livres
iluminado pelo terror do abismo do nada
do não se estar caindo
do não ser mal e não ter medo
o infinito terror do não amar e não ser amado

livre estaria triste
se tristeza não fosse presa

enquanto estive preso
fui livre para ser triste

Foto: Carol Volpe

domingo, 9 de abril de 2006

Nota à Imprensa

QSDQ sai do papel e amplia suas atividades. Abriu na última quarta-feira o QSDQ café; cerveja.

quinta-feira, 6 de abril de 2006

outra conversa

pois é, meu carro foi guinchado ontem.
mas onde?
ali no começo daquela ruazinha curva que cai na avenida aqui, sabe?
aquela que vai por trás?
é, essa mesma.
xii, fala sério!
por que?
foi no comecinho dela?
foi.
putis!
o que foi?
rapaz...
fala!
é que ontem mesmo eu coloquei uma placa lá, de proibido estacionar...
o que!?
pois é, toda vez atrapalhava, os carros se espremiam...

quarta-feira, 5 de abril de 2006

uma conversa

mandando mensagens eletrônicas, conversando ao telefone, nada demais.
hã...
tinha acabado de pedir um lanche para comer no escritório, não tinha muito trabalho e já era tarde.
que horas?
umas oito da noite.
sim, continue.
então fui para a janela espairecer, sabe? olhar os carros passando, sair da frente do computador, às vezes é bom. e tem ainda aquela esperança do motoqueiro chegar na hora que você está na janela, né?
a janela que dá de frente para a rua, então?
justamente.
sim.
foi então que o cara parou na frente do portão, apontou a arma para mim e gritou alguma coisa. eu fiz o movimento de sair da janela, assustei, né?
claro.
aí o cara atirou!
mas sem motivo nenhum?
pois é, ele atirou! quer dizer, acho que foi porque eu ia sair da janela, né? mas foi aí que a bala bateu na grade do portão e voltou na cabeça dele.
então não foi você quem atirou?
não! imagina! nem tenho arma nem nada.

sexta-feira, 31 de março de 2006

poesia quântica (holopoética), continuando

blanca soledad

fui divagar
no céu terra
na terra azul
pelo muro alto da solidão branca
serei finalmente eu

pelotón de fusilamiento
nuevos inventos
gitanos corpulentos
piedras pulidas blancas y enormes
trescientos años de soledad
tiempo ingenio de áspero acento
dientes de soldado
movimiento impuro de la humanidad

tell me about your saint
when it did live, when?
times are sad
times of white pounder
times of white solders
doors are always open
are you ready to be you
only you
right now?

terça-feira, 28 de março de 2006

poesia quântica (holopoética)

bootstrap

chorar
a lágrima
fará
o amor


promessa

sonharei contigo, prometo. causarei enganos, pularei de prédios, andarei pela rua. prometo amar sempre, chorar sempre, sentir sempre saudades. deitarei para te esperar e ficarei aborrecido com teu atraso. e assim não chegas. aborreça-me, prometi. prometa-me, aborrecerás. e assim seremos um só e dormiremos à luz do dia, à luz serena e clara do dia. e assim teus acalantos serão bom-dia. assim, enfim, seremos. e assim, enfim, não haverá mais promessa.


a minutos atrás

a minutos atrás dormiremos no senão
a minutos atrás acordamos no então
a minutos atrás vivera na torre alta dos sonhos
a minutos atrás morreu na virtude dos sonhos
a minutos atrás é ultimamente
a minutos atrás foi para sempre
a minutos atrás era bonito por não ser
a minutos atrás será bonito por ainda ser
a minutos atrás não haverá mais atrasos
a minutos atrás fora atraso das horas
a minutos atrás serão acalantos de agora


jealousy

jauntily
runs my pain
going to stranges
arms of myself


o ponto de mutação – fritjof capra

“de acordo com essa teoria [eletrodinâmica quântica], a mesma expressão matemática descreve um pósitron – a antipartícula do elétron – movendo-se do passado para o futuro ou um elétron movendo-se do futuro para o passado. as interações das partículas podem estender-se em qualquer direção do espaço-tempo quadridimensional, deslocando-se para trás e para frente no tempo tal como se movimentam para a esquerda e para a direita no espaço. para descrever essas interações necessitamos de mapas quadridimensionais que abranjam toda a extensão do tempo, assim como toda a região do espaço. esses mapas, conhecidos como diagramas espaço-tempo, não incluem uma direção definida do tempo. por conseguinte, não há ‘antes’ e ‘depois’ nos processos que descrevem e, assim, nenhuma relação linear de causa e efeito.”

não é muito interessante o fato de que, quando conseguirmos viajar pelo tempo, já não teremos (e é porque já não teremos) a noção de passado nem de futuro?



quinta-feira, 23 de março de 2006

mais sobre o(s) caminho(s)


Não sei. Não sei não, mas me parece que os caminhos se misturam.

terça-feira, 21 de março de 2006

"O Poder do Mito" x fora do caminho

"Moyers: Em que um mito é diferente de um sonho?

Campbell: Ah, é que o sonho é uma experiência pessoal daquele profundo, escuro fundamento que dá suporte às nossas vidas conscientes, e o mito é o sonho da sociedade. O mito é o sonho público, e o sonho é o mito privado. Se o seu mito privado, seu sonho, coincide com o da sociedade, você está em bom acordo com seu grupo. Se não, a aventura o aguarda na densa floresta à sua frente.

Moyers: Então, se meus sonhos privados estão em acordo com a mitologia pública, eu tenho boas chances de uma vida saudável nessa sociedade. Mas se meus sonhos privados estão em descompasso com a mitologia pública...

Campbell: ... você terá problemas. Se forçado a viver nesse sistema, você será um neurótico.

Moyers: Mas não acontece de muitos visionários e mesmo líderes e heróis estarem muito perto dos limites da neurosa?

Campbell: Sem dúvida.

Moyers: Como você explica isso?

Campbell: São pessoas que se afastaram da sociedade que poderia protegê-los e ingressaram na floresta densa, no mundo do fogo e da experiência original. A experiência original é aquela que ainda não foi interpretada para você; assim, você tem que construir sua vida por você mesmo. Você pode encará-lo, ou não, e não precisa afastar-se demais do caminho conhecido para se ver em situações muito difíceis. A coragem de enfrentar julgamentos e trazer todo um novo conjunto de possibilidades para o campo da experiência interpretável, para serem experimentadas por outras pessoas – é essa a façanha do herói."

Pedacinho


Eu pedi um pedacinho do sorvete e a resposta foi um sorriso lindo. Não quis mais sorvete, pedi um pedacinho do sorriso.

(foto: Carol Volpe; texto em co-autoria)

[coloque seu título aqui] ou pedaço de felicidade

rio manso já vai longe
onde já não há diabo
e nem anjo alado há

onde já não há espaço
e o tempo esconde
onde nada houve e nada há

rio manso, agora!
ela implora, mas ignora
que lá o agora já não há

segunda-feira, 13 de março de 2006

leitura instânea da realidade em co-autoria

a vela derreteu o sol
não teve chama
nela não vi a luz
não teve reza
nela não vi santa

a lua esfriou a vela
esfriou a cera
formou lagoas e serras
do choro cunhou as cores

ela me ama
não tenho amores
ela me chama
nao vejo as cores

ela se acanha com meus sonhos
a envergonho com meus gritos
ela tenta me calar com beijos
ela tenta esfriar minha chama

me irrita quando sorri
me irrita quando negas
sofre quando me beijas
e me pega entre as pernas

enquanto penso em te ter
peco e silencio
enquanto penso em viver
peco e não vivo

vou me embora
vou calar meu desejo
o sol derreteu
pecado de calor
lua que chora
gota de amor

por Julia, J.P. Cilli, Marco e Galberti Mainardi

quarta-feira, 8 de março de 2006

fora do caminho (foto do marco)


o senhor seu amanto
cabocolo velho
dum tanto cansado
da terra vermelha
do capim dourado
prumou a serra
descongou o congado
encabrestou o zeca
eita burrico folgado
pisou de pé rachado
topou o dedo em pedra
pelo finco do cerrado
fugiu de trilha marcada
do que fora caminho
espetou cabeça
cantarolou sozinho
esfomeado de sede
gostou cacto de espinho
banhou de sol e da lua
cunhou fala nova
quando não teve quem falar
foi-se embora pela cova
maldita aos olhos humanos
pra mais tarde voltar
senhor santo amanto

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2006

Poesia interpretada em co-autoria

De repente
Do peito entupido
Do coração engasgado
As lágrimas me vencem os olhos
Derramam-me à boca
Gosto de você

Saio à rua
A tua procura
O sol me queima o corpo
O suor encontra a boca no meu rosto
Não posso te encontrar
Gosto de você

__________________________________________________

J.P. Cilli para mim
olha no site. nos rascunhos, tive a liberdade de continuar um poema seu...

Marco para J.P. Cilli
vou olhar.
à vontade, ainda mais nesses tempos de prisão de "mente"...

Marco para J.P. Cilli
Gostei da continuação que vc fez. Gostei do suor que encontra a boca em contraposição ao eu que não encontra o que procura. E o suor completa a idéia do salgado, do gosto da procura... legal. Vou postá-lo depois. Gostei da idéia de co-autoria.

J.P. Cilli para Marco
o engraçado é que, por causa das rimas, vc fica mais em dúvida se é gósto ou gôsto... ou seja, vc não encontra a rima, pode ser os dois...

Marco para J.P. Cilli
Uma coisa que me surgiu depois é que além de gôsto e gósto, há ainda sentidos do gôsto que se fala: pode ser o gosto salgado da lágrima e do suor ou ainda o gôsto do amor que não se encontra mais. Por isso que gostei do "Não posso te encontrar/ Gosto de você". É uma contrariedade dizer que não se encontra o gôsto depois de se falar do gôsto do suor e das lágrimas na boca, e daí a possibilidade de se entender o último Gosto como o gosto de algo mais...

J.P. Cilli para Marco
outra coisa que me surgiu, também depois, é que na primeira parte, o sofrimento é romântico, pq chora e engasga o coração. no segundo, é mais físico, parece que é um sofrimento mais cru, que dói o físico e não o coração, entende? acho que isso, os dois juntos, o sofrimento físico mais o sofrimento sentimental, se completam e passam a imagem do sofrimento completo mesmo. pq quando sofre, além do sentimento, às vezes parece que dói mesmo, né...

Marco para J.P. Cilli
E apesar de sofrimentos diferentes, eles têm o sabor do sal em comum.

J.P. Cilli para Marco
bem, de todo modo, "você" pode ser outra coisa que não mulher... pode ser felicidade, paz, liberdade, inspiração, sei lá...
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J.P. Cilli para Marco
"ô", ficou bem legal a postagem! a foto e os comentário embaixo, bem legal mesmo...

Marco para J.P. Cilli
achei que ficou bacana também. Gosto muito daquela foto e achei que dá para relacionar com as gotas de suor e lágrimas que ficam meio que congeladas dentro de nós esperando um pouco de calor para se deixarem sair.

J.P. Cilli para Marco
pois é, essa coisa da gota de gelo esperando para derreter, é um pouco do "peito entupido/ coração engasgado" e do "não consigo te encontrar/gosto de você"...

domingo, 12 de fevereiro de 2006

inferno


rio manso já não és
das pedras já não sabes
em tua terra foste manto
em tua terra já não cabes

(choras tuas águas
mágoas de rios e chuva
curvas à sina do teu chão
onde fincas tuas unhas)

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2006

purgatório


rio nem sempre manso
canto margens de encosta
morro onde nascente chora
rio que não alcanço

(qual tua felicidade
tens a me oferecer
quando descobrir-te
minha última idade?)

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2006

paraíso


estradas de rio manso
não sabes quanto quero
há quanto tempo espero
e ainda sentado me canso

(seria feliz para eternidade
onde pudesse cutucar o nariz
e publicar alguns versos
que fossem nenhuma novidade)

terça-feira, 7 de fevereiro de 2006

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2006

das manhãs e das janelas (distração-reflexão sobre a tristeza)


quem se apaixona às 11 e 45 da manhã? eram amigos há tempos, não havia dúvidas com relação a isso. ele estava triste, desanimado. nunca te vi assim, disse ela. aconteceu alguma coisa? não, talvez seja isso. ela distraiu sua atenção a ele e com seus pensamentos sentiu compaixão. que, logo depois, tornou-se paixão. olhou-o durante um tempo, ele que nem a percebia. sentiu a paixão crescer, quis beijá-lo, passar o resto da vida fazendo-lhe carinhos, esquecer o namorado. mas ele continuou triste, olhando a luz da janela indefinidamente. ao meio dia, ela já havia se distraído com as suas coisas e se esquecido da sua paixão. ele continou triste e desanimado, olhando a luz do sol pela janela.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2006

tijolo por tijolo


construímos o mundo. sim, construímos. o muro – ou o abismo – que divide este país em duas partes. as duas constroem. uma vai colocando tijolos ingleses em cima do muro, enquanto a outra vai colocando seus tijolos baianos ao lado, tentando, por uma escada, pedir ajuda. mas o dia-a-dia é duro e os tijolos têm outras funções. ou se constrói a escada e os meninos se alimentam de luz, ou faz-se um fogão para cozinhar o pé-de-galinha para os cinco filhos únicos e pródigos. enquanto isso, o muro cresce. o Pedro, pedreiro, ajuda na construção do muro mágico, enquanto ganha tijolos para fazer o seu flácido fogão. se ele morre atropelado, atrapalha o tráfego, o público, o sábado. a escada? ah, a escada um dia vai chegar. se Deus quiser. mas está bom, não está? Deus lhe pague, moço, pelo tijolinho.
Foto de Carol Volpe. Sugiro ouvir as músicas: "Construção", "Pedro Pedreiro" e "Brejo da Cruz", todas do Chico Buarque.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2006

a cruz (fotos por carol volpe)





a cruz
descendo dos céus
anda pelos horizontes
véu de sofrimento
fonte de esperança
a cruz

quarta-feira, 21 de dezembro de 2005

terça-feira, 13 de dezembro de 2005

Conto de folhetim: Fim - Aos pés de Ela, mais uma vez

De manhã, Jonas acordou já com sol forte entrando pela janela. Fazia um calor de incomodar, abafado. Olhou o relógio ao lado da cama e viu marcando 9:47. Demorou a perceber a situação, a cabeça doia um bocado e tinha sede, muita sede... a boca chegava a amarrar de tão seca. Ela, toda encolhida e enrolada nos lençois, ainda dormia profundamente. Jonas levantou da cama sem muito cuidado, fez o que precisava, bebeu toda a água que encontrou e de repente se viu parado, de pé, observando Ela dormindo. Era linda, de fato. Mas não sabia ao certo, havia algo de errado naquilo tudo. De repente onde estava aquele encanto, aquela vontade de sair dali com Ela para ganhar o mundo? Era como se o feitiço tivesse perdido seu efeito. Jonas sentia-se mal, não a desejava mais. Certamente era o seu mal do infinito agindo. Ah, aquele tal doutor! Que verdade, Deus! Que verdade!
No entanto não sentia a coragem para falar a Ela que não a queria mais, e tampouco tinha as bolas para sair dali antes de Ela acordar. Ficou e Ela acordou dali a uma meia-hora, tempo suficiente para Jonas preparar um café e umas torradas. Nitidamente Jonas estava incomodado, essa é uma daquelas situações que não se consegue disfarçar; ele se entregava apenas com sua cara.
Ela, cheia de carinho e empolgação, perguntou se Jonas havia dormido bem. Ele consentiu com a cabeça, mastigando seu pão e dando um gole do café, para quem sabe ver se achava um pouco de coragem dentro da xícara. Talvez até tenha achado, pois engoliu tudo - o pão, o café e tudo mais que o incomodava -, olhou um pouco para baixo e disse sem muito rodeio - Eu já vou embora. Quero agradecer muito por tudo... - Mas, como assim? Daí a gente se encontra depois? É isso? - interrompeu Ela ainda de forma ingênua.
Jonas explicou meio sem jeito que não fazia realmente questão de ver Ela novamente, claro que não com essas palavras. Ele tentou dizer que não a queria mais de uma maneira que doesse menos, se é que isto é possível. Ela parecia não querer entender de jeito algum. E os planos, as viagens, os dois filhos que iriam ter, a casa que iriam construir?! O que era tudo aquilo, o que significava aquilo tudo?! Toda aquela noite de carinhos?!
Ela surtou em desespero. Jonas teria sido finalmente um homem que valeria a pena, por quem ela abandonaria tudo, e ele não passou de mais uma decepção, de um merda! E ele se sentia assim mesmo, um puta derrotado. Fazer uma mulher linda como Ela sofrer não é coisa digna de homem que se preze.
Sem saber como, Jonas tentava acalmá-la, dizia que nada daquilo que eles viveram era mentira, apenas não era mais uma verdade. Foi pura verdade no momento em que ele desejou Ela, e foi mesmo. Mas vai explicar essas coisas! Quanto mais Jonas tentava se explicar, mais Ela se enfezava. A mulher estava roxa de nervosa, os olhos se seguravam para não soltar nenhuma lágrima, e não soltou nenhuma mesmo. Não daria isso a ele, não daria mais nada a ele.
Sem paciência Jonas resolveu ir, não aguentava mais aquele papo de mulher magoada. Aquilo logo passaria e Ela se esqueceria. Seria apenas mais uma dor.
Pegou sua jaqueta e foi em direção à porta. Deu as costas à Ela; não olhá-la mais foi a melhor idéia que conseguiu ter. Erro. Uns dois ou três passos, virou a chave da porta e quando deitou a mão na maçaneta, pumba! Um! Um golpe certeiro! A faca entrou com toda a mágoa de Ela nas costas de Jonas. Dois! Três! Sem dó, Ela sacou a faca encravada na carne e enfiou de novo e de novo. Ele, meio que de uma forma lenta, percebeu a carne queimando, pôde sentir a faca rasgando repetidamente a sua carne. Foi sangue pra tudo que é lado, na parede, na porta e muito, muito mesmo escorrendo de seus novos buracos.
Assustado, abismado, descrente de tudo, agora sem qualquer espera-nça, Jonas conseguiu com dificuldade olhar Ela nos olhos por cima do ombro direito. Ela tinha sangue na cara, já havia soltado a faca ensanguentada no chão. Dos olhos de Ela, apenas uma lágrima, deu a Jonas apenas uma lágrima.
- Que merda! Não era pra tudo acabar assim...- foi a única coisa que Jonas conseguiu pensar antes de apagar e desabar no chão aos pés de Ela, agora literalmente.


Conto de folhetim: Parte IV - Aos pés de Ela ou Pa-ra-le-le-pí-pe-do

Os dois conversaram por um bom tempo, Ela não demorou a aceitar uma pinga para acompanhá-lo e ambos curtiram fascinados a descoberta um do outro. O simples fato de estarem lado a lado já era algo demais. Inexplicavelmente sentiam que juntos poderiam muito mais do que em suas míseras condições individuais. Fizeram planos, queriam conhecer o mundo juntos, e dali de dentro do bar passaram pela Índia, deram um pulo nas praias da Thailândia, voaram até as pequenas ilhas do Pacífico, jantaram em Nova York, tomaram um café em Paris, leram os jornais em Buenos Aires, assistiram a um concerto em Viena e, mais uma vez, entornaram uma bela pinga de Conceição de Ibitipoca naquele bar que era o mundo.
Finalmente saíram dali. E Ela disse de uma forma doce, acariciando o rosto de Jonas - Vou te levar para casa. Jonas sentiu-se incrivelmente confortável, e apenas suspirou num momento de alívio. Como era forte aquela frase para quem há muito não sabia onde era sua casa, aquele lugar para onde se quer voltar. Era o que precisava para ficar aos pés de Ela.


Andaram umas poucas quadras nas ruas de paralelepípedo e chegaram em casa. Não era propriamente uma casa, apenas uma idícula que Ela alugava nos fundos da casa de uma viúva. Pequena, não mais que sala, quarto e uma humilde cozinha, mas tudo arrumado com bastante charme. Acolhedora, esta é a palavra, principalmente com o sol de fim de tarde que iluminava as cortinas.
Ela preparou um café, colocou uma música para tocar e até ensaiou soltar a voz junto com as letras da música - "Sim, eu estou tão cansada, mas não pra dizer que eu estou indo embora, talvez eu volte (...) Eu não preciso de muito de dinheiro, graças a Deus! E não me importa, e não me importa a minha honey baby!" Jonas sorria, apenas ficou observando, apreciando.
Beijaram-se. E daí a tarde virou noite, que depois mais tarde morreu, e só para então por fim o dia nascer.

domingo, 11 de dezembro de 2005

do mistério e do mistério (astro-reflexão da cegueira)

vinha a lua fazendo as nuvens aparecerem enquanto desaparecia, ao menos elas. as estrelas, elas se sentiam tímidas àquela hora de pouco escuridão, ao menos elas. a lua não estava cheia, nem as nuvens carregadas, nem as estrelas abundantes, ao menos elas, repeti. só podia vê-las, meu olho estava ali e dali não poderia se desprender. elas. preso ao chão não pôde se distrair do mistério que é o céu da noite, que já não lhe era mistério dos maiores, porquanto estivesse assentado sobre outros mistérios mais fortes. se os olhos não tinham a liberdade que lhes fora dada, mas que não necessariamente lhes era necessária, disso ao menos o resto não padecia, desconhecedor que era, envolvido que era. via a lua fazendo par com as estrelas, sentia as formas das nuvens e suas sombras, mas não enxergava nada do que lhe fazia as sombras e as penumbras e a luz nas quais buscava referência. enquanto desejava o desconhecido que lhe alimentava, brilhava-lhe o mistério das coisas. sabia dos pássaros, dos ventos e das chuvas, sabia. mas mal sabia do que lhe abraçava e movia-lhe as intenções. nem ao menos elas.

terça-feira, 6 de dezembro de 2005

da felicidade e da tristeza (caminho-reflexão dos mendigos)

caminhou. sentiu o trem passando-lhe pelos pés, que o sapato não lhe servia muito bem. caminhou. ia-lhe arrastando a barra da calça no chão, que não lhe atinava a altura que tinha diante de deus. caminhou. as mangas da camisa ultrapassavam-lhe os cotovelos e a gola apertava-lhe o pescoço, que o ar não lhe servia muito bem e não lhe havia alcance no mundo. caminhou. olhou para o sol pela fresta sobrando-lhe nos óculos, que não lhe era perceptível a inconveniência que lhe era atribuída pela sociedade. caminhou. foi feliz com o corpo que não lhe pertencia, fechou os olhos creditando-lhe a verdade do caminho e o desrespeito às outras verdades.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2005

Conto de Folhetim: Parte III - Ela

Jonas, sentado ao balcão, estava à parte do mundo imerso em seus pensamentos. Chamou logo 2 pingas, já que Ibitipoca é de região de alambiques tradicionais - como se isso fosse lá a razão de Jonas beber. Se pudesse, pediria álcool puro mesmo.
Ele se sentia esquisito; não estava nem tão deprimido para sentir tristeza e nem alto o suficiente para ficar alegre, e somado a isso o estranhamento constante de estar numa cidade desconhecida. Não era de todo mal, ao menos sentia uma certa libertação, um desprendimento raro.
Foi assim até a 3ª ou 4ª dose, foi quando Ela apareceu. Ah, Ela... quem não cairia por Ela? Eu mesmo não me aguentaria. Jonas, então... ele simplesmente se derreteu por aqueles olhos amendoados, os cabelos longos, castanhos e levemente cacheados, o rosto bem desenhado e uma boca, ah! que boca. Jonas ficou literalmente encantado, teve vontade de ficar com Ela infinitamente enquanto durasse, por mais comum que aquilo soasse. - Que mulher... - pensou ele. Aquele corpo, então, mal se pode dizer. Quase uma obscenidade descrever aquelas curvas cheias de charme.
Ele realmente não conseguia disfarçar que olhava apenas para Ela, somente para Ela, que devia até estar constrangida. O mais surpreendente, e talvez apavorador, é que Ela, sem medo, começou a vir na direção de Jonas, como se fosse falar-lhe alguma coisa descompromissada. Jonas desviou o olhar; agora ele é quem estava constrangido. Em seguida olhou para confirmar se Ela continava a vir, desviou o olhar mais uma vez, mas não evitou que Ela, chegando a ele, dissesse docemente - Moço, se você precisar de ajuda para ir embora, ajudo... eu estava olhando dali e bem vejo que você não vai conseguir achar o seu rumo. O moço tem cara de bom coração, se precisar eu estou aqui.
Jonas demorou a responder. E não era efeito da bebida, eram borboletas no estômago. A atitude, a doçura das palavras e da intenção, deixaram-no sem reação. - Eu aqui perdido na vida e Ela, angelical, dizendo que vai me ajudar a encontrar meu caminho... Deus! - pensou de imediato. Ele sorriu, disse que estava bem de verdade. Começaram a conversar, falar apenas coisas sem importância, coisas que pessoas que não se conhecem falam. Nessa hora as palavras não diziam muito, eles se comunicavam era mesmo com os olhos. Ela, com os olhos, perguntava o que ele queria. Ele, também com os olhos, dizia que a queria.
Jonas lembrou do tal doutor que há pouco havia lhe falado para desejar menos. Mas como não desejar? Como lidar com o que há de mais belo?
E Ela, ali, bem a sua frente; linda.

terça-feira, 29 de novembro de 2005

da separação e da união (relacionamento-reflexão das mentiras e das verdades)

Mas a conquista da mediocridade me foi o caminho da felicidade. Tratei-me durante oito meses. Esse foi o legado que ela me deixou. Meu esquecimento foi a chave para sua felicidade, diziam por aí. Ela andava triste e com ares negativos já no final do nosso relacionamento. Pouco antes havia me traído, não sei se só em pensamentos. Fui medíocre com ela, não tive ciúmes. As paixões de primeira hora nunca foram suficientes para isso. As razões que tive por ela, não foram poucas, nem tampouco duradouras. Antes dela eu era triste.
Antes dele eu era feliz. As razões que tive por ele, foram poucas, mas tampouco passageiras. As paixões da primeira hora se fizeram sempre suficientes para isso. Nunca fui medíocre com ele, só tive ciúmes. Pouco antes havia lhe traído, talvez só em pensamento. Ele andava feliz e com ares positivos pouco antes do final do nosso relacionamento. Minha tristeza foi a chave para sua felicidade, dizem por aí. Esse foi o motivo por ter lhe deixado. Esqueci-o em oito meses. Mas a conquista da liberdade me foi o caminho da tristeza.

quinta-feira, 24 de novembro de 2005

Conto de folhetim: Parte II - O tal doutor

A noite foi de ansiedade, de muitos pensamentos. A incógnita do velho, Jonas deixou de lado; pensou que não iria chegar a nenhuma resposta mesmo. Pernoitou em uma pensão simples, lugar de viajantes, não muito limpa, mas de comida boa.
Passava pouco depois das 7 da manhã e Jonas fui buscar o tal médico. Não foi difícil, a cidade não passava de uma larga praça e uma dúzia de vielas. Chegou na casa-consultório-chácara e sem falar com ninguém entendeu que havia uma fila. Não passava de umas 8 pessoas, todas falando pouco e bem baixo. Uma criança infernizava com um choro escandaloso e interminável, chorava tanto que a mãe já havia desistido de tentar fazê-la parar. - Isto é choro de quebrante - disse em tom cerimonioso a moça a sua frente na fila. - Ah... sim, quebrante - Jonas sem saber o que dizer. Logo completou a moça - Tá calor, não? - É, quente mesmo - Jonas mais uma vez sem saber como continuar a conversa. A verdade era que não estava para conversas. Uma hora e uns quebrados, chegou sua vez.
Jonas entrou na casa e viu um senhor sentado numa cadeira à sombra de uma árvore no quintal dos fundos da casa. Era o doutor, que tinha aparência de um homem de uns 60 anos saudáveis, barba aparada, cabelos grisalhos, ralos e asseados. Vestia roupas largas e confortáveis, camisa branca, calças bege, sandália de couro. Ele sorriu e chamou Jonas para se sentar com ele. Ficaram à beira do jardim. As plantas eram bem cuidadas e ajeitadas de uma forma propositalmente displicente.
Jonas, ansioso, foi logo dizendo - Doutor, não sei o que tenho. Engraçado como já não sei mais o que dizer... e meu problema não é esquecimento. Vim pra cá com tantos pensamentos, só que agora parece estar tudo bem, até está. Mas tem hora que não me aguento, parece que me consome, perco as esperanças, parece que não há futuro, é agonia das fortes, como uma coisa que vai ganhando espaço dentro de mim, depois encolhe, vai embora e mais uma vez volta a crescer... vai e volta sem dar satisfação.
- Meu filho, isso é juventude, isso é o mal do infinito... e o infinito é longe pra diabo! Parece que não chega nunca e não chega mesmo... eu bem me lembro da minha juventude. Oh, tempo bom! Filho, não adianta eu dizer, mas isto pode passar. Deseje menos, talvez ajude. É a velha história de que a diferença entre o remédio e o veneno está na dose... nem eu nem niguém vão lhe ensinar essas coisas da vida. Apenas não perca sua espera-nça.
Jonas ouviu com o máximo de atenção e não disfarçou a cara de incógnita, pelo contrário, fez questão de parecer confuso na esperança de ouvir maiores explicações. Tentou ao menos lembrar perfeitamente de tudo que ouviu, quem sabe poderia pensar melhor em todas aquelas palavras depois. E o doutor não falou mais nada mesmo, mandou até Jonas sair. Ele foi, deixou a casa, da mesma forma que entrou - nem mais nem menos. Parou no bar da cidade, sentou no balcão, pensou que algo de beber ajudaria a trazer os pensamentos à luz.

segunda-feira, 21 de novembro de 2005

das paixões e das traições (metrópole-reflexão das criações)

taormina era menina sempre bem vista. tinha desde seus anos novos boa reputação entre as amigas da mãe, dona alva, e entre os pretendentes a compadres de seu pai, senhor aluísio, descendente de italianos fugidos da máfia siciliana. aprendeu o piano, lia os clássicos, bordava pontos caprichosos e não parecia se alimentar de maus ideais. mina, como lhe chamavam os familiares mais chegados, formou-se com louvor no colégio católico, cumpria-lhe então o matrimônio e a maternidade. sentiu-se atraída por um jovem que a pretendia, chamado joaquim, descendente de portugueses que comandavam negócios de exportação de café e recém formado em ciências jurídicas. para completar-lhe o fado de sucesso, mina veio a calhar. seria boa esposa, não lhe restava dúvidas, nem a ninguém. namoraram e noivaram uma semana antes de joaquim ir passar dois anos, que depois viraram quatro, estudando em yale. por essa época, viam-se somente pela oportunidade do feriado de natal, quando ele retornava por duas semanas. e, após longos cinco anos desde que haviam se conhecido, casaram-se e foram de lua-de-mel aos estados unidos. mina apaixonou-se por nova york, manhattan precisamente, e por um sujeito que encontrou no central park enquanto joaquim lhe comprava balões de gás. não trocaram palavras, somente olhares de certeza futura, ensurdecidos pelos barulhos do coração. digo que essas coisas de certezas entre os olhares são coisas misteriosas, tanto quanto o futuro o é. mas a intensidade da paixão permite que a certeza, ainda que duvidosa, o seja. pois tornaram a se encontrar ocasionalmente em uma peça teatral na broadway e depois em uma loja de departamento na quinta avenida. nesse encontro puderam trocar as primeiras palavras, já que mina estava sozinha, porquanto o marido, lhe dissera, estava tratando de negócios ali por perto. para espanto recíproco e ridicularização das primeiras palavras em inglês, eram ambos da mesma nacionalidade e provenientes da mesma cidade. ele comentou a nova moda channel, ela confessou-lhe não gostar tanto, que preferia os clássicos franceses mesmo, quiçá os italianos. ele convidou-a para visitá-lo em paris, para onde estava indo dali a dois dias, ela aceitou e disse que dali a duas hora estaria em seu hotel. foram a paris e ela guardou escondida até a morte uma fotografia dela tirada por ele.

quinta-feira, 17 de novembro de 2005

fui deixado nas campinas
cercado por felinos mansos e ferozes
que me rodeavam com suas garras e seus caninos
fui forte enquanto pude me manter suspenso no ar
mas o ar é leve e incerto demais
o ar é instável demais para me manter suspenso e salvo
dos felinos de garras e caninos ferozes
dos felinos de ares mansos
mas ferozes
sou fraco mas fui forte enquanto pude
e sou forte por não ser fortaleza como o ar
o ar arrastava meu cheiro para as narinas felinas
elas me rodeavam
me olhavam
me desdenhavam sabendo que estava ali
estive sem pés e sem pique para correr
e sem asas para voar como sempre estive
vivi momentos felizes com os caninos ferozes que me rodeavam
mas no chão já não pude mais correr
perdi o fascínio
sentei na campina para aguardar meu fim
enquanto as garras cravaram a terra
como quem crava a mente em busca de soluções
errei em muita coisa
tive muitos problemas e errei muitas soluções
mas as unhas empestadas de terra e de pequenas partículas
viram no horizonte que fugia de mim soluções melhores
estou só em mim
sem felinos estou só
sentei só na campina e ali fiquei só e deitei
olhando para o céu abracei a terra e a campina
dei de costas com o peito para o céu e vi estrelas de formigas
as partículas e a terra no rosto do meu cabelo
o céu nas retinas da minha nuca
eu, só

quarta-feira, 16 de novembro de 2005

Conto de Folhetim: Parte I - A Caminho de Ibitipoca

Jonas não se aguentava mais; estava prestes a explodir. Ainda conservava a espera-nça, mas já não era remédio que o confortava.
Belo dia resolveu procurar um médico, desses que cuidam das doenças da alma. Ficou sabendo que em Conceição do Ibitipoca havia um doutor que era bom mesmo, que resolvia de tudo. Era uma viagem um tanto quanto longa, mas pela fama do doutor - todos diziam que ele até tirava o pior dos quebrantos - parecia valer a pena tentar. Foi lá Jonas prestar queixa de suas insatisfações, de seu mal-estar sem razão certa.

A viagem até que passou depressa. Da janela Jonas se ocupou por um bom tempo com a paisagem das montanhas. O ônibus balançava um bocado. Entre um solavanco e outro puxou conversa com o senhor ao seu lado. O velho desatinou a contar histórias de sua vida - casos de família, de amor, de briga. Tinha aparência simples, cara marcada, o corpo sofrido e falava como quem tem a calma que só o tempo pode dar. Jonas ouviu admirado com atenção. A nostalgia do velho não era triste; pelo contrário, o seu olhar para o passado transparecia beleza, uma verdadeira admiração pela vida. Parecia viver a vida como quem aprecia um vinho - dos melhores -, principalmente quando falava de Vitalina*. Vitalina, a mulher que o fez deixar tudo e nascer para vida. Tudo era justificável por Vitalina, mais que isso, Vitalina justificava tudo. O velho quando tinha seus mais de 60 anos deixou mulher, filhos, propriedades e a segurança que tudo aquilo lhe dava para viver com Vitalina. - Que loucura! - disse Jonas sem pensar. - Loucura, meu filho... loucura não. Louco estava quando com mais de 60 não tinha sentido o que era viver - respondeu com ar de bon vivan. Jonas consentiu com a cabeça, mas continuava pensando que o velho era doido e emendeu em seguida - Ah, então pelo visto o senhor está muito bem arranjado com ela... - Não, meu filho, Vitalina me deixou. Hehehe. Foi viver com um rapaz, fazendeiro, dono de terras...

Apesar do entusiasmo e a fascinação com que o velho falava sobre Vitalina, sobre a vida, Jonas pensou que aquilo era o atestado de loucura do velho. Falar com tamanho prazer sobre uma história de amor que terminara com um belo par de chifres, não podia ser normal, não para Jonas. Nem sabia mais o que dizer e apenas respondeu com um movimento de cabeça, que não parecia nem dizer sim nem dizer não. - Vai entender... vai ver que é assim mesmo - pensou calado Jonas. Na confusão de sua mente, não conseguia entender de onde o velho tirava aquele prazer vital, aquilo que ele mesmo tanto buscava. Como era confuso tudo aquilo; o velho, que aparentemente parecia ter mais motivos para destestar a vida, era uma das poucas pessoas que conheceu, se não a única, com um verdadeiro tesão por ela.

Logo chegaram a Ibitipoca, mas já era tarde e procurar o tal médico só seria possível no dia seguinte.


(*) Ver texto em comentários.

quarta-feira, 9 de novembro de 2005

Águas próprias

Em sua chuva de cores,
Nado em meio aos restos de você

E uso sua beleza

Para não me afogar

No mar do meu eu.

terça-feira, 8 de novembro de 2005

Fome


Certa vez, busquei flores, flores para ela. Escolhi as mais bonitas, coloridas como ela, alegres como ela, perfumadas como ela. Tudo sem saber porquê; ela estava longe e talvez nem pensasse em mim.
Dei as flores a uma moça de olhar simpático que passava por ali. Ela, surpresa, sorriu. Eu agradeci. Percebi: era daquilo que eu precisava, daquele sorriso; apenas um desejo me alimentara.

sábado, 5 de novembro de 2005

fotografia laranja

tenho que as luzes eram laranja mesmo, ou tudo era do laranja que as luzes refletiam. um tempo antes não era para eu estar ali, nem era para ela estar comigo. mas o sorvete ainda não havia derretido. tenho quase que era laranja também. eu nem tinha muita fome mas o sorvete tinha muito sabor na boca dela, mesmo antes de comê-lo. penso que ali queria casar-lhe meus propósitos, ela de vestido laranja e buquê de flores amarelas e vermelhas, que serviam para todas, porque agora estava laranja e desejava que o mundo se colore também. e até creio que eram-lhe casados e esse instante se manteve na fotografia. mas fotografia só fica porque as luzes se apagam e porque as lembranças perdem cor. o sorvete derreteu com o laranja, as flores se foram com as luzes, eu ainda tenho esta fotografia.

enquanto ela dança

ela é bela. tentei convencê-la disso, ela agradeceu singelamente mas talvez nem tenha se atinado que se tratava de contemplação metafísica e mundana ao mesmo tempo. mas mais bela é a harmonia dela, que me eleva à música que o universo canta nela. e eu ouço.

terça-feira, 1 de novembro de 2005

minto

sinto
tanto o que sente seu íntimo
mas temo em dizê-lo que é muito
do que sente tanto o homem quanto o menino

minto
quando desse alento me animo
mesmo ao fazê-lo sem intuito
pois que o manto do homem é o encanto do menino

segunda-feira, 31 de outubro de 2005

Tempo

Vento,
Ajude a navegar o tempo,
Já que a vida que me conduz,
Só caminha em desalento.

Sim,
Conduza a barca em triste fim,
Entregue de vez essa luz,
Imensurável contratempo.

A vida em cena

Estranho seria
se menino e menina
não dividissem o mesmo palco
até porque vãos e frestas um do outro
identificam o mesmo labirinto,
e na certeza das pegadas
rastros que levam ao mesmo destino.

No fim das contas
daquela janela poderiam vir muitas coisas
mas uma única era que se via
compondo a mesma cena
menino e menina
entre as árvores do pomar,
aproximando cor e fantasia.

Mais estranho ainda
seria ter como palco
o palco da vida.
Da vida de um e da vida de outro
buscando sem cessar
a mesma fresta do labirinto
e enxergando ao fundo, somente o descaminho.

E agora aquela cor
insiste em desbotar
e o menino e a menina
ainda com dor
não podem abandonar a cena
é o bendito destino
que castiga e nunca sente pena.

sexta-feira, 21 de outubro de 2005

Tempo

Hoje vou por aí
É tempo de ir
Já não peço muito

quarta-feira, 19 de outubro de 2005

Agora, você.



Anônimo, agora você me diz: o que? quando? onde? por que? Responda você com sua alma cheia de razão; sua constante indagação que não leva a lugar nenhum. Me diz o que é solidão, me diz se precisa de receita para se sentir só. Me diz ainda o que é amor, o que é paixão. Diz o que faz você querer viver e me diz qual é a explicação. Mas não quero palavras compradas, tomadas de algum lugar, nada que não seja verdadeiramente seu. Me dê a sua lógica vivida, os sentimentos sentidos - chega desse seu papo dos críticos frustrados...

terça-feira, 18 de outubro de 2005

Receita de como apenas sentir

Escrever é antes de tudo racionalizar os sentimentos em linguagem. Como haver receita para o que não é preparado, para o que já está pronto? Me responda: quem veio antes? e passo a noite procurando um jeito de lhe dá-la. Afinal, sou um puta de um picareta (e quem não é?), que lhe tira o tempo com coisas que lhe fazem fugir do que você é.

sexta-feira, 14 de outubro de 2005

Na Caverna ou Janela da Alma

Aqui
do lado de dentro
nada tem cara
ninguém
nome de nada

Sente-se
não se vê
apenas sente-se

Aqui
não há razão
não há explicação

segunda-feira, 10 de outubro de 2005

Loucura Moderada

A utilidade e normalidade
residem na eventualidade
Só assim se conserva o aspecto
regenerador do sentimento
de loucura

sexta-feira, 7 de outubro de 2005

?

J.P. Cilli, vc já esteve em Hollywood?
Pois fique sabendo que lá eles vendem sonhos.

quinta-feira, 6 de outubro de 2005

Espera-nça

Estrada das Almas, n.º95, mas poderia ser sem n.º mesmo, já que há muito não recebia uma carta, e muito menos visita. Jonas era homem sozinho.
Também há muito que o silêncio machucava, parecia sempre cutucá-lo como criança insistindo por atenção. A casa vazia, o tempo que tardava a passar, a luz fria do sol, as sombras que invadiam sem ser convidadas, os carros que passavam pela estrada sem nunca parar, o telefone que não tocava, as cartas que não chegavam, as visitas que não visitavam. Para Jonas, tudo tinha um quê de dor, mesmo que de vez em quando uma outra sensação qualquer a escondesse. A dor estava lá, e ele simplesmente não conseguia abandoná-la. Ele mostrava o caminho da rua, e ela insistia em ficar, parecia não querer deixá-lo só.
Mas ao mesmo tempo em que tudo era dor, tudo era expectativa, como para a criança que espera pela mãe. Uma espécie de promessa permanente de que o incômodo da dor que doia calada, sem reclamar, daria lugar à alegria, à felicidade, e que a porta se abriria, a carta chegaria, o telefone tocaria. Para Jonas, tudo era espera-nça.
A dor; a dor era a vida.

sábado, 1 de outubro de 2005

dos réquiens e dos votos (diálogo-reflexão com mozart, tchaikovsky e beethoven)


Mozart um dia tocou lacrimoso meu coração. Respondi que aquilo nada tinha a ver com coração, que meu coração já estava farto de gorduras e sobressaltos, que aquilo era coisa das mais químicas, como tudo que é do homem. Ele estava mal, me pediu para recordar dos velhos tempos, mas eu, que nem me lembro do que vivi, o que poderia dizer do que não vi? Assim, respondendo com pergunta, o deixei um pouco confuso, pediu um tempo acendendo um cigarro, eu nem sabia que ele fumava, pensava que só bebia sua dose diária de qualquer bebida que o deixasse bom como um santo. Tchaikovsky, que andava alegre por ali, me explicou que o cigarro era mais democrático que a bebida. Mozart riu triunfante porque não ria antes e Beethoven, que não era assim e ouvia atentamente o que se passava, caiu em gargalhadas. Fiquei sério, porque nos velhos tempos aquilo até podia ser engraçado, mas que hoje em dia a coisa ia para outros lados. A bebida é neon, é obscena como a multidão, ofensiva, grita, cheira, a bebida é trovão. O cigarro não, ele até cheira, até chama, mas é silêncio, é solidão, é tempestade que não chove. Engana, dá charme para os olhos dos que vêem e atrai os que ainda não usaram. O cigarro, definitivamente, é mais democrático. Porque se traga, se sente completo, mas depois se entrega aos ares, se sente livre. Um deles, que não me tirava a atenção das minhas reflexões, disse que o cigarro e a democracia eram presentes dos deuses do mal. Porque eram deuses, porque eram do mal. E eu bebi minha bebida e ela estava saborosa como nunca, para sempre.

sexta-feira, 30 de setembro de 2005

Rendido




Eu
a vi
a senti

Ela
nada me fez
nada me disse

Apenas
me deixou

aos seus pés

quarta-feira, 28 de setembro de 2005

Gosto de Vida


Por Deus!
Aonde é que isso vai dar?!
Não é que eu não gosto. Gosto sim.
Mas me toma a agonia,
Quando já não vejo fim.
É... eu sei, o prazer está em cada degrau, não é?
Por vezes sinto isso, sim.
Por vezes me toma a agonia.
Agonia. Agonia gosto de vida
Gosto sim
Gosto que tem a vida
Gosto de agonia, alegria
Gosto de paixão, desilusão
De amor, dor
Tudo gosto de vida

segunda-feira, 19 de setembro de 2005

Citação - Meu herói


Esse texto é uma citação, foi escrito há um tempo por uma amiga (Amanda). Achei bonito, poético. Ela fala de sofrimento, amor e da dicotomia realidade/ilusão (afinal, o que é o que?). Enfim:

Meu herói

Percorri caminhos sinuosos... e como percorri, à procura de uma resposta para a minha desilusão.

Chorei, sofri, no mais profundo vale da depressão, estava eu, tão só. Relembrei momentos de felicidade, porém estes me tornaram cada vez mais frágil.

Meu corpo jazia naquela escuridão angustiante, quando o mais translúcido feixe de luz surgiu no meio da névoa. Com minhas pálpebras úmidas mal pude enxergar: eras tu. Vieste resgatar-me, eu, vulnerável, me enamorei.

Percebi que a solução de meu desengano era mais simples do que a que eu desesperadamente procurava. Lá estavas, atrás de mim, onde não podia ver, nem notar tua presença. E, num olhar de soslaio, meu corpo estremeceu, meu coração palpitou, minha mente clareou... te avistava.
Os nós formados entre a razão e os sentimentos, meus desejos, meus medos, minha agonia, foram desatados. Tu devolveste a vida, a felicidade, o amor para mim. Tudo estava límpido, calmo e bonito. Porém, meu herói não estava sabendo, talvez tenha reparado... talvez.

Eis minha indagação, tu, meu louvado herói quiçá desatento ou quiçá eu enamorada transcendente...

Ainda que sem perceberes este célere amor desabrochar, fica ao fim destas linhas a confissão de meus sentimentos.

Amo-te

Enamorada

domingo, 18 de setembro de 2005

cadeia




a dialética dera lugar à vida
f. dostoiévski
crime e castigo




meu amor podia até ser aquela menina que passou
mas ela passou
passou o dia, passou a árvore
a vida passou
enquanto eu pensava o que seria meu amor

sexta-feira, 16 de setembro de 2005

Toma um café, um último café...

Não vai, não ainda.
É cedo,
hora não importa.
Fica do meu lado só mais um pouco.
Por favor.
Já sinto sua falta. Quando você for, olha só como vou ficar só.
Um mar de lugar desocupado.
Não há mais ninguém. Não quero mais ninguém.
Só você me faz sentir assim.
Toma um café, um último café...

quarta-feira, 14 de setembro de 2005